CAIXA-PRETA

Autor: Ivan sant'anna

Capa
Anna Feith

Ilustraes/Diagramas
Fbio Darci

Foto da capa
Scoop/Lefebvre - Paris Match

Reviso
Renato Bittencourt
Umberto de Figueiredo

Editorao Eletrnica
Abreu's System Ltda.

Ao comandante Fernando Munia de Lima e Silva, do VP-375, dedico este trabalho.


"Ns no pedimos para ser eternos, mas apenas para no ver os atos e as coisas
perderem subita-mente o seu sentido."

An.toine de Saint-Exupry

Vo Noturno


Introduo


Sempre que ocorre um desastre de avio, uma das primeiras providn-cias das
equipes de socorro, ao chegar ao local,  resgatar a caixa-preta da aeronave.
Trata-se, na verdade, de um dispositivo formado no por uma, mas por duas caixas
(que, por sinal, no so pretas, mas sim alaranjadas), forte-mente blindadas (
prova de choque, incndio ou imerso), que esto ali justamente para ajudar a
revelar o que se passou a bordo, na hiptese de um desastre.
Uma dessas caixas  o CVR, iniciais de Cockpit Voice Recorcler (gravador
de vozes da cabine de comando), que registra as conversas dos tripulantes e
outros sons emitidos no cockpit nos ltimos 30 minutos de vo.
A outra caixa  o FDR, Fltght Data Record'er (gravador de parmetros de
vo), que registra dados importantes para a investigao de um acidente, tais
como rumo, velocidade e altitude do avio nas ltimas 25 horas.
Alm dessas informaes tcnicas, no raro a caixa-preta revela o drama ocorrido
na cabine nos segundos que precederam o choque. E comum um comandante deixar
gravado
apenas um lamento de agonia, "Meu Deus!", antes de bater, ou comandar uma
seqncia de ordens desesperadas para o co-piloto, do tipo, "puxa, para cima,
puxa, puxa,
para cima".

O relato que o leitor ir acompanhar nas pginas deste livro  uma esp-cie de
caixa-preta dos trs vos aqui narrados, que resultaram em tragdia,
desde o momento em que os avies decolaram at o desfecho final.

O assunto no me ocorreu por acaso, pois, desde pequeno, sou apai-xonado pela
aviao. At hoje sou daqueles que, quando estou num avio de carreira, gosto de
sentar
numa poltrona de janela, de onde posso ver melhor a corrida de decolagem e a
aproximao para o pouso. Durante a viagem, presto ateno s nuvens e 
paisagem sob
as asas. Sinto-me bem no burburinho dos aeroportos, principalmente quando h um
restaurante envidraado, dando para a pista. Escolho uma mesa bem localizada,
peo
um drinque e fico vendo a movimentao dos avies, saindo e chegando. Gosto do
cheiro de querosene que exala dos jatos e, ainda mais, do silvo estridente de
suas
turbinas.
Lembro-me bem de minha primeira viagem, aos nove anos de idade, em 1949, quando,
acompanhado de meus avs, voei do Rio de Janeiro para Gois num bimotor a pisto
Douglas DC-3 da Aerovias Brasil.
Meu primeiro vo internacional aconteceu em dezembro de 1952. Eu tinha 12 anos e
minha famlia se mudou para Londres. Mesmo passados qua-se 50 anos, recordo-me
do
avio, um quadrimotor Argonaut da BOAC, com capacidade para quarenta e poucos
passageiros, que me parecia gigantesco quela poca. De to excitado, no
consegui
dormir durante o vo. Lembro-me, por exemplo, do pouso e da decolagem em Dacar.
Lembro-me do deser-to do Saara, cuja imensido contemplei maravilhado da janela.
Logo, no  de se estranhar que eu tenha tirado meu brev de piloto pouco depois
de haver completado 18 anos. Fiz o curso prtico e terico e prestei exame no
aeroclube
do Aeroporto Carlos Prates, em Belo Horizonte.
Pilotei monomotores ao longo de 25 anos. Pratiquei,  verdade, apenas aviao
esportiva, jamais tendo pilotado um avio de carreira. Me envolvi em trs
incidentes
areos: uma queda, numa movimentada avenida da Barra da Tijuca, no Rio de
Janeiro; um pouso desastrado, tambm no Rio; um angus-tiante salto de pra-
quedas, em Lagoa
Santa, Minas Gerais, no qual fiquei enganchado, durante longos segundos, pelas
cordas de nilon, ao leme pro-fundor de um teco-teco.
Nada mais natural, portanto, que, ao escrever meu primeiro livro de no-fico,
elegesse a aviao como tema.
Minha primeira deciso foi a de me ater a fatos ocorridos com aeronaves de
empresas brasileiras. O segundo passo foi a escolha dos episdios. Optei por
selecion-los
entre os que deixaram sobreviventes, gente que sobrou para contar a histria.

Introduo

Foi assim que cheguei aos vos RG-820, que se incendiou nas imedia-es de Paris
em 1973, VP-375, seqestrado em 1988 entre Belo Horizonte
e Rio de Janeiro, e RG-254, que se perdeu na Amaznia em 1989.
Escolhidos os vos, restava-me descobrir exatamente o que aconteceu em cada um
deles. Essa tarefa me ocupou ao longo de quase trs anos, trabalhando em tempo
integral,
no mnimo oito horas por dia, seis dias por semana.
Meu ponto de partida foi ler o mximo possvel de matrias publicadas na
imprensa sobre os eventos escolhidos. Alm de pesquisar durante meses na
Biblioteca Nacional,
obtive recortes de jornais e revistas com o Sindicato Nacional dos Aeronautas e,
mais tarde, com o sobrevivente de um dos desas-tres. S destas duas ltimas
fontes,
trouxe xerocadas para casa 331 reporta-gens, que li atentamente e que tenho
arquivadas.
O Centro de Documentao da TV Globo, CEDOC, me cedeu vi-deoteipes com matrias
sobre os acidentes, inclusive gravaes que no fo-ram ao ar.
Atravs do gabinete do primeiro-ministro Lionel Jospin, da Frana, con-segui uma
cpia do relatrio final das investigaes sobre o desastre do RG-820, que pude
comparar com a verso publicada em portugus, obtida no Centro de Investigao e
Preveno de Acidentes Aeronuticos, CENIPA, em Braslia.
O Sindicato Nacional dos Aeronautas me enviou uma cpia do laudo oficial do
acidente com o RG-254. Mais tarde, para entender melhor o que se passou naquele
vo,
transferi-me de armas e bagagens para o Tribunal Fede-ral Regional da 1a Regio,
em Braslia, onde examinei e copiei as quase 2.000 pginas do processo que trata

do desastre, nas quais descobri a transcrio de todos os dados do CVR e do FDR
daquele vo, inclusive os dilogos dos seus pilotos com outras aeronaves e com
os
rgos de controle de vo.
Conversei com diversos especialistas em acidentes areos. Entrevistei
tripulantes e pessoal de terra no envolvidos nos trs episdios.
S quando me julguei um razovel conhecedor dos fatos que pretendia narrar, 
que fui atrs dos sobreviventes (tripulantes e passageiros), dos paren-tes dos
mortos
e dos controladores de vo que monitoraram e conversaram com as aeronaves
envolvidas. Como no tinha o endereo de quase nenhuma dessas pessoas, fiz esse
trabalho
de busca de maneira quase que errtica, como se estivesse lanando ao mar
mensagens em garrafas. Disparei telefonemas,

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Caixa-Preta




e-maus e fax em todas as direes, para instituies e pessoas as mais diversas,
s vezes me guiando apenas por um sobrenome num site de universidade.
Felizmente, muitas garrafas atingiram praias certas e o retorno comeou a
chegar. No princpio, em pequena quantidade, uma ou duas mensagens por se-mana.
Depois,
foram aumentando. Cada manh, ao abrir minha mailbox da Internet, surpreendia-me
com a fartura. Passei a me corresponder por e-maus- s para citar alguns
exemplos
- com os comandantes Lyle Miller, da United Airli-nes, residente em Chicago,
Pedro Goldenstein, piloto brasileiro da Transavia Airlines (Holanda), que mora
em Roterd,
e seu irmo Fbio Goldenstein, que comanda MD-1 is da Varig e que mais tarde me
recebeu em seu apartamento no Rio, onde, alm de me explicar exaustivamente os
fatos
ocorridos com o vo 254, me forneceu diversas cartas aeronuticas para melhor
entend-los.
Conheci muitas outras pessoas ligadas aos meios de aviao. O coronel-aviador
Flvio Coimbra, j falecido, me explicou a mecnica dos inquritos aero-
nuticos. O
comandante aposentado Lucas Bastos, da extinta Panair do Brasil, passou uma
tarde comigo falando de pilotagem. O comandante Jos Caetano Lavorato, ex-piloto
da Varig
e ex-presidente do Sindicato dos Aeronautas, a quem visitei em seu escritrio no
ABC Paulista, fez uma veemente defesa do coman-dante Czar Garcez, do vo 254.
Os
comandantes Gelson Fochesato e Rubem Abrunhosa, que participaram do processo de
localizao do RG-254, me conta-ram como foi esse trabalho. O comissrio
aposentado
Joo Zimmerman, da Va-rig, que se encontrava em Paris por ocasio do desastre
com o RG-820 - e foi designado pela empresa para assistir os colegas
sobreviventes
-, me recebeu em sua casa em Cachoeiras de Macacu, RJ, onde me contou (e eu
gravei) o teor das conversas que teve com cada um dos comissrios do 820.
Aos poucos, diversos tripulantes e passageiros dos trs vos que selecio-nei
para este livro comearam a surgir, s vezes numa dica de algum ao telefone, em
outras
por intermdio de e-maus.

Para minha sorte, consegui localizar, em Petrpolis, Rio de Janeiro, o
comandante Fernando Murilo de Lima e Silva, do VP-375, que sentou-se comigo
diversas vezes,
reconstituindo, em depoimentos formais, gravados, cada minuto de seu vo.
Outros sobreviventes surgiram como que por encanto. Surgiram dos pontos os mais
diversos. Takayoshi Shiba, passageiro do \fP~375, me enviou do Japo, pela
Internet,
extenso depoimento sobre aquele vo. O mesmo episdio veio relatado da Alemanha
por Karl-Josef Pieper, num texto em alemo que ele

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Introduo




escrevera em 1988, logo aps o evento, e que Izabel Ditzel, mulher de outro
passageiro do 375, teve a bondade de traduzir para o portugus.
Tendo lanado ao mar 154 garrafas (materializadas atravs de 96 e-mauls, 42 fax
e 16 cartas), recebi 97 respostas escritas (73 e-mauls, 13 fax e 11 cartas).
Isso
sem contar as centenas de telefonemas que dei, alguns verdadeiros tiros no
escuro, como ligar para um curso de ingls em Imperatriz, no Maranho (cujo
telefone obtive
ao acaso num sute de busca, pesquisando a palavra "Im-peratriz"), e perguntar a
secretaria que me atendeu se ela conhecia algum sobrevivente do RG-254 (a moa
em
questo no s conhecia dois como me passou os nmeros de seus telefones).
Gravei em fita (un toco e ao telefone) 18 depoimentos formais, examinei centenas
de fotos, li cartas de uns sobreviventes para outros, conferi listas de
passageiros,
currculos de tripulantes, estudei configuraes de assentos dos avies,
examinei cartas aeronuticas, tracei rotas de vo, calculei o tempo das etapas,
rodei para
frente e para trs videoteipes, li relatrios mdicos e estudei laudos
cadavricos. Debrucei-me particularmente sobre pericias tcnicas e provas
judiciais. Corri
em busca da exatido.

Nessas conversas e trocas de correspondncia, descobri que, nos trs episdios
narrados neste livro, houve exemplos de herosmo, medo, altrus-mo, egosmo,
sangue-frio
e pnico. Descobri que um mesmo fato pode ser visto (e costuma ser narrado) de
maneira diferente por cada um dos envolvi-dos, uns valorizando sua participao,
outros
confessando seus temores, reve-lando suas fraquezas. Descobri que, no raro, a
verso oficial encobre culpas, torce os fatos.
Durante os quase trs anos em que trabalhei neste projeto, meu escri-trio
transformou-se numa cabine de comando de um jato de passageiros, ora em chamas
sobre Paris,
ora com um louco armado a bordo, ora perdido
-        e com o combustvel se esgotando - na escurido da noite amaznica.
Houve momentos em que me senti como se tivesse voltado ao passado e comprado
passagens para os vos RG-820, VP-375 e RG-254, cujas hist-rias (e tragdias) o
leitor
conhecer ao desvendar os segredos da caixa-preta que se segue.

Rio de Janeiro, setembro de 2000
Ivan SantAnna
rapuna@unusys. com. br




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RG-820
Uma Cmara de Gs

Caixa-Preta




Tripulao do PP-VJZ
Comandante-master, Gilberto Arajo da Silva
Segundo-comandante, Antnio Euzimoto
Co-piloto, Alvio Basso
Co-piloto, Ronald Utermoehl
Mecnico de vo, Carlos Diefenthaler Neto
Meonico de vo, Claunor Belo
Navegador, Salvador Ramos Heleno
Navegador, Zi]mar Gomes da Cunha
Chefe de equipe, Joo Egdio Galetti
Inspetora de comissaria, Hanelore Danzberg
Comissrio, Alain Henri Tersis
Comissria, Andre Piha
Comissrio, Carmelino Pires de Oliveira Jnior
Comissrio, Edemar Gonalves Mascarenhas
Comissria, Elvira Strauss
Comissrio, Luiz Edmundo Coelho Brando
Comissrio, Srgio Carvalho Balbino




Lista de passageiros do vo 8Z0
Abreu, Beatriz - brasileira
Abreu, Berneval - brasileiro
Acuna, Elvira - chilena
Adams, Roger - francs, industrial
Aidar, Halim - brasileiro
Aidar, Leila - brasileira
Arman, Jacqueline - brasileira, oito anos
Arman, Khamis Ismail - egpcio naturalizado brasileiro
Arman, Margareth - brasileira, seis anos
Arman, Salma - brasileira, dez anos
Arman, Toshico Uehara - brasileira
Arman, Walid - brasileiro, sete anos
Auge, Alberto - argentino
Azilard, Elmir - brasileiro
Barros, Benedito - brasileiro
Baxter, Joe - argentino, viajando com nome falso de Bernard Regan, americano
Berrnd, Qnther austraco
Bodich, Anne-Marie - francesa, menor de idade
Bodich, Jeannine - francesa
Bodich, Siinone - francesa
Bongiovanni, Giuseppe - italiano
Botelho, Isabel - brasileira
Braga, Antnio Pedro Mller - brasileiro, 16 anos, neto de Filinto Mller
Brogan, D. - ingls
Bruder, Joerg - brasileiro, 35 anos, campeo mundial de iatismo



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RG-820 - Uma Camara de Gs




Cardoso, Evangelina Sampaio Vidal Malta - brasileira
Cardoso, Francisco Malta - brasileiro
Carvalho, Izabela - brasileira, nove anos, filha de Plnio Carvalho
Carvalho Filho, Plinio Jos (Plininho) - brasileiro, 38 anos, empresrio
Cdi, Peter - austraco
Crul, Andra - brasileira, menor de idade
Crul, Anyy - alem
Crul, Elizabeth - brasileira, menor de idade
Cml, Grard - belga
Crul, Juliana - brasileira, menor de idade
Daineli, Lorenzo - italiano
D'Alecio, Rafael - brasileiro
De Lamare, Jlio - brasileiro, 45 anos, narrador de esportes da TV Globo
De La Preugne, Bernard - francs
Divizio, Egidio - italiano
Fardel, Jacques - suo
Faria, Manuel - brasileiro
Faulonnier, Jean - francs
Fernandes, Victor Hugo - uruguaio
Ferreira, Ana Maria Malta Martins - filha de Francisco e Evangelina
Figueira, Florisbela - brasileira
Figueira, Joo Carlos - brasileiro
Gasto, Eunice - brasileira, 24 anos, jornalista (Editora Abril)
Giglio, Luigi - italiano
Gemes, Jos Maria - brasileiro, menor de idade
Gomes, Jose Maria de Sebastian - espanhol
Guimares, Lus Humberto - brasileiro
Hegedus, Bela - hngaro
Heide, Jorge - brasileiro
Hewson, Robert - ingls
Hofer, Hermann - austraco
Honigsman, Marion - brasileira
Homgsman, Marli - brasileira
Honigsman, Szmil - brasileiro

Honigsman, Sueli - brasileira
Iglesias, Juan Carlos (Carlos Piper) - argentino, 38 anos, maestro
Jacquiot, Noel - francs
Juesten, Kurt - alemo
Kirst, Gaston - brasileiro, 28 anos
Kirst, Nivalda Paganela - brasileira, 25 anos
Knijnik, Elisete - brasileira, 20 anos, estudante
Koeman, Meinder - holands
Lauzon, Jean - francs, diretor da Honey-Buil
Lauzon, Jean - brasileiro, menor de idade
Lauzon, Josely - francesa
Lavaud, Ivon - francs, 49 anos, diretor da Renault argentina
Leclry, Regina Maria Rosenburg - brasileira, 33 anos, atriz, sociallte
Mas, Pierre - francs



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Caixa-Preta



Meneses, Ana Tarricone - brasileira
Meneses, Renato Tarricone - brasileiro
Mller, Consuelo - brasileira
Mfler, Filinto Strumbling - brasileiro, 73 anos, presidente do Senado
Navarro, Ermina - espanhola
Neves, Clber Barrete - brasileiro, major-aviador
Neves, Mary Ann - brasileira
Neves, Nilza Leal - brasileira
Neves, Patrcia Leal - brasileira
Neves, Paulo Clber - brasileiro
Oliveira, Maria - brasileira, sexagenria, aposentada dos Correios
Peluffo, Rodrigo - argentino
Quinder, Clayrton Lus Garcia - brasileiro, 45 anos, empresrio
Ribeiro, Celso Leite - brasileiro, 44 anos, jornalista de O Estado de S. Paulo
Rosa, Elio - americano
Rosa, Yole - americana
Roth, Albert - hngaro
Rulhe, Jean Dominique - francs, 22 anos, ator
Sabrit, Maria - brasileira
Sanson, Flora - francesa, 32 anos
Santos, Agostinho dos - brasileiro, 41 anos, cantor
Sarda, Franois - francs, 64 anos, empresrio
Scavone, Antnio Carlos - brasileiro, 33, comentarista de Frmula 1 na TV Globo
Sieber, Jacob - suo
Silva Filho, Jos Narciso - brasileiro, funcionrio da IBM
Silva, Joo - brasileiro, contador
Silva Filho, Joo - brasileiro, estudante
Silva, Jos Aparecido - brasileiro, 15 anos
Silva, Jos Narciso da Fonseca - brasileiro
Silva, Mrcia - brasileira
Silva, Maria - brasileira
Silva, Solange Carrazedo da Fonseca - brasileira
Silva, Vanda - brasileira
Singh, Reeta - indiana, 19 anos, filha do embaixador da ndia no Brasil
Sousa, Alair Ferreira - brasileiro, empresrio

Sousa, Maria Carmen Carvalho - brasileira, professora universitria
Tardis, Robert - francs
Tamnai, Thiamer - hngaro
Tiellet, Antnio Augusto - brasileiro
Tieflet, Jlio - brasileiro
Tiellet, Marina - brasileira
Tiellet, Wilson Miorim - brasileiro, funcionrio da IBM
Trajano, Ricardo Chust - brasileiro, estudante, 21 anos
Zavarone, Luciano - brasileiro




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Captulo 1




S
e pudssemos voltar no tempo, em flash-back, at a tarde do dia 11 de
julho de 1973 e, de um ponto no espao, fechssemos poderoso zoom

sobre uma rea ocre-esverdeada, em forma de retngulo, junto  locali-dade de
Saulx-les-Chartreux, na parte sul do cinturo verde de Paris - s margens do
riacho
Yvette, subafluente do Sena -, veramos apenas o cenrio buclico de uma horta
de repolhos.
Era incio de vero. O dia estava claro, abafado e quente. Diversas pes-soas
trabalhavam no campo.
A 30 metros de um dos vrtices do retngulo da horta, a senhora Miche-le
Jargeau, no interior de sua casa, cuidava de seus afazeres. Terminava de lavar a
loua do
almoo e indagava-se sobre o que faria no jantar. Numa das casas vizinhas, o
carpinteiro Jean Pierre Menard consertava o telhado de sua casa, que apresentara
goteiras
na ltima chuva.
Na estrada que separava a casa de Michele da plantao, Graciete dos Reis,
portuguesa, enfermeira noturna do Hospital de Longjumeau e morado-ra da
vizinhana, guiava
seu carro em direo ao supermercado. Na mesma estrada passava,  p, o
aposentado Pierre Xavier, que voltava da venda onde fora comprar cigarros.
Ao longe, ouviu-se o silvo das turbinas de um jato, bem mais estridente do que o
normal. Xavier pensou que, em algum lugar distante, um avio houvesse rompido a
barreira do som. No deu muita ateno ao fato. Os lavradores que trabalhavam na
horta e as pessoas que se encontravam nos

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Caixa-Preta




arredores tambm no deram importncia ao rudo. Saulx-les-Chartreux fi-cava a
cinco quilmetros do Aeroporto de Orly. Jatos faziam barulho o tem-po todo. Isso
era
inclusive motivo de constantes reclamaes dos granjeiros, que achavam o
barulho, alm de insuportvel, prejudicial s criaes.
Mas, como o rudo aumentou de intensidade, as pessoas comearam a olhar para o
cu, procurando o avio que o provocava. Tiveram de assestar a mira mais para
baixo,
para um ponto um pouco acima da linha do horizonte. O jato vinha do sudoeste.
Parecia dirigir-se a Orly. Mas voava numa altitude muito inferior  normal.
Alguns
lavradores no conseguiram evitar uma pon-tada de preocupao, ao lembrar que,
um ms antes, um Tupolev supersni-co sovitico cara sobre uma zona
residencial,
no outro lado da cidade, des-truindo casas e matando pessoas no solo.
A preocupao transformou-se em susto, quando se viu que o avio trazia atrs de
si um rastro de fumaa. E o susto em pavor, quando a aeronave desceu ainda mais,
agora voando rasante. Os mais velhos tinham ainda na lembrana o longnquo ms
de maio de 1940, quando bombardeiros alemes Stukas, com suas sirenes infernais,
mergulhavam
sobre as pessoas nas estradas que levavam a Paris.
Tal como na poca da invaso nazista, alguns correram para um lado, outros, para
o outro, voltando-se a todo instante para ver o avio. Este crescia
assustadoramente,
exibindo sob o ventre as rodas arreganhadas, como uma guia nos instantes finais
do bote. Era como se o jato visasse as pessoas no cho.

Depois de escapar, aparentemente por milagre, de uma rede de alta ten-so e de
passar raspando sobre o telhado do carpinteiro Menard, que tomou o maior susto
de
sua vida, o avio afundou de vez. Menard desequilibrou-se e caiu do telhado. As
rodas do jato quase bateram na estrada - onde os passan-tes se jogaram ao cho.
Nos ltimos segundos de vo, a aeronave pareceu erguer o nariz. Seus trens
principais se chocaram contra a plantao e afundaram no cho fofo, fazendo com
que as
turbinas tambm batessem no solo. Como o avio estava cabrado (com o nariz
levantado) e ligeiramente adernado para a esquerda, a turbina interna desse lado
tocou
antes das outras trs.
Os trens de pouso no resistiram ao impacto e foram arrancados, fazen-do com que
o avio perdesse um pouco do impulso. Mas sua formidvel inrcia continuou
impelindo-o
para a frente, agora arrastando-se sobre os dois reatores internos e sobre o
casco.

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RG-820 - Uma C2nara de Gs




O        barulho era infernal. Tinha-se a impresso de que tudo ia explodir.
Qual gigantesco arado, o jato continuou rasgando o solo de repolhos, lanan-do
para
cima enormes torres de terra e expelindo um cheiro forte de quero-sene
queimado. Uma das asas atingiu uma rvore, decepando-a. Outras rvo-res foram
sendo ceifadas.
O arrasto em meio aos ps de repolho se deu ao longo de 600 metros, exatamente o
comprimento mximo da horta, considerando-se a diagonal de
um vrtice ao outro do retngulo.
Ao final, em vez de atravessar uma vala de irrigao e varar a encruzilha-da das
estradas, o avio fez um semicrculo e parou, o nariz virado para o lado de onde
viera, apontando na direo contrria  de Orly. Se as pessoas que se
encontravam nesse cruzamento tivessem tido o sangue-frio (e a temeridade) de
olhar, em vez

de correr, teriam visto que um grande galho de uma maciei-ra - com a qual o
avio se chocou antes de se imobilizar - penetrou na cabine de comando, atravs
do radome
(compartimento do bico, onde ficam as antenas de radar).
Ao longo do percurso, as duas asas haviam se quebrado - uma delas junto 
fuselagem, a outra exatamente no meio -, mas continuaram presas ao corpo do
avio, por
cabos de ao (dos comandos), como um pato que houvesse levado um tiro e,
estrebuchando no solo, arrastasse as asas antes de morrer. Duas das quatro
turbinas tambm
no suportaram o atrito e ficaram pelo meio do caminho, em meio a outros
destroos.
Se alguns agricultores tiveram um pensamento menor e se preocuparam
com a lavoura, devem ter ficado desolados, pois a aeronave destrura tudo em
sua passagem.
Havia agora um silncio assustador, quebrado apenas por estalidos, como os de
ferro muito quente. Certos de que uma exploso era questo de tempo, poucos
aldees
tiveram coragem de se aproximar do avio. Mas no havia chamas. Apenas fumaa,
muita fumaa, que parecia originar-se de um ponto prximo ao leme profundor. Um
pouco
acima, no leme de direo, era pos-svel ver o nome da empresa, Varig, sob um
logotipo em forma de crculo, tendo ao centro uma rosa-dos-ventos estilizada.
Jacques Beaujon, que guiava seu carro na estrada, e testemunhara o pouso
forado, saltara do automvel e assistia  cena, estarrecido.
Dentro de casa, Michele Jargeau pensou que houvera um choque de
caminhes na auto-estrada do Sul, que passava perto dali. Mas uma vizinha



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Caixa-Preta




entrou correndo porta adentro, gritando que um avio cara no campo. Mi-chele
ligou imediatamente para o Corpo de Bombeiros. Disse que um avio acabara de
cair em
sua porta.
Na casa ao lado, Christine Orlenier no teve coragem de olhar para
fora. Tinha certeza de que ocorrera uma catstrofe igual  do Tupolev e que os
vizinhos poderiam estar todos mortos.
L no campo, sucedeu-se aproximadamente mais um minuto de grande expectativa, no
qual nada aconteceu e ningum ousou se mover. Finalmente uma lngua de fogo saiu
da parte inferior esquerda da fuselagem e comeou a lamber os lados do avio.
A agonia dos camponeses, ao ver o jato se incendiar, deu lugar a gritos de
alvio quando viram pessoas pulando do avio. Eram tripulantes uniformizados que
se jogavam
da janela da cabine de comando e das por-tas dianteiras.
Saram umas dez pessoas. Caam na horta e procuravam se afastar para longe. Uma
delas era mulher, vestia um uniforme de aeromoa. Alguns agri-cultores criaram
coragem
e foram ajud-los. Beaujon abandonara seu carro na estrada e reunira-se a eles.
Recuperada do susto, a portuguesa Graciete, que saltara do carro, diri-giu-se
para l, correndo pelos vales abertos pelas rodas e turbinas do avio. Um dos
granjeiros

estendera no cho um dos tripulantes. Graciete aproxi-mou-se, disse que era
enfermeira, e passou a cuidar do homem. Surgiu outro membro da tripulao,
rastejando
entre os ps de repolho. No parecia estar ferido, mas chorava muito.
Do avio no sara mais ningum. E a fumaa negra se transformara em fogo. Ainda
brando, bruxuleante, emanando principalmente da cauda. Do lado de fora, as
pessoas
comearam a gritar, entreolhando-se aterrorizadas. Era possvel que o interior
estivesse cheio de passageiros.
Soaram ento sirenes de bombeiros e ambulncias. As primeiras viaturas
chegaram pela auto-estrada. Logo vieram outras pela estrada de terra que
margeava a horta no sentido leste-oeste.
Os bombeiros, de incio, concentraram seus esforos nas sadas do jato. Um
deles, que apoiou sua escada de ferro na porta dianteira esquerda (encos-tada,
mas no
fechada), galgou os degraus rapidamente, debruou-se para o interior do avio e,
segundos depois, retirou um homem, aparentemente muito



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RG-820 - Uma Cmara de Gs




queimado, a roupa pegando fogo. O bombeiro apressou-se em arrancar-lhe a camisa.
Tentou respirao boca-a-boca e o ferido se mexeu. Tratava-se de um rapaz alto,
muito forte, os cabelos e as roupas impregnados de uma gosma negra, as costas
muito queimadas.
Enquanto os bombeiros tentavam agir sobre o fogo - que era mais
lnt
enso na parte de trs da fuselagem -, da parte dianteira foi possvel tirar
mais trs homens, todos tripulantes.
Infelizmente, as chamas aumentaram e os homens tiveram de retroce-der. Logo a
parte traseira do avio se transformou numa fornalha. O teto se
rompeu. Na regio entre a cauda e a asa, as labaredas subiam a cinco metros.
A trgua no combate ao fogo no durou muito tempo. Novos carros de
bombeiros, muito mais bem equipados, irromperam na plantao.

Estendendo uma espessa camada de espuma sobre as asas e a fusela-gem, os recm-
chegados no tiveram grandes dificuldades para apagar o incndio. Mas sabiam que
era
impossvel algum ter sobrevivido no inte-rior do aparelho.
Entre os que haviam sido retirados pela primeira turma de socorro, um j estava
morto e outro morrera em meio aos ps de repolho. Dois, grave-mente feridos,
foram
conduzidos a um helicptero que acabara de pousar e decolou imediatamente.
Os demais sobreviventes foram levados em carros particulares e ambu-lncias.
Antes de partir, um deles, francs, explicou aos bombeiros que hou-vera um
incndio
na cauda do avio. O fogo se propagara pela cabine de passageiros, forando o
piloto a efetuar o pouso forado.
Mesmo com o incndio apagado, foi preciso aguardar algum tempo at
que a temperatura diminusse no interior do avio. S ento os bombeiros
puderam entrar. Depararam-se com um cenrio que lhes revoltou os estma-
        gos: na parte traseira, nao fosse pelos ossos enegrecidos a mostra,
dificilmente poderia se dizer que as postas calcinadas dispostas lado a lado - e
amalgama-das
s ferragens retorcidas - eram de seres humanos.
Na parte central da aeronave,  altura das asas, os cadveres no estavam
to desfigurados. Percebia-se claramente que se encontravam sentados, com
os cintos de segurana afivelados, a maioria com o busto ereto.
Mais para a frente, perto da cabine de comando, os mortos ainda vestiam
roupas e sapatos, mostrando que o incndio quase no atingira aquele setor.



23



Caixa-Preta




A essa altura, o avio encontrava-se cercado de viaturas as mais diversas:
bombeiros, ambulncias, carros de polcia. Policiais afastavam uma multido de
curiosos, que surgira de todos os cantos.
Mesmo os bombeiros mais tarimbados tinham de conter nsias de v-mito ao se
aproximar do avio, do qual exalava um cheiro nauseabundo de carne queimada.
A polcia colhia as primeiras testemunhas. O aposentado Pierre Xavier,
que assistira  queda e ao incndio, fornecia seu nome, endereo e telefone a um
gendarme.
- Eu pensei que um jato houvesse rompido a barreira do som - dizia Xavier ao
policial. - Ento, vi o avio cair. Houve o incndio e corri para c. Mas o
calor era
to forte que no pude me aproximar.
Uma comissria daAir France, que passara pelo local minutos depois da
queda, explicava a um bombeiro:
- O interior do avio, um pouco atrs das asas, estava em chamas. Nao era um
incndio violento, e sim uma combusto silenciosa. Havia muita fu-maa e a parte
traseira
do teto se rompeu. O incndio ento progrediu em direo  frente. Eu vo em
707, exatamente iguais a esse - concluiu, talvez para dar mais legitimidade ao
seu depoimento.

Sete quilmetros a nordeste do local do desastre, no terminal de passageiros de
Orly, o francs Grard Leclry acabara de saber, no balco da Varig, que o vo
820,
no qual sua mulher Regina embarcara no Rio, na vspera, sofrera um acidente nas
imediaes do aeroporto.
A sensao de Grard foi a de que o mundo se desmoronava sob seus ps.




24




Captulo 2




o Brasil do general Emlio Garrastazu Mdici, democracia era uma palavra
obsoleta. Fora desdicionarizada nove anos antes. Isso no impedia o pas de
crescer num

ritmo poucas vezes visto. A inflao

fora domada, as taxas de desemprego eram as menores desde os anos JK. Na
construo civil, havia mais vagas do que gente querendo trabalhar. Os em-
preiteiros competiam
entre si, pelos pees, anunciando alojamentos com apa-relhos de televiso, um
luxo impensvel at ento.
Havia alguns percalos. O feijo uberabinha no parava de subir. Falta-va carne
nos aougues e supermercados. O boi sumira. Culpa da entressafra, justificava o
ministro
da Fazenda, Delfim Neto, em entrevistas nas quais ameaava os pecuaristas de
mandar confiscar os animais no pasto.
No se sabia exatamente se por causa do uberabinha, ou por culpa do boi, o certo
 que a inflao no semestre fora de 6,8%, pondo em risco a meta de inflao
daquele
ano, fixada em 12%. Isso assustara o governo. Mas no por muito tempo. Delfim
determinara, nos primeiros dias de julho, que a inflao total de 1973 "fora" de
12%.
Esses pequenos deslizes no pareciam incomodar muito os brasileiros. Afinal de
contas, o pas era tricampeo mundial de futebol, ttulo conquista-do no Mxico
trs
anos antes. Na Europa, Emerson Fittipaldi, tambm cam-peo do mundo, voava com
sua Lotus. No segundo sbado daquele ms de julho, ele disputaria o Grande
Prmio
da Inglaterra, em Silverstone. A T\~



25



Caixa-Preta




Globo transmitiria a corrida, ao vivo, com narrao de Jlio de Lamare e
comentrios de Antnio Carlos Scavone.
Em meio a tantas glrias havia,  claro, presos polticos, tortura, censu-ra, e
outras agruras, to prprias das ditaduras. Mas incomodavam a pouca gente, quem
sabe
a parentes dos presos. No ao povo. Que proclamava "Ame ou deixe-o", slogan que
a classe mdia exibia em plsticos nos carros. E o resto do mundo, em crise
(Vietn,
Watergate, o socialismo de Salvador Allende no Chile, a volta de Pern na
Argentina), era prova inconteste de que tinham razo, os ufanos plastiqueiros.
Havia tambm poltica, com p minsculo. Na segunda semana de ju-lho, os jornais
de todo o pas noticiaram que, em setembro, a Conveno da Arena - partido
presidido
pelo senador Filinto Mller - iria indicar o ge-neral Ernesto Geisel como
candidato  presidncia da Repblica e que, no dia 15 de janeiro de 1974, o dito
general
seria eleito. A republiqueta em que se transformara o Brasil tinha coragem de
anunciar o resultado de suas elei-es com seis meses de antecedncia.
Mas, apesar da tirania dos militares, e do servilismo dos civis, o Brasil ainda
era o Brasil. E no Rio de Janeiro - que continuava lindo - os intelec-tuais e
artistas,

vendo que a ditadura ainda iria durar muitos anos, relaxavam, no se abstinham
do chope gelado aps a praia, que ningum era de ferro, esqueciam-se aos poucos
dos
traumas de 1968.
Naquele ano, o inverno existia apenas na folhinha. No Rio, fazia 35 graus. E
mesmo quem no gostava de praia no precisava se desesperar. Podia ver Gal no
Joo Caetano,
Bethnia no Teatro da Praia ou Vinicius no Teatro da Lagoa. Depois esticar no
Antonio's, bar e restaurante da moda, no Leblon, onde intelectuais, artistas e
jornalistas
batiam o ponto diariamente.
Sete anos depois do surgimento da plula, e sete anos antes do surgi-mento da
Aids, 1973 era tambm o auge do movimento Women's Lib, em-bora seu maior
estandarte
no Rio, Leila Diniz, houvesse morrido um ano antes, num desastre de avio, na
ndia.
Se Leila morrera, havia Regina Rosenburg Leclry, mulher-mito, no auge da vida.
Rica, alegre, generosa, de estonteante beleza, aos 33 anos Regi-na se dividia
entre
uma manso cinematogrfica no promontrio da Joatinga
-        debruada sobre o Atlntico, entre a Barra da Tijuca e So Contado -,
um apartamento em Paris, uma casa de praia no Taiti, um castelo no interior da
Frana
e um iate.

26




RCi-820 - Uma Cmara de Gs




Amiga de Salvador Dali, Ornar Shariff, Jane Fonda, Roger Vadirn, Guy
Rothschild, Odile Rubirosa, Pablo Picasso, Jack Nicholson, Rornan Polansky,
Heniy Kissinger e outras celebridades, ela fora casada com o milionrio Wailace
(Wallinho) Simonsen, filho do dono da Panair do Brasil. Separaram-se e, em
1968, ela se casou novamente, dessa vez com Grard Leclry, francs magna-ta dos
calados.
Jamais houvera uma carioca to internacional.

Naqueles primeiros dias de julho, Regina viera passar uma semana na cidade,
praticamente em segredo, para resolver problemas pessoais, entre os quais um
desfalque
em sua conta no Banco Nacional, dado por um funcion-rio da agncia Leblon. Nem
mesmo fora ao Antonio's, cujos habitus tiveram Ide se contentar com sua foto na
parede.
Regina tentara voltar na segunda-feira, mas encontrara lotados todos os
Ivos para Paris. Conseguiu ento um lugar na primeira classe do vo 820, da
~Varig, que deixaria o Rio na noite de tera-feira, dia 10 de julho.




27




Captulo 3




D
urante sua estada no Rio, Regina Leclry recebera telefonemas an-nimos, com
ameaas. Algum (sempre a mesma voz masculina) pro-metia pr fogo em sua casa na
Joatinga,
pelo fato de o casal Leclry
ser amigo de Henry Kissinger, que a voz acusava de ser o carrasco do povo

vietnamita.
Embora no fosse muito de temer esse tipo de coisa, Regina tinha razes para se
preocupar. Estando no Rio quase incgnita, era estranho que a pessoa que a
ameaava
soubesse de sua presena na cidade. Alm disso, Regina e Grard iriam fazer um
cruzeiro pelo Mediterrneo, em agosto, do qual participaria Kissinger. E o homem
misterioso
tinha conhecimento dessa programaao.
Como o vo para Paris s sairia  noite, e tendo terminado de resolver suas
pendncias no Rio, Regina aproveitou a tera-feira para ficar com os pais, no
Leblon.
Almoara com eles. Agora passava a tarde conversando com a me e com uma amiga
ntima, Tutsi Bertrand. De l, seguiria direto para o Galeo.
Regina sara da Joatinga no final da manh. Antes, chamara Beatriz, sua
governanta h oito anos, para uma conversa.
- Voc sabe - disse  empregada -, as pessoas tm a mania de vir aqui s para
ver a casa. Presta muita ateno desta vez. No deixa ningum entrar. - Regina
no
viu necessidade de contar das ameaas. Iria assustar Beatriz  toa.

28




RG-820 - Uma Cmara de Gs




Alertada a governanta, Regina chamara os demais empregados da casa, apenas para
que ficassem perto dela alguns instantes. Regina Leclry era as-sim. Gostava de
gente.
Ricos, pobres, famosos, ilustres desconhecidos, qual-tpier tipo de gente.
Captava fluidos positivos das pessoas. E os devolvia com juros. Conquistava todo
mundo,
homens, mulheres, velhos, crianas. Trata-iva da mesma maneira um empregado
domstico, um astro de Hollywood ou um bilionrio do jet set internacional.
Naquela manh,
ao se despedir do pessoal da casa, ela cuidara de mimosear cada um com uma
palavra especial.
At setembro - foi a ltima coisa que disse, antes de se dirigir ao
carro. O jardineiro Elpdio no conseguiu evitar lgrimas nos olhos.

- Sem a senhora, a casa fica muito ruim - lamentou-se em voz alta. Regina achou
graa, telegrafou-lhe um sorriso e foi embora.

.:Num confortvel apartamento da Rua Almirante Gonalves, em Copacaba-~na,
Ricardo Trajano, 21 anos, mal continha a ansiedade enquanto arrumava ~s malas.
Era seu
primeiro dia de frias na Faculdade de Engenharia de Petr-polis.  noite,
viajaria para Londres, com escala em Paris. Tratava-se de sua ~rimeira viagem ao
exterior.
Pretendia, entre outras coisas, assistir a alguns ~oncertos de rock, uma de suas
paixes, como se podia deduzir da guitarra em ~cima da cama, das pilhas de
discos,
da foto na parede em que aparecia ao lado ~e Mick Jagger, tirada em frente ao
Copacabana Palace.

Na sede da Rede Globo de Televiso, no Jardim Botnico, os jornalistas Jlio ~de
Lamare, chefe do setor de esportes, e Antnio Carlos Scavone, comenta-1dsta de
automobilismo,
acertavam detalhes da transmisso do Grande Pr-~nio da Inglaterra de Frmula 1,
que Jlio iria narrar e Scavone iria comentar, no sbado, diretamente do
Autdromo
de Silverstone, na Inglaterra.

escurecera quando o comissrio de bordo Srgio Carvalho Balbino, 28
~nos, escalado para o vo 820, despediu-se de sua me, dona Georgete, na
rporta do edifcio onde moravam, na Rua Baro de Mesquita, bairro da Tiju-Zona
Norte do Rio de Janeiro. De manh, houvera a missa de um ano da
~norte do pai de Srgio. Desde que se tornara viva, dona Georgete vinha
L
 tendo problemas circulatrios. Felizmente, tinha 11 filhos, dos quais Srgio
ra o unico solteiro, para cuidar dela.



29




Caixa-Preta




No ptio do Aeroporto do Galeo, o Boeing 707 prefixo PP-VJZ era cuida-dosamente
preparado para o grande salto sobre o Atlntico quela noite, em cumprimento ao
vo RG-820, Rio-Paris-Londres.
As poltronas foram escovadas, o cho varrido, as galleys de primeira e turista
abastecidas de refeies e bebidas para serem servidas aos mais de 100
passageiros.
Ciosa de seu celebrado servio de bordo, a Varig no descuidava de nenhum
detalhe. A primeira classe foi suprida de caviar iraniano, champa-nhe francs,
ostras frescas,
entre outras iguanas.
Como se tratava de um vo de mais de dez horas, os seis toaletes foram
abastecidos com centenas de toalhas de papel.
A partir do incio da noite, o movimento tornou-se intenso no balco da Varig,
na estao dos passageiros. S para a Europa, alm do 820, para Paris e Londres,
sairia

o 836, com destino a Zurique e escalas em Madri e Genebra, e o 833, com destino
a Frankfurt, escala em Lisboa. Havia tambm um vo para Nova York.
Todos os avies estavam saindo lotados, ou quase lotados, devido s
frias escolares e graas ao booni consumista que o pas atravessava.
Apesar do bom momento da economia, a Varig estava atrasada no item equipamentos.
Enquanto nas empresas estrangeiras mais importantes os vos de longo percurso
eram
feitos com avies da gerao wycle bocly - DC- 10, Lockheed Tristar e Boeing 747
(os chamados Jumbos) -, a empresa brasileira continuava voando com aparelhos
Boeing
707, modelo que j tinha 15 anos de existncia, alm de um surrado Douglas DC-8,
herdado da Panair do Brasil.
O PP-VJZ, escalado para Paris e Londres, era um 707 com especifica-o 345C. Seu
nmero de fabricao era 19.841. Fora construdo em 1968 para a companhia
americana
de vos charters Seabord, que o usara, entre outras coisas, no transporte de
soldados dos Estados Unidos para o Vietn.
Em 1971, ao receb-lo em sua frota, a Varig mudara a decorao da
cabine, para torn-la mais atraente. A forrao das poltronas foi trocada, as-
sim como o revestimento das paredes e do teto.
No vo 820 daquela tera-feira, a disposio da cabine correspondia 
verso de 20 poltronas em cinco filas na primeira classe e 120 poltronas em 20
filas na cabine turstica.

No Leblon, Regina Leclry achou que j estava na hora de ir para o Galeo.
Despediu-se da me e desceu no elevador acompanhada da amiga Tutsi.

30




RG-820 -Uma Cmara de Gs




Quando saram  rua, o motorista de Regina, Francisco, ainda no havia
As duas amigas ficaram conversando, enquanto o aguardavam. Re-vestia jeans, uma
blusa de gola olmpica em seda branca e um cinto que
utsi achou lindo.
Finalmente chegou o carro. Numa atitude que lhe era tpica, Regina
o cinto e deu para a amiga.

- Toma, fica pra voc.



ut Aero Willys Itamarati ia pela Avenida Brasil tendo ao volante Ricardo
'rajano. Acompanhavam-no, alm do pai, seu Reginaldo, e da me, dona
T, a irm Regina Helena. A unida famlia Trajano fizera questo de ir em
ao bota-fora do rapaz.
Ricardo seguiu pela ponte da Ilha do Governador e depois pela Estrada
Galeo. Passou pelo terminal de passageiros, sem parar. Logo adiante,
 esquerda, depois  direita e entrou no estacionamento.

Ford Galaxie LTD preto, com persianas no vidro traseiro, e placa verde-
na qual se podia ler "Senado Federal - Presidente", estacionou
 calada do terminal.
O        chofer saiu rapidamente e abriu a porta traseira esquerda, por onde uma
senhora elegantemente vestida. Do outro lado, surgiu um senhor grisalho, de
porte
prussiano, com entradas de calvcie. Usava culos de grosso e trajava terno e
gravata escuros. Do banco dianteiro do carro, um garoto, Antnio Pedro, que veio
se
reunir na calada ao av, sena-Filinto Mller( e  av, dona Consuelo.
Filinto Mller despediu-se polidamente do motorista, que chamara um
para conduzir as malas da famlia at o balco de atendimento da
~arig. L chegando, o senador dirigiu-se  fila de atendimento da primeira
quase vazia - contrastando com as enormes filas da classe turstica -,
apresentou os bilhetes para o vo 820.
Fiiinto Strumbling Mller, presidente do Senado Federal e da Arena,
completar 73 anos, a idade do sculo, no dia seguinte. Comemoraria a
em Paris, com a mulher e o neto.
Os dois estavam casados havia 47 anos. Filinto, agnstico e simpatizan-do
positivismo, dividia-se entre a poltica e uma chcara nos arredores de

31
Entrou no automvel e partiu.



Caixa-Preta




Braslia, onde costumava se levantar as seis da manh para trabalhar na horta
com a enxada. Tinha calos nas mos. Mas s um observador muito atento o
perceberia.
Quando jovem, Mller fora oficial do Exrcito (do qual havia sido ex-pulso, aps
um movimento de protesto de cunho poltico), chofer de txi em Buenos Aires -
onde
se exilara -, vendedor da Mesbla e, mais tarde, revo-lucionrio de primeira hora
em 1930.
Durante o governo Vargas, Filinto Mller tornou-se chefe de polcia do Rio de
Janeiro. Era o auge do nazismo e do fascismo na Europa. Essas ideolo-gias
acabaram
norteando a Constituio de 37, que instaurou o regime dita-torial do Estado
Novo.
Mas Mller era, antes de tudo, um poltico. No governo democrtico de Juscelino
Kubitschek, tornara-se lder do senado pelo partido da situao. J no governo
Mdici,

passa a presidir a Arena e o humilhado Congresso Nacional. Era um cargo menor,
pois o poder civil se apequenara. Os militares em comando desprezavam o
Legislativo
relegando seus membros ao papel de vacas de prespio.
O senador ficaria em Paris at a quinta-feira, dia 19 de julho, hospeda-do no
douard VII, na Avenue Opra, um dos hotis mais requintados da cidade.

Regina Leclry, que agora se deslocava para o Galeo, no era apenas uma
socialite rica e bem-sucedida. Era tambm atriz. Recentemente protagonizara
Quem  Beta?, de Nelson Pereira dos Santos, produzido pelo marido Grard.
A cena final do filme mostrava Regina se despedindo na escada de um avio. Seu
namoro com o cinema era antigo. Grande amiga de Glauber Ro-cha, Regina fora por
ele
convidada para interpretar Rosa em Deus e o diabo na terra do sol, papel que
projetou Ion Magalhes. Regina desistira  ltima hora, para casar-se com
Wallinho
Simonsen.
Em Quem  Beta?, ela contracenara com o jovem francs, nascido no
Rio de Janeiro, Jean Dominique Rulhe, que por sinal tambm viajava para Paris no
820.

O carro com placa do corpo diplomtico, que acabara de parar ao lado do
terminal, tinha  frente uma perua Chevrolet Veraneio, da polcia, usando

32




RG-820 - Uma Cmara de Gs




uma placa fria. Depois de alguns seqestros de diplomatas no Brasil, dentre os
quais o do embaixador americano, todos os chefes de misses estrangeiras
recebiam
proteo especial.
Os agentes saltaram da perua e olharam em volta, enquanto o embaixa-dor da
ndia, Singh Prithi, e sua mulher, Sinah, desembarcaram do carro
com a filha Reeta, 19 anos, que viajaria sozinha para Londres.

~Quando chegou sua vez na fila de atendimento, Ricardo Trajano escolheu ~*ua
poltrona numa planta de configurao do 707 que lhe foi exibida pelo ~tendente.
Optou
pelo assento 27F, junto  janela, na penltima fila do lado direito.



lio de Lamare no era propriamente um especialista em automobilismo.
u trabalho sempre fora mais ligado aos esportes amadores, coisa que a Fr-ula 1
decididamente no era.
Mas sua narrao era o que de melhor havia na tev. Jlio dava seu
cado sem explicaes redundantes e s acrescentava palpites quando estri-ente
necessrios.
Carioca, 45 anos, Jlio assumira havia apenas dois meses a chefia esportes da
Globo. Agora fazia sucessivas viagens  Europa, acompa-ando o circo da Frmula
1. Seu
companheiro era sempre Antnio Car-s Scavone, ex-piloto e empresrio de
automobilismo, que comentava as rridas.
Julinho, como era conhecido pelos amigos, despediu-se da mulher M-
, da filha Cludia e do filho Guilherme.
-Agora tome mais juzo - disse o jornalista ao filho -, para comear ser o homem
da famlia.
Jlio e Scavone se dirigiram  sala de embarque. Antes de entrar, De
are levantou a mo direita no adeus  famlia.



ados havia apenas dez dias, Solange e Jos Narciso Fonseca e Silva no ndiam a
satisfao em meio  algazarra dos parentes, amigos e colegas da C, que cantavam
a
marcha nupcial. Sob uma chuva de arroz, e sob o olhar ulgente dos demais
passageiros, o casal caminhou para a sala de embar-33



Caixa-Preta




que. Os dois iriam cursar, como bolsistas, ao longo de dois anos, a Escola
Internacional de Administrao de Empresas, em Paris.
- E por pouco tempo gritou, entre alegre e emocionada, Solange, de longe,
enquanto exibia seu passaporte no guich da Polcia Federal. -Daqui a dois anos
a gente
volta.

Gaston e Nivalda Kirst haviam se casado no sbado. Ele era engenheiro e
funcionrio da Varig. Ela, sociloga. Passariam um ms na Frana e na Ingla-
terra. Tentaram
viajar no domingo, mas as passagens do casal, especiais para funcionrios da
empresa, s permitiam o embarque quando havia lugar no avio, coisa que s
ocorrera
naquela tera-feira.

Na sala de embarque, os passageiros dos diversos vos se misturavam. O lugar
entupira-se de gente - turistas, estudantes em frias, executivos engravata-dos.
Entre
os que atraam a curiosidade, estava o cantor Martinho da Vila, que tomaria o
vo 836 para Madri.

Quando Regina Leclry saltou do carro, na calada todos olharam para ela. Era
impossvel no not-la. Como se ignorasse os olhares, ou se desse bem com eles,
ela
caminhou com naturalidade pelo saguo, equilibran-do-se sobre seus tamancos
altssimos - com os quais camuflava a peque-na estatura. A blusa de seda
revelava sutilmente
o contorno dos seios, rijos e pequenos. Os fios de cabelo branco davam-lhe um
toque a mais de classe e originalidade.
Como no podia deixar de ser, antes de chegar ao balco ela encontrou
um amigo. Na verdade encontrou dois: o arquiteto e desz~per Srgio Rodri-gues e
o colunista Daniel Ms.
Conversaram por alguns minutos. Regina falou da casa na Joatinga e aproveitou a
oportunidade para encomendar a Rodrigues cadeiras para a pis-cina. Despediu-se e
foi at o setor de atendimento da Varig, onde marcou seu lugar na primeira
classe.

O engenheiro Clayrton Quinder, 45 anos, tambm viajava de primeira. Ia para a
Europa fechar um negcio para uma empresa de minerao de sua propriedade.



34




RG-820 - Uma Cmara de Gs




Cearense, casado, quatro filhos, Quinder era dono de diversas empre-a maioria
sediada no Nordeste. Mas morava no Rio, num endereo de
~fe: o Edifcio Chopin, na Avenida Atlntica.

mpanhado da filha Izabela, de nove anos, Plnio Carvalho, o Plininho,
va satisfeito. Conseguira transferir seu bilhete de classe econmica da Bri-h
Caledonian para um de primeira classe da Varig.
Ao adquirir a passagem, dias antes, Plnio encontrara a primeira classe 820
lotada para aquela tera-feira. Na British Caledonian, cujo vo para ndres era
direto,
tambm s havia lugar na econmica. Como tinha de se contrar com a mulher,
Marina, que o aguardava em Londres com Sergi-o, o outro filho do casal, Plnio
decidira
ir assim mesmo.

Entretanto, assim que chegou ao Galeo, foi dar uma conferida na Va-Constatou
que havia lugares vagos na primeira (o senador Jos Sarney,
e pretendera embarcar com a mulher para Paris, desistira de viajar naquela
oite).
Plininho apreciava um tratamento diferenciado. Gostava tambm do ampanhe, do
caviar, do amplo espao para as pernas. Mesmo que isso im-licasse numa escala em
Paris,
como era o caso. Por isso, depois de endossar bilhete na British Caledonian,
pagou no caixa da Varig 5.458 cruzeiros erentes  diferena de preo entre a
primeira
classe e a turstica, para ele e a a filha.
Plnio Carvalho fornecia equipamentos de petrleo para a Petrobras e
a figura das mais conhecidas no Rio. Jogava plo em tardes chiques do
tanhang GolfClub. Eram seus companheiros de jogo Wallinho Simonsen,
~        -marido de Regina Leclry, Ronaldo Xavier de Lima, Joaquim Monteiro
Carvalho, os irmos Klabin e Didu de Souza Campos.

~.nquanto os passageiros do 820 aguardavam a chamada para o embarque, ~no local
reservado s tripulaes, o comandante-master Gilberto Arajo da ~Silva, do PP-
VJZ,
e seus tcnicos iniciavam sua rotina de trabalho fazendo ~um breefing com o
despachante operacional de vo (DOV). Tomavam co-~nhecimento das condies
meteorolgicas
ao longo da rota at Paris, do ~nmero de passageiros, do peso total e da
quantidade de combustvel nos tanques.

35



Caixa-Preta




Um comandante de nome Peret, da prpria Varig, escalado para Nova
York, propusera a Antnio Fuzimoto, segundo-comandante do 820, uma tro-ca de
vos. De incio, Fuzimoto aceitou a proposta do colega. Depois, desistiu.
Resolvidos os trmites burocrticos, a tripulao do 820 encaminhou-se
para o 707.

Na sala de embarque, as pessoas no conseguiam desgrudar os olhos de Regi-na
Leclry que, sentada  frente de Ricardo Trajano, conversava com um amigo.
Sem dar bola para o frisson que provocava, Regina levantou-se e foi at
um telefone pblico. Ligou para sua amiga, Lucy Barreto, mulher do cineasta Luiz
Carlos Barreto.
Lucy aproveitou a ligao para convid-la para ir ao Festival de Cinema
de Moscou.
- Bem que eu gostaria - disse Regina. - Mas no sei se vou ter tempo. De Paris,
eu telefono para voc.

Um Electra, da prpria Varig, aterrissou trazendo os passageiros de So Paulo
que iam para Londres e Paris.
Entre eles, vinha o jornalista Celso Leite Ribeiro, de O Estado de S. Paulo, que
viajava para Londres usando uma passagem de cortesia oferecida por Anna Maria
Malta
Martins Ferreira, agente de turismo que tambm se-guia no 820.
Masa, mulher de Celso, e suas duas filhas, Maria Fernanda, 15 anos, e
Patrcia, 13, o aguardavam em Londres. Os quatro participariam de uma

excurso atravs da Europa, organizada por Anna Maria.
Os pais de Anna Maria, Evangelina e Francisco Malta Cardoso, tam-bm viajavam no
820. Mas no participariam da excurso da filha. Ficariam em Paris, completando
o ciclo de comemoraes de suas bodas de ouro, que se iniciara com uma festana
em So Paulo. A filha de Anna, tambm Anna, 19 anos, neta de Francisco e
Evangelina,
aguardava a me em Londres.
Anna, a agente, levava dinheiro bastante para fazer frente s despesas da
excurso. Guardava os dlares numa guaiaca, sob a roupa.
O Electra parou ao lado do Boeing e seus passageiros mudaram de aero-nave.
Entraram no PP-VJZ antes dos que embarcavam no Rio.



36




RG-820 - lima Cmara de Gs




De sua poltrona, no lado esquerdo do cockpit (cabine de comando),
percebeu que diversas crianas subiam as escadas do avio. Lem-se que era poca
de frias escolares.
Entre os vindos de So Paulo estava tambm a famlia Barreto Neves. lber
Barreto Neves, major-aviador, faria um curso de radar na Frana. riajava com a
mulher Nilza
e os filhos Clber, Mary Anne e Patrcia, alm de uni menor, Luiz Aparecido
Santos, filho de um amigo da famlia.
Se para uns a viagem era pura excitao, para outros representava nada mais que
rotina. Entre estes, um homem negro com nariz de boxeador. Agos-~inho dos
Santos,
41 anos, compositor e cantor, tinha como destino final Axenas, onde sua voz
aveludada iria defender, na Olimpada Internacional da ~ano, a msica Paz sem
cor,
composta em parceria com a filha Nancy.
Agostinho dos Santos tinha histria para um dia contar aos netos. Na
trilha sonora do filme Orju do camava/~ por exemplo, sua voz fora acompa-.ada
por ningum menos do que Joo Gilberto ao violo. Fora um dos

precursores da bossa nova, participando, em 1962, do mtico show do Carne-gie
Hall, em Nova York, marco da exploso internacional da msica brasilei-ra, que
antes
se limitara  Aquarela do Brasile aos requebros descaracterizados de Carmen
Miranda.
Com o cantor viajava Juan Carlos Iglesias, maestro e pistonista ar-gentino.
Iglesias, que atendia pelo nome artstico de Carlos Piper, traba-lhara muito
tempo com
Elis Regina no programa Fino da bossa. Auxiliara Agostinho no arranjo de Paz sem
cor. Piper tinha uma filha de um ano chamada Elis.
O iatista Joerg Bruder era to veterano em viagens quanto Agostinho dos Santos.
Trinta e cinco anos, casado, dois filhos, Bruder era tricampeo mundial da
classe
Finn. Gelogo de formao, dedicava tempo integral ao iatismo. Alm de
participar de competies, fabricava mastros de alumnio de alta reputao em
todo o mundo.
Viajava para Brest, na Frana, para disputar a Finn Gold Cup, que se
iniciaria na sexta-feira, 13 de julho.

Quando os passageiros do Rio entraram no Boeing, j encontraram os de So Paulo
em seus lugares. Dentro da aeronave, estavam tambm os passageiros em trnsito
de
Santiago, Buenos Aires e Montevidu.



37



Caixa-Preta




Entre os de Santiago, havia o argentino Joe Baxter, que viajava com
passaporte americano falso, emitido com o nome fictcio de Bernard Regan.
De todos os passageiros, Regan - ou, melhor, Baxter - era o mais aflito para ver
o avio decolar. Chefe da Tacuara, uma organizao argentina de guerrilha
urbana,
a polcia de seu pas o procurava, acusando-o de ter participado do assassinato
do almirante Hermes Quijada e do seqestro do industrial Oberdan Sallustro,
diretor
da Fiat em Buenos Aires, tambm mor-to. Baxter fugira para o Chile, e agora para
a Europa.

Ao entrar no Boeing, Ricardo Trajano ganhou balas da comissria Elvira
Strauss. A moa indicou-lhe seu lugar, na penltima fila.

Enquanto os passageiros se acomodavam, na cabine de comando o trabalho
era intenso.
Gilberto, o mais antigo entre os dois comandantes, seria o master do vo. Por
sua deciso, o colega Fuzimoto faria a decolagem no Rio, pilotaria nas primeiras
quatro
horas de viagem e, mais tarde, faria o pouso em Paris. Na volta da Europa, trs
dias depois, Gilberto faria a decolagem e o pouso.
Gilberto era mineiro de Santa Luzia. Tinha 49 anos. Estava na Varig des-de
fevereiro de 1952. Voara em todo tipo de equipamento, tendo comeado nos
legendrios Douglas

DC-3. Mais tarde pilotara bimotores Convair e qua-drimotores a pisto.
Finalmente, jatos. Tinha 18 mil horas de vo (17.959), sendo 4.642 em Boeing
707, no qual
voava havia cinco anos e meio.
Fuzimoto tinha um currculo parecido: 17.790 horas de vo, embora estivesse no
707 h menos tempo (trs anos e sete meses). Tambm fora admitido na Varig em
fevereiro
de 1952, alguns dias depois de Gilberto, diferena que valia ao outro naquela
noite o ttulo e a funo de master. Nisei, Fuzimoto era conhecido pelos colegas
como
Japons. Fizera 43 anos naquela tera-feira.
Ambos eram casados. Gilberto tinha sete filhos, o que lhe valia o apeli-do de Z
Bala entre os pilotos da empresa.
Alm dos comandantes, havia dois co-pilotos: Alvio Basso e Ronald Utermoehl.
Iriam se revezar na funo, ocupando a poltrona do lado direito, a no ser
quando Gilberto
e Fuzimoto estivessem pilotando juntos, coisa que s ocorreria nos momentos
iniciais e finais do vo.



38




RG-820 - Uma Cmara de Gs




O gacho Alvio Basso, 46 anos, voava havia 22. Tirara seu brev em ~51, no
Aeroclube de Bento Gonalves. Mais tarde, fizera curso de ins-~tor no Aeroclube
de Canoas.
Sua licena de piloto comercial datava de
~54.
Utermoehl tinha 23 anos e era o mais moo dos tripulantes do PP-VJZ.
orava a comissria Elvira que, para sorte do casal (pelo menos era o que oderia
pensar naquele momento), tambm fora escalada para o 820. Ro-e Elvira iriam
poder
namorar em Paris. Dizia-se que os dois formavam o mais bonito da Varig.

Como  de praxe na aviao, a empresa designara para o RG-820 uma issria,
Hanelore Danzberg, exclusivamente para observar a qualidade do ~o de bordo.
Hanelore,
Hane para os ntimos, tinha 34 anos, era a mais ga dos comissrios do 820 e
voava  paisana.
O        comissrio Srgio Balbino ajudava alguns passageiros a acomodar a em de
mo nos bagageiros (que os tripulantes conhecem como bins).
ixaba de Alegre, Balbino usava o cabelo liso bem penteado e armado com Tinha os
dentes da frente separados, mas isso no lhe prejudicava a apa-ia. Moreno, fazia
um belo tipo latino. J trabalhara como modelo, para o ~sta Pierre Cardin. Alm
do portugus, Balbino falava fluentemente tres mas: ingls, francs e italiano.
Apreciava
antigidades e aproveitava suas ens para conhecer museus.
Os demais comissrios escalados para o vo eram Carmelino Pires de eira Jnior
(31 anos), Edemar Gonalves Mascarenhas (tambm 31), re Piha (24 anos) -
egpcia
que usava um passaporte amarelo, de ap-emitido pela ONU -, Luiz Edmundo Coelho
Brando (35) e o fran-Alain Henri Tersis (26), sendo este, entre todos os
tripulantes
do VJZ, o tinha menos tempo de empresa - apenas um ano e cinco meses.
Como ocorre em todos os vos de carreira, havia um chefe de equipe, Egdio
Galetti, 34 anos, que acabara de fechar e travar a porta dianteira 707 e desse
procedimento
notificara o comandante.
Foi dada a partida nos quatro reatores. As equipes de terra retiraram os
sdas rodas. Um trator, que pinou o 707 pela triqulha, fez o push back,
urrando o jato at a faixa central de demarcao da pista de taxiamento.
O        espao de manobra agora era amplo, mais do que suficiente para o
g rolar com segurana por seus prprios meios.

39




Comunicando-se com o cockpit por um interfone, um operador de ter-ra, que
acompanhara o trator caminhando ao lado, informou ao piloto que o
avio estava livre.
Solicitada e concedida autorizao pela torre, o Varig 820 deu incio ao
taxiamento para a cabeceira. Gilberto ia lendo em voz alta, e em ingls, os
itens de uma
checklist, impressa num carto plastificado. A cada item men-cionado, Fuzimoto,
depois de verific-lo, informava que estava ok. Simples arroz-com-feijo. Atrs
deles,
o co-piloto Basso, sentado no banco do obser-vador, o mecnico de vo Carlos
Diefenthaler, na poltrona central giratria
- que lhe permitia ficar de frente para o painel lateral de instrumentos ou para
as manetes de acelerao -, e o navegador Salvador Ramos Heleno cuidavam de suas
respectivas tarefas. Bem treinada, a equipe funcionava como um relgio.
Mais tarde, depois da decolagem, assim que o avio passasse a vo de cruzeiro,
Gilberto iria descansar no sarcfago, apelido que os aviadores do aos exguos
compartimentos
dotados de cama (na verdade gavetas), nos quais uns descansam enquanto outros
pilotam. Alvio Basso o substituiria na pol-trona da direita. No meio do
percurso, Gilberto
renderia Fuzimoto. Uter-moehl tomaria o lugar de Basso.

Embora o avio ainda estivesse no solo, na primeira classe j rolavam os pri-
meiros comes e bebes. Um comissrio acolhia os bem-aventurados com uma taa de
champanhe.
Ali estavam Regina Leclry, Clayrton Quinder, Puni-nho, Filinto Mller, Reeta
Singh e dois diretores da Renault argentina, entre outros.

No cockpit, o navegador Heleno, 45 anos, trabalhava em sua mesa de mapas.
Competia a ele traar (e checar) cada uma das rotas na primeira metade
percurso (num vo longo, como Rio-Paris, o avio no segue uma rota linear
percorre diversos segmentos entre pontos ao longo do caminho). A passageir por
cada um
desses pontos  conhecida como bloqueio.
Como navegador, o trabalho de Heleno no consistia apenas em
o rumo e corrigir os deslocamentos laterais, provocados pelos ventos.
importante chegar no menor espao de tempo, gastando o mnimo de
bustvel. Para isso, tinha de analisar os mapas meteorolgicos, verificar



40




flG-820 - Uma Cmara de Gs




idade, direo e altitude dos ventos - s vezes, numa determinada alti-
o avio encontra vento de proa mas, se subir (ou descer) para outro 1, poder
encontr-lo de cauda -, o que fazia diferena no tempo total o. Um bom
navegador podia
ganhar dez, 20 minutos, s vezes at mais, na travessia do Atlntico.
Escalados para a segunda metade do vo, o co-piloto Ronald Utermoehl
anos), o mecnico de vo Claunor Bello (38 anos) e o navegador Zilmar
es da Cunha (43 anos) descansavam no alojamento da tripulao, situa-
na parte dianteira, do lado esquerdo, entre a primeira classe e um dos trs
heiros da frente.
Claunor Bello, alm de mecnico de vo, fazia alguns biscates por conta
pria, comprando e trazendo pequenas peas sobressalentes de mquinas
companhias empreiteiras - viraes que lhe valiam razoveis trocados final do
ms. Era filho de um dono de botequim na Boca do Lixo, na de de So Paulo, de
nome

Jos Beijo. Claunor era tido como pessoa das safas pelos colegas, resultado
provavelmente de uma infncia e juventu-passadas entre malandros da Boca.
o L na frente, o outro mecnico, Carlos Diefenthaler, 38 anos, baseado Porto
Alegre, de servio no cockpit, movia os olhos com familiaridade e as dezenas e
dezenas
de instrumentos  sua frente, s vezes apertando boto, em outras movendo um
interruptor, atento a tudo que se passava ~cabine. Um leigo que o estivesse
observando
seria capaz de duvidar de sua
cidade de assimilar tantos dados diferentes.
Finalmente, o PP-VJZ chegou  cabeceira e foi alinhado no eixo da
 . Tudo pronto, as manetes foram levadas  frente.
O Varig 820 moveu-se, de incio lenta e preguiosamente, depois ga-do
velocidade, os pneus acusando os choques contra as divisrias das
de concreto da pista. Logo o 707 lanava-se voluptuosamente para a
nte. Quando passou pela estao de passageiros, na parte sul da pista, a
ocidade j eta de quase 300 quilmetros por hora.
Exatamente s 3h30 zulu (hora zulu, em linguagem aeronutica,  a ra de
Greenwich, que serve de referncia para todos os vos e na qual iocinam e
trabalham os pilotos
e rgos de controle) de quarta-feira, h30 de tera-feira, hora do Rio, a fora
conjugada das 72 mil libras de puxo das quatro turbinas Pratt & Whitney do PP-
VJZ
prevaleceu



41



Caixa-Preta




sobre suas 148 toneladas. O jato descolou-se da tira de concreto e elevou-se no
ar.
Levando em seu bojo 134 pessoas, decolou em direo ao Aeroporto de
Orly, em Paris, dez horas e meia e 10 mil quilmetros adiante.
O        RG-820 chegaria quase l.

42




Captulo 4




A ps cruzar a vertical da cabeceira sul da pista, o RG-820 passou, ainda

.4 em vo rasante, sobre a Estrada do Galeo. Se o ocupante de algum icarro, que
porventura ali estivesse transitando, olhou em direo Boeing, deve ter visto as
luzes de navegao do jato piscando e se refle-ido nas guas da Baa de
Guanabara, logo alm da calada e das pedras quebra-mar. Era sempre emocionante
ver um gigante
daqueles passan-rente  cabea, mesmo para os pescadores noturnos -
encarapitados is pedras, ou debruados sobre a amurada,  cata de cocorocas -
que riam ponto
ali e j deviam estar acostumados. Avio baixinho, as pes-o.s olham sempre.
O Boeing seguiu elevando-se sobre a baa, onde, logo adiante, operrios turno da
noite, sob a luz de holofotes, trabalhavam na montagem do vo
itral da Ponte Rio-Niteri.
Nacabine de passageiros, os avisos de "No fumar" foram apagados.
lpidos como um caubi do faroeste sacando sua arma, os fumantes mais ~eterados
acenderam seus cigarros. Saborearam a primeira tragada como se ~ e oxignio
puro.
Pudera. Contando o tempo gasto no embarque e no amento para a decolagem, j se
encontravam havia quase uma hora sem
~riar.
O Varig 820 sobrevoou a obra da ponte e, sempre em vo de subida, fez ligeira
curva para a esquerda. J estava alto quando passou pelo Po de

rcar~ em seu travs direito.
43



Caixa-Preta




Enquanto o avio se afastava do claro da cidade, no restaurante Antonio's, a
foto emoldurada de Regina Leclry despencou da parede, sem que ningum a
tocasse, num
pressgio do que iria acontecer naquela quarta-feira.

Em Belo Horizonte, a mulher de Fuzimoto no conseguia dormir, preocupa-da com
uma profecia que um adivinho fizera para o marido, 21 anos antes. O vidente
dissera
que ele morreria aos 43 anos - idade que o aviador comple-tara naquela tera-
feira - ou, caso sobrevivesse a essa idade, teria vida muito longa.

No cockpit, o mecnico de vo Diefenthaler moveu a chave de um interrup-tor e
desligou os avisos de "Apertar os cintos" da cabine de passageiros.
Imediatamente comeou o movimento nos seis toaletes, trs em cada classe. Embora
no fosse permitido fumar no interior dos banheiros (havia quadrinhos de aviso),
dentro deles havia cinzeiros. Isso porque a empresa sabia que diversos
passageiros ignoravam a proibio. E, j que isso acontecia, era melhor que os
viciados apagassem
e deixassem os cigarros nos cinzeiros, ao invs de, desavisadamente, jog-los
nas lixeiras (depsitos de toalhas de papel usadas).
Nada disso era preocupao de Ricardo Trajano, que por sinal no fu-mava. A
viagem j lhe reervara a primeira alegria. Apesar de a classe turstica estar
quase lotada,
Ricardo estava sozinho no conjunto de trs poltronas do lado direito da fila 27.
Poderia dormir na horizontal, se conseguisse dar um. jeito de esticar seu metro
e noventa ao longo dos assentos.

Mas, pelo menos por enquanto, o jovem no estava interessado em dor-mir, tal a
sua excitao. Pela janela pudera ver as derradeiras luzes do Rio de
Janeiro desaparecendo na esteira do Boeing.
A fila s suas costas, destinada ao repouso dos tripulantes, encontrava-se vazia
devido ao pique de trabalho dos comissrios, que serviam drinques e preparavam o
jantar.  frente de Ricardo, ocupando as poltronas 26D e 26F, Agostinho dos
Santos, que Trajano reconhecera imediatamente, conversava com o maestro Carlos
Piper.

Eram decorridos 20 minutos de vo quando o Varig 820 atingiu o nvel 330
(33 mil ps), para o qual fora programada a primeira etapa do vo de cruzeiro.

44




110-820 - Uma Cmara de Gs




imoto fez ceder o nariz e estabilizou o avio. A velocidade subiu para 968
metros horrios, equivalente a Mach 0.8 (Mach 1  a velocidade do som).
Tudo transcorria normalmente. Gilberto se retirou para o sarcfago.

crvio de jantar durou aproximadamente uma hora. As bandejas foram Lo
recolhidas. A maioria dos passageiros foi dormir. Os comissrios per-~eram, uma
a uma, as filas
de poltronas, vendando as janelas. Como o ~o voava contra o sol, a noite seria
curta. Dentro de pouco mais de quatro is, j~ seria manh. Havendo claridade, as
pessoas
acordariam. E, acorda-comeariam a pedir coisas.
Duas horas e cinqenta e seis minutos aps a decolagem, o Varig 820
~u para o nvel 370 (37 mil ps). Acabara de bloquear a vertical da cidade
Recife e dava incio  travessia do Atlntico.
~        Com o piloto automtico ligado, Fuzimoto limitava-se a acompanhar o
penho da aeronave, vigiando os mostradores dos instrumentos do pai-sua frente,
um pouco
acima de sua coxa, o manche balanava suave e tonamente, como que lembrando-o de
que o avio estava sendo pilota-mo que, como era o caso, por um dispositivo
eletrnico.
~Aquele dia de aniversrio fora especial para Antnio Fuzimoto. Deixara

em dia. Fizera para a mulher uma lista de contas a pagar, passara-lhe o
o do cofre, organizara os documentos. Tudo por causa do adivinho.
Em 1952, quando chegara ao Rio de Janeiro, vindo do interior de So
Fuzimoto, jovem aviador, costumava freqentar com um amigo uma
na Praia Vermelha.
na ocasio, nessa boate, um francs leu a mo dos dois companheiros. que
Fuzimoto teria grandes chances de morrer aos 43 anos. Para o outro, nho foi
terrivelmente
aziago. Disse-lhe que viveria apenas dois anos.
ecorrido esse tempo, o rapaz efetivamente morreu. Impressionado, Fu-passou a
aguardar o aniversario, que acontecera naquela tera-feira. o momento da
verdade. Por
isso, deixara tudo preparado em casa. Por Belo Horizonte, quela noite, sua
mulher no conseguia dormir.

zulu, tal como havia sido planejado, Gilberto foi acordado no sar-e assumiu o
comando da aeronave. Fuzimoto foi dormir. Ainda era



45




Caixa-Preta




noite. Mas, a leste, do lado direito do cockpit, um pouco acima da linha do
horizonte, era possvel ver-se o claro vermelho da alvorada, que logo chega-
ria. O Boeing
acabara de cruzar a linha do Equador, a meio caminho entre o Brasil e a frica,
 altura dos Rochedos de So Pedro e So Paulo.
Os ponteiros dos instrumentos, iluminados por minsculas luzes de cor mbar,
continuavam mostrando que tudo estava normal a bordo. Conquan-to do lado de fora
da
aeronave o uivo estridente das quatro turbinas agredisse o silncio do
Atlntico, no interior da cabine de comando esse rudo reduzia-se a um dbil
zumbido, que
parecia vir de longe.

Ricardo Trajano simplesmente no cabia nas poltronas, mesmo dispondo de trs. A
toda hora se levantava e ia at a galley traseira conversar com os comis-srios.
Acabou fazendo amizade. Pediu a um deles para visitar a cabine de co-mando. O
tripulante foi l na frente e obteve a autorizao do comandante.
Durante sua visita  cabine, Ricardo conheceu Reeta, a jovem indiana que viajava
na primeira classe e que tambm fora conhecer o cockpit. Os dois iniciaram uma
conversa,
que se estendeu para a cabine turstica, para onde Ricardo a levou. A moa
contou que tinha 19 anos e que estudava Cincias Polticas na Universidade de
Nova Delhi.
Disse que gostava de dana clssi-ca. Tinha olhos e cabelos negros e era muito
bonita.

A viagem de Joe Baxter era tensa. Estando com passaporte falso, s se tran-
qilizaria quando estivesse livre e desembaraado em Paris.

As atividades de guerrilha urbana (ou terrorismo, segundo rotulagem do governo
argentino) de Baxter haviam comeado 11 anos antes, em 1962, quando ele fundou a
Tacuara,
organizao clandestina, extremamente auda-ciosa, que atacava militares com a
finalidade de lhes roubar as armas, para depois us-las em assaltos a bancos.
A polcia s veio a identific-lo dez anos depois, em 1972, aps o assas-sinato,
em Buenos Aires, de Oberdan Sallustro, diretor da Fiat. Seu retrato foi
amplamente
divulgado.
Apesar de procurado, Baxter ainda se envolvera no assassinato do almi-rante
Hermes Quijada, levado a cabo por um comando do Exrcito Revolu-cionrio do Povo
(ERP).
S ento fugiu do pas, primeiro para o Uruguai e de l para o Chile de Salvador
Allende.



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RG-820 - Uma Cmara de Gs




A Argentina e o Uruguai (este pas alegava o envolvimento de Baxter
os guerrilheiros tupamaros) pediram ao Chile sua extradio. Por isso,
para a Frana, no sem ter corrido o risco de ser reconhecido a bordo
na escala no Rio. Faltava um ltimo obstculo: passar pelas autorida-francesas
de imigrao, com nome e passaporte falsos.

Ismail Arman era um tpico imigrante bem-sucedido. Chegara ao
1957. Seu primeiro trabalho fora como feirante, em Mogi das Cru-
L conhecera a nisei Toshico. Depois de breve namoro, os dois se casa-
Aos poucos, melhoraram de vida, enquanto os filhos foram nascendo.
agora com dez anos; Jacqueline, com oito; Walid, sete; e Margareth,
formavam a escadinha dos Arman.
Com o que ganhou na feira, Khamis montou uma confeco. Naturali-brasileiro. Os
negcios prosperaram e ele transferiu a empresa para
Paulo. Na capital paulista, a famlia foi morar no Brs.
        Khamis gostava de viajar, sempre levando as crianas. Em janeiro, a
fora  Argentina. Agora ia para o Cairo, onde ele teria orgulho em

                aos pais a mulher e os quatro filhos. Em 16 anos de trabalho
rduo,
                Khamis Arman conseguira realizar seus sonhos mais ambiciosos.

no sasse de avides, por causa da vida intensa que levava, Regina
 no se sentia  vontade voando. Era dessas pessoas que detestam quando
trepida, em turbulncias. Contraa-se toda cada vez que o rudo das aumentava ou
diminua
de intensidade.
Aos 33 anos (faria 34 no dia 4 de agosto), Regina tinha planos, muitos
como se fosse uma garota de 20. Um deles era fazer uma experincia sria como
atriz (o filme Quem Beta?fora pouco mais que uma brinca-). Outro, era fazer um
curso
de psicologia infantil, atividade em que
        ia de trabalhar.
Tinha paixo pelas filhas: Roberta, de oito anos, de seu casamento com linho
Simonsen, e Georgiana, trs anos, filha de Grard.
Na segunda quinzena de julho, Regna, Grard e as meninas iriam par-ar de um
safri no Qunia. Em agosto, o casal Leclry iria reunir-se a gos, entre os
quais Henry
Kissinger, no cruzeiro pelo Mediterrneo. Ha-bm o Festival de Cinema de Moscou,
para o qual Regina fora convi-47




Caixa-Preta




dada naquela noite, pouco antes do embarque. Tentaria dar um jeito de ir. Esse
vaivm era a sua vida. Por isso, mesmo no gostando, tinha de se habituar com os
avioes.

O        dia amanhecera. No cockpit, o navegador Heleno fora substitudo por
Zil-mar. O mecnico de vo Diefenthaler dera lugar a Claunor Bello. Alvio Bas-so
fora
rendido por Ronald Utermoehl. Gilberto ocupava a poltrona de co-mando, do lado
esquerdo, tendo Utermoehl  sua direita.
Fuzimoto repousava no sarcfago.

Durante a noite, o trabalho dos comissrios se resumira a pedidos de gua,
comprimidos para enjo e dor de cabea, descongestionantes nasais, um ou outro
drinque.
Agora, aos poucos, os passageiros iam acordando, sonolentos. Levanta-vam a
cortininha da janela e viam que j era dia claro.
Terminara o sossego dos comissrios. Alm de ser muito longo, o vo 820 para
Paris tinha o inconveniente de ser, em grande parte, diurno, o que lhes
aumentava sensivelmente
o trabalho.
Na cauda da aeronave, uma pequena fila se formara junto aos toaletes da classe
turstica.

Ricardo Trajano visitara mais uma vez a cabine de comando. E voltara a chamar
Reeta para conversar l atrs.
Assim que ela retornou  primeira classe, o breakfast comeou a ser servido. O
movimento dos toaletes aumentara. Nos trs reservados  classe turs-tica, a
fila

crescera, atravancando a galley traseira, de onde Tersis passava as bandejas
para os colegas.

Trs mil quilmetros  nordeste dali, em Paris, Christian Megret, 28 anos,
controlador de vo da Torre de Orly, sara de seu apartamento no Bulevar de
Grenelle e
guiava seu carro em direo ao aeroporto.
Na melhor tradio de eficincia do servio pblico francs, Megret cumpria
passo a passo um meticuloso programa de treinamento, que se iniciara em 1968 -
quando
ele conclura o curso de formao da cole National de Aviation Civil -, ano em
que fora designado para Orly.



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RG-820 - Uma Cmara de Gs




Megret tinha tudo para estar feliz naquela manh. Gostava de trabalhar a
aviao. Sua mulher, Michele, estava grvida. O beb nasceria nos primei-,sdias
de outono.
Enquanto guiava, o controlador sentia no rosto o vento iorno do vero
parisiense. Era um lindo dia.

lo Varig 820, os banheiros j estavam sendo usados havia mais de oito ho-is.
Centenas de toalhas de papel, amassadas e usadas, acumulavam-se no iterior das
lixeiras,
cheias quase at a borda. Alm da atmosfera, extrema-iente seca, prpria dos
avies, o cano de gua quente que abastecia as tornei-RS passava pelo interior
das cestas
coletoras, aquecendo-as. A maioria das palhas tivera tempo de secar.



11h53 zulu, o Varig 820 subiu para o nvel 390 (39 mil ps).
Algum tempo depois, penetrou no espao areo europeu, pelo sul da
panha. Na cabine de passageiros, era grande a movimentao. Crianas
rriam de um lado para o outro. J no havia mais fila nos toaletes.

Na classe turstica, um passageiro entrou no banheiro central. Sentou-se
thorrentamente no vaso e acendeu um cigarro.
Na primeira classe, encerrara-se o breakfast.

vio Basso, que no conseguira dormir um segundo sequer, foi at o cockpit
lisse pata o colega Utermoehl:
- Vai descansar um pouco. - E o substituiu no assento de co-piloto. Fuzimoto
sara do sarcfago e fizera um rpido desjejum. S ento foi
Lra a cabine. Na poltrona da esquerda, Gilberto pilotava o Boeing e dera
icio aos procedimentos da longa descida para a rea de Paris.
Tal como fora combinado, houve um rodzio de posies. Gilberto te-intou-se e
passou para o assento da direita, ocupado por Atvio Basso. Este iudou-se pata o
banco
do observador. Fuzimoto assumiu a poltrona da es-~crda, de comando.

~ atrs, no banheiro central, o fumante terminou sua funo. Esmagou o ~arro no
cinzeiro, mas no quis deix-lo ali, como prova de seu pecadilho. ~efetiu
livrar-se
da guimba, lanando-a no orifcio coletor de papis. Er-~Ieu-se, lavou as mos e
saiu do toalete.

49

Caixa-Preta




A ponta de cigarro, que no se apagara de todo, caiu sobre os papis usados, a
maior parte seca. Uma pequena brasa, que ainda restara, encontrou ambiente
propcio a se desenvolver, no aconchego dos papis. Surgiu um diminuto orifcio,
circular, numa das folhas. Seguiu-se uma pequena chama.
Perto dali, na galley, o comissrio francs Alain Tersis guardava nos con-
tineres as bandejas usadas no breakfast.
Pelos alto-falantes, os passageiros foram avisados para adiantar seus re-lgios
em cinco horas. J era incio de tarde em Paris.
No cockpit, o trabalho era intenso. Tratava-se de um momento impor-tante do vo.
Os pilotos procediam  entrada na rea de Paris. Com a tempo-rada de turismo no
auge, o trfego era grande. Enquanto Fuzimoto atuava nos comandos, Gilberto se
encarregava da fonia com os rgos de terra.
O Varig 820 descera para o nvel 350 (35 mil ps) e transpusera a verti-cal de
Nantes. Aproximava-se de Paris pelo setor sudoeste. Recebeu instru-es para
abandonar o 350 e descer para o nvel 240, em sua trajetria final. O tempo era
bom em Paris. O vento era de 3400, com oito ns de velocidade. Havia alguns
cirros a 27 mil ps (9 mil metros). A visibilidade era de 15 quilmetros. A
temperatura, 240.
No fosse pelo fogo, que agora se alastrava entre os papis usados no
interior da cesta coletora de lixo do toalete traseiro central, teria sido um
vo magnfico.

50




ap
ii:'




COtI.




 re

Captulo 5
)Or-po-av~

rti.

~mbora no houvesse cheiro de queimado dentro do avio, e muito
[e.  menos fumaa, o PP-VJZ deixava em sua cola uma fina esteira bran--
     a, quase imperceptvel, lanada para o exterior pelo sistema de exaus-
     is banheiros traseiros.
o    incndio houvesse comeado na lixeira do banheiro esquerdo, a ~, sem ter
para onde escapar, teria passado para a rea da galley atravs
tos de ventilao. Mas a origem do fogo ocorrera no toalete contguo,
cuja lixeira dava para uma rea oca localizada na abbada traseira do
A fumaa se expandia por ali, sendo aos poucos expelida para fora do
w um venturi - tubo cujo orificio de sada era menor do que o de
(implicando numa velocidade de sada do ar maior do que a de entra-

dispositivo que permitia a exausto do ar viciado dos banheiros, sem do sistema
de pressurizao da aeronave.
paredes dos banheiros tinham boa resistncia ao fogo e no cediam Jo interior
da cesta de lixo, seco e cheio de papis, era extrema-(cio ao desenvolvimento do
incndio.
VJZ   era dotado de um FDR (gravador de parmetros de vo), como caixa-preta
(embora o apetrecho fosse alaranjado). Em
acidente, a leitura do FDR, cujo invlucro deveria ser  prova de imerso e
incndios, revelava aos investigadores os procedimentos pelos pilotos nos
momentos que antecederam o sinistro.



51



Caixa-Preta




Mas dessa vez o FDR no resistiu ao fogo intenso que se expandia pelo cone
traseiro do Boeing e tornou-se uma das primeiras baixas do incndio, deixando de
funcionar.
Do cockpit, o mecnico de vo Claunor Bello acendera as luzes de colo-car os
cintos e de no fumar. O movimento dos banheiros cessou.
No corredor junto  porta principal, o comissrio Balbino sentara-se num dos
bancos retrteis reservados aos tripulantes, afivelando o cinto de abdome e os
shoulclers (cintos de ombro). Era sempre bom estar em Paris, onde poderia
visitar seus museus favoritos, atividade da qual jamais se cansava.
Balbino estava em treinamento para chefe de equipe, j tendo voado algumas vezes
nessa condio. Numa dessas viagens, ouvira um barulho es-tranho e alertara o
comandante. Felizmente era um defeito sem importncia. Mas, desde ento, sentia
desconforto ao voar.
Depois de inspecionar a primeira classe, o comissrio Coelho foi sentar-se ao
lado de Balbino. Afivelou-se tambm.
Carmelino dirigira-se a seu posto no outro extremo da aeronave, perto da porta
traseira, distante menos de cinco metros do incndio. Aguardava pacientemente o
pouso.
Sentada em meio aos passageiros, a inspetora Hanelore Danzberg ob-servava os
procedimentos do pessoal de servio.

Na cabine de primeira classe, Regina Leclry se aprontara para o pouso. Os
passageiros daquele setor tinham o privilgio de ser os primeiros a desembarcar.
Depois das frias no Qunia, do cruzeiro pelo Mediterrneo e, se fosse o caso,
do Festival de Cinema de Moscou, Regina iria dedicar-se s obras de reforma e
decorao de seu apartamento na Avenue Foch, onde dividia um andar com a
princesa Grace, de Mnaco. Em setembro, Regina pretendia estar de volta ao Rio.
Na classe turstica, Ricardo Traj ano, excitado com a perspectiva da che-gada,
olhava para fora. Era sua primeira viso da Europa. Na Espanha, o avio passara
muito alto e ele no pudera ver nada. Agora, no queria perder nenhum detalhe.
Atrs dele, a comissria Elvira tambm aguardava o pouso, aps o qual ela e
Utermoehl poderiam curtir Paris.
Nenhum deles tinha como saber que, no cone da cauda, o fogo passara do material
descartado (toalhas, lenos de mo, guardanapos, absorventes



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RG-820 - Uma Cmara de Gs




~nicos e tudo o mais que os passageiros haviam usado ao longo da via-
) para o prprio mvel da lixeira onde a ponta de cigarro fora jogada.

3h40 zulu (14h40 na Frana) o RG-820 entrou em contato com o termu-peste do ACC
(sigla internacional de Centro de Controle de Aproximao) ~ris. Informou que se
encontrava numa descendente rumo ao VOR (Ver-~Omni Range, um tipo de
radioauxlio para navegao area) de Charfres ito de entrada na rea de Paris).
Estimava Charfres em 12 minutos.
Fuzimoto pilotava e Gilberto se encarregava do rdio.
is 13h43 zulu o Varig 820 atingiu o nvel 230 (23 mil ps).
Alguns tripulantes encontravam-se no compartimento de descanso, do ~esquerdo da
parte dianteira da aeronave: mecnico de vo Carlos Die-~aler, navegador
Salvador Ramos Heleno e co-piloto Ronald Utermoehl, cedera seu lugar no cockpit
a Alvio Basso.
s 13h46 zulu o 820 atingiu o nvel 170 (17 mil ps), sempre descendo. rinformou
que a pista em uso era a 26. Isso implicava uma grande volta ~dor do aerdromo,
o que seria feito no sentido anti-horrio. As condi-~meteo rolgicas na rea de
Paris permaneciam excelentes.
.~No cockpit, Zilmar guardava seus mapas e Alvio Basso preenchia o rela-de vo.
O mecnico Claunor Bello dividia-se entre interruptores e ins-icntos. Algumas
luzes correspondiam aos disjuntores dos banheiros, que tcusavam nenhuma
anormalidade.
Quando o 820 atingiu Charfres, o Centro Paris determinou que desces-ira o nvel
120 (12 mil ps). Mandou que efetuasse uma leve curva ~a, para ser melhor
identificado na tela do radar, e prosseguisse na descida. ~O nvel 120 foi
alcanado s 13h50 zulu. O 100, dois minutos depois.
Os passageiros foram avisados pelos alto-falantes de que o avio se en-rava nos
preparativos finais para o pouso em Orly. Receberam instru-em portugus,
francs, ingls e espanhol, para pr as poltronas na posu-rertical. Os sacolejos
indicavam que o Boeing voava baixo. Os que se urravam junto s janelas puderam
confirm-lo, ao ver com nitidez os rbios a oeste da cidade.
s 13h55 zulu (14h55, hora de Paris) o Varig cruzou o nvel 80 deslo-D-se na
direo do VOR de Toussus, de onde iniciaria o contorno para a
26.

53




Caixa-Preta



No Controle de Aproximao de Orly, cabia ao trainee Christian Megret falar com
o 820. Megret operava sob os olhos e ouvidos atentos de seu instru-tor, Claude
Audren, um veterano de 41 anos de idade e 23 de profisso, sendo os ltimos 20
em Orly.
Megret determinou ao 820 manter-se no nvel 80 (8 mil ps), na proa de Oals
(outra estao de radioauxlio). Com esse procedimento, o PP-VJZ se posicionaria
no prolongamento da perna de vento (trecho do circuito de trfego) da pista 26,
naquele momento usada exclusivamente para pousos. Dentro de alguns minutos, o
820 estaria voando paralelamente  pista, aps o que executaria uma longa curva
de 180v para a esquerda, manobra que o colocaria no eixo da prpria 26.
Como procedia do oeste (e a pista 26 era, grosso modo, no sentido leste-oeste),
o Varig teria ainda uma boa distncia a percorrer at a aterrissagem.
O controlador informou que o vento agora era de 2800, com velocidade de seis
ns. A temperatura em Orly era de 25.80.
Gilberto acusou o recebimento da mensagem e solicitou autorizao para
prosseguir visual para o pouso.
- Positivo - concordou imediatamente Megret. As condies atmos-fricas eram
excelentes; a visibilidade, 15km. Acima do nvel onde o Boeing se encontrava,
havia apenas alguns altos-cmulos esparsos a 10.500 ps e, bem mais acima, uma
camada rala de cirros a 27 mil ps. Faltavam trs minu-tos para as trs da tarde
de vero parisiense e a luminosidade do dia estava em seu ponto mximo.
No Servio de Circulao Area de Orly, o responsvel pelo painel ele-
tromecnico de informaes da estao de passageiros recebeu do Centro de
Controle a informao de que o Varig 820 se aproximava para pouso. O funcionrio
imediatamente acionou alguns botes. No saguo de chegadas, Grard Leclry, que
aguardava Regina, ouviu os estalidos do painel e viu surgir ao lado do horrio
de chegada, 15:00, a plaqueta "Confirmado".

No Boeing, Gilberto falava aos passageiros.
- Senhoras e senhores - disse ao microfone -, aqui quem fala  o comandante.
Dentro de alguns minutos pousaremos no Aeroporto de Orly, em Paris. A
temperatura local  de 26 graus centgrados. Pedimos que aper-tem os cintos de
segurana, mantenham as poltronas na posio vertical e no



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RG-820 - Uma Cmara de Gs




at a chegada no saguo do aeroporto. Esta tripulao espera contar sua presena
em outros vos da empresa.
O speech foi repetido em francs, ingls e espanhol por um dos co-rios.
Na cauda, a fumaa comeara a invadir o banheiro central. Mas nos ros dois
toaletes no havia cheiro ou outro vestgio de incndio.
Ningum a bordo do Varig 820 tinha a menor desconfiana do que
acontecendo. Na cabine de comando, nenhum dos instrumentos o
isava.
Se outro avio, entretanto, estivesse prximo ao VJZ, teria visto um
e espesso rastro de fumaa escapando de sua cauda, como um bombar-atingido pelo
fogo inimigo.
Embora o Varig 820 estivesse quase pousando em Orly, e a ordem de se
nter os cintos afivelados j estivesse em vigor, uma passageira sentiu neces-
imperiosa de ir ao banheiro. Tendo trs deles desocupados,  sua dis-
- optou pelo esquerdo. Entrou e fechou a porta.




55

Captulo 6




D
a pequena cabine (de descanso da tripulao) onde se encontrava, Utermoehl tinha
condies de ver a paisagem que se desenrolava abaixo do Boeing e de saber que
se aproximavam de Orly. Podia
tambm ver que o tempo estava timo.
De Utermoehl, se poderia dizer que era um vibrador. Era com esse adje-tivo que
os pilotos definiam os colegas que, como ele, almoavam, jantavam e dormiam
aviao. Utermoehl tinha todas as razes do mundo para vibrar com sua profisso,
ter orgulho de si mesmo. Aos 23 anos, ele, filho de um pacato e sedentrio
mestre cervejeiro, j era co-piloto de 707.
Se, para o jovem aviador, pilotar um grande jato, cruzar o Atlntico sob as
estrelas, estar em Paris, namorar nos Champs-lyses, tudo era uma exci-tante
novidade (estava h pouco tempo no 707), quase um sonho, para o navegador
Heleno, sentado  sua frente no compartimento de descanso, nada mais era do que
pura rotina.
Entre os 17 tripulantes do PP-VJZ, Salvador Ramos Heleno era o mais antigo na
Varig, em que entrara em 1951. Praticamente crescera com a em-presa, razo pela
qual era especialmente respeitado pelos colegas. Em aviao, tempo sempre valera
muito: "Tempo  posto", se costumava dizer.
 possvel que Heleno tenha emitido um sorriso de benevolncia ao notar a
indisfarvel excitao do garoto aviador.
Sentado um pouco mais  frente, junto ao corredor de sada, os comis-srios
Balbino e Coelho aguardavam o pouso, aps o qual acompanhariam o

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RG-820 - Uma Cmara de Gs




nbarque dos passageiros. S ento poderiam descer do avio, desemba-
-se das autoridades e ir para o hotel descansar.

Imigrao e Alfndega. Eram os ltimos obstculos que separavam o itino Joe
Baxter da liberdade. Seu corao devia estar batendo cada vez forte,  medida
que o Boeing se aproximava de Paris.
Como havia muitos companheiros chilenos e argentinos que sabiam de fetiva
participao no episdio de execuo do industrial Oberdan Sallus-Baxter
acabaria sendo preso se ficasse na Amrica do Sul. Inclusive no ~,io Chile, onde
o governo socialista de Salvador Allende enfrentava s-peaas por parte de
grupos ligados  oposio de direita, que fomenta-~uma greve de caminhoneiros e
sabotavam o pas. Um golpe, liderado ~.ilitares que se opunham ao presidente,
estava sendo tramado para de-~llende. Pelo menos era o que corria  boca pequena
entre os compa-~sde Baxter, uma das razes pelas quais ele ia embora para a
Europa. ~Na cauda do VJZ, na rea da galley da classe turstica, os comissrios
enhas, Tersis e Carmelino tambm se preparavam para o pouso. Mas-
de p, ajeitava a gravata e o palet. Tersis dava os ltimos retoques
Carmelino, j pronto para o desembarque, sentara-se na banqueta junto  porta
traseira.
poucos metros deles, no toalete central, vazio naquele momento, o iciado no
depsito coletor de lixo destrura a tubulao dos exausto-fumaa, que, at
ento, limitava-se quele compartimento, e escapava ra do avio, subitamente
invadiu o banheiro esquerdo, contguo, onde a usuria se encontrava sentada no
vaso.
tomou um enorme susto ao se ver cercada pela fumaa. No pensou
Era preciso cair fora dali. Abriu a porta e saiu, ainda ajeitando a roupa.
-se a Mascarenhas e Tersis, falando num tom quase que acusatrio.
Vocs... eu... eu quase morri a dentro - disse, nervosa, apontan-
o banheiro e, ao mesmo tempo, esticando a barra da saia.
crsis e Mascarenhas correram para examinar o toalete, ver o que acon-Carmelino
levantou-se da banqueta e veio juntar-se a eles.
um metro de distncia, no banheiro central, o fogo atingira as primei-exes
eltricas por detrs da parede, uma delas correspondente ao avi-orne ao
assento", que ficava aceso durante as operaes de pouso e em ou quando o avio
enfrentava alguma turbulncia.



57



Caixa-Preta




Na cabine de comando, o mecnico de vo Claunor Bello percebeu que o disjuntor
77 no painel P-6, correspondente ao aviso "retorne ao assento" de um dos
banheiros, havia sido desarmado. Claunor armou o disjuntor. Este saltou
novamente. O primeiro pensamento que ocorreu ao mecnico foi a hiptese de um
curto-circuito. Lembrou-se de comunicar o fato  manuten-o da Varig em Orly,
aps o desembarque.
Na cauda, a passageira voltara para sua joltrona, apavorada. A notcia
de que havia fumaa no banheiro comeou a se espalhar entre os ocupantes das
ltimas filas da classe turstica.
Todos sabiam que o avio estava para pousar e passaram a torcer nervo-samente
para que isso acontecesse logo. Os que se encontravam nas poltronas das janelas
esticaram o pescoo e viram com alvio que o Boeing j descera bastante. J era
possvel ver o tapete quadriculado do cinturo verde ao redor de Paris, enquanto
o 820 se debruava sobre os campos de Yvelines, a sudoes-te da capital francesa.
Acotovelados junto  porta do banheiro esquerdo, Mascarenhas, Tersis e Carmelino
examinavam o interior do compartimento. No era uma viso tranqilizadora. A

fumaa agora ocupava os dois teros superiores do toalete. No havia sinal de
fogo. A fumaa descia do teto, do canto prximo  parede divisria com o
banheiro central.
No ocorreu a nenhum deles verificar o banheiro ao lado, por razes
que lhes pareceram bvias. Se a fumaa saa do banheiro esquerdo, era l o foco
do incndio.
Mas se tivessem aberto a porta do banheiro central, onde o passageiro
desconhecido jogara o cigarro no receptculo de papis usados, teriam visto uma
fumaa mais espessa. O incndio no material descartado e no plstico di cesta
coletora aumentara de proporo.
Os comissrios tentaram pr as idias em ordem. Como no adiantav~ ficar ali
parado - preciosos segundos j haviam se passado desde que a passa. geira dera o
alarme da fumaa -, Carmelino saiu em busca de um extintor Era tambm preciso
comunicar o incidente ao comandante.
No tendo visto chamas, Tersis pensou que se tratava de um curto circuito. Na
falta de idia melhor, e sendo familiarizado com os equipamen tos da galley
traseira, seu posto de servio, foi at l e cortou a alimenta( eltrica dos
equipamentos da galley.



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RG-820 - Uma Cmara de Gs




Os passageiros que viajavam na cauda da aeronave, cada vez mais assus-os,
acompanhavam o vaivm dos tripulantes. Alguns olhavam para trs, )S arregalados.
Outros fechavam os olhos. O medo era visvel no rosto de i um.
Mas ningum se levantou das poltronas. Os das janelas percebiam que o
o voava cada vez mais baixo. Do lado esquerdo, j era possvel enxergar )mveis
correndo numa auto-estrada.
Alguns casais se deram as mos. Outras mos se crisparam, agarradas aos
~os das poltronas. Os adultos abraaram as crianas, como se assim pudes-
 proteg-las. Eram muitas as crianas a bordo do Varig 820. Numa das filas
dianteiras da classe turstica, a inspetora Hanelore Danz-; percebeu que algo de
anormal ocorrera l atrs.
Em poucos segundos, Carmelino chegou com um extintor. Mascare-s se apossou do
aparelho, retirou a trava de proteo, puxou o gatilho e ribuiu o jato de CO2

pelas paredes do banheiro esquerdo. O chiado pro-ido pelo extintor assustou
ainda mais os passageiros das filas de trs. A notcia da fumaa j era de
conhecimento de toda a classe turstica. Liam-se ouvir alguns gemidos
angustiados. O som abafado dos passos dos ulantes, correndo para l e para c
sobre o tapete do corredor central, tribua com o clima de medo.
L na frente, sem saber de nada, e percebendo que o avio no demora-pousar, a
comissria Andre Piha entrou num dos banheiros da primeira
e.
Na ltima fila de poltronas do lado direito, a comissria Elvira Strauss a tenha
pensado em se levantar para ajudar os colegas. Mas deve ter con-do que s iria
atrapalhar, j havendo tanta gente junto ao toalete e sendo
to novata. Certamente teve medo. Quem sabe sentiu falta do namorado,
rmoehl, que estava l na frente.
No tendo conseguido apagar o incndio, Mascarenhas saiu em busca
chefe de equipe de Galetti. Carmelino ficou no banheiro, tentando lidar
m a fumaa.
Galetti tinha ido  cabine de comando, informar-se sobre o tempo que
tava para o pouso. Ao regressar, encontrara Diefenthaler, que no estava de
io e que percebera algo de anormal na cauda do avio. Galetti e Diefen-er
seguiram a passos largos para o setor de classe turstica. No meio do



59
Caixa-Preta




caminho, esbarraram com Mascarenhas, que avisou-lhes que havia muita fu-maa num
dos toaletes traseiros.
Diefenthaler decidiu assumir o comando da situao. Disse a Galetti que cuidaria
da fumaa. Pediu ao chefe de equipe que retornasse  cabine para avisar o
comandante. Galetti deu meia-volta. O mecnico foi para os fundos com
Mascarenhas. Encontraram Carmelino na porta do banheiro.
Galetti procurou andar rpido, mas evitou correr para no assustar as pessoas. A
ltima coisa que poderia desejar naquele momento era ver os pas-sageiros se
levantando ou correndo de um lado para o outro. Mas, enquanto ia para a frente,
no pde evitar as perguntas que choviam de ambos os lados do corredor:
- O que houve? O que  que est acontecendo l atrs?
A inspetora Hanelore lanou um olhar indagativo a Galetti, quando este passou
por ela. Mas no trocaram palavras. Como no vestia uniforme, Hanelore deve ter
preferido permanecer em seu lugar. Caso se levantasse, poderia confundir os
passageiros e gerar um princpio de pnico.
No banheiro esquerdo, Diefenthaler pegara o extintor das mos de Car-melino e
dirigira o foco diretamente para dentro do depsito coletor de pa-pis usados.
Em seus 19 anos de Varig, nos quais voara mais de 16 mil horas, Diefenthaler j
lera inmeros relatrios de incndios a bordo provocados por cigarros, em
diversas empresas areas. Era um problema crnico da aviao comercial. O
mecnico sabia do risco que os cigarros, verdadeiros pavios no bolso das
pessoas, representavam.
Mas como o incndio era na lixeira do banheiro ao lado (que nenhum dos
tripulantes examinara), a interveno de Diefenthaler no surtiu o mni-mo
efeito.
O volume de fumaa aumentara muito. Sufocado, os olhos ardendo, Diefenthaler
retrocedeu para a rea da galley, de onde Carmelino, Mascare-nhas e Tersis
observavam ansiosos. Os quatro se muniram de toalhas e guar-danapos, que
apressaram em umedecer numa torneira da galley. Colocaram os panos no nariz.

Enquanto isso, l na frente, Galetti, antes de entrar no cockpit, disse
rapidamente a Heleno e Utermoehl, sentados no compartimento de descan-so, depois
a Coelho e Balbino, em suas banquetas no corredor de sada, que havia fumaa num
dos banheiros da cauda.



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RG-820 - Uma Cmara de Gs




Utermoehl decidiu apresentar-se ao comandante e foi com o chefe de
e para o cockpit. Heleno achou melhor ir l atrs dar uma olhada. Coe-
saiu para inspecionar os passageiros e verificar se todos estavam quietos
seus lugares. Balbino optou por ficar onde estava.
A essa altura, o corre-corre dos tripulantes e suas parlamentaes nervo-
apavoravam os passageiros.
Como estava na penltima fila, Ricardo Trajano fora um dos primeiros
mar conhecimento da fumaa. Olhando para trs, por sobre o encosto da
na, procurava acompanhar a movimentao dos tripulantes na rea do
Pde ver a fumaa branca, no muito espessa, que saa de um dos



"Preciso sair daqui", foi o pensamento que lhe ocorreu. No levou em
que, estando o avio em vo, no havia para onde fugir. "Preciso sair
/    'ido daqui."

61
1
0ISSe a

flasse ~
co banhei
O     assusr
~ ver OS
S, enqua

~ J~




de ( de hora

iao




Captulo 7




O
s cinco tripulantes que se encontravam no cockpit olharam surpre-sos para trs
quando Galetti abriu a porta e entrou esbaforido, se-guido de Utermoehl.

- Comandante - o chefe de equipe dirigiu-se a Gilberto, na poltrona da direita -
, acho que h um incndio a bordo. Est saindo muita fumaa num banheiro de
cauda. Heleno j est l com alguns comissrios. A situao parece grave. Os
passageiros esto assustados.
O 707 no dispunha de um sistema interno de fonia que permitisse uma comunicao
nos dois sentidos entre a cabine de comando e a rea da galley traseira. Devido
a essa deficincia, o comandante, ao saber do inciden-te, no pde indagar dos
tripulantes que se encontravam na cauda como esta-va a situao.
Ao ouvir o alerta de Galetti, o mecnico Claunor lembrou-se do disjun-tor que
desarmara um pouco antes.
- Comandante - ele apressou-se em reportar -, um dos disjuntores desarmou agora
h pouco. Deve haver um curto-circuito. - Enquanto fala-va, o mecnico correu os
olhos pelos painis indicadores  sua frente,  procu-ra de indcios de outros
problemas.
Dado o aviso, o chefe de equipe pediu licena a Gilberto para ir at~ a cauda
ajudar os companheiros a combater o incndio. O comandante o auto-rizou e pediu-
lhe que o mantivesse informado.



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RG-820 - Uma Cmara de nas




No havendo nenhum assento desocupado no cockpit, Utermoehl, que itrara com
Galetti, encontrava-se de p, junto  mesa do navegador Zilmar. pesar de
preocupado com Elvira, que presumivelmente se encontrava na ~na afetada, achou
que era seu dever ficar l na frente.
No momento em que Galetti entrara na cabine, Alvio Basso, sentado na ~1trona de
observador, do lado esquerdo, terminava de preencher um dos 'latrios de vo.
Basso interrompeu a tarefa e ficou atento, pronto a obede-r a qualquer instruo
do comandante.
Entre os tripulantes do cockpit, no havia pnico. Apenas uma sensao
extremo desconforto.
Condicionado pelo reflexo de anos de treinamento, Gilberto infor-ou
imediatamente a Orly que estava com um problema de fogo a bor-, na parte
posterior da cabine de passageiros. Solicitou uma descida de nergncia.

Naquele instante, o 820 sobrevoava a floresta de Rambouillet, 30 quil-etros a
sudoeste de Paris.
No Controle de Aproximao, em Orly, assim que ouviu a palavra "fogo", ) pedido
de emergncia, o instrutor Claude Audren tomou o microfone das os do estagirio
Megret. Enquanto recapitulava mentalmente a srie de ovidncias que teria de
tomar, Audren liberou o Varig para descer at o vel 30 (3 mil ps).
No Boeing, ao sair do cockpit, Galetti viu  sua direita o comissrio
ilbino sentado num dos bancos. Determinou-lhe que percorresse a primei-
classe e acalmasse as pessoas.
L atrs, Carmelino tomara de um microfone e avisara aos passageiros Le havia um
princpio de incndio na lixeira de um dos banheiros. Pediu ~odos que se
mantivessem em seus lugares e seguissem as instrues dos missrios.
Na classe turstica, Coelho se encontrara com Tersis, que vinha dos fun-
~. Os dois passaram a avisar pessoalmente a cada passageiro, falando alter-
damente em portugus, ingls e francs, que havia fumaa num dos toale-
Minimizaram o incidente. Pediram a todos que permanecessem em seus
~ntos, com os cintos afivelados. No se esqueceram de dizer que o avio
~va nos procedimentos finais do pouso.



63



Caixa-Preta




Balbino levou poucos segundos para fazer o mesmo na primeira classe. Retornou
rapidamente ao corredor da porta principal, onde voltou a sentar-se no banco
retrtil.
Em Orly fora emitido um "alerta verde", que equivalia a um pequeno risco de
acidente. O trfego areo na rea encontrava-se particularmente con-gestionado
naquela tarde, devido a uma greve que paralisara o Aeroporto de Frankfurt, o
mais movimentado da Europa continental. Diversos vos tran-socenicos haviam
sido desviados para Paris.
Enquanto, em terra, eram tomadas as primeiras providncias para lidar com a
emergncia do RG-820, o navegador Heleno juntara-se aos tripulantes que tentavam
debelar o fogo na cauda do Boeing. Mas j no era possvel aproximar-se do
banheiro onde surgira a fumaa. Esta se espalhara pela galley e pelo corredor da
porta traseira. Quem quisesse chegar perto do foco inicial, teria de equipar-se
de mscara.
No 707, havia diversos conjuntos portteis de mscaras acopladas a gar-rafas de
oxignio, para uso dos tripulantes em emergncias como aquela. Par-te desses
conjuntos era estocada no cockpit. O restante ficava na cauda do avio. Mas,
naquele momento crucal, Heleno, Diefenthaler, Mascarenhas e Galetti (que veio
da frente, reunir-se a eles) no conseguiram encontr-los.
Havia uma explicao para isso: como a legislao no determinava um local
especfico onde coloc-Las - exigia apenas que o acesso fosse fcil -, naquele
avio elas j haviam sido dispostas em trs pontos diferentes.
No incio, logo aps o Boeing ter chegado da companhia americana Seabord, as
mscaras e garrafas foram estocadas junto ao teto da cabine da classe turstica,
dentro do porta-bagagens.
Alguns incidentes, escapes acidentais de oxignio, fizeram com que se buscasse
um local menos exposto a manipulaes.
O material foi ento colocado atrs da ltima fila de poltronas, perto assoalho,
ao longo da galley traseira. Mas esse local era igualmente imprprio costumava
ser usado por passageiros para guardar bagagens de mo.

Por fim, a companhia decidira confeccionar um depsito gradeado,
tro do porta-cabides, onde colocou os conjuntos mscaras/garrafas.
Em meio ao corre-corre do pessoal de servio, Trajano, tomado de es tranho
poder de premonio - e a despeito de os comissrios terem pedi que todos
permanecessem em seus lugares -' erguera-se de seu assento,



64




RG-820 - Uma Cmara de Gs




acompanhara atento a movimentao na cauda, pegara sua maleta no
iro em cima da poltrona e fugira para a frente.
      ~Na cauda, os tripulantes se dividiram. Heleno e Mascarenhas conti--
e       procurando as mscaras, tossindo muito e usando panos molhados
o     iz. Diefenthaler, Galetti e Carmelino decidiram ir buscar mscaras kpit.
Vepois da rpida passada avisando os passageiros, Tersis e Coelho tam-ram para a
frente. Procurando manter a calma, Coelho seguiu at a
dianteira, tomou de um pano e ps no nariz. J ia sentar-se no tambo-galley
quando viu Balbino, mais  frente,  esquerda, no corredor de com o rosto
desprotegido. Coelho pegou outro pano, deu alguns pas-direo ao colega e o
atirou para ele.
Bota a no rosto - gritou.
ersis, que obtivera um guardanapo molhado com Galetti, juntara-se a
o. Passaram a ocupar os bancos junto  porta principal, sentados de para o
cockpit. Como o incndio l atrs se desenvolvia com rapidez, iro de plstico
queimado comeava a chegar ali. Balbino, muito agita-sentava, ora levantava e ia
dar uma olhada em direo  cauda. o cockpit, a tripulao tcnica trabalhava
febrilmente. Fuzimoto pilo-ilberto se encarregava da fonia e distribua ordens.
Os demais toma-rovidncias as mais diversas.
s manuais de segurana dispunham sobre os procedimentos em caso aa. Mas eram
instrues minuciosas, que demandavam tempo. Ha-ersos estgios: se h fumaa,
faa isso; se no der certo e persistir, faa
- e assim por diante. Nada que se pudesse cumprir ao p da letra em um incndio.
ntre as medidas prescritas no manual, os aviadores passaram a tomar as es
pareceram mais adequadas naquele momento, no necessariamente em explicitada no

livro. Foram coerentes, levando-se em conta a gravi-portada e a proximidade do
aeroporto.
despressurizao, que vinha sendo feita gradualmente desde que o ~ciara a
descida, foi imediatamente concluda atravs da abertura da
     de ou~[low. Com isso, as presses internas e externas foram equaliza-uma
das janelas se rompesse, no haveria descompresso sbita, que
sugar pessoas para fora do avio.



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Caixa-Preta

66




RG-820 - Uma Cmara de Gs




d     - Temos um incndio total a bordo.
da   Audren pediu mais esclarecimentos.
1a,   - Totalfire on board- limitou-se a dizer Gilberto. - Totalfire on tn- d-
repetiu. Disse-o no exato momento em que o forte odor de plstico
imado invadiu o cockpit.
Js   - Continue descendo para o nvel 20 (2 mil ps), desconsidere instru-o
anteriores e prossiga na direo leste, para aterragem de emergncia na
- Audren no perdeu tempo.
ta   Ir para a pista 07 significava um percurso muito menor para o Varig,
no necessitaria fazer todo o contorno do trfego.
re   - - Positivo - acusou Gilberto.
A torre mudou o alerta de verde para vermelho, que significava "risco de trofe
iminente". Tendo determinado que o Varig 820 se dirigisse  pista era preciso
agora parar todas as operaes na pista 25 (cabeceira oposta 
ir   Do contrrio, haveria uma coliso.
Outras providncias urgentes foram adotadas por Orly. Todas as
e     que taxiavam em direo  cabeceira, para decolagem, foram orientadas
em paradas ou desviadas para outros pontos do aeroporto. No ar, di-s aparelhos
que se aproximavam de Orly foram instrudos a se afastarem
r     rea e circular. Pousos e decolagens foram suspensos. Os bombeiros tece-
instrues para jogar espuma de gs carbnico na pista 07-25. Na
alguns controladores, usando telefones, suspenderam todas as ativida-no solo,
inclusive embarque e desembarque de passageiros, transporte de

ens e abastecimento de aeronaves.
Na cabine de comando do PP-VJZ, Gilberto, Fuzimoto, Basso, Zilmar launor puseram
mscaras de oxignio e culos antifumaa. O oxignio mscaras do cockpzt foi
aberto a 100%. O piloto automtico foi desliga-A pilotagem passou a ser feita
manualmente. Utermoehl, que continuava de p, equipou-se de um kit porttil
mscara/garrafa.
Mas os pilotos se esqueceram de girar para a posio "mascara~' o seletor
microfone. No puderam mais transmitir mensagens  torre nem emitir unicados aos
demais compartimentos do avio.
Embora os tripulantes do cockpit estivessem usando mscaras de oxig-o
comandante no mandou baixar as dos passageiros, quatro para cada po de trs
poltronas. Ao contrrio das mscaras dos tripulantes, que rece-67
7
Caixa-Preta




biam oxignio puro, as destinadas aos passageiros expeliam uma mistura de
oxignio puro e ar ambiente, naquela ocasio impregnado de fumaa. Essas
mscaras eram usadas apenas nos casos de despressurizao sbita acima de 10 mil
ps, ocasio em que caam automaticamente. As normas de segurana eram claras a
respeito: no podiam ser usadas em caso de fogo.
A fumaa tomara conta da galley dianteira e do corredor da porta de sada, onde
Trajano, de p, com o ombro encostado numa das divisrias, usava as mos em
concha  guisa de mscara.
Perto dele, Balbino levantou-se de sua banqueta, deu um passo at o corredor e,
mais uma vez, olhou para trs. Assustou-se ao ver roios de fumaa minando do
teto e descendo sobre os passageiros. Estes continuavam estticos em suas
poltronas. Pareciam tentar proteger-se da fumaa usando apenas os braos, as
mos e o pano das roupas. Balbino foi at a porta e olhou pela escotilha. Pde
perceber que o avio j estava perto, quase chegando. Voltou a sentar-se,
dividindo-se entre o terror e um fio de esperana.




68

Captulo 8




4
 a cauda do Boeing, a situao tornava-se insustentvel. A comiss-ria Elvira
Strauss, ainda sentada em sua poltrona na ltima fila,
lutava para no perder a conscincia. Prximos a ela, Heleno e carenhas, de p
na rea da galley, portavam extintores e se protegiam com s molhados.
Com exceo de Trajano, que fugira para a frente, os passageiros perma-
iii em seus assentos, atados pelos cintos de segurana, cumprindo rigo-mente as
instrues dos comissrios. Mesmo porque o terror os paralisa-Los poucos, os que
estavam mais atrs iam perdendo a conscincia, into-s pelos gases desprendidos
pelo incndio.
Vendo que nada podiam fazer sem mscaras e que, a qualquer momen-iriam tambm
desfalecer, Heleno e Mascarenhas decidiram bater em reti-~a. Era impossvel
permanecer mais tempo na cauda.
Em meio  fumaa, Elvira pde ver os dois vultos passando em direo
parte dianteira. Decidiu ir atrs deles. Ergueu-se do assento com dificulda-
,prendeu a respirao e saiu tateando os encostos das poltronas.
L na frente, Diefenthaler, que equipara a si prprio e a Carmelino com
Lscaras e garrafas portteis, sara do cockpit com o comissrio para tentar
uma vez combater o incndio ou, caso isso no fosse possvel, abrir as
elas de emergncia sobre as asas, uma vez que o avio fora despressurizado.
Ao sair da cabine, viram Balbino e Tersis sentados nas banquetas junto
portas de sada, com panos no rosto. Balbino petrificara-se de terror.

69

Caixa-Preta




Tersis, que fora um dos primeiros a travar contato com a fumaa, tinha o olhar
esbugalhado e parecia estar se sufocando.
Logo adiante, no lado direito da aeronave e, por conseguinte,  esquer-da de
Carmelino e Diefenthaler, Coelho permanecia sentado no tamborete da galley,
perto da porta de comissaria, o corpo curvado. a cabea baixa. A dois passos
dele, Galetti, de p no corredor, olhava em direo aos fundos do avio, onde
uma muralha de fumaa o impedia de ver qualquer coisa.
No cockpit, o mecnico de vo Claunor Bello continuava acreditando que a fumaa
se devia a uma pane eltrica, hiptese das mais crveis. Resolveu desligar os
circuitos eltricos de todos os banheiros. Bello tinha em mente desativar o
circuito de aquecimento d'gua, especialmente crtico em razo de sua potncia e
porque passava pelo interior do depsito de papis usados.
Poucos minutos haviam se passado desde o aparecimento do primeiro foco de
fumaa. Durante esse tempo, a comissria Andre Piha permanecera num dos
banheiros de primeira classe (dentro do qual no havia o menor sinal de fumaa),
arrumando-se para o pouso. Mas, quando o mecnico cor-tou a energia eltrica dos
banheiros, Andre se viu no escuro. Imediatamente abriu a porta. Deparou-se com
Carmelino usando uma mscara. Pensou que ele estivesse se sentindo mal. S ento
ela percebeu a fumaa que vinha da cabine de passageiros, onde no dava para se
ver ningum. Mas viu Ricardo Trajano~ que se sentara no cho do corredor, perto
de onde ela estava.
Andre sentiu que o avio descia num ngulo muito acentuado e com velocidade
acima da normal. Quase que por instinto, ela correu para o cock. pit. Galetti,
que desistira de tentar mais alguma coisa para extinguir a fumaa entrara um
pouco antes.
Diefenthaler e Carmelino ainda pensavam ser possvel evitar uma cats trofe.
Procuravam chegar at as janelas de emergncia do Boeing, situadai sobre as
asas, para abri-las, quando viram Heleno e Mascarenhas surgindo di meio da
fumaa, como dois espectros, tendo ao rosto panos. Vinham do~ fundos do avio e
portavam extintores.
Valendo-se das mscaras, o mecnico de vo e o comissrio passaratr por eles e
seguiram adiante. Atravessaram a primeira classe e penetraram n~ cabine
turstica. Logo depararam com Elvira cada no cho. No se detiveran para
socorr-la. Era preciso abrir as janelas de qualquer maneira. Mas nc foram
muito adiante. O quadro  frente deles era aterrador.

70
'

RG-820 - Uma Cmara de Gs




O Varig 820 transformara-se numa sucursal do inferno.
O fogo, antes limitado aos papis da lixeira e aos fios eltricos dos ba-iros da
cauda, lambera o tubo de borracha que alimentava a ventilao do redor central.
Finalmente, o tubo se rompera. A fumaa agora descia do do corredor em rolos
negros e espessos. Invadira a cabine de passageiros, enrolando-se de trs para a
frente como um manto de morte. A pequena mba de cigarro transformara o material
usado na decorao do PP-VJZ combustvel de uma cmara de gs.
A natureza do teto falso da aeronave, em plstico moldado, favorecia a ida
expanso do incndio. Pior: o revestimento do Boeing, ao entrar em itato com o
fogo, produzia xido de carbono, anidrido carbnico, cido rdrico e cido
fluordrico. Ao respirar esses gases venenosos, os ocupantes PP-VJZ sentiam uma
sbita e fortssima dor de cabea, seguida de nu-s, vertigens e convulses.
Perdiam a conscincia em segundos.
Os passageiros do vo da morte tombavam sobre si mesmos, em filas seis, sem
esboar qualquer tipo de reao, em meio a um silncio quase e total. Ouvia-se
no mais que exclamaes, fragmentos de preces, d-is gemidos.
O RG-820 enfrentava uma corrida de vida ou morte contra o relgio. esmo com o
trfego liberado, e com a mudana para a pista 07, faltavam
ida alguns minutos para a aterragem.
As pessoas eram imobilizadas ao primeiro sorvo dos gases. Caso contr-
~ seria improvvel que 116 dos 117 passageiros tivessem permanecido em
is lugares, como efetivamente ocorreu.
Na classe turstica, havia diversos homens acostumados  ao e ao peri-
o major-aviador Neves; o ex-piloto de corridas Antnio Scavone; o
lo de iatismo Joerg Bruder; o guerrilheiro argentino Joe Baxter. E nenhum
~cs esboou qualquer gesto para fugir do inferno.

~rmoehl simplesmente no conseguira ficar na cabine de comando, saben-que a
namorada podia estar em dificuldades l atrs. Ele no estava sendo nenhuma
utilidade ali, pois Alvio Basso ocupara seu posto. J havia pilo-demais. Por
isso, pouco depois que Galetti e Andre se juntaram aos idores no c~ckpit,
Utermoehl saiu, com sua mscara porttil, em busca de



71



Caixa-Preta




A duras penas, Heleno e Mascarenhas haviam conseguido chegar  r
da gal/ey dianteira. Heleno, sempre protegendo o rosto, meteu-se num do
banheiros da primeira classe.
Mascarenhas ficou parado alguns segundos, avaliando a situao. Con cluiu que de
nada adiantava ficar ali. Decidiu voltar  cabine de passageir para abrir pelo
menos uma das janelas sobre as asas. Gritou para os cole que iria tentar fazer
isso e desapareceu, em meio  fumaa, na classe tursti onde o silncio indicava
que no havia mais ningum consciente.

A pista de Orly distava ainda mais de 20 quilmetros, uma insignificn-cia se
comparados aos 10 mil que o RG-820 percorrera desde a decolagem n Rio, uma
imensido para aqueles homens e mulheres, indefesos, convulsos, debruados uns
sobre os outros.




72
'

Captulo 9




cuados entre o cockpit e a primeira classe, Tersis, Balbino, Coelho e o
passageiro Ricardo Traj ano aguardavam em agonia que o Boeing aterrasse em Orly.
Nenhum deles, com exceo de Trajano, tinha
lo de viso para enxergar a cabine de passageiros. Mas, mesmo se o tives-nada
veriam. Depois de tomar conta da classe turstica, a fumaa negra
gajosa invadira a cabine da primeira. Parecia minar do teto e dos compar-entos
de bagagens sobre as poltronas.
Mascarenhas, que tentara alcanar as janelas de emergncia, no conse-ra ir
muito longe e desmaiara.
No toalete dianteiro, onde o navegador Heleno buscara abrigo, a fuma-
quase no penetrara. Sentado no vaso sanitrio, ele se limitava, em deses-
o     rosto envolto no guardanapo, a esperar o avio pousar, bater ou at
explodir, desfecho este cada vez mais previsvel.
Na cabine de comando, o chefe de equipe Galetti e a comissria Andre, r falta
de lugares, permaneciam de p, curvados atrs dos pilotos e apoian-se com as
mos nos encostos das poltronas dos aviadores. Eram agora sete pessoas no
cockpit, duas a mais do que a lotao do compartimento. Como portavam mscaras,
Galetti e Andre respiravam com extrema dificulda-Ardiam-lhes os olhos e
pulmes.
Enquanto isso, na cabine turstica, quase ningum se movia. As exce-
     ficavam por conta de Diefenthaler e Carmelino (equipados de mscara, ainda
lutando para chegar at as janelas de emergncia), alm de Utermo-73
Caixa-Preta




'   ehl, que, tambm de mscara, procurava Elvira. Os passageiros encontravam-
se fora de ao.

Um avio em vo  uma cpsula - hermtica como uma ampola - na qual um incndio
 uma das piores coisas que pode acontecer. Consome o oxignio, a carga mais
preciosa que uma aeronave leva em seu bojo. No Varig 820, alm de o ar estar se
esgotando rapidamente, consumido pelo fogo, os gases venenosos tomavam seu
lugar.
Na classe turstica, alguns passageiros, prximos  cauda, comeavam a morrer.
No se ouviam gritos. Nem gemidos. Escutava-se apenas o silvo es-tridente das
quatro turbinas.
Na primeira classe, a densidade dos gases ainda no fora suficiente para matar
ningum. Mas, pouco a pouco, os passageiros tombavam desmaiados. Tal como
ocorrera na classe turstica, nenhum deles se levantou para tentar escapar do
inferno, tal a rapidez com que foram imobilizados pelos gases letais.
Perto da gaUey dianteira, Balbino se desesperava. Ao seu lado, Tersis, cuidando
de manter a cabea baixa, procurava manter o autodomnio en-quanto apertava o
pano molhado contra o rosto.
Ricardo Trajano tinha certeza de que ia morrer. J no enxergava nem as prprias
mos, nas quais podia sentir a borra desprendida pela fumaa. Mas,
surpreendentemente, conformara-se. Mantinha-se calmo. Os pais, a irm, os
parentes e amigos comearam a desfilar por sua mente, enquanto ela se apagava.

Pde ver sua vida em reprise, como num videoteipe acelerado. E foi perdendo as
foras. O corpo escorregou devagarinho para o cho, suas mos pararam de
proteger o rosto. Mas, sem que tenha se dado conta disso, suas narinas passaram
a inspirar o ar menos contaminado que flua pouco acima do tapete.
Na cabine turstica, Diefenthaler e Carmelino j estavam quase atingin-do as
filas de poltrona sobre as asas, onde se encontravam as janelas de emer-gncia,
que pretendiam abrir para escoar a fumaa. Mas trs flashes espouca.
na cauda, ao explodirem as garrafas de oxignio dentro do porta-cabides,
justamente aquelas que no haviam sido localizadas pelos tripulantes no mi. cio
do incndio. As tais que viviam mudando de lugar.
Carmelino foi lanado ao cho pelo deslocamento de ar. Na queda, seu conjunto de
mscara e garrafa soltou-se e caiu. Conseguiu recuper-lo, mas se



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m




RG-820 - Uma Cmara de Gs




~apalhou ao tentar equipar-se novamente. Tendo em mos o apetrecho, !antou-se,
prendendo a respirao. Fez um gesto de desespero para Diefen-aler, apontando
para a frente do Boeing. Era preciso fugir dali o quanto tes.
Iniciaram o percurso de volta  cabine, tateando as poltronas. Esbarra-Ir" em
Elvira, depois em Utermoehl, que se obstinava em achar a namora-m. Atravessaram
a primeira classe. Sem respirar, Carmelino sentia o pul-mo prestes a explodir.
Largou a mscara e a garrafa no cho. Foi direto ira a cabine de comando. Abriu
a porta e entrou, no que foi seguido pelo mecnico.
No cockpit, o comandante Gilberto se assustou ao ver entrar mais gente.
- Fecha a porta, tranca, tranca! No entra mais ningum. Fecha isso a! ~-
berrou, olhando para trs por sobre o ombro esquerdo. Se todo mundo
tsolvesse ir para a cabine de comando, seria impossvel pilotar o avio.
Diefenthaler encarregou-se de trancar a porta.
Eram agora nove os tripulantes dentro do cockpit, cinco sentados em ~us postos,
com os cintos afivelados, e quatro de p, sem nenhum tipo de ~oteo. Se o 820

porventura fizesse um pouso acidentado em Orly, com ina desacelerao sbita, os
que estavam de p se chocariam com os colegas pritados  frente.
Embora uns mais e outros menos, 13 dos 17 tripulantes do RG-820
~viam conseguido se refugiar da fumaa: nove na cabine de comando, trs
~ rea da galley dianteira e um no banheiro de primeira classe.
Restaram apenas quatro na cabine de passageiros: Utermoehl, Elvira,
~anelore e Mascarenhas, todos desacordados.
Se a maioria dos tripulantes ainda lutava para sair com vida, os passage-os,
exceto Trajano, encontravam-se em seus lugares, abandonados,  merc
~ salve-se-quem-puder que imperava a bordo do Varig 820.
Mas, mesmo no cockpit, a situao tornava-se insustentvel. Como a orta j fora
aberta muitas vezes, entrara muita fumaa. Os que se encontra-ii" sem mscaras
comeavam a sentir seus efeitos. Os pilotos j no conse-~iiam ver os
instrumentos. E mais fumaa continuava penetrando - agora da fresta inferior da
porta -, oleosa, viscosa. Colava nos vidros das janelas nos instrumentos do
painel.
O Varig 820 perdia sua luta contra a morte.



75
Caixa-Preta




r     Gilberto e Fuzimoto, entretanto, eram profissionais muito experimen tados.
Voavam desde a poca dos Douglas DC-3 - pequenos bimotores d

asa baixa e trem de pouso convencional - que, aps o fim da Segunda Guer ra
Mundial, as companhias areas brasileiras haviam adquirido s dzias (com sobras
de guerra).
Naqueles tempos pioneiros, ao se aproximar, em meio ao mau temp para aterrissar
em campos de pouso do interior do Brasil - lugares sem
dio, torre de controle ou qualquer infra-estrutura de apoio -, no raro e
preciso "ciscar" (era esse o termo que os aviadores usavam) em busca do cam po,
olhando em meio  chuva, perscrutando um buraco nas nuvens. E n raras vezes
haviam feito isso juntos.
Agora, 20 anos depois, s lhes restava novamente improvisar, ciscar como se
estivessem num velho DC-3 contornando estratos, desviando-se d morros,
procurando o campo de pouso. S que desta vez no enxergav absolutamente nada 
frente do pra-brisa.
Restava, como ltimo recurso, abrir as janelas do coc/epite pilotar com cara do
lado de fora, algo que jamais fora tentado num 707.
Depois de trocar sinais aflitivos, Fuzimoto e Gilberto foraram suas res
pectivas janelas, para trs, pelos caixilhos. Antes tiveram de soltar seus cinto
dos ombros, ficando apenas com os cintos inferiores, que os prendiam ao
assentos.
Quando as janelas se abriram, a cabine foi brutalmente invadida pel som
estridente das quatro turbinas, ao qual se misturou o rugido do vento.
Logo perceberam que pilotar era uma tarefa prxima do impossvel. Estando a
velocidade em quase 200 ns (370 quilmetros por hora), os pilo-tos, embora
usassem culos protetores, no podiam esticar o pescoo para o lado de fora e
olhar na direo da proa do 820, onde estava Orly. O desloca-mento de ar, que
pressionava suas nucas contra o sulco vertical do encaixe das janelas, era muito
forte. Os dois tinham de se contentar em olhar para os lados e para a vertical
do aparelho, e guiar-se pelo terreno abaixo que, feliz-mente, lhes era familiar.
Entre tantas dificuldades, contavam apenas com um ponto a favor: a excepcional
visibilidade daquela tarde de vero.

O     barulho das turbinas, alm de abafar as vozes dos aviadores, impedia-lhes
de ouvir a torre, com a qual j no conseguiam falar porque no haviam colocado
na posio "mscara" a chave seletora de microfones.



76




RQ-820 -Uma Cmara de Gs




Em Orly, o controlador de aproximao Claude Audren continuava
~do instrues ao Varig. Mas, como no recebia respostas, no sabia se os
~tos o escutavam ou no.
O ambiente na torre era de grande tenso. Christian Megret, que fora o meiro a
falar com o PP-VJZ, e diversos controladores acompanhavam o ai do transponder
(sinal de rdio emitido pelos avies, que identifica cada nas telas de radar) do
RG-820 em seus monitores. O supervisor da torre ntinha-se em contato com o Corpo
de Bombeiros e com o Servio de istncia Mdica do aeroporto, informando-os
sobre o posicionamento do ~ing. As equipes de resgate se dirigiam a toda
velocidade para a cabeceira
D7.
No cockpit do PP-VJZ, os tripulantes que no dispunham de mscaras icficiaram-se
enormemente do turbilho provocado pelas janelas abertas. ~ar do terror, os nove
ali dentro mantinham-se lcidos e despertos. Os estavam de p seguravam-se de
qualquer maneira, apoiando-se uns nos ros, em meio  fumaa e ao barulho
ensurdecedor.
Mesmo em posio de desequilbrio, Diefenthaler encontrou foras e
no para ajudar seu colega mecnico Claunor Bello, que lia e dava cabo da
~minvel checklist de procedimentos previstos em caso de incndio.
Era preciso cuidar dos rels de linha e de acoplamento, do bus essencial,
nterruptor da bateria, de dezenas de disjuntores, desligar o condiciona-ito de
ar, operar as vlvulas de recuperao do empuxo, cortar os ventila-~ de ar
individuais, cuidar dos turbocompressores, das vlvulas de isola-to dos tanques
(cada motor e cada tanque em sua vez) e de diversas ou-providncias.
Enquanto Fuzimoto pilotava, Gilberto comandou 14 graus de flapes e riou o trem
de pouso. Imediatamente sentiu-se a trepidao do atrito das s, que saam de
seus compartimentos, com a corrente de ar que flua sob onave. A potncia foi
reduzida e o freio aerodinmico aplicado, aumen-o a razo de descida e, ao mesmo

tempo, reduzindo a velocidade do 707. Dentro do banheiro da primeira classe onde
o navegador Heleno se
rara, os gases venenosos haviam penetrado por debaixo da porta. Mesmo
D um pano no rosto, Heleno aos poucos perdia a conscincia.
A abertura das janelas do cockpit fora benfica aos tripulantes que esta-
nagalleye junto  porta principal, assim como a Trajano. Passou a correr



77



Caixa-Preta




um pouco de ar pela fresta da porta da cabine de comando, ventilando o ambiente.
No demorou muito e aqueles homens acuados perceberam que, man-tendo-se
abaixados, era possvel respirar melhor.
Mas Balbino perdera as esperanas de escapar com vida. Tirou o
do rosto e comeou a chorar. E a gritar:
-     No vai dar tempo, ns vamos morrer.
Um deles berrou:
-     Calma, pega seu pano, bota no rosto.
- Ns vamos morrer, todos queimados - Balbino voltou a gritar. desafivelou o
cinto, levantou-se, ergueu a cabea em meio  fumaa.
-     Senta, senta - disse um outro. Srgio Balbino jamais respondeu.




78



Caixa-Preta

Dessa maneira, podia programar com mais eficincia e rapidez as opera de
reabastecimento, assim como saber exatamente a hora em que os avi iriam pousar.
Naquela tarde, quando o comandante Gilberto informou  torre sob
o     surgimento da fumaa, o operacional da Varig, que ficava atrs do bal -
da empresa, tambm soube da emergncia. Mas seus funcionrios no 
nham a dimenso real da tragdia que ocorria no ar. Como suas janelas
vam para a pista, aglomeraram-se junto a elas na esperana de ver o 707 az
e branco surgir no horizonte e pousar.
A uma centena de passos dali, no saguo do aeroporto, ningum sab de nada. Junto
 sada de desembarque dos diversos vos, amigos e parent dos passageiros do
Varig 820 anteviam prazerosos os rostos amigos, que log~ surgiriam nos portes.
No era isso o que os esperava. No Boeing, os rolos de fumaa negr~
que continuavam a cair do teto como cascata macabra, faziam mais e maij
vtimas.
No corredor de sada, Ajam Tersis mantinha a mo direita na alavanc~ de abertura
da porta principal, pronto a abri-la to logo o avio pousasse
Orly. No via nem ouvia os passageiros, que julgava mortos. Preocupava-s4 em no
aspirar a fumaa, apertando, com a mo esquerda, o pano mid~ contra o rosto.
No cockpit, os tripulantes continuavam lutando. O incansvel Diefen thaler
permanecia ao lado de Claunor Bello. Os dois cortaram os alternado res 1, 2 e 4,
para diminuir o perigo de centelhas e, assim, evitar propaga ainda mais o
incndio. Deixaram a barra de distribuio essencial conectad~ apenas no
alternador n~ 3. Pequenas providncias como aquela, previstas n manual, pareciam
coisas inteis quela altura dos acontecimentos. Mas ele procuravam seguir o
regulamento at onde pudessem, conseqncia do trei namento a que tinham sido
submetidos.
Bello encontrava-se atado  poltrona pelo cinto de quatro pontas. Die fenthaler
trabalhava de p. Como o barulho do vento e das turbinas era in tenso, os dois
se comunicavam por sinais ou gritando diretamente no ouvidc um do outro. As
vezes trocavam olhares angustiados.
Apesar das janelas abertas, e do turbilhonamento que vinha de fora,
fumaa negra e viscosa tomara conta do interior do cockpit. Os aviadores n



80




RG-820 - Uma Cmara de (ias

~rgavam o pra-brisa, muito menos alm dele. No viam os instrumentos os
controles. No ouviam a torre. Gilberto enviava mensagens a Orly, saber que os
controladores de vo no o escutavam.
Como no via os instrumentos, e no recebia orientao externa, Fuzi-~ pilotava
por instinto, como se estivesse num bombardeiro severamente gtdo por fogo
antiareo.
~A   mo esquerda, no manche, controlava os aiierons e o leme profundor. nos
pedais, acionavam o leme de direo. A mo direita, bem aberta,
a de um pianista executando uma oitava, controlava as manetes de



Kom a visibilidade horizontal cada vez mais restrita, a chance de chegar ye
efetuar um pouso seguro tornava-se menor a cada segundo. Talvez ivessem a menor
condio visual e, muito menos, tempo para isso. Os es de combustvel poderiam
explodir a qualquer momento, ou o fogo  cabine de comando e coloc-los fora de
ao, o que daria na mesma.
a, tambm, haver uma pane estrutural irreversvel, como a perda de asa ou
ruptura de uma superfcie de comando, hiptese em que o jato ncaria sobre a
cidade.
Mesmo que mantivesse a dirigibilidade do avio, Fuzimoto sabia que ing 707, com
suas mais de 100 toneladas, no era uma aeronave que
ia pousar num pasto ou num bosque, quanto mais numa rea densa-
     povoada como a de Paris. Era preciso chegar a (5rly, custasse o que
e.
avia outros complicadores. Uma coisa seria chegar ao aeroporto. Ou-
     alinhar o avio com a pista, com praticamente nenhuma visibilidade, ~o
arredondamento e pousar.
udo indicava que o RG-820, de uma maneira ou de outra, explodindo ou se
espatifando no cho, caminhava para uma morte certa. Nos dos, Fuzimoto sabia
disso. Ao seu lado, Gilberto tambm sabia. A que se apresentava era mais a de
morrer como um cordeiro, ou mor-do at o ltimo minuto.




81
I

4



Captulo 11




E
nquanto o Varig 820 lutava para alcanar seu destino, na torre Orly - e na sala
IFR, um andar abaixo, de onde se monitorava operaes de vo por instrumento -
diversos operadores haviam
dirigido s vidraas para ver o pouso.
J era possvel enxergar o Boeing, ao longe, lanando uma esteira fumaa em sua
cauda, voando num nvel mais baixo do que seria de se de jar. Por sua

trajetria, vertical e horizontal, o RG-820 no parecia mais di gir-se a pista
07, nem mesmo a Orly.
Na sala da Varig, os funcionrios tambm acompanhavam angustial os ltimos
momentos do vo.
No saguo de passageiros, Grard Leclry olhou o relgio de pulso. P~ sava das
15 horas. O painel de aviso mantinha a confirmao de chegada p~ 15:00. "Deve
estar pousando", pensou Grard. Em meia hora, no mximo esfuziante Regina
surgiria no porto de desembarque.
Grard no tinha como saber que isso jamais aconteceria. A oito quil metros, e
dois minutos de vo, dali, o brilho dos olhos verdes de Regii Rosenburg Leclry
se extinguia para sempre.
Dez passos  frente de Regina, Trajano tinha a ntida impresso de qi o avio
descia num ngulo muito acentuado. Seu corpo escorregou para frente. Chocou-se
contra a porta da cabine.
Alain Tersis, sentado de costas para o nariz do Boeing, tambm pero bera o
mergulho. Totalmente lcido, pois no se descuidara do pano no ro. to, o francs
viu-se caindo de costas, os ps projetados para cima.

82




RG-820 - Uma Cmara de Gs




No cockpit, apesar das janelas abertas, a fumaa negra tornara-se insu-~vel.
Galetti, Carmelino e Andre, sem mscaras, sentiam seus pulmes urando.
Algum arrancou a mscara de Claunor, mas ele no viu quem foi. Sen-~penas o
safano no rosto. Zilmar tambm no soube quem puxou a dele.
Privado da mscara, Claunor percebeu que no iria resistir e que des-ana a
qualquer momento. Desapertou o cinto, levantou-se, apoiando-se adeira, ps a
cara perto da janela e respirou fundo. S ento voltou a dar-se. Ouviu quando
algum comeou a gritar:
- Comandante, pouse em qualquer lugar, pelo amor de Deus. Todos
O morrendo. Joga o avio no cho, joga esta merda no cho. Joga o avio
cho. No vai dar mais. Est todo mundo morto l atrs. No d mais.
~ o avio no cho.
Ouviu tambm quando outro pressagiou:
- Ns vamos morrer. Ns vamos morrer.

Jogar um grande jato no cho para escapar de um incndio  quase ~io atirar-se
de um prdio em chamas. Esse tipo de pouso forado havia ~ tentado pouqussimas
vezes, desde que os primeiros jatos de passageiros ~iearam a voar, nos anos 50.
Quase sempre com resultados desastrosos. ~-lo sem enxergar quase nada, beirava o
suicdio.
Talvez desse para Fuzimoto chegar a Orly. Ou, quem sabe, o Boeing
aexplodido no ar, antes disso. Poderiam tambm chegar e no ver a pista.
~erto  que o piloto optou por pousar no primeiro canto disponvel.
Faltavam agora sete quilmetros, menos de um minuto e meio, para o ino. Foram
cumpridos 99,9% do percurso.
Tendo descartado o pouso em Orly, Fuzimoto empurrou o manche para nte, reduziu a
potncia das turbinas e tratou de perder altura. Precisava ntrar um lugar para
pousar. Mergulhou o Boeing em direo ao solo.
Mesmo sabendo que pousariam fora da pista, os pilotos do 820 no atam em
recolher o trem de pouso. As rodas serviriam para amortecer os eiros impactos
contra o solo.
O avio sobrevoava uma regio de pequenas culturas do cinturo verde anis, ao
sul da localidade de Palaiseau, a sudoeste do aeroporto. Voava na a1 230 da
cabeceira 07 de Orly.
O pnico~ a gritaria e o desespero no cockpit se generalizaram. Todos riam ir
logo para o cho, fosse onde fosse, da maneira que fosse.

83
n



Caixa-Preta




Fuzimoto no deu mais ateno aos gritos, nem mandou que ficassei quietos. Muito
menos teve tempo de sentir medo. Era apenas um aviadd pilotando seu avio,
enquanto tinha foras e lucidez para faz-lo. Espichand a cabea, observava,
atravs dos culos antifumaa, a regio  esquerda d aeronave, nica que seu
limitado campo de viso permitia enxergar. Hav~ uma auto-estrada, correndo
paralela ao eixo da aeronave, que seria precii evitar a todo custo. No h como
pousar um Boeing 707 numa estrada che de veculos.
Ao seu lado, Gilberto observava a regio  direita, onde uma outra aut~ estrada
corria em diagonal  trajetria do avio. Tal como Fuzimoto, o ma ter prestava
ateno aos campos de cultura, nicos locais onde o Boeing ter alguma chance de
esparramar-se com sucesso. Havia diversas redes eltrica que tambm tinham de
ser evitadas de qualquer maneira. Um choque cont uma delas representaria a morte
de todos.
Basso e Claunor, que ocupavam os assentos logo atrs dos comanda tes, no
enxergavam absolutamente nada. Mesmo equipado de mscara, B~ so tinha
dificuldade para respirar. Tentou colocar a cabea para fora, por ti da de
Fuzimoto, mas a turbulncia do vento era muito forte e ele no con~ guiu.
Zilmar, um pouco mais atrs, limitava-se a aguardar os acontecime tos, agoniado,
os braos apoiados na mesa de trabalho, onde os mapas
tinham mais nenhuma utilidade.
Diefenthaler estava de p, entre Claunor e Basso. Galetti e Andre er contravam-
se mais atrs, de ccoras, segurando-se um no outro e tentand encontrar apoio na
cadeira de Zilmar. Carmelino colara as costas na porta d cockpit, o que de nada
lhe serviria na hora do choque com o solo, pois 2 inrcia o impeliria para a
frente.
Nessa situao precria, os nove ocupantes da cabine do PP-VJZ aguar-davam o
desfecho do vo 820. Todos sabiam que, assim que o avio se cho-casse com o

solo, os tripulantes que se encontravam soltos na parte posterior do cockpit se
chocariam com os colegas sentados e afivelados  frente.
Em emergncias como aquela, o piloto escolhe muito mais o local
onde no vai pousar do que propriamente aquele em que vai pousar. Age por
eliminao.
O avio agora voava rasante. Sincronizando ps e mos, Fuzimoto, sem-pre atento
ao curso da estrada ao lado, imprimiu maior potncia nas turbinas



84
1
t




RG-820 - Uma Cmara de Gs




im de evitar um aglomerado de casas e, com um rpido golpe para trs do
inche, escapou de uma rede de alta-tenso.
No corredor de sada, Tersis pde perceber, pela picada forte, que o ntato com o
solo iria ocorrer a qualquer momento, embora no soubesse se Boeing tinha
conseguido alcanar Orly ou se iria fazer um pouso forado. anteve a cabea
baixa e o pano colado ao rosto, evitando, na medida do ssvel, a fumaa, que se
tornava cada vez mais escura e espessa. Sentia-se uito fraco.
Perto dele, Trajano, semi-inconsciente, tambm sentiu que o vo estava minando.
O vo e, muito provavelmente, a vida. Do lado direito, na gal-~, Coelho, que
fazia o possvel para respirar atravs do pano que mantinha ~ado ao rosto,
preparou-se para morrer.
Sentado no cho do toalete, a cabea apoiada no vaso sanitrio, Heleno
~maiara. No interior do lavabo, no era possvel usufruir da circulao de ar
ovocada pela abertura das janelas do cockpit.
O Boeing corria paralelo aos carros da auto-estrada e aproximava-se da ~a1idade
de Saulx-les-Chartreux, no setor sudoeste de Orly. Foi ento que ~imoto viu,
pelas janelas laterais, logo aps uma rede de eletricidade, o ~ngulo verde-
amarelado de uma plantao, entre uma colina e uma aldeia. ~iha de ser ali. O
Varig 820 encontrara seu destino.
Fuzimoto trouxe o nariz para cima, deu um pouco de potncia e ultra-psou a rede.
Imediatamente decidiu cortar os motores. Sua mo direita ~ontrou-se com a

esquerda de Gilberto, sobre as manetes. Reduziram a ~ncia das quatro turbinas,
trazendo sincronizadamente as manetes para
como se tivessem ensaiado aquele pouso. Gilberto aplicou o que lhe ~ava de
freios aerodinmicos. Pelas janelas laterais via-se que o cho crescia
~stadoramente.
~     Faltavam cinco quilmetros para a cabeceira 07 de Orly, um minuto sias de
vo.
Vendo que o avio ia bater, Andre e Galetti se agarraram um no outro.
rmelino colocou as palmas das mos para trs, pressionando-as contra a
ti do cockpt.
Na torre de Orly, os controladores junto s janelas perceberam nitida-pte quando
o Varig 820, ao longe, mergulhou em direo ao solo.




85
'




Captulo 12




F
 uzimoto ainda precisou ajustar a trajetria, de maneira a atingir a plan-tao
bem no seu incio e dispor do maior espao possvel.
Assim que o Boeing cruzou o vrtice de duas cercas vivas que demarca-vam uma das
quinas do campo, o piloto elevou o nariz da aeronave. Ao seu lado, Gilberto
desligou os motores e se preparou para o choque. Claunor se apressou em
desconectar o maior nmero possvel de circuitos eltricos. Bas-so e Zilmar
firmaram-se em seus assentos.
Se os tripulantes que estavam sentados e amarrados tinham todos os motivos do
mundo para temer a morte naquele instante, o que no dizer dos:
que se encontravam soltos na cabine? Diefenthaler, Galetti, Andre e Carme-uno
sentiram que chegara sua hora.
O primeiro impacto contra o terreno se deu no trem principal. Apesar do choque,
a desacelerao foi suportvel, mesmo para os que estavam de p. Apenas
Diefenthaler perdeu o equilbrio. Seu corpo se projetou para a frente, sua
cabea chocou-se com violncia contra o teto do cockpit e ele morreu
instantaneamente.
Com o avio rasgando o solo, nada mais havia a fazer a no ser aguardar o
desfecho do pouso forado. Torcer para que a cabine resistisse aos impactos e
para que o Boeing no encontrasse nenhum obstculo pela frente.
Os choques foram se sucedendo, todos por baixo. Em cada um deles, o PP-VJZ
perdeu um pedao de sua estrutura. Primeiro, os trens de pouso, qu~ se soltaram
de seus compartimentos. Depois, as turbinas, arrancadas de sew

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RO-8~O - Uma Cmara de ae




sob as asas. Finalmente, a asa esquerda partiu-se. Mas o charuto da
~m seguiu intacto, arrastando-se pelo terreno, a formidvel inrcia de
'~ de 100 toneladas impelindo-o para a frente como um torpedo.
A cabine teria chegado intacta ao final da plantao, onde parou ao cabo
metros de arrasto, no fosse uma rvore postada em meio s hortali-galhos
perfuraram o nariz do Boeing, um pouco abaixo do pra-
esquerdo, destruindo o radome (compartimento do radar), atingindo
instrumentos de bordo, ferindo Gilberto na cabea e no maxilar, fra-um brao e
uma perna de Fuzimoto e rasgando uma das mos do
-comandante.
O bico do avio parou a menos de dez metros de uma vala de irrigao, da horta,
como se a aeronave tivesse sido calculadamente freada.
Vivos! Os tripulantes do cockpit, com exceo de Diefenthaler (o nico
os 134 ocupantes do Varig 820 que morreu em conseqncia da que-
deram-se conta de que estavam vivos, alguns feridos, quase todos intoxi-mas
vivos.
Do outro lado da porta do cockpit, os comissrios Tersis e Coelho, que
sentido nas entranhas cada sacolejo do pouso, perceberam nitida-que o avio
parara. E que haviam sobrevivido.
Tersis, sempre com a toalha no rosto, entreabrira a porta principal antes
de o avio se imobilizar. E pde respirar uma lufada de ar puro que
de fora.
Trajano (que chegou a perceber quando o avio tocou o solo) e Balbino
vam-se desmaiados na rea da galley dianteira. Perto deles, no interior
dos banheiros, Heleno tambm se encontrava indefenso, sem sentidos.
Nas cabines de primeira e turstica, onde a fumaa pegajosa continuava
do teto, a maioria dos passageiros, embora sem sentidos, ainda vivia.

87




Captulo 13




A
pesar das avarias na fuselagem e da perda de metade de uma das asas, sob o
aspecto tcnico o pouso do PP-VJZ foi extremamente bem-sucedido. Sem exagero,
perfeito. Antnio Fuzimoto realizara
das mais difceis aterrissagens foradas da histria da aviao comercial. Nos
ltimos metros da corrida no solo, o nariz girara ad
para a esquerda, como se o piloto tivesse feito um cavalo-de-pau para varar o
final da plantao, procedimento que no tinha condies de efetuar, pois, assim
que o 707 tocou no cho, os comandos tornaram-se inoperantes.
Aps a imobilizao da aeronave, o interior do Boeing foi tomado de um silncio
sepulcral, como se os ocupantes que ainda se encontravam cons-cientes estivessem
apenas conferindo se estavam vivos.

A cinco quilmetros do local, das janelas da sala IFR de Orly, diversos con-
troladores de vo - entre os quais Claude Audren e Christian Megret, que haviam
acompanhado o drama do Varig 820 desde o incio - constatavam, desolados, que o
avio falhara em sua tentativa de chegar ao aeroporto. Desa-parecera um pouco
antes da cabeceira 07.
Megret, que jamais testemunhara um evento como aquele, estava cado. No
acreditava que pudesse haver sobreviventes. A coluna de que se erguia do local
do acidente reforou sua crena.
Um clima fnebre se apossou das salas de controle e da torre. L mente o
supervisor informou ao Corpo de Bombeiros do aeroporto e



88

RG-820 - Uma Cmara de Gs




kos mdicos de Orly que o avio cara antes da pista. Como, de onde ri, podia
ver o local aproximado da queda, direcionou as viaturas de
o para l. Mas sabia que o processo no seria to rpido quanto seria de se ~ar.
Os carros teriam de sair do aeroporto e encontrar as ruas e estradas ps levassem
at o local do desastre.
Tratava-se, embora o supervisor no tivesse certeza disso, de um percur-iii
ziguezague. As equipes de resgate teriam de seguir na direo norte, Avenida
Stalingrado, e depois regressar no rumo sul, pela Auto-estrada kil. Um pouco
antes de Longjumeau, teriam de tomar estradas vicinais local da queda.
Os servios de emergncia estavam preparados para agir dentro dos li-~ do
aeroporto. No alm deles. Na melhor das hipteses, perderiam iosos dez minutos,
uma eternidade em se tratando de um avio em cha-
 Isso, se houvesse sobreviventes. Havia tambm a hiptese, mais do que nvel,
de o avio ter feito vtimas no solo, ao cair.

uanto, em Orly, as primeiras providncias eram tomadas, no Boeing os ilantes
sobreviventes, passado o choque inicial, tratavam de pular fora.
Junto  porta dianteira esquerda, Tersis encontrava-se ileso e de posse
mentidos, embora muito fraco devido  ao dos gases. No ouviu gritos, viu
ningum se levantar. A nica coisa em que pensou foi sair rapida-~e daquele
inferno. Forou a porta, abriu uma fresta e pulou. Caiu, de altura de
aproximadamente dois metros, no cho fofo da plantao. Foi imeiro a escapar do
VJZ. Como se no bastassem todos os azares do vo assim que ele saltou, a porta
voltou a fechar-se.
Do lado oposto, Coelho abriu a porta de comissaria. E tambm se jogou fora.
Se a porta de Tersis tivesse permanecido aberta, a corrente de ar que teria se
udo talvez tivesse permitido uma ventilao benfica a Trajano e Balbino.
Trajano, desmaiado, respirava uma mistura do ar envenenado (que vi-do incndio)
com um pouco de ar puro proporcionado pela abertura da a de comissaria. Balbino,
que absorvera uma quantidade maior dos aci-Letais, agonizava.
Os sobreviventes do cockpit haviam saltado pelas janelas. Zilmar e Basso aram
Fuzimoto e Andre a pular pelo lado esquerdo e se jogaram por ali



89
Caixa-Preta




em seguida. Pela janela da direita, Gilberto foi o primeiro a sair. Seguiram-s4
Claunor, Galetti e Carmelino. Antes de abandonar o Boeing, Claunor aindi tentou
arrastar Diefenthaler, s ento se conscientizando de que o colegij estava
morto.

Embora o solo de hortalias fosse macio, da altura da janela era um sak~ de mais
de trs metros. Quase todos se machucaram ao cair. Gilberto, quej~ fratura o
maxilar e o osso rochedo na hora do pouso, quebrou uma vrtebr~ Galetti luxou a
perna.
Quando se arrastava para longe do avio, o chefe de equipe viu explod~ o tanque
de combustvel da asa direita. Isso lhe deu foras para se levantar~ correr, a
despeito da contuso.
Dos 17 tripulantes do PP-VJZ, dez haviam se salvado do incndio.
Mas, e os passageiros?
Mais da metade ainda se encontrava viva, embora incapacitada de s do avio por
seus prprios meios. Homens, mulheres e crianas perman ciam em seus assentos,
desmaiados.
At aquele momento, o fogo se limitara  rea dos toaletes traseiros. M quando o
avio parou, a inrcia impelira as chamas para a frente. Ao mes tempo, rompeu-se
o teto falso da aeronave, sobre o qual uma extensa fia -pegava fogo. Lentamente,
as chamas comearam a devorar o resto da estrutu
Do lado de fora, dava para ver que,  direita da base do leme, saa u lngua de
fogo. Na asa direita, irrompera um incndio no tanque de comb tvel nmero 3.
De sua residncia, a 30 metros de onde parara o Boeing, a Sra. Michel Jargeau
telefonara para os bombeiros, cuja central deparava-se com um pr blema de
logstica. Diversas guarnies ao sul de Paris estavam naquele mento combatendo
um grande incndio na fbrica de armamentos Gevole em Issy-les-Moulineaux,
alguns quilmetros ao norte do local da queda d Boeing. Enquanto um operador
consultava a guarnio de Orly, para saber seus homens estavam se dirigindo ao
local do acidente, outro acionara guarnies de Longjumeau e Palaiseau, prximas
 rea da queda do avio.
Das margens do campo de hortalias, diversos lavradores constatav petrificados,
que o incndio ameaava tomar conta de toda a estrutura Boeing. Olhavam aflitos
para a auto-estrada, a leste, e para a estradinha se cundria, a oeste, na
expectativa de ver os primeiros carros de bombeiros.



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1

Os tripulantes que haviam fugido do avio se agruparam em meio a ~s agricultores
que procuravam atend-los. A enfermeira portuguesa Gra-~dos Reis prestou os
primeiros socorros a Gilberto.
Basso, Claunor, Galetti, Tersis e Coelho apresentavam sintomas de in-~io
(tossiam muito) e tinham queimaduras superficiais. Zilmar no ramais que um
arranho em um dos braos. Carmelino, que, por muito ~o, combatera o incndio,
tinha diversas queimaduras e parecia muito cado. Andre escapara ilesa.
Fuzimoto, entre outros ferimentos, tinha fratura exposta no brao.
Antes que os bombeiros de Orly chegassem, e oito minutos depois que o 1]Z tocou
o solo da plantao, surgiram no local do acidente os efetivos de
dumeau e Palaiseau. Sendo unidades pequenas, e rurais, no contavam
espuma antiincndio nem dispunham de equipamentos sofisticados.
~Dentro do Boeing, o incndio se alastrara, desencorajando quem pen-em se
aproximar. Mas Jean-Marc Veron, um bombeiro baixinho, de tios, era um rapaz
corajoso. Encostou uma escada de ferro  porta prin-1, subiu por ela e deparou-
se com um corpo cado na passadeira. Embo-ipondo que se tratava de um cadver,
puxou-o pelos longos cabelos. ~o queimado, interna e externamente, Ricardo
Trajano foi retirado do ~'g.
~Ao contrrio dos demais passageiros - que haviam permanecido em poltronas -,
Trajano, mesmo involuntariamente, estivera deitado, o ~colado ao cho,
respirando o ltimo resduo de oxignio. E assim pude-freviver.
~Mas, durante os oito minutos em que Ricardo permanecera desacorda-r
 s a queda, o teto falso da aeronave, em chamas, desabara sobre ele.
dos pulmes, muito lesionados, tinha graves queimaduras nas costas. J
o bombeiro Jean-Marc ajoelhou-se ao lado do jovem e aplicou-lhe ~ao boca-a-
boca.
~utros bombeiros ainda conseguiram resgatar com vida, pela porta de ~saria,
Srgio Balbino e Heleno (retirado do banheiro da primeira das-frgataram tambm o
corpo de Diefenthaler, que localizaram no cockpit. ~ntretanto, as chamas
aumentaram e os bombeiros, sem equipamento ~~4o no conseguiram passar da gaey
dianteira. Tiveram de retroceder. ~4a cabine de passageiros, as chamas devoravam
as ltimas vtimas.



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RC*-820 - Uma Cmara de Gs
Caixa-Preta




Pouco mais de dez minutos haviam se passado, desde a queda, quando chegaram os
bombeiros de Orly. Muito mais bem equipados, e treinado~ para aquele tipo de
evento, os homens cobriram a fuselagem com espessa camada de espuma
antiincndio. Em poucos minutos dominaram o fog
Mas sabiam que j no havia ningum vivo dentro do Boeing. Os passageir do Varig
820, em sua maioria, resumiam-se a esttuas de carvo, senta lado a lado, numa
exposio macabra que os fotgrafos iriam registrar e q ilustrariam as primeiras
pginas de jornais de todo o mundo.

No amplo saguo do primeiro andar da ala sul do Aeroporto de Orly, pessoas que
aguardavam o Varig 820 viram surgir no painel de chegadas aviso pedindo que se
dirigissem ao balco da empresa.
- O avio teve de fazer um pouso forado, aqui perto de Paris -atendentes do
balco, sem conseguir escamotear o nervosismo, informav s pessoas atnitas que

as procuravam. - Ainda no temos nenhuma out informao - concluam as moas,
enquanto mais gente ia chegando balco, entre elas o milionrio Grard Leclry.
Iniciou-se uma aglomerao.
- Pousou aonde? O que foi que aconteceu? Houve um desastre? On  que esto os
passageiros? Algum se feriu? - As funcionrias foram met lhadas por uma
saraivada de perguntas. Foram salvas por um funcionf mais graduado, que
anunciou:
- Lamento informar que houve um acidente grave. Nada sabemos s bre possveis
vtimas. Os servios de segurana e salvamento j se encontr a caminho do local.

No local do desastre, a enfermeira Graciete, o co-piloto Alvio Basso e alg
bombeiros haviam tentado desesperadamente reanimar Balbino. Mas se esforos
foram em vo. O comissrio morreu ali mesmo.
Heleno e Trajano, ambos em estado gravssimo, haviam sido colocad num
helicptero dos bombeiros que decolara para o Hospital Henri Mo dor, em Crteil.
Sob a ao da espuma qumica, o fogo se extinguira. Mas, com exce da cabine de
comando e da rea prxima  galley de primeira, o interior avio fora totalmente
devastado. Da asa esquerda s sobrara metade. U incndio colateral destrura a
parte central da asa direita.

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4'




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Em quase toda a extenso da cabine turstica, o calor ainda impedia os
iros de agir. O odor de carne queimada era intenso. O vento que so-nariz para a
cauda do avio levava esse cheiro para a outra extremi-plantao.
Equipados com roupas e sapatos especiais, alguns bombeiros subiram
e se aproximaram do charuto do avio.
As 14h50, havia apenas uma tnue e pertinaz coluna de fumaa saindo destroos.
Todos os feridos j tinham sido transportados para os hospi-Restava s equipes
de resgate retirar e juntar os cadveres.
Um capito dos bombeiros coordenou a retirada. Os corpos saam do o carregados
em lenis brancos. Uns, totalmente carbonizados, desman-iam-se em cinzas.
Outros, retirados da parte dianteira do Boeing, ainda tm suas roupas.

- Deve haver gente com documentos no bolso - lembrava a seus o tenente Girbal,
que contava os mortos. - No tirem esses do-.entos. Vai facilitar o trabalho de
reconhecimento.
Os cadveres eram dispostos lado a lado, no solo da plantao. Co-nos com panos
brancos, azuis e cinzentos. Na cabine de passageiros, trs corpos foram
encontrados fora dos assentos: a comissria Elvira seu namorado, o co-piloto
Ronald Utermoehl, e o comissrio Ede-Mascarenhas.
Milhares de curiosos haviam invadido o lugar. Foi preciso que a polcia
barreiras, no permitind~ que ningum, a no ser o pessoal de res-se aproximasse
do avio. Como era muito forte o cheiro de querosene,
'oliciais cuidavam para que ningum fumasse.
A essa altura, j havia grande nmero de reprteres, fotgrafos e cine-
Eles disputavam os melhores ngulos. Sem necessidade. Pois, para
quer que apontassem suas mquinas, havia uma figura macabra, fosse
busto carbonizado, emoldurado por uma janela, fosse um crnio  mos-fosse uma
arcada dentria arreganhada, o branco dos dentes sobressain-em meio ao preto do
carvo.
Puderam ver que a frente do avio ficara intacta, assim como a cauda. A tura da
fuselagem estava toda l. No fosse o incndio, teria sido um so perfeito, como
se tivesse ocorrido num aerdromo. Infelizmente, o o perfeito deixara um saldo
de 122 mortos, nmero que, alguns dias



93




Caixa-Preta




depois, se elevaria a 123, na maior tragdia da aviao comercial bras
at ento.
No Brasil, a notcia do desastre j sara em todas as rdios e emissoras tev.
Na Rdio Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, um dos noticirios, edies
ocorriam de hora em hora, era patrocinado pela prpria Varig. -quele final de
tarde, o noticioso no falou em outra coisa que no no acid~ te. E aps cada
edio, ia ao ar um conhecido jingle da empresa (Varig, Vai Varig) e uma
mensagem gravada de um locutor sugerindo aos ouvintes viagem de frias  Europa.
..... uma exploso de luzes, cores e alegria", clua o reclame.

94
1




Captulo 14




m seis minutos, o helicptero que conduzia Traj ano e Heleno chegou 4 ao
Hospital Henri Mondor, distante 15 quilmetros do local do aci-.Jdente. Do
heliporto do hospital, os dois foram levados ao Setor de iimao, onde deram
entrada s 16 horas. Foram postos aos cuidados da pe do professor Pierre
Huguenard.
Os demais sobreviventes haviam sido conduzidos em ambulncias ao pital de
Longjumeau, prximo ao local do desastre.
No Henri Mondor, constatou-se que Trajano tinha queimaduras de ~ro grau nas
costas e ndegas e queimaduras internas nas vias respirat-Um exame de sangue
acusou a presena de grande quantidade de mon-de carbono.

Heleno estava ainda pior. Apresentava queimaduras na face e no pesco-
nternamente, queimara o aparelho digestivo e respiratrio. O nvel de xido de
carbono no sangue era superior ao de Trajano.
Os mdicos no precisaram de muito tempo para constatar que as chan-e
sobrevivncia, nos dois casos, era muito remota. Supunha-se que am-Fossem
tripulantes. Tomavam Trajano pelo comissrio Srgio Balbino morrera logo aps
ser retirado do Boeing).
Na primeira nota oficial, que distribuiu na Frana e no Brasil, a Varig ntou
"no haver sobreviventes entre os passageiros". O nome de Balbino xeu na lista
de feridos. O de Ricardo Trajano, na de mortos.



95
Caixa-Preta




Apesar das leses, Trajano tinha momentos de conscincia. Perceb que o
confundiam com um dos tripulantes. Preocupado com os pais, fez si s
enfermeiras, pedindo-lhes papel e lpis. Rabiscou, em letras tremidas
desalinhadas, seu endereo, o nome de seu pai, Reginaldo Babo Trajano, e nmeros
dos telefones do apartamento da famlia em Copacabana e do es trio do pai.
No hospital de Longjumeau, o comissrio francs Alain Tersis, prim ro a
abandonar o avio, foi tambm o primeiro a ter alta, no dia seguinte do
acidente.
Tersis concedeu uma srie de entrevistas, retratando-se como heri. Di entre
outras coisas, que fora o primeiro a detectar a fumaa e o primeir tentar apagar
o fogo. Disse tambm que fora ele quem comunicara o inca dio  cabine de
comando. A imprensa francesa adorou o francs heri. S foto saiu em todos os
jornais.
Em sua nsia de dramatizar ainda mais o acontecimento (como se morte de 122
pessoas j no bastasse) um jornal parisiense informou qu~ comandante Gilberto,
ao sair do avio, dissera aos lavradores que o acol ram: "Sou um homem acabado."
Outro jornal, no menos imaginoso, di que o comandante entregara sua gravata a
enfermeira Graciete, dizendo-"Estou  morte. No preciso mais disso."
 morte, Gilberto talvez no estivesse. Mas, em Longjumeau, ele e F zimoto eram
os feridos em pior estado.
No Rio de Janeiro, a Varig localizara os pais de Trajano. Um represe~ tante da
empresa avisara-os de que ele estava vivo. O Sr. Reginaldo e D. Keti viajaram ao
encontro do filho naquele mesmo dia.
A morte de Regina Leclry cara como um petardo na cidade. Seus am gos
simplesmente no aceitavam que uma pessoa como ela, to cheia de vid tivesse
morrido.
Em So Paulo, Nancy, filha de Agostinho dos Santos, tomou conhec mento da morte
do pai no momento em que concedia, de sua casa, un entrevista  televiso. Sem
saber do acidente, a moa cantava para o reprt um trecho da cano que
Agostinho defenderia no festival, em Atenas, quai do um vizinho entrou na casa
com a notcia da morte do cantor. A noite, emissora levou ao ar a imagem
chocante da moa sendo surpreendida com notcia.

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Os olhos misteriosos de Regina Leclry conquistaram o mundo. Rica, bela e
famosa, a musa de uma gerao acabara de estrear
no cinema, sua mais nova paixo. Animada e cheia de planos,
Regina - que viajava na primeira classe - se preparava para encontrar a famlia
na Frana.
(Foto Arquivo Nacional / Corre, da Manh)

r
4




O     incndio no ar
1 Janela por onde escaparam Fuzimoto, Zilmar, Alvio Basso e Andre.
2 Janela por onde saram Gilberto, Claunor, Galetti e Carmelino.
3 rea do cockpit onde ficaram quatro tripulantes de p (Galetti,
Carmelino, Andre e Diefenthaler).
4 Banheiro da primeira classe, onde o navegador Heleno se refugiou.
5 Porta principal por onde saiu Alain Tersis e por onde os bombeiros
retiraram Trajano, Balbino, Heleno e o corpo de Diefenthaler.
6 Porta da comissaria por onde escapou Coelho.
7 Sadas de emergncia, sobre as asas, que no foram abertas.
1 Trajeto feito por Ricardo Trajano. Ele saiu da penltima fila para perto da
porta principal. Uma desobedincia que salvou sua vida.
7
O laudo divulgado pelo ministrio da Aeronutica brasileiro apresentou algumas
discrepncias em relao ao documento francs. O fato mais relevante encontra-se
no pargrafo 4.1.8 - referente s concluses finais da investigao do acidente.
Na verso brasileira, o texto existente na pgina 45, captulo 4, pragrafo
4.1.8  distinto do documento francs. O pargrafo diz que:
"4.1.8 - Nenhum indcio foi levantado permitindo pensar que os materiais dei
revestimento da fuselagem no estavam conformes  [sic] especificaes 1 com a
norma CAR 4B 381, particularmente ao mvel do lavabo'

Se tivesse sido feita uma traduo fiel ao texto francs (que destacamos
abaixo), a concluso seria a seguinte:

"Existe uma desconfiana com relao  conformidade das especificaes do Boeing
com a norma CAR 4B. Por um lado, certas amostras retiradas da cabine se revelam
facilmente inflamveis. Por outro, as cestas de lixo destinadas a receber os
papis usados no se enquadravam nas exigncias do pargrafo da CAR 4B 381; elas
no estavam aptas a impedir o desenvolvimento de um eventual incndio."




L
 328

4.1   
Au ('(li' .i. (tini     ,1Ss 3,55,50 1 ,;l .5' .1 calei! 55ev flSiSSsOflCC di
"(se, ~ta si atesta sair 1 '', eillhi.1/2mcr,t-. 4'
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ii   existe tostteoi a sls dos!; si; n ;olulnrsse, e ele-a .pac-i se-ttisis a
Btseotg eco ia -(riO LAR 45. D'sitie pan 1. se -latiu-, Is', e lss,n( <Dons,
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port, 1-5 poetluclo.s dcsiineciaics.esoic~. ias papiers usagsis es' repondaieent
pan au> entgenrns ele para-ge-npi'e d de ia LAR 413 sI 1 cites e'eiaient mas
aptas ,i euopeols; e te doveiupteee,ectt 1 tine iO(eflst,e t'Dtttu(t-l.

.5
L'atiertistage fora e a se res>st aussa Sus! tia ai etnia posaulste. Les
deeiraiionn auieien ensinei laciie,eeet nappoeiabieo pane tuut 0000pant
uortenalennent atiaeh. Soai sim membro de i'qsti-page iechnietne, um aitsehr,
a et 1 te par sinos

1 10.
Bien que porias ei isnswo Oasrnt pos ele luloqaes. sent, ir, oeeupanis du
000kpit ei deaa ,'eneards qoi se ieasnvsdetti  las a,si de ia Cabina passagem
onl pa tacaer i'aviun pua lesara prnpeea
mnyens.

4 III.
Les anaiyses faltes out monte  quimo forte prupoetoan de des dliii due 
i'intnxioaiiun par i'nnyde de euebnt,e. Z.ps anaiyses filies sue ie mfcanieten
to par choe  l'impaet, par-mettent d'alfrmer qsa'a ce mnmeant t'intonieatmnn
utcyearbone
das uceuteatois ohiait utefftnaete poste les empchar d'agir.
4112.
IOURNAL OFFICIEL DE LA REPUBLIQUE FRANAISE

Levez neo

Lasaus.s turobaMo de laaideo aval; pau easosus;e ds os lo meu iethord. II a ei;
ulelcc-r .i sial dares si 0011dm liolSOi si uns lide.

iii   105. iii! is, -.sl ''1 sls's5 sitie, psvis-siis'c
Lo dl la; sl5~ si- 'cii.. Ir te tens ou 451 persnuns 1 sis assine cinto
nouitepoo, si 'o. do lapa iu'e, psilu. agir til lemes, malte ei i'con
.Inssseteieui te la finado.

La - 3055,-' iii' s'itslstist - dons tia 1 assusipega VOlte. -i ice 'altere
cuntace asa 1,' sol, lsnceudie ii iaiieites arvore. 1 es Orsipas Is pisei au
fiem; iuiosiqsn; par lo produiis de eomb,u,Iion
Ates s t'iniinobjiissliuei 3' liii anal iendsi soes l'aeant. dr 1 -

pus.ibie une membros de Iqisipa ao til! 05531 5355, 05 aOs s;r,'mn'rn l




Le ice iscas te,,! k la s Olsi555;50,i, OFNOOt5L M. liulSTiNFT L' folia




Le Dilate lempas taIs;, eh ei de largo,, em e dn e;Oirdle ao e

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plupari das auirea dees semblent avuir nlt,~ proeogus par suftncaison a la
souto d'ininalaiiun d'aoires giz ttAsiqu es.




RO-820 - Uma Cmara de Gs




Em Braslia, o presidente Emilio Mdici decretara luto oficial pela mor-senador
Filinto Mller.
nquanto os vivos choravam seus mortos, os comunicados da Varig am nas
entrelinhas ntido constrangimento pelo fato de que 11 dos 17 tes haviam se
salvado, contra apenas um dos 117 passageiros. E, por que os jornalistas lhes
perguntassem, os porta-vozes da empresa recusa-
a comentar o fato de que boa parte dos comissrios havia abandonado
ageiros, sendo que trs haviam se refugiado no cockpit.
-     guns dias depois do acidente, os tripulantes que sofreram ferimentos
regressaram ao Brasil (com exceo do francs Tersis, que ficou com a ~iaem
Paris). Foram recebidos por um batalho de jornalistas. A Varig ~izou
entrevistas coletivas no Rio e em So Paulo, s quais compareceram ror~ Zilmar,
Galetti e Andre, que puderam dar suas verses do desastre. ~Em Paris, no
hospital de Longjumeau, Gilberto, Fuzimoto e Carmelino
~m
 melhorado. No corriam risco de vida.
mesmo no ocorria com Trajano, no Henri Mondor. Em 19 de ju-~Ie foi acometido de
uma infeco pulmonar, acompanhada de febre de raus. Como se no bastasse, o
jovem passou a ter taquicardia, alm de ~ptises (expectoraes hemorrgicas)
abundantes. Seus pais foram acon-~1os a no ter muitas esperanas. No Brasil,
noticiou-se que o sobrevi-do RG-820 estava morrendo.

Em 22 de julho, Salvador Ramos Heleno, navegador do Varig 820, rcu no Hospital
Henri Mondor, de insuficincia renal, aps 11 dias de ~ios. O total de mortos
elevou-se a 123.
S no incio de agosto se registraram as primeiras melhoras no quadro ide de
Trajano. Em meados daquele ms, ele conseguiu pr-se de p e is primeiros
passos. Perguntou sobre Agostinho dos Santos, que viajava rente no Boeing. Nada
lhe disseram, nem sobre a morte do cantor, nem os demais passageiros.
Algum dias depois, entretanto, uma enfermeira exibiu-lhe um exemplar ma revista
brasileira (Fatos e Rotos), com as fotos dos corpos carboniza-S assim ele se
deu conta da extenso da tragdia.
-Ricardo Trajano foi o ltimo sobrevivente do 820 a retornar ao Brasil. tgresso
se deu no dia 31 de agosto, sete semanas aps o acidente (Gilber-Fuzimoto haviam
regressado no dia 12).



97



Caixa-Preta




Ao embarcar em Orly, Traj ano reencontrou-se com Jean-Marc Vera bombeiro que o
retirara do Boeing em chamas e que um jornal francs iev~ ao seu encontro. Os
dois
choraram emocionados e no conseguiram pronu ciar sequer uma palavra.
Para a viagem de regresso de Ricardo, a Varig transformou parte cabine de um 707
em hospital ambulante. Trs mdicos, dois franceses eu brasileiro, o assistiram
na viagem.
O rapaz se convertera numa celebridade. A Rede Globo de Televi~ conseguiu pr no
avio a reprter Cidinha Campos que, acompanhada um cinegrafista, viajou ao lado
do paciente e documentou o vo par~ Fantstico.
Ao desembarcar no Rio, Trajano, sob forte esquema de segurana, transferido para
o Hospital da Beneficncia Portuguesa, onde ainda pern neceu algum tempo, antes
de ter alta definitiva, em 29 de setembro, di meses e 19 dias depois do
acidente.
Como reparao pelas leses sofridas, a Varig pagou ao passageiro brevivente 10
mil dlares de indenizao.
Um ano aps o acidente, Ricardo dirigiu-se calmamente  mesma lo,
da Varig - no Hotel Copacabana Palace - onde comprara a passagem n~
RG-820 e disse a uma atendente perplexa:
-        No ano passado, eu comprei uma passagem para Londres, mas avio caiu e
eu no cheguei l. Acho que tenho direito a outra.
E assim voltou  Europa, pela mesma companhia e na mesma rota. Du~
rante o vo, visitou a cabine de comando, tal como fizera com Gilberto
Fuzimoto. Dessa vez, pousou em Orly.

L
98
.j'.




Captulo 15




D
 s anos se passaram, e Orly tornou-se apenas uma lembrana. Sem-pre que cai um
avio, e os jornais publicam aquele indefectvel ranking de acidentes areos, o
episdio
volta  baila com seus 123 rtos, nmero recorde na poca, s superado nove anos
depois, quando um eing 727 da Vasp caiu nas proximidades de Fortaleza, matando
seus
137 upantes.
Doze pessoas saram vivas da plantao de repolhos, das quais s uma (o
vegador Heleno) veio a morrer em conseqncia do acidente.
Depois de se recuperar das leses sofridas no 820, o comandante Gilberto
ajo da Silva voltou a voar. At que, em 1979, numa oportunidade em que
orava outro 707, cargueiro, do Japo para o Brasil, desapareceu no rtico.

Desse desastre, pouco se sabe, com exceo de especulaes as mais di-~sas. Diz-
se que o Boeing penetrou no espao areo russo e foi abatido. itros falam que um
dos compartimentos de carga se abriu durante o vo. i os que mencionam uma carga
perigosa, que teria se incendiado e feito o o explodir no ar. Mas so apenas
especulaes.
O comandante Antnio Fuzimoto, que pousou o PP-VJZ na plantao repolhos, ficou
seis meses parado, tratando dos ferimentos e recuperando-lo trauma. Depois,
voltou
 ativa, comandando aeronaves de maior porte. osentou-se em 1990, como master de
747. Atualmente divide seu tempo :re um apartamento na Zona Sul do Rio de
Janeiro
e uma propriedade no npo.

99
Caixa-Preta




O co-piloto Alvio Basso - que no acidente de Orly machucou apen a mo direita -
voou mais 11 anos. Aposentou-se em 1984, quando era
piloto de 747. Mora em Porto Alegre. Seu hobby  consertar relgios. Vive uma
aposentadoria do INSS. Sofre de problemas circulatrios. No tem pia no de sade
e
se trata em hospitais pblicos.
Durante o curso das pesquisas para este relato, no foi possvel descobr o
paradeiro do navegador Zilmar Gomes da Cunha, do chefe de equipe Jo Egdio
Galetti e
do comissrio Carmelino Pires de Oliveira Jnior.
Da equipagem do RG-820, Andre Piha foi a primeira a voltar a voar Trinta e
quatro dias aps o desastre, ela subiu a bordo de um DC-8 no Aer porto do Galeo
e trabalhou
num vo Rio-Caracas-Miami.  tambm a tini ca que permanece na ativa, como chefe
de equipe da prpria Varig. Mor num condomnio de classe mdia na Barra da
Tijuca,
Rio de Janeiro.
O comissrio Luiz Edmundo Coelho Brando saiu da Varig algum tem depois do
acidente. E desistiu da aviao. Mora no Rio de Janeiro, on trabalha como
comercirio.
Seu colega francs, Alain Tersis, tambm deixo a empresa e voltou para a Frana.
O mecnico de vo Claunor Bello morreu alguns anos depois de Orly sem jamais ter
acreditado na verso do cigarro no toalete como estopim d incndio. Para ele, a
fumaa teria sido desprendida pela combusto espont nea de equipamentos de
caas Mirage da FAB, que o VJZ estaria transportan do em seus pores. Tratava-
se, segundo
Bello, de cargas para ejeo de assen tos, devolvidas ao fabricante na Frana
por apresentarem defeito.
Curiosamente, essa tese, embora desprovida de provas ou fundamentos tem boa
acolhida entre tripulantes da Varig. Sempre em off alguns dizem; "Ah, Orly! Foi
uma carga
de explosivos que derrubou aquele avio." "Foram uns foguetes de Mirage", e
coisas do tipo.
Um exame dos jornais brasileiros da poca, e do relatrio final das in-]
vestigaes, no revela a menor meno a essa suposta carga ilegal. A exceo~
fica por
conta da Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, nmero de 6 de agosto de 1973,
no qual o jornalista Hlio Fernandes afirmou, em sua colu-~ na, que no houve
incndio

no toalete do Boeing mas apenas um gs letal que se desprendeu do compartimento
de bagagens e "matou por asfixia todos os passageiros em menos de um minuto".
Fernandes
deu como fonte as prprias autoridades francesas que, segundo ele, em 15 dias
iriam divulgar, oficial-mente, a verso da carga letal.

100
LI




RG-820 - Uma Cmara de Gs




Embora nenhum jornal brasileiro desse credibilidade  notcia, que fi-u
circunscrita  Tribuna da Imprensa, o mesmo no ocorreu com os jornais anceses.
Em sua edio
de 12 de agosto de 1973, o LeJournal dii Dimanche vulgou a notcia do gs
mortfero, citando como fonte a Tribuna da Im-~'nsa. Alguns dias depois, o
jornal France-Soir
repetiu a informao, esten-:ndo-se em detalhes. Disse a autora da matria,
Marie-Claude Dubin, que passageiros do Boeing haviam sido intoxicados por cido
ciandrico
ema-~do de um recipiente colocado no poro de bagagens no pressurizado.
Portanto, o que saiu daqui como especulao, publicada num jornal
?eflas, voltou como notcia sria de um jornal francs. A histria ganhou
~rigo nos meios aeronuticos brasileiros, favorecida pela censura que preva-~cia
na poca.
Trs anos mais tarde, quando o laudo oficial foi divulgado na Frana, o
esastre de Orly, sendo notcia velha, mereceu apenas algumas linhas dos
rnais brasileiros.
Mesmo na Frana, a ntegra do resultado das investigaes foi publicada
penas no Journal Officiel de La Re'publique, no dia 6 de abril de 1976.
O laudo final foi assinado pelo chefe de Inspeo Geral da Aviao Civil
rancesa, pelo chefe dos rgos de Controle de Vo, por trs peritos em
esastres areos, por um perito mdico e por um comandante da Air France.
Demonstrou-se ali que o incndio teve origem no toalete traseiro cen-ai,
alastrando-se para o da esquerda, adjacente. Deram como causa provvel
m cigarro jogado na lixeira do banheiro.
Concluiu-se tambm que, no momento em que o avio se imobilizou

a plantao de repolhos, a maior parte dos seus ocupantes ainda vivia, ao
)ntrrio do que foi amplamente divulgado no Brasil.
A respeito do poro de bagagens - do qual (a se dar crdito aos boatos) ria
escapado um gs letal -, diz o laudo que (no poro) no foi observado enhum
vestgio
de anormalidade ou incndio. Garrafas de oxignio que ali encontravam, informa o
documento, no explodiram. Bagagens ali acon-Lcionadas queimaram apenas
parcialmente.
O relatrio no foi contestado pela Boeing, nem pela FAA (rgo con- olador da
aviao dos Estados Unidos), nem pelo NTSB (rgo que inves-ga acidentes areos
nos
Estados Unidos), entidades interessadas no episdio




101
Caixa-Preta
d
por se tratar de uma aeronave de fabricao americana e porque havia cen nas de
707 voando nos Estados Unidos.




A narrativa do episdio de Orly poderia terminar aqui se, durante as pesq4 sas
para a elaborao deste livro, o exame dos documentos relativos ao de~ tre no
tivesse
revelado que a traduo para o portugus do relatrio feito] Frana - levada a
cabo pelo Ministrio da Aeronutica do Brasil - foi
fraude. Embora em 95% o texto em portugus seja fiel ao original, nos restantes
e, principalmente, nas concluses finais, foram suprimidos algu~ trechos e
acrescentados
outros.
A verso divulgada no Brasil diz que na decorao da cabine do Boei~ a natureza
dos materiais empregados est de acordo com a regulamenta~ americana FAR 25".
Essa
afirmativa no consta do laudo francs que, sobrd assunto, afirmou o seguinte:
"(1..) lespoubelles clestines  recevoir lespapiers usags ne re~onda1ent~4 aux
exigences du paragraphe d de la CAR 4B 381; e/les n 'taient pas aptei empcher
le dveloppement d'un incendie ventuel.
Como se tratava de uma traduo oficial feita por tradutor juramentado, i essa
verso que serviu como prova nos tribunais brasileiros, nas aes impetrad
contra
a Varig por parentes de vtimas do acidente. Muitas dessas pessoas fizera acordo
por valores inferiores aos que se julgavam no direito de receber.
Maria Lusa (Masa) Pereira de Almeida Leite Ribeiro, mulher do jorr~ lista
Celso Leite Ribeiro, por exemplo, foi uma que teve de aceitar o vali oferecido
pela Varig
- no ltimo dia de um prazo concedido pela emprc
- porque precisava do dinheiro para comprar um apartamento.
Houve excees. Marina Carvalho, que perdeu o marido Plnio e a fill Izabela no
desastre, conseguiu provar na Justia que o incndio s se transfo mou em
catstrofe
por causa do material usado pela Varig no revestimenl do Boeing. Isso lhe valeu
uma indenizao substancial.

O nico passageiro sobrevivente, Ricardo Trajano, voltou para sua faculd de,
onde se formou em Engenharia. Morou na Frana e na Arglia. No gos

as cestas de lixo destinadas a receber os pap6s usados no se enquadravam nas
exige cias do pargrafo d da CAR 4B 381; elas no estavam aptas a impedir o
desenvolvimento
um eventual incndio."




102




1'- RG-820 - Uma Cmara de Gs




ir  imprensa sobre o acidente, em respeito aos que morreram. Mas ordou em
conceder depoimentos gravados para este livro. Cedeu seu me acervo de recortes
de reportagens
sobre o acidente, assim como foto-as tiradas pela percia francesa no local da
queda. Sem sua colaborao,
esta histria poderia ter sido escrita.
Trajano mora em Belo Horizonte, onde  comerciante.  casado e tem
filha. Recuperou totalmente a capacidade respiratria. Trata-se de pes-
extremamente calma e afvel, talvez por ter conscincia de que est no
h quase 30 anos. Extensas cicatrizes em suas costas so testemunho
dos momentos em que, abandonado  prpria sorte, permaneceu desa-~ado junto 
porta dianteira do PP-VJZ.

naioria dos parentes dos passageiros mortos em Orly cr que a causa do
astre foi mesmo um cigarro no banheiro, como consta do relatrio oficial.
alguns convivem com algumas dvidas relativas ao desempenho da tri-o naquela
oportunidade.
Ser que Fuzimoto agiu certo ao decidir pousar antes da pista? Ser que
comissrios e demais tripulantes poderiam ter feito algo pelos passageiros?
Com relao  primeira questo, jamais se saber se a deciso de pousar do
aeroporto foi certa ou no.
Se Fuzimoto tivesse voado mais um minuto, e atingido a pista 07 de Orly, que
certamente diversos passageiros teriam sobrevivido, pois teriam sido
:diatamente assistidos pelos bombeiros, ali equipados de trajes especiais, es-
na antifogo e, principalmente, treinados para uma situao como aquela.

Entretanto, a fumaa negra e viscosa no permitia aos pilotos do Varig xergar
nem mesmo o painel de instrumentos, quanto mais o espao exte-Ior  frente do
Boeing.
No tinham comunicao com a torre; no ouviam o ue Orly dizia, por causa das
janelas abertas e do rudo das turbinas; no davam a Orly, pois se esqueceram de
pr
o seletor de microfone na posio iscara. Havia quatro tripulantes de p na
cabine, alguns tomados de pni-o, gritando. E o avio poderia explodir a
qualquer momento.
Atravs da uiela, Fuzimoto tinha uma viso limitada do terreno e pde perceber
uma rea de plantaes quase desabitada.
Com todas essas limitaes - e mesmo sabendo que pousar um Boeing
os arredores de uma cidade como Paris, com redes de alta-tenso por todos



103
Caixa-Preta




os lados, ruas, estradas e auto-estradas se cruzando, prdios, torres etc. etc.,
era tarefa quase que impossvel -, ele aterrissou sem atingir nenhuma casa1 sem
matar ningum no solo. O avio chegou praticamente intacto ao final da
plantao.
Aps tantos anos, persiste a outra pergunta, angustiante para as fam1ia~ dos
que morreram naquela tarde em Paris: poderiam os tripulantes, antes dc sair do
Boeing,
ter retirado alguns passageiros e os levado para fora?
 possvel. Talvez tivessem conseguido salvar uns trs ou quatro, cori muito
heroismo e destemor. Mas no se pode crucificar os que fugiram. ~ fumaa, alm
de sufoc-los,
no lhes permitia enxergar absolutamente nada
Apesar das verses fantasiosas sobre foguetes escondidos e cargas letais tudo
leva a crer que o que aconteceu foi apenas a imprudncia de um fuman. te, somada

combusto txica de um material de decorao que no podia estar ali. Foram
esses dois fatores, combinados, que transformaram o Vari~ 820 numa cmara de
gs, alguns
minutos antes de chegar ao seu destino.

104
r




Terror na Ponte Area
Caixa-Preta




Tripulao do PP-SNT
Comandante Fernando Murilo de Lima e Silva, 41 anos
Co-piloto Salvador Evangelista (Vngelis), 34 anos
Tripulante extra: co-piloto Gilberto Rente, 33 anos
Chefe de equipe Jos Ribamar Abreu Pinto, 36 anos
Comissria Angela Maria Rivetti Barros Barroso (Angelo), 40. anos
Comissrio Ronaldo Dias
Comissrio Valente



Alguns dos 98 passagefros do VP-375
Assis, Odair - economista
Borgards, Klaus - alemo, industrial

Bcrgards, Renate - alem, mulher de Klaus Borgards
Braga, Corina - empresria
Conceio, Raimundo Nonato Alves da - 28 anos, tratorista desempregado
Couto, Francisco Assis Costa - empresrio
Diniz, Cludio Souza - funcionrio do Banco de Desenvolvimento de Minas Ger
(BDMG)
Ditzel, Jos Clvis - diretor da Companhia Vale do Rio Doce
Ferreira, Manoel Braga de Paula - presidente da Aominas
Freire, Priscila - funcionria pblica
Ivo, Felino - comerciante, 52 anos
Komatsu - japons, diretor da Kawasaki Steel

Lage, kmauri - diretor do BDMG
Lanza, Joo

Machado Filho, Ablio - 70 anos
Matos, Manoel Raimundo de - diretor do BDMG
Mouro, Mroio Machado - funcionriO do BDMG
Pieper, Karl-Josef (Kajo) - alemo, industrial
Peanha, Humberto Mota - 30 anos, bancrio
Petmecky, Ilse - alem, mulher de Werner Petmecky
Petmecky, Werner - alemo, industrial
Pvoa, Francisco (Clco) Valadares - gerente de minerao da Companhia Vali do
Rio Doce
Queiroz, Alfredo Mrio de Castro - funcionrio dc BDMG
Raskop, Dietmar - alemo, industrial
Resende, Renato Neves de - funcionriO do BDMG
Shiba, Takayoshi - japons, diretor da Mitsubishi dc Brasil
Szpigel, Bernardo - funcionrio da Companhia Vale do Elo Doce
Szpigel, Mariahce - mulher de Bernardo Szpigel
Yoda - japons, diretor da Kawasaki Steel




106
'4

Captulo 1




orno as Olimpadas de 1988 se realizavam em Seul, 11 fusos horrios
 frente, o Brasil andava insone naquele final de setembro.  verda-~ de que os
atletas brasileiros vinham recompensando, com bons re-tados, os torcedores que
dormiam
tarde, ou acordavam de madrugada, ~a assistir s competies.
O velocista Robson Caetano, por exemplo, ganhara a medalha de bron-nos 200
metros rasos. Quatro dias antes, Caetano chegara em quinto lugar
~s1 00 metros, em prova que passou  histria do atletismo devido  des-
I~ssificao do canadense Ben Johnson, pelo uso de doping.
A equipe de futebol do Brasil se classificara para disputar a final no ~bado,
dia l~ de outubro, contra a Unio Sovitica. O nico seno do grupo ~narinho era
o
jovem atacante Romrio, que se desentendera com os diri-~ntes da delegao por
causa da tabela de bichos, que o deixara insatisfeito. craque anunciara 
imprensa
que, se o time ganhasse a medalha de ouro,
~nhum cartola subiria ao pdio.
No era apenas o esporte que se destacava no noticirio. Depois de dois ~anos
econmicos fracassados (Cruzado e Bresser), o presidente Jos Sarney fria um
perodo
crtico. Seu ndice de popularidade batia recorde negativo a ada ms. Pudera! A
inflao acumulada do ano era de 400%. Para setembro, mtimava-se um ndice de
24%.
Alm da moeda oficial, cruzado, de triste rajetria, a populao se via obrigada
a conviver com diversos indexadores:
)TN, OTN fiscal, UPC, MVR e URP.

107



Caixa-Preta




Se as classes mdia e alta tinham como se defender, aplicando no over-night, a
grande massa era obrigada a correr para o supermercado, mal rece-bia o salrio,
procurando

se antecipar s odiadas rhaquinetas de remarca-o, cones da poca. Como se no
bastasse, uma forte recesso viera a rebo-que dos malsucedidos planos
milagreiros,
trazendo com ela o fantasma do desemprego.
Raimundo Nonato Alves da Conceio era um homem solteiro, educa-do, de pouca
conversa. Maranhense de Vitorino Freire, filho de pais muito pobres, tinha 28
anos.
Media apenas 1 ,60m. De pele escura (um tipo mais para ndio do que para
mulato), no fumava nem bebia, dormia cedo, no~ dizia palavro. Pacato,
sossegado, era
forte como um touro.
Tratorista de profisso e sem endereo fixo, acostumado  alta rotativi-dade do
ofcio, entre um emprego e outro Nonato se hospedava na Penso Paulista, no
nmero
82 da Avenida Olegrio Maciel, Centro de Belo Hori-zonte. O dono da hospedaria,
No Pedro Diniz, tinha-o em alta conta.
Como era eficiente e muito trabalhador, e no se metia em bebedeiras ou
arruaas, Raimundo sempre arrumava servio rpido. Por duas vezes tra-balhara no
Iraque,
em obras da Construtora Mendes Jnior. De l trouxera uma foto - em que aparecia
tendo ao fundo uma placa indicando "Bagh-dad: 240; Ramadi: 130" , que guardava
dentro
da mala, num lbum.
Ao regressar da segunda viagem ao Oriente Mdio, descobrira um dos seus sete
irmos, Antnio, de 25 anos, morando em So Gonalo, Estado do Rio de Janeiro.
Desde
ento, quando no estava num acampamento de obra, ou na penso  espera de ser
selecionado para outra empreiteira, Nonato ia visit-lo. L havia primos e
sobrinhos.
Nessas ocasies, Raimundo fazia questo de mostrar-se estabelecido na vida. Dava
conselhos aos parentes sobre fumo, jogo e bebida, falava-lhes so-bre a
importncia
de poupar dinheiro. Mas, mesmo estando entre os seus, era um homem reservado.
No falava muito de seus prprios sentimentos.
Em Belo Horizonte, a Penso Paulista funcionava tambm como posto de
recrutamento e alojamento de empreiteiras. Depois de selecionados, os
trabalhadores hospedavam-se
l por conta das empresas, aguardando trans-porte para as obras. A diria era de
1.200 cruzados, equivalentes a trs dlares pelo cmbio paralelo, com direito a
caf da manh. Os quartos eram assea-dos; a roupa de cama, limpa. Os hspedes
no se queixavam.



108
E

segundo semestre de 88, a vida de Nonato se deteriorara, sem que desse fazer
nada a respeito. Fora demitido de uma obra em Rio Piraci-or haver-se
desentendido com
um engenheiro. Os empregos, mesmo ~m homem qualificado como ele, rareavam por
causa da recesso. Para
- as coisas, as empreiteiras estavam pagando a tratoristas apenas 170 los por
hora - isso representava s 34 centavos de dlar, conta que ~to tinha o hbito
de fazer,
pois, no Iraque, ganhara em dlares. Seu na poupana vinha minguando lenta e
inexoravelmente.
Sem casa prpria, e sem querer viver de favor na do irmo - que s va de visitar
quando podia levar presentes para os sobrinhos e mostrar-se
Raimundo elegera um culpado para sua situao e para a do pas: o da Repblica,
Jos Sarney, seu conterrneo do Maranho. Sim. a inflao e a corrupo que
cercava
o governo.
Raimundo Nonato decidira vingar-se pessoalmente do presidente, mes-que a
vingana lhe custasse a prpria vida.
No dia 8 de agosto, Nonato viajou para o Rio de Janeiro, pela Ponte ~a, para
estudar a execuo do plano que tinha em mente. Voltou de ,us para Belo
Horizonte.
Duas semanas depois, inverteu o processo. Foi de nibus para o Rio e rnou de
avio. Verificou que, no Aeroporto do Galeo, as bagagens de idos passageiros
eram submetidas
a revistas, por intermdio de aparelhos aos X.
A terceira tentativa se deu no dia 10 de setembro. Foi de avio e voltou nibus.
Confirmou o que observara na primeira viagem: no Aeroporto de ifins, nem as
bagagens
nem os passageiros eram submetidos a detetores de ais.
As trs viagens haviam consumido o restante de suas economias. Agora ara-lhe
apenas o suficiente para uma passagem area de ida. Nonato ju-a si mesmo que no
iria
hesitar.
Quando era menino, seus pais, Maria Alves da Conceio e Jos Can-leAssuno,
costumavam dizer que ele jamais seria algum neste mundo. iato respondia-lhes
que
sim, que um dia seria importante, que um dia eceria na televiso.
No iria hesitar.




109
VP-37e - Terror na Ponte Area
'4

Captulo 2

C
uiab era um dos dois pontos de pernoite do Vasp 374/375, Ri Porto Velho (374) e
Porto Velho-Rio (375), vos longos, cansa
vos, cheios de escalas e que, entre outras peculiaridades, cumpri
trechos da Ponte Area Rio-Belo Horizonte-Braslia. A tripulao saa
Rio, pernoitava em Braslia, pegava o 374 seguinte, ia at Porto Velho e r
tornava a Cuiab. Aps o segundo pernoite, na capital mato-grossense, r
gressava ao Rio, no 375.
Na tarde da quarta-feira 28 de setembro de 1988, trs tripulantes (d homens e
uma mulher) do VP-375 bebiam cerveja e se esbaldavam com picanha num p-sujo de
Cuiab,
estabelecimento situado em frente ao Ho urea, onde as tripulaes da Vasp se
hospedavam.
Quem porventura estivesse ouvindo a animada conversa, dificilmentl perceberia
que se tratava de um comandante, seu co-piloto e uma comissr~ de bordo. No
parecia
haver a menor hierarquia entre eles. O papo era infoF mal, entremeado de piadas
e gozaes.
Fernando Murilo de Lima e Silva, o comandante, exibia um rosto d gal, cabelos
grisalhos e feies angulosas. Tinha postura de comandantc mas no a afetao.
Seu colega de cabine, co-piloto Salvador Evangelista, Vngelis para o ntimos,
escondia os olhos por trs de pesados culos escuros. Mas no farto sorriso,
franqueado
a todos.



110




vP-375 - Terror na Ponte Area




- Est ficando velho, meu chapa. - Entre um e outro gole de cerveja, scadas na
picanha, Vngelis provocava o comandante, que fizera 41 nove dias antes. E
recebia

de troco uma gargalhada gostosa. Os dois amicssimos. Nos ltimos 15 dias, a
escala da Vasp os vinha pondo para juntos.
Quando ambos estavam de folga, no Rio, Salvador era freqentador do apartamento
de Murilo, em So Conrado. Sendo ambos divor-no raro Vngelis aparecia por l,
em
plena madrugada, com alguma
Sem a menor cerimnia, acordava o comandante. Conversavam e
msica.
Vngelis era um criano. Murilo no ficava atrs. Eram tidos como os
os mais "galinhas" da Vasp, terror das comissrias recatadas, puro deleite
it
"prafrentex".

Como no podia deixar de ser, Murilo era extremamente popular na
Todos, co-pilotos, chefes de equipe, comissrios, gostavam de voar
ele. Deram-lhe o apelido de Cafajeste, com o qual ele parecia no se

Numa ocasio, o comandante - que, muito a contragosto, tornara-se
-        pintara o cabelo antes de uma viagem de frias a Fernando de )ronha. O
resultado fora um desastre: a cor nova resultara em um blendde
com acaju, que o sol do arquiplago s fez piorar.
No retorno das frias, Mutilo, que jamais punha o quepe, apresentou-se
DO (Departamento Operacional) do Galeo com a cabea coberta, o
enterrado de tal modo que s sobraram alguns fios acaju, saindo por
aixo, detalhe que no escapou a um colega comandante.
Murilo embarcou um pinga-pinga litorneo, que terminava em So Lus
o Maranho. Quando aterrissou no destino, uma enorme faixa, na sacada o
aeroporto, o acolhia: "Bem-vindo, comandante Cafaju."
Por sinal, o uso, ou no, do quepe ilustrava bem o seu jeito de ser. A taxe na
aviao comercial  a de que se o comandante o coloca, todos os omens da
tripulao
tm de colocar. Se ele no usa, ningum pode pr. No ara Mutilo, que jamais se
importava com esses detalhes. Achava frescura.
Muito emotivo - chorava  toa -, era tambm aviador dos mais expe-rimentados.
Oriundo da Academia de Fora Area, onde tirara seu brev em
1968, em 20 anos de aviao voara em monomotores de treinamento, peque-111



        Caixa-Preta
'4        nos bimotores, Douglas DC-3, turbolices e, finalmente, Boeing 737-20
        737-300. Seu currculo profissional registrava 19 mil horas de vo.
            Mutilo era divorciado de uma advogada, Vilma, com a qual tinha
        filho, Fernando, de 14 anos.
            Paulista, criado em Curitiba, Vngelis, 34 anos, trabalhava na Vasp
h~
        via quase seis. Tinha trs paixes: a aviao, o rdio (nos dias de
folga
        locutor da Rdio Imprensa, no Rio de Janeiro, onde usava o pseudnimo
        Francisco Salvador) e uma filha de cinco anos, de cabelos encaracolados
        rosto angelical.
            Apesar de sua fama de galinha, e de porta-louca, que no fazia a
meni
        questo de desmentir, Vngelis era extremamente solidrio e
participativo
        Estava sempre querendo resolver os problemas dos colegas.
            A terceira pessoa no churrasco do p-sujo era a aeromoa Angela
Barro

        50, 40 anos, uma loura muito alta conhecida entre os colegas tripulantes
        apelido de Angelo.
            Administradora de empresas e economista, Angelo estava na Vasp
        via cinco anos. Antes voara na Varig, de 1978 a 1982. Era uma espcie
        consultora sentimental dos colegas tripulantes.
            Naquele 374/375, por exemplo, havia um comissrio de 28 anos,
        nome Valente, que estava se munindo de coragem para contar  famlia
        era gay. No pernoite anterior, em Braslia, Angela tivera uma longa
convers~
        em seu quarto com o rapaz, incentivando-o a revelar seu segredo ao pai,
        o vinha pressionando com perguntas a respeito de namoradas e de casamen-
-
        to. Horas depois, durante o breakfast, Valente revelara a Angela qe
        um sonho horroroso.
           - Eu sonhei que ns dois estvamos no meio de um tiroteio. E meus
        pesadelos sempre acontecem.
           - Vira essa boca pra l - ela rebatera, batendo na madeira.
           - Meus pesadelos sempre acontecem - ele insistira.
            Foram para Cuiab. Vngelis sentia-se particularmente feliz. Chegara
ao
        botequim correndo, fingindo que fazia um coopere brincando com o
comandan--
        te, cuja cara amassada revelava que acabara de acordar. Mutilo andava
irritadio:
        parara de fumar um ms antes e a abstinncia lhe custava grande
sacrifcio.
            Angelo, que tinha certa bronca de Vngelis - por ser ele, em seu
papel
        de conquistador, muito seguro de si -, vinha se reconciliando com o co-
        piloto na viagem.

112




o e regressado.

Depois do churrasco, Mutilo subiu ao quarto para voltar a dormir. An-eVngelis
ficaram conversando na portaria do hotel. Horas mais tarde, ido Mutilo desceu, e
viu
os dois no mesmo lugar, no resistiu a uma 'ocao.
- No era melhor vocs subirem, para dar umazinha, em vez de fica-jogando
conversa fora? Caramba, gente, que desperdcio!

foi dormir cedo e, na quinta-feira, acordou s 3h45. Seguiram
        da Vasp para o aeroporto, onde o Boeing chegaria de Porto Velho.

Quando o avio aterrissou - um 737-300 novo em folha, prefixo PP-'-, Mutilo e
seus tripulantes renderam os colegas, exaustos, que haviam
o de Braslia, passado por Cuiab no incio da noite, subido at Porto




Belo Horizonte, na Penso Paulista, o tratorista Raimundo Nonato acor-,muito
cedo, arrumou sua mochila, pondo dentro dela algumas peas de ~a, um lbum de
fotografias,
um mao de cartas, revistas pornogrficas, ia caderneta de anotaes e diversos
documentos.
Alm da foto no Iraque, havia outras tiradas em praias do Rio de Janei-Numa
delas, Raimundo se abraava a uma namorada. Havia tambm grafias de avies, de
vrios
tipos e companhias, e o recibo da compra de revlver calibre .32 e de uma caixa
de munio. O revlver e as balas
estavam dentro da mochila.
Dentro da caderneta, Raimundo pusera os contracheques dos ltimos
los. O mais recente, emitido em junho de 1988, mostrava que, naquele ms,
recebera Cz$ 6.253,62 por semana. Depois no conseguira mais nenhum
rvio. E o culpado, segundo seu juzo, era o presidente da Repblica.




113
VP-375 - Terror na Ponte Area

Captulo 3




Q
uando a nova tripulao entrou no Vasp 375, a maioria dos
geiros procedentes de Porto Velho dormia recostada.
O        avio decolou com o dia ainda escuro. Quase uma hora depc
o        sol surgiu avermelhado bem  proa, quando ultrapassavam a vertical
Barra do Garas, no Alto Araguaia, ao sul da Serra do Roncador.
Dos seis tripulantes, o chefe de equipe Jos Ribamar Abreu Pinho mais antigo na
empresa, onde entrara em 1974. Era tambm o nico basea em So Paulo, uma vez
que
o 374/375 era um vo mais adequado ao do Rio, j que nascia e morria no Galeao.
Pinho andava inquieto naqtu dias: uma cartomante lhe dissera que iria sofrer um
atentado.
Durante a etapa Cuiab-Braslia, Pinho, Angelo - ela vestindo
uniforme estampado em diversos tons, recentemente implantado na comp
nhia -, e os comissrios Dias e Valente serviram o caf da manh.
Angela levou ao cockpit o breakfast de Mutilo e Vngelis. Enquanto
lotavam, e comiam, os dois conversavam descontraidamente. O piloto
mtico mantinha a aeronave na proa 90, leste.
To logo aterrissaram em Braslia, Mutilo desceu do avio e deu caminhada pela
pista, s para esticar a perna - ou para tirar os instrumentc da cabea, maneira
como
ele costumava se referir quelas andadas. Fez no Aeroporto Santa Genoveva, em
Goinia, uma hora depois, de onde o decolou para Belo Horizonte, a sudeste,
cumprindo
a penltima escala viagem.

114
1

Renhe sara da funo de co-piloto de 737-300 para um perodo de ~uo para
comando. Aps o treinamento, que se encontrava em seu pro-final, sairia
comandante de
737-200. Naquela quinta-feira, ele voaria
Rio de Janeiro para Recife com um instrutor.
Tendo obtido o brev num curso de pilotos da reserva da FAB, Renhe a na Vasp
havia seis anos. Casara-se com Samira em 1985. Do casa-o, nascera uma menina,
agora
com dois anos, que por sinal chorara a e toda, por ter cado da cama, motivo
pelo qual ele e a mulher no haviam
;eguido dormir.

Vasp 375 aterrou em Confins s 10h03, sete minutos antes do horrio. Era belo
dia de primavera. O azul do cu - ligeiramente esbranquiado por ~a de uma nvoa
seca,
comum na regio em setembro, e da fumaa das mimadas - s era interrompido por
ralas e simtricas camadas de cirros, altas que, do solo, mal se podia v-las.

saguo do aeroporto, Raimundo Nonato desembarcara de um nibus,
pegara na rodoviria de Belo Horizonte, dirigira-se ao balco da Vasp e
rara, pagando em dinheiro a importncia de Cz$ 15.806,00, uma pas-:m ida para o
Rio de Janeiro. Embora no lhe exigissem a apresentao documentos de
identidade,
ele informou seu nome certo ao atendente:
~undo Nonato Alves da Conceio. O funcionrio digitou apenas "Con-Raimundo" no
computador.




115
VP-37~ - Terror na Ponte Area




anto o PP-SNT voava para BH, um outro piloto da Vasp, de nome ~crto Renhe, 33
anos, ia de carro com sua mulher, Samira, de Lagoa San-~nde moravam, para o
Aeroporto
Internacional de Confins, na capital eira. Renhe iria pegar o 375, como
tripulante extra, para o Rio de Janei-apresentar-se ao comandante da aeronave,
como era de
praxe, e de-aproveitaria o tempo de pouco mais de meia hora entre Belo Horizonte
Rio para dar um cochilo na cabine de passageiros. Estava morrendo de

Captulo 4




E
Confins, o VP-375 se transformava num vo da Ponte Area Rio-
Belo Horizonte-Braslia, pooi que a Vasp operava em conjunto com a Varig, a
Cruzeiro do Sul e a Transbrasil.
Assim que o Boeing pousou e estacionou no ptio, Murilo deixou cockpit. Foi at
a sada dofinger (aquele brao sanfonado que se acopla  porta dianteira dos
avies,
nos aeroportos mais modernos e movimentados, entrada e sada dos passageiros)
dar mais uma esticada nas canelas.
Trinta e sete passageiros desembarcaram em Belo Horizonte. O avio foi
reabastecido. Para dentro dos tanques, foi bombeado combustvel suficiente para
o 375 chegar
ao destino e, em caso de necessidade, prolongar o vo
o        aeroporto de alternativa, alm de uma margem de segurana de 45 minu-
tos, como dispunha a regulamentao aeronutica.

Na sala vi2 do aeroporto, aguardando a chamada da Ponte Area para o Rio, havia
trs japoneses: Takayoshi Shiba, diretor da Mitsubishi do Brasil, e dois
convidados
de sua empresa numa viagem a Minas: Yoda, diretor-geral de matrias-primas da
Kawasaki Steel, e Komatsu, diretor da Kawasaki no Bra-sil. Shiba e Komatsu
moravam
no Rio. Yoda estava de passagem pelo pas a negcios. Alis, negcios era o
nico tema da conversa dos trs.
Na sala de embarque n~ 6, o empresrio Francisco Assis Costa Couto, 44 anos,
aguardava o mesmo vo. Ia ao Rio de Janeiro apenas para almoar com os
dirigentes de
uma indstria de plsticos que pretendia representar em Belo Horizonte. A tarde,
estaria de volta a BH.

116
'4

Assis era casado e tinha dois filhos: Beatriz, 14, e Daniel, dez. Era irmo
ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidncia da Repblica, Ronaldo
sta Couto.
Um grupo numeroso entrou na sala de embarque. Eram dirigentes da mpanhia Vale do
Rio Doce, acompanhando uma comitiva de executivos mes, de indstrias
siderrgicas
do Vale do Ruhr, compradores de minrio rro, cuja viagem ao Brasil era um misto
de turismo e negcios. A maioria ~va com as mulheres. J haviam estado em
Salvador,
Recife, So Lus, no ijeto Carajs e no Pantanal. Agora regressavam das jazidas
de Itabira, visi-is na vspera.
Os executivos da Vale eram Jos Clvis Ditzel, 54 anos, cuja funo era manter
contatos com clientes da empresa em todo o mundo; Bernardo igel, que se fazia
acompanhar
de sua mulher, Marialice; e Francisco (Chi-Pvoa.
Outro grupo, este s de brasileiros, era formado por diretores e funcio-ios do
Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG): Amauri age, 53, Manoel Raimundo
Mattos,
45, Renato Neves de Resende, 29, Clu-o Souza Diniz, 36, Mrcio Mouro e Alfredo
Mrio de Castro Queiroz, 36. Alfredo Queiroz prestava ateno a um homem mulato,
baixo e troncu-vestindo cala jeans branca, camisa azul, bluso jeans, tambm
azul, e is. O moo estava mais para esparramado do que para sentado em um nto.
Carregava
uma mochila que mantinha sobr a barriga. Queiroz ima-ou que a bolsa devia
conter algo de muito valor, pois o passageiro a abra-va de maneira incomum, como
se temesse
que algum pudesse arrebat-la ~ sair correndo.

~nquanto os braos de Raimundo Nonato apertavam a mochila contra o colo, seus
olhos negros observavam aquele bando de doutores engravatados. ~onato imaginava
se
algum deles poderia tentar atrapalhar os planos que pretendia pr em prtica
quando o avio estivesse voando.
Se, antes de passar para a sala de embarque, sua bagagem de mo tivesse sido
submetida a um equipamento de raios X - dispositivo que Raimundo pabia inexistir
no
Aeroporto de Confins, e com o qual tinha familiaridade devido s suas viagens ao
Oriente Mdio -, o aparelho teria detectado o revlver e a caixa de munio.

117
VP-375 - Terror na Ponte Area
        Caixa-Preta
        (        O tripulante extra, o piloto Gilberto Renhe, subiu as escadas
do Boeing e f
                ao cockpitse apresentar ao comandante. Depois iria l para trs,
descansar

                noite maldormida.
                    Renhe abriu a porta da cabine de comando, viu que Murilo era
o coman
                dante e o cumprimentou. S ento percebeu que Vngelis era o co-
piloto.
                    Se Murilo e Vngelis eram muito amigos, Renhe e Vngelis
sentiam-
                como irmos. Tinham quase a mesma idade: Renhe era de 1955;
Vngeli
                de 1956. Os dois se conheceram na Base Area de Natal, quando
voavam n
                FAB. Ao dar baixa, Renhe fora para a Nordeste, uma empresa area
region
                Algum tempo depois, Vngelis tambm foi para l.
                    Da Nordeste, saram juntos para a Vasp. E montaram um
apartament
                em So Paulo, no qual moraram dois anos.
                    Ao ver o amigo do peito, Vngelis se surpreendeu. Arreganhou
o maior
                dos seus sorrisos e limitou-se a dizer:
                   - Faaala, Renzinho!
                    A surpresa de Renhe no fora menor.
                   - Porra, voc est a?
                   - Senta a, cara - Vngelis apontou para um banco de armar
(ao qual
                os aviadores do o nome de jump seat), que fica um pouco atrs
das poltronas
                dos pilotos. - Senta a. Fica com a gente.
                    Renhe jogou seu descanso para as calendas. Armou o jump
seate sentou-~
                se nele, satisfeito. Seria bom viajar com Murilo, por quem
nutria grande sim--
                patia. Com Vngelis, nem se fala. S o vira duas vezes nos
ltimos meses, ao
                trombarem um com o outro no metr de So Paulo e num encontro,
tam--
                bm rpido e casual, no Aeroporto do Galeo.
                    Enquanto aguardavam o embarque dos passageiros, os trs
pilotos fica--
                ram conversando. Ao dar um pulo na cabine, Angelo observou que
riam s
                gargalhadas. "Uns crianes", ela pensou, sorrindo benevolente.




118

lig e

flSar



~fli

D.




~e1i

Captulo 5
'ai,




essenta passageiros embarcaram em Confins, juntando-se aos 38 que procediam das
etapas anteriores. Os que chegavam escolhiam seus as-sentos  vontade, pois os
tquetes
de embarque no estabeleciam lugares. Os primeiros a entrar foram os japoneses,
trazidos diretamente da sala vip.
~n
 taram-se na primeira fila. Shiba, no lado esquerdo, poltrona do corredor.
matsu e Yoda, no lado direito, deixando vazio o assento entre os dois.
Os outros passageiros entraram logo depois. Ao pr os ps no corredor b Boeing,
Ditzel surpreendeu-se ao ver os japoneses. Conhecia-os havia muito tmpo. Yoda
era
particularmente importante para a Companhia Vale do Rio ~oce. Na Kawasaki, era
ele quem decidia sobre compras de minrio de ferro.
Ditzel cumprimentou-os efusivamente. Mas logo percebeu que, parado i, impedia o
acesso de outras pessoas aos seus lugares. No quis sentar-se ~m os japoneses,
para
no ser grosseiro com os alemes, abandonando-os. ~tretanto, prometeu a Yoda
que, durante o vo, viria conversar com ele.

Com exceo do casal Petmecky, que foi para os fundos da aeronave, os ~mes e
seus acompanhantes brasileiros se distribuam por lugares na parte anteira. Kajo
Pieper
e o casal Borgards acomodaram-se na dcima fila. ancisco Pvoa sentou-se na
nona. Bernardo e Marialice Szpigel ficaram nas ediaes, assim como Ditzel, que
voltou
a juntar-se  comitiva.
L na frente, o japons Shiba distraa-se prestando ateno aos que en-ivam. Viu
quando um homem baixo, moreno e muito forte, assemelhan-119



Caixa-Preta




do-se a um ndio, passou ao seu lado. Tinha um olhar ameaador. Mas a ateno de
Shiba se desviou para outro passageiro, tambm moreno parecendo ser de algum
pas
do Oriente Mdio -, que pediu licena e tou-se na poltrona da janela,  sua
esquerda.
Raimundo Nonato escolheu um lugar na terceira fila, poltrona 3C,
corredor.
Angelo, que fora at a popa pegar gua e aspirina para uma passag ao retornar
com o medicamento deu bom-dia ao moo atarracado. Re como resposta apenas um
olhar
gelado. O comissrio Ronaldo Dias tamb registrara o rapaz moreno, por ter sido
o nico a no responder ao seu cur primento de boas-vindas.
Em vez de pr a mochila no bagageiro, ou de guard-la sob o assent( Nonato, aps
sentar-se, manteve-a firme no colo. A maneira estranha ele a segurava captou a
ateno
de Amauri Lage, que se sentara cinco atrs e levantara-se para tirar o palet.
Lage notou ainda que a roupa jeansd outro estava esgarada nos punhos e na gola.
"Deve
ser algum do conjeturou, ao lembrar-se que o avio vinha de Porto Velho e sem
saber o homem escuro embarcara em Belo Horizonte. "Quem sabe, algum garim peiro,
trazendo
diamantes", continuou divagando.
Junto de Lage, no mesmo lado esquerdo da fila 8, estava Manoel mundo, seu colega
no BDMG. Os outros executivos do banco sentaram-s. por perto: Cludio Diniz,
Mrcio
Mouro e Renato Resende, na fila 7. atrs, na 12, encontrava-se Alfredo Queiroz.
O empresrio Assis Costa Couto sentou-se na segunda fila, logo dos japoneses.

Enquanto aguardavam o trmino do embarque dos passageiros, Murilo, Vngelis
e Renhe continuavam jogando conversa fora, num papo tpico de aviadores:
- E a, quando  que voc sai solo no comando do 200? - um dos pilotos perguntou
ao tripulante extra.
- Qualquer dia desses. J estou no fim do treinamento. E vocs, est~.o vindo l
de cima?, dormiram onde?, em Cuiab?
Depois que o chefe de equipe informou que o embarque fora completa-do, e que a
porta estava fechada e travada, os pilotos solicitaram o push back. Um trator
veio
e afastou o Boeing, conduzindo-o at uma distncia prudente do finger.

120
1

VP-376 - Terror na Ponte Area




Desengatado o trator, Murilo deu partida nos motores. Vendo que fun-'am
normalmente, pediu a Vngelis o after start, que (como o nome a)  a lista de
verificaes
ps-partida. O co-piloto passou a recitar os impressos num carto plastificado
que tinha em mos, enquanto o co-ndante verificava, e informava, se o item
mencionado
estava ok.
O        Boeing foi encaminhado pela torre de controle para a cabeceira da
13, da qual a decolagem se faria praticamente no rumo do Rio de Janei-otimizando
o vo.
Murilo conduziu o avio comandando a triquilha (roda dupla, sob o
atravs do manuseio, com a mo esquerda, de uma rodinha (chamada
~ering wheel)  sua esquerda, como se fosse o volante de um carro, s que
menor. Ao final da pista auxiliar, quando teve de dobrar 900 para pegar
tterseo para a pista principal, acionou os freios de um dos lados do avio,
ssionando com o calcanhar a parte baixa do pedal correspondente a esse

Durante o taxiamento, os pilotos procederam ao taxi take off check-/ist ~ie
precede a decolagem. Ao longo da seqncia verificaram, entre outras Disas, se
as portas
(da cabine de passageiros e dos pores de carga) estavam Drretarnente fechadas e
travadas. Conferiram a presso do leo dos motores. ~hecaram os comandos
aerodinmicos
(leme profundor, leme de direo, ilerons, flapes, estabilizadores), para ver se
o curso de todos se encontrava esimpedido.
Um poro de carga que se abrisse, ou uma superfcie de comando que ~o se
movesse, durante ou aps a decolagem, poderia resultar numa trag-ia. Por esses
e outros
motivos, os avies (excluindo-se os pequenos) preci-im ser pilotados por mais de
uma pessoa, possibilitando a checagem de cada m dos itens.
Tudo conferido, o VP-375 pediu  torre de Confins que lhe desse a xbida, ou
seja, a rota a ser seguida durante o incio do vo, sem risco de ~1iso com
outra aeronave.

Como quase no havia trfego naquele final de ianh, a torre liberou uma subida
em rota, permitindo que o Vasp, logo ~s a decolagem, tomasse o rumo do Rio de
Janeiro.
Quando atingiu a cabeceira, Murilo, usando os freios e a steering
iheel, alinhou o PP-SNT com o eixo da pista. Ps a mo direita nas
ianetes de acelerao. Vngelis colocou a sua mo esquerda logo atrs,



121
LI



Caixa-Preta




num singelo e quase imperceptvel bal de mos, coreografia que se repe-tia a
cada decolagem.
Murilo empurrou as manetes para a frente at a posio vertical, impri-mindo 50%
de potncia nos motores. Acionou o boto de auto-throttle (ac lerao
automtica).
Um sistema eletrnico se encarregou de adiantar as
netes at a potncia de decolagem e de sincronizar as turbinas.
Como que surpreendido pela fora de empuxo dos seus pfprios motores
Vasp 375 projetou-se para a frente, engolindo a faixa de concreto da pista.
Prestando ateno ao indicador de velocidade, Vngelis recitou:
-        Oitenta ns.
Murilo conferiu seu prprio instrumento e repetiu:
-        Oitenta ns.
Vngelis rebateu:
-        Crosscheck - indicando assim que os dois velocmetros acusavam mesma
velocidade. No fosse o caso, a decolagem teria sido imediatamentc
abortada.
O        comandante trouxe a mo direita para o manche. Nas manetes, a mo
esquerda de Vngelis moveu-se um palmo para a frente e substituiu a de Murilo. A
troca
foi feita mecanicamente, sem afobao e sem que os pilotos tivessem de
raciocinar sobre o movimento, resultado de centenas de horas de treinamento.
Murilo olhava quase o tempo todo para fora. Vngelis. apenas os instru-mentos.
- Vi - disse o co-piloto, indicando que o Boeing atingira uma velo-cidade que
no mais lhe permitia frear e parar antes do final da pista, caso
ocorresse alguma pane.
O        comandante tirou o olho da pista, verificou o instrumento e repetiu:
-Vi.
- Crosscheck - informou Vngelis, para logo depois assinalar: - Ro-tate -
significando que o Vasp 375 atingira a velocidade de decolagem.
- Rotate - respondeu Murilo, depois de checar o indicador de velo-cidade.
-        Crosscheck - confirmou o co-piloto.
S ento o comandante puxou o manche e descolou a aeronave do
cho.



122

Eram 10h52. Com sete minutos de atraso, o Boeing 737 da Vasp, mo-        1
300, prefixo PP-SNT, com 98 passageiros (lotao quase completa) e
tripulantes decolou para o Galeo, cumprindo, ao mesmo tempo, a Pon-rea Belo
Horizonte-Rio de Janeiro das 10h45 e a ltima etapa do vo 1
que se originara em Porto Velho naquela madrugada.
Na poltrona 3C, Raimundo Nonato apalpou sua mochila e sentiu a ~ncia arredondada
do tambor do revlver.




123
VP-375 - Terror na Ponte Area

Captulo 6




Q
uando o VP-375 atingiu 500 ps (166 metros) de altura, M
fez ceder ligeiramente o nariz. Reduziu a potncia para o padro subida,
evitando com isso um desgaste desnecessrio das turbina
-        Gear up, gear up, flaps up, flaps up, after-takeoffchecklist, ok.,
clone ao compasso da ladainha do ofcio, comandante e co-piloto cumpriam -
tarefas, subindo
o trem de pouso e recolhendo os flapes (superfcies aero micas mveis), falando
em ingls, como  praxe entre os pilotos de carreir2 Murilo pedia e Vngelis
executava.
O Vasp chamou o Cindacta - Centro Integrado de Defesa Area Controle do Trfego
Areo -, em Braslia, e pediu liberao de veloci&
- Positivo - autorizou Braslia, eximindo o 375 de cumprir a padro, que
implicaria numa velocidade de 250 ns at o nvel 100 (10 ps). Sem outra
aeronave voando
na rea, o Vasp pde acelerar  vontade, mantendo proa de Barra do Pira,
entrada de rea do Rio de Janeiro, quilmetros ao sul.
Murilo ps os comandos no piloto automtico, chamou um comissrio e pediu o
almoo. O tripulante extra, Gilberto Renhe, tambm quis. Vnge-lis estava sem
fome. Comera
um sanduche na etapa Goinia-Belo Horizon-te. Ficou observando o vo, vigiando
os instrumentos, s vezes dando uma olhada no vazio  frente do pra-brisa.
L atrs, o servio de bordo se iniciara, operao que tinha de ser execu-tada
quase aos atropelos por causa da pequena durao da etapa. Seriam reti-124
1

VP-375 - Terror na Ponte Area




as de contineres embarcados em Belo Horizonte quase 100 refeies, ndicionadas
em caixas, que seriam distribudas aos passageiros, acompa-adas de bebidas as
mais
diversas. Tudo teria de ser recolhido antes de o ~o entrar nos procedimentos
finais do pouso no Rio.
Quando chegou sua vez, Raimundo Nonato recusou secamente a cai-nha azul turquesa
com a refeio, que lhe foi oferecida pelo comissrio
alente.
Logo depois, o chefe de equipe Pinho e a comissria Angela passaram
m o carrinho de bebidas.
- Alguma coisa para beber, senhor? - perguntou Angelo. Nonato limitou-se a
menear a cabea, indicando que no queria nada. Renate e Klaus Borgards, Kajo
Pieper
e Chico Pvoa conversavam ani-adamente. Falavam das viagens que tinham acabado
de fazer pelo Brasil. o sbado, o grupo de alemes se despediria do pas com um
passeio
de veiro pela Baa de Sepetiba.
Espremido em sua poltrona do meio, Pieper se lembrava que j fizera rota Belo
Horizonte-Rio incontveis vezes, nos 24 anos em que morara
o Brasil. Olhou para fora e viu que o tempo estava bom, o cu muito aro. Como o
avio decolara quase no horrio, estimou que a chegada no
o se desse. por volta de 15 para o meio-dia. Desligou-se da conversa, pe-ou um
jornal na bolsa da poltrona e comeou a ler, enquanto mordiscava m sanduche.
Marialice Szpigel estava louca para chegar. Ela tinha medo de avio.
~assava o tempo todo vigiando o vo.
No cockpit, Murilo e Renhe tinham terminado de almoar. Chamaram
tm comissrio para recolher tudo. O avio j se aproximava de Barra do
~        O comandante pediu ao Cindacta autorizao para iniciar a descida.




~-.




125
1



Captulo 7

D
epois que um comissrio recolheu sua bandeja, Ditzel foi para primeira fila
conversar com os japoneses, conforme lhes promet ao embarcar. Havia uma pilha de
jornais
no assento do meio,
zio, entre Yoda e Komatsu. Estes se apressaram em pr tudo no cho, p que Ditzel
pudesse sentar-se. Nenhum deles percebeu que um homem, ape~ tando uma mochila
contra
o peito, viera na cola de Ditzel e seguira em di o  proa da aeronave.
Raimundo Nonato, que percebera que o avio comeava a descer, 1 vantara-se de
seu assento na fila 3. Cobriu rapidamente a distncia que separava do corredor
de sada
e da galley dianteira, onde o comissrio IIY guardava caixinhas de lanche
usadas.
Quando chegou  porta do cockpit, Nonato ps a mo esquerda na
aneta, para abri-la. A mo direita se encontrava no interior da mochi1a,~
empunhando o revlver.
Dias sups que o passageiro estivesse querendo ir ao toalete dianteiro~ que
ficava logo ali, do lado esquerdo, junto  entrada da cabine de comandG
-        Senhor, o banheiro no  a no.  aqui do lado - o comissri mostrou a
porta certa.
Nonato fingiu no ouvir e girou a maaneta do cockpit.
-        A no pode entrar - insistiu Dias, elevando um pouco o tom voz. Mas
foi surpreendido pelo passageiro, que sacou um revlver da mochil:
e disparou quase  queima-roupa em sua direo. Dias teve tempo apenas d

126




VP-375 - Terror na Ponte Area




ar as caixinhas de lanche para cima e desviar a cabea para a esquerda. esmo
assim, a bala raspou o lado direito de seu rosto e varou sua orelha, do alojar-
se na
parede de pressurizao da aeronave. No o matou por questo centmetros.

Na cabine de comando, Murilo foi o nico que percebeu que era tiro.
irou-se para trs e disse para Renhe:
- Porra, isso foi tiro!
o tripulante extra achou que tiro, naquele momento e lugar, era algo e no fazia
o menor sentido. Mas ouvira bem o estampido e percebera a itao do outro lado
da
porta. Retesou-se no banco, na expectativa do que acontecer, com esperana de
que fosse apenas algum tipo de brincadeira de au gosto feita por um dos
passageiros.
Algum que estourara um saco de apel, ou coisa parecida.
Mas, certo de que se tratava de algo srio, Murilo ordenou-lhe:
- Trava a, trava a porta!
Renhe ergueu-se rapidamente, trancou-a e espiou pelo olho mgico para er o que
acontecia do outro lado. S ento assustou-se de verdade.
- Puta! Tem um cara com um revlver a na porta - relatou ao co-andante,
sentindo o corao disparar.

auri Lage, que se entretinha lendo um jornal, pensou que o barulho fosse
penas uma lata de cerveja sendo aberta. Mas seu companheiro Manoel Rai-undo,
alm de ouvir o barulho, sentiu cheiro de plvora.
- Ei, Amauri, isso foi tiro.
Logo tiveram certeza de que era mesmo tiro, quando um comissrio
eio correndo pelo corredor, gritando:
- Ele est atirando, ele est atirando.
Tampando com a mo a orelha ensangentada, Ronaldo Dias se jogou
o cho da prpria fila 8, no lado direito, onde uma mulher e um mdico de elo
Horizonte ocupavam duas das trs poltronas.
O japons Shiba, que no instante do disparo saudava Ditzel, mas ouvira em o
estalo seco, ocorrido a poucos metros de sua poltrona, testemunhara a ga do
comissrio.
Agora olhava o homem moreno, parado junto  entrada o cockpit, com um revlver
na mo.



127
Caixa-Preta




-        O que est acontecendo? - perguntou Komatsu, de cuja poltro no tinha
como ver o corredor de acesso  cabine de comando, por causa divisria situada
entre
o lado direito da fila 1 e a galley.
-        Um homem disparou um revlver - Shiba explicou pausadamen mantendo a
fleuma.
-        O que foi isso? - perguntou Yoda a Ditzel. Este pensou que cafeteira ou
garrafa trmica explodira na copa.
Logo atrs, Assis Costa Couto, que tinha medo de avio e estava torce do para
chegar logo ao Rio, no vira o passageiro baixo e forte se dirigin para a
frente. Mas
percebera nitidamente que o barulho era de tiro. Co traiu-se, alerta.
Apesar do medo que tinha de qualquer barulho diferente quando voa Marialice no
se importou com o que lhe pareceu no mais que um estali desimportante. Achou
que
uma garrafa se quebrara l na frente.

No corredor, Angelo - que acabara de trocar a sapatilha de servi pelo sapato de
salto alto do uniforme, que tinha de estar usando na hora pouso - passava
recolhendo
copos. No percebera o barulho do tiro, m vira, ao longe, na galey dianteira,
as caixinhas azuis de lanche subindo e todas as direes. E viera correndo ver o
que
acontecia.
De onde estava, Dias, com sangue escorrendo do lado do rosto, grito para ela:
-        Se proteja que ele deu um tiro.
Mesmo assim, a comissria, perplexa, levou alguns segundos para en tender o que
sucedia. Quando se recuperou, gritou para os passageiros:
-        Se abaixem todos. Tem um louco a bordo.
Na stima fila, Cludio Diniz, apavorado, soltou-se do cinto de segu rana e,
mesmo sendo um homem gordo, sentou-se no cho, espremendo-se No satisfeito,
tirou
a almofada do assento e usou-a para tampar o rosto. 1
O pistoleiro agora atirava contra a porta do cockpit, tentando arromb-~ la. Deu
cinco tiros e esgotou a carga do tambor. Sem que ningum ousasse fazer nada,
recarregou
rpida e habilmente a arma e voltou a disparar contra a fechadura.
Trancados no interior do cockpit, os pilotos ouviam um tiro aps o ou-tro: pah,
pah, pah. E os buracos rombudos, que comeavam a surgir na porta, mostravam que
o
pistoleiro atirava na direo deles. Algumas balas foram



128




1

r no painel de instrumentos: uma espatifou a tela do radar meteorolgi-rntra
destruiu o monitor do CDU (equipamento eletrnico de navega-Houve um projtil
que se
aninhou no clip holder, pequeno painel loca-Lo no centro do manche, onde fica o
checklist. Murilo sentara-se meio de no brao esquerdo da cadeira de comando,
tentando
fugir da linha de S por isso no foi atingido por essa bala, que tinha endereo
certo, pois ra o encosto da poltrona. Vngelis se abaixara, encolhendo-se num
canto,
ado direito.
O comandante gritou para Renhe:

- Pro lado, Renhe! Pro lado!
Quando o tripulante extra se ergueu do jump seat, para sair do alcance tiros,
uma bala acertou sua perna direita, entre a batata e o calcanhar.
-        Fui ferido aqui - ele gemeu para o comandante, sem no entanto eber que
o projtil atingira o osso, fraturando-o. Sentiu apenas o impacto ala, como o de
uma pedrada bem dada. Espremeu-se junto  parede, para ser atingido novamente.
Como era de sua ndole, Vngelis se preocupou mais com o amigo do consigo.
Abaixado do lado direito, com o microfone na mo - e branco causa do susto -,
olhou para
trs, na direo de Renhe, e disse-lhe:
Calma, Renzinho, calma.
Renhe passava a mo na perna, sondando a extenso do ferimento. Pen-num monte de
coisas, que fizera e que no tinha feito. Achou que haveria ~ tiros e que, mais
cedo ou mais tarde, um deles haveria de acert-lo. iginou que fosse morrer.
Lamentou que tudo estivesse acontecendo de ieira to rpida, sem nenhum aviso.
"Estou
indo, acabou", aguardou a gada da morte. Lembrou-se da mulher e da filha.
Lembrou-se de um co-torzinho amarelo com o qual a menina gostava de dormir.
Muito religio-embora
no seguisse nenhuma religio especfica, pensou em Deus: "Se ~avontade, que
seja dessa forma. Guarda a minha esposa, guarda a minha
a.
Mas a pessoa do lado de fora tentava apenas abrir a porta, pois os furos
projteis se concentravam no ponto onde ficava a fechadura.

cabine de passageiros, boa parte dos ocupantes das primeiras filas pro-~ra se
proteger lanando-se nos espaos entre as fileiras de poltronas. Mais



129



L
VP-375 - Terror na Ponte Area
Caixa-Preta




atrs, os alemes se entreolhavam, apavorados, sem entender direito o estava
acontecendo.
O chefe de equipe Pinho - que fora  galley traseira buscar um an sico para um
passageiro - pensou que o barulho era apenas o de uma ban ja caindo. S quando
viu
o comissrio Valente se esconder por trs de poltrona, Pinho percebeu o que
ocorria. Sentou-se na ltima fila do 1 esquerdo, de onde limitou-se a observar
os acontecimentos,
assustado.
Angelo sentara-se na mesma fila onde o colega ferido, Dias, refugi se. S que
ela estava no lado esquerdo, entre os passageiros Amauri L Manoel Raimundo.
Podia
ver Dias sentado no cho, o rosto ferido encost no joelho de uma passageira. No
tendo percebido que o ferimento de D era superficial, a comissria preocupava-se
com ele.
Junto  porta do cockpit, o pistoleiro recarregou o revlver. Shiba p sou em
atac-lo. Mas lembrou-se de um filme que vira recentemente, so um seqestro
areo, no

qual o seqestrador tinha cmplices entre os p geiros. O japons conteve seu
impulso.
Os tiros recomearam. Na cabine, Mutilo mandou Renhe abrir a po Do contrrio,
morreriam os trs ali dentro.
Quando a porta se escancarou, um homem forte e moreno irrompeu cockpit. Sem
perder tempo, gritou para o comandante:
- Vamos para Braslia! - Apontou a arma para a cabea do aviad
- Vamos para Braslia!
Se tivesse dito "Vamos para Cuba", "Vamos para Moscou" ou"V -para Bagd", no
teria causado surpresa maior. Por que diabos
qestraria um avio entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro para ir a Brar
Mas seqestros so seqestros. E quem escolhe para onde se vai seqestrador.
Isso no impediu que Mutilo adotasse o procedimento previsl para aquele tipo de
emergncia.
Fingindo que pilotava normalmente, levo disfaradamente a mo aos controles do
transponder (aparelho que informa localizao e a identificao da aeronave aos
controles
de terra) e, girando w boto, registrou no instrumento o nmero 7.500, que  o
cdigo universal seqestro (em "aeronautiqus": interferncia ilcita). Assim
procedendo,
n~ precisou dizer que estava sendo seqestrado. O Cindacta soube imediatament
Uma voz seca, profissional, aparentemente desprovida de emoes, fe se ouvir nos
fones de ouvido de Mutilo e Vngelis:



130




VP-375 - Terror na Ponte Area




-        Ciente, 375.
Cumprindo a instruo que recebera do pistoleiro, Mutilo dava incio a
curva para tomar a proa norte, de Braslia. Ao mesmo tempo, negociava da cabine
do tripulante extra - de cuja perna escorria muito sangue,
o prprio Renhe tentava estancar com um leno  guisa de torniquete.
- Deixa ele ir l para trs - o comandante pedia ao seqestrador. -vai adiantar
nada ele ficar aqui.
o homem no respondeu.

-        Meu amigo - o prprio Renhe pediu ao indivduo da arma -,
ferido, deixa eu passar, em nome de Jesus Cristo. - E comeou a antar-se.
Decidira entregar seu destino e sua alma a Deus. Sairia de qual-
maneira, com ou sem permissao.
O seqestrador fez meno de levantar a arma, mas desistiu no meio do iiinho.
Evitando olhar para o tripulante ferido, baixou o revlver e limi-a dizer:
-        Vai, vai - os dois "vai" sem tirar o olho de um ponto indetermina-no
cho. - Vai, vai.
Renhe preparou-se para desarmar o jump seat, procedimento necessrio poder
passar. Mas o pistoleiro, recompondo sua autoridade, fez sinal
 a        arma, indicando que no. O piloto precisou pular por cima do banco,
fez com grande dificuldade por causa da perna ferida. Saiu aliviado do
achando que o drama terminara, uma vez que o seqestrador atingira
objetivo, ir para Braslia.
Mas, no Brasil, seqestro de avies era algo que no acontecia desde a
da ditadura militar. Tornara-se obsoleto. Talvez por isso, Braslia no
convenceu. Chamou o 375, que, conforme o controlador podia constatar
sua tela de radar, alterara seu curso.
- Vasp 375, confirme mudana de proa - pediu cautelosamente o perador do
Cindacta, sem mencionar o alarme de seqestro.
Sempre atento ao homem da arma, o co-piloto Salvador Evangelista abaixou-se para
pegar seu microfone, no lado esquerdo da parte baixa do pedestal. Mas, assim que
ensaiou o primeiro movimento, Raimundo Nonato encostou o revlver em sua tmpora
esquerda e atirou. Vngelis tombou so-bre o manche. Tremeu um pouco, j
estertorante,
e morreu.

4




131




Captulo 8




T
endo sado da cabine de comando, Gilberto Renhe se encaminhai
para a cauda do Boeing. Pretendia sentar-se o mais longe possvel cockpit, como
se a distncia o imunizasse contra o que
ter l na frente.

Passada a adrenalina dos primeiros instantes, Renhe sentia dores na na baleada.
Olhou para os passageiros. Alguns se encontravam aterronzado~ Outros pareciam
desligados,
abobalhados. Um homem se eximia da realida-de, escondendo o rosto por trs de um
jornal.
Renhe dera apenas alguns passos pelo corredor, quando ouviu o estam-pido do tiro
que matou o co-piloto: pah! Mas sua mente no o assimilou, Registrou-o como
sendo
apenas um eco do tiroteio de minutos antes. passou pela sua cabea que o homem
do revlver pudesse ter atirado em Murilo ou em Vngelis.
Amparando-se nos encostos das poltronas, o tripulante extra atravessou
toda a extenso da cabine de passageiros e foi sentar-se perto da galley
traseira.
Deixou-se cair numa poltrona de corredor.
Durante a passagem notara um comissrio (Ronaldo Dias), de ccoras,
entre duas fileiras de poltrona, o rosto sangrando. Renhe soube assim
no era o nico ferido.
Na ltima fila, Pinho se perguntava sobre o que lhe parecera o eco de
mais um tiro. Concluiu que o homem que invadira o cockpit disparara contra
algum instrumento, para atemorizar os pilotos.



132




O japons Shiba sabia que no. Das 102 pessoas que se encontravam        ] quele
momento na cabine de passageiros, apenas ele, sentado na 1 C (nica
~ltrona da qual se podia enxergar, enviesadamente, o lado direito do cock-vira
quando o seqiiestrador executara friamente um dos pilotos. Nem
esmo Costa Couto, sentado atrs de Shiba, teve ngulo para testemunhar o
ssassinato.
Shiba virara-se para o ocupante da lA, conjeturando se lhe relatava o
acabara de testemunhar ou no. Mas como o vizinho - que tinha a
morena e um vasto bigode - parecia ser rabe ou persa (tratava-se
ilmente de um iraniano), o japons temeu que pudesse ser cmplice do
trador. Podia,  claro, avisar aos seus companheiros de viagem, Ko-e Yoda. Mas
eles estavam do lado esquerdo da fila 1. Shiba teria de

mais alto e o homem armado, muito prximo, poderia no gostar de
conversando.
Procurando no se deixar vencer pelo desespero, Shiba punha as idias
ordem: alm de atirar no comissrio e matar o co-piloto, o seqestrador
o        tripulante, que Shiba supunha ser um mecnico de vo, que sara cabine
com a perna ensangentada. Sabia que o avio tinha agora apenas
piloto. De onde estava, no tinha como v-lo. Mas via o seqestrador
~pontando-1he o revlver. Se puxasse o gatilho, o avio no teria mais quem
pilotasse. Seria a morte de todos.
No. No havia a menor necessidade de falar sobre isso a Komatsu e
Iria afligi-los  toa.

simplesmente no queria acreditar em seus olhos. Nem em seus ouvi-
os. Escutara o tiro, olhara para a direita e vira a cabea do amigo tremer. E
ombar para a frente.
A primeira reao do comandante foi instintiva, estritamente profissio-al:
segurou seu prprio manche, para evitar que o piloto automtico se de-armasse
devido 
presso que o corpo do co-piloto poderia estar exercendo obre o comando da
direita, acoplado ao seu.
Fernando Murilo no gritou. Mas seu sangue enregelou-se nas veias, orno que o
anestesiando. Do corpo de Vngelis no saa uma gota de san-ue. Mas a cabea,
inerte,
repousada sobre o manche - aps a convulso que e seguiu ao tiro -, no deixava
dvidas. Estava morto.



133
VP-378 - Terror na Ponte Area



Oa~xa-Preta




Mos nos comandos, olhos nos instrumentos destroados pelos tirc
Murilo perguntou ao invasor:
-        Por qu? Mas por qu, meu Deus? Por que voc fez isso?
O        assassino hesitou antes de responder.
-        Ah, ele ia tentar alguma coisa.
-        No. Ele ia pegar o fone pra falar. Puxa vida, meu Deus do cu, tem uma
filha de cinco anos.
-        Eu no quero saber disso. Eu no quero saber disso. Vamos parar falar
nisso. - Nonato enfiou a ponta do cano do revlver nos cabelos grisallx
do piloto. - No quero mais saber disso. N... no... no vamos falar niss~
Murilo olhou para o atirador e no disse mais nada. E passou a cuidar pilotagem,
que era o melhor que podia, e que sabia, fazer. Usando o
de altitude, inseriu o nvel 370 (37 mil ps), o mximo que um 737-3C~ podia
alcanar. Tal como um condor se abrigando nas alturas, subiu para te tempo de
refletir.
Subiu para gastar o mnimo possvel de combustvel.
biu, quem sabe, para estar mais perto de Deus. Perto de Vngelis que, l. cima,
o haveria de ajudar. Ps a velocidade em 230 ns (425 quilmetros hora), que era
a mais econmica.
Mesmo sozinho, com os instrumentos danificados, e com um

armado s suas costas, Murilo sabia que precisava agir sem afobao. Tin'
certeza de que, depois do alarme de seqestro, o Cindacta o acompanhavaec ouvia
atentamente.
Tinha de informar-lhes sobre Vngelis. Como
junto  boca um microfone, diminuto, preso ao fone de ouvido por uma haste de
metal curva e fina, apertou um boto no manche, ligando-o. Falan-do pelo lado da
boca,
murmurou para o centro:
-        Ele matou meu co-piloto.

Se as palavras saram fracas da boca do comandante do Vasp 375, caram como um
raio na sala de controle do Cindacta. Como fogo morro acima, a notcia escalou
rapidamente
a cadeia de comando: o Vasp fora seqestrado pouco antes de pousar no Rio de
Janeiro, o co-piloto fora assassinado. E as telas de radar mostravam que a
aeronave
voava no rumo norte, em direo capital federal.

Com a morte do co-piloto, ficou mais fcil para Nonato controlar, ao mesmo
tempo, o comandante e a cabine de passageiros. Postou-se junto  entrada do

134




~missria Angela queria ir ao banheiro pegar algumas toalhas para estan-o sangue
do ferimento de Dias (o mdico sentado na mesma fila do rapaz ,,imobilizado pelo
medo, no se identificara como tal). Angelo ergueu
rao e gritou para o seqestrador:
- Eu preciso ir ao banheiro.
O homem l na frente hesitou um pouco. Depois concordou com o dido, sinalizando
com o prprio revlver, indicando que ela poderia usar
dos toaletes traseiros.
Angelo caminhou at a popa e, para seu assombro, descobriu cinco

espremidos nos dois banheiros, fugindo de novos tiros. Ela me-
se entre eles, muniu-se de toalhas de papel e regressou ao seu lugar, na a fila
do comissrio ferido, s que do outro lado. Apesar do ferimento
'tivamente leve, Dias se deixava levar pelo desespero. Soluava descontro-
~amente.
Para complicar as coisas, o sangue do comissrio salpicava a roupa de seda
a passageira que se interpunha entre ele e o mdico. A mulher reclamava:
- Voc est sujando o meu vestido.
Urna enfermeira, tambm com autorizao do atirador, levantou-se de rna das
primeiras filas e foi cuidar dos feridos. Agachou-se no corredor, Lnto a Dias, e
improvisou,
com um pano, uma bandagem para a orelha dele, iquanto o mdico nada disse ou
fez. Depois, ela foi l para trs, ver o piloto. :ntou-se ao lado de Renhe e
rasgou
a manga de sua camisa. Com o pedao
~arrancado, fez um torniquete para estancar a hemorragia na perna.
Na cabine de comando, Murilo tinha dvidas se o combustvel dava para chegar a
Brasilia. Decolara de Belo Horizonte com autonomia para ir at o Rio de Janeiro,
depois
do Rio para Guarulhos, em So Paulo (seu aeropor-rode alternativa, caso o Galeo
estivesse fechado), e mais 45 minutos de vo. Comparou mentalmente esses dados
com
sua nova realidade: aps ter ido de Belo Horizonte at prximo de Barra do
Pira, portanto quase at o Rio, teria de retornar a Brasilia. Talvez no desse.
Decidiu
explicar isso ao pistoleiro, para evitar novos incidentes.



135
VP-375 - Terror na Ponte Area




do lado direito, por trs do jump seat, mantendo a porta entreaberta as pernas e
movendo o revlver para a frente e para trs, horizontalmen-leque.

1

Caixa-Preta




- Pode ser que a gente no tenha autonomia para ir a Braslia - dis~
perguntando-se se o cara sabia o que significava autonomia. Tomou a pri cauo
de falar com
o microfone aberto, para que o Cindacta soubesse
estavam indo para l e facilitasse as coisas para um pouso rpido. Isso,  clar~
se conseguissem chegar.
O seqestrador no pareceu se impressionar com a informao.
- No. No. D para chegar. Vamos embora - limitou-se a dizer.
Murilo resignou-se, pensando em novos procedimentos para gastar mnimo de
combustvel.

Em Braslia, a Polcia Federal fora informada que um seqestrador mata
um piloto em pleno vo e que o avio se dirigia para l. Imediatameni
todos os agentes disponveis foram postos em alerta. A Polcia Militar
1

Distrito Federal foi acionada. Soldados da Aeronutica tomaram posio       -
locais estratgicos do aeroporto. A Base Area de Anpolis, unidade 
competia a defesa area da capital, foi notificada. Um caa Mirage foi apron-
tado s pressas e decolou em quatro minutos para interceptar o Boeing.

Na cabine de passageiros do PP-SNT, todos os olhares convergiam para homem
armado l na frente. Consciente de que era o personagem pi
do drama por ele mesmo concebido, Raimundo Nonato se adiantou um pouco e falou,
alto o suficiente para que todos o escutassem:
- Isto  um seqestro. Se todo mundo ficar quieto no lugar, ningum sair
ferido. Eu no tenho nada contra voces.
No houve maiores reaes, a no ser alguns suspiros de alvio. Com exceo do
passageiro Takayoshi Shiba e o comandante Murilo, ningum sabia que o
seqestrador
matara o co-piloto. Era um seqestro. Pronto. Ele os levaria para algum lugar,
onde seriam liberados, como acontece na maioria das vezes, tanto na vida real
como
nos filmes.
Quando atingiram o nvel 370, Mutilo estabilizou o avio. Tentou ex-plicar ao
seqestrador o funcionamento do manche, para ver se ele concorda-va em deix-lo
retirar
o corpo do co-piloto. Nada. O homem era insensvel a qualquer argumentao.
Felizmente, o piloto automtico se mantinha funcionando, pois, estan-do preso
pelos cintos de ombro, o cadver de Vngelis, embora encostasse no



136
b




VP-373 - Terror na Ponte Area




ache, no o pressionava muito. Apesar disso, Mutilo temia que, se tivesse
os comandos numa amplitude maior, o tronco do co-piloto o atrapa-no momento mais
importante.
Nada disso interessava ao seqestrador. Que s dizia: "No pode", "Va-embora",
"No deixo", "No quero", "No"...
Se antes no notara sangue no cadver, Mutilo agora podia ver que o

io direito de Vngelis explodira, no ponto por onde sara a bala. Da cavida-
ocular escorria massa enceflica, avermelhada. Uma baba transparente,
espumante, com bolhas cor-de-rosa, pingava no cho do cockpit.
Fazendo o possvel para sufocar a revoluo que se processava em seu
mago, e esquecer a dor que sentia pela perda do amigo, Murilo conti-a se
preocupar principalmente com o combustvel. Controlava o
xmetro (fue/flow). Acompanhava, a cada minuto, o quanto lhe resta-
nos tanques. Perguntou ao seqestrador o que deveria fazer ao chegar a

-        Ns vamos pra cima do Palcio do Planalto - respondeu o pistolei-
- Ns vamos jogar o avio no Palcio do Planalto.
-        Qu! Ah, meu Deus do cu. - A nova ordem pegou Mutilo de Tonteou-o como
um murro na ponta do queixo. Se antes suspeita-
agora tinha certeza de que o homem era louco varrido. E que todos a
iriam morrer, a no ser que lhe ocorresse uma soluo miraculosa.



atrs, quase todos haviam percebido que o avio procedera a uma longa
rva e subira. Alguns poucos notaram que o novo rumo era o norte.
Shiba, que no despregava os olhos do cockpit e do seqestrador, lem-ou-se que,
em conversas que travara com outros japoneses que moravam
Brasil, soubera que, em diversos seqestros areos ocorridos no pas, os ies
costumavam ser desviados para Cuba, cujo governo dava asilo aos se-estradores e
devolvia
os avies e seus passageiros, inclusive obsequiando-os
mcharutosdamelhorqualidade.
Quem sabe no seria uma boa oportunidade de conhecer Cuba e ganhar ~ns charutos,
que Shiba muito apreciava. Tentou relaxar, valendo-se desse nsamento positivo.
Mas,
quando olhava para o cockpit e via o piloto mor-cado para a esquerda sobre o
manche, sentia que as coisas no seriam to ~ples assim.



137




Caixa-Preta




Assis Costa Couto, Amauri Lage e Manoel Matos tambm achavam o avio ia para
Cuba. Lage indagava-se sobre o combustvel nos tanques. que teriam de fazer
alguma escala
antes de chegar a Havana? Manoel medo, mas no pavor. Achava que a coisa iria se
resolver. Assis no via a' de pousar, fosse onde fosse.
O silncio a bordo era tumular. Eventualmente, algum cochichava a pessoa ao
lado. Todos mantinham os olhos fixos no seqestrador, hipno~
zados por seu revlver.
Cludio Diniz voltara a sentar-se na poltrona. Mas tinha a impresso d que o
homem l da frente olhava exclusivamente para ele. Tirou a almofad do assento e
sentou-se
no alumnio duro, num plano inferior ao dos dem~ passageiros. Agora o atirador
no podia v-lo.
Marialice tambm achava que o seqestrador olhava o tempo todo
sua direo. Seu marido, Bernardo, tinha o mesmo sentimento. E balbuciav
para ela:

- No olha para ele. No olha para ele. - Bernardo temia que olhares do casal se
encontrassem com o do homem armado e ele no gc
Embora fosse agnstica, Marialice tinha um santo protetor: So P
E o invocava nos momentos de sofrimento. Implorou ao santo que nao
deixasse morrer. Que lhe permitisse acompanhar o crescimento dos
Um passageiro, sentado atrs dos Szpigel, parecia entender tudo o acontecia no
vo. E passava suas impresses s pessoas ao redor, como reivindicando para si o
papel
de mestre-de-cerimnias ou, quem sabe, arauto da tragdia. Disse a todos que o
avio fizera uma curva de 1 8O~ e agoi voava para o Norte. Foi um dos primeiros
a
perceber quando o Mirage FAB interceptou o Boeing. Marialice prestava muita
ateno ao que ele dizi~ Mas, quando ameaava comentar alguma coisa com
Bernardo, o marido
prava-lhe entre dentes:
- No fale comigo. No fale com ningum.
Na primeira fila, Ditzel dialogava com os japoneses por intermdio d&
lhetinhos. Mas, embora fizesse o possvel para tranqiliz-los, estava preocupa
simo com o combustvel. Olhava a todo momento para o relgio e fazia e
Ditzel achava que o avio iria ser reabastecido em algum lugar e qu&
seria apenas o incio de uma via-sacra que terminaria em Cuba, ou lugar
Mas tinha um mau pressentimento: sentia que algo poderia dar errado. DeU



138
a




]
VP-375 - Terror na Ponte Area




ver uma nota para sua mulher, Izabel, que felizmente no o acompanhava na dando
conta de algumas pendncias que precisavam ser resolvidas. De-resumir os pontos
mais
importantes, ps o bilhete no bolso.
De sua poltrona, Ditzel no podia ver nem o piloto nem o seqestrador. de vez em
quando, o sol projetava na porta do toalete a silhueta do
mem apontando seu revlver, como se fosse um velho filme de terror em e preto.
Angelo e Pinho tambm perceberam que o comandante mudara de aparentemente
desistindo de pousar no Rio. Mas no tinham a menor de para onde iam.

Obviamente ningum suspeitava que a inteno do seqestrador era ar o avio
sobre o Palcio do Planalto. Caso contrrio, teria sido imposs-evitar um pnico
total.
Ou, at mesmo, um ataque  cabine de comando, e poderia resultar em mais mortes,
inclusive a do piloto. Sem falar numa pressurizao sbita, se um tiro
arrebentasse
uma das janelas.

Braslia, o Vasp 375 tornara-se um assunto de Estado. O ministro da ronutica,
brigadeiro Octvio Moreira Lima, o ministro-chefe do SNI, neral Ivan de Souza
Mendes,
e o diretor-geral da Polcia Federal, delegado meu Tuma, foram informados do
seqestro e do assassinato em pleno ar. Ao sul da capital, a 37 mil ps de
altura, o
Mirage, depois de voar algum po ao lado do PP-SNT, agora fazia uma longa curva
para se posicionar sua esteira. Mutilo viu quando o caa passou  sua esquerda,
uns
100 tros abaixo. Depois o perdeu de vista.
Finalmente, o comandante viu surgir Braslia, o Plano Piloto meio en-berto. No
dava para enxergar o aeroporto. Muito menos a ponta do Eixo onumental onde
ficava
o Palcio do Planalto, alvo do seqestrador, blo-eado por um providencial biombo
de cmulos.
Como o combustvel se consumia muito lentamente, Murilo no preci-va se
preocupar de imediato com o pouso. Evitava aproximar-se da cidade, r causa das
sinistras
intenes do seqestrador. Quem sabe poderia con-c-lo de que, devido s
condies meteorolgicas, no era possvel sobre-ar o palcio naquele momento.
Poderiam
reabastecer noutro lugar, para ois retornar a Braslia.
Sem que Braslia tivesse falado nada, Murilo disse ao microfone:



139




Caixa-Preta




- T fechado. Positivo. - Virou-se para o seqestrador: - T falan do pra
Braslia me confirmar, n? Esto dizendo que est fechado. - E, novo, para o
microfone:
- Ah, sim. No tem condio de pousar em Bra lia. Est fechado. Positivo. Sim,
fechado. - E prosseguiu representando (cmico, no fosse trgico) teatrinho.

Enquanto diversas emissoras de rdio e televiso em todo o pas inter piam suas
programaes para informar sobre o seqestro, no Palcio do Pi nalto o
presidente
Jos Sarney fora avisado do incidente durante uma reuni~ com seu ministro das
Comunicaes, Antonio Carlos Magalhes. Mas n~ sabia, nem tinha como saber, que
a inteno
do seqestrador era despejar Boeing sobre sua cabea.
Quase ao lado da sala do presidente, o ministro-chefe do Gabinete ( vil, Ronaldo
Costa Couto, afligia-se enormemente. Mesmo sem saber da ames que rondava o
palcio,

Costa Couto acabara de tomar conhecimento, atrai de parentes em Belo Horizonte,
que seu irmo Francisco Assis era um passageiros do avio seqestrado.
No Aeroporto Internacional de Braslia o mnimo que se podia dizei que reinava o
caos. Viaturas da polcia corriam de l para c pelas pistas taxiamento. Seis
ambulncias
haviam sido postas de prontido. Carros Corpo de Bombeiros se posicionavam junto
s cabeceiras da pista prin4 O ptio fora ocupado por policiais. O terrao, por
jornalistas.
Tudo fora preparado para uma eventual negociao com os seqestra dores (ningum
achava que era apenas um), caso a aeronave se dirigisse -l, como se podia
deduzir
das telas de radar do Cindacta. No ptio do aerc porto, policiais ensaiavam, s
pressas, num 737-300 igual ao SNT, um assar to  aeronave, como se pudessem
adquirir,
em poucos minutos, um know. how que no lhes fora passado em anos de
treinamento.
Logo os reprteres na sacada enxergaram, voando muito alto, o a~
seqestrado. E o Mirage que o seguia.

Dentro do Boeing, Angelo se assustou quando viu o caa da FAB. V
para Dias, no outro lado, e disse:
- A coisa  mais sria do que a gente imagina. Tem um avio peqt nos seguindo.
Acho que  da Fora Area.



140
a




VP-375 - Terror na Ponte Area




Angela preocupava-se com duas crianas que choravam e tentava resol-um prosaico
problema do passageiro  sua direita, Manoel Raimundo.
- Minha filha - sondava ele -, se voc no estivesse aqui comigo, eu fazer xixi
no saco de vmito.
A comissria respondeu de primeira:
- No seja por isso, eu olho para o outro lado - e passou-lhe um dos

Apesar da permisso, Manoel inibiu-se totalmente. Simplesmente, no
ou xito na incmoda e desajeitada tentativa que fez.
Na fila da frente, Renato Resende, fora do campo de viso da aeromoa,
oveitou a sugesto e aliviou-se dentro de seu saco impermevel.
A empresria Corina Braga decidira gastar seu tempo escrevendo um
io de vo. "Por volta das 11h30 - rabiscou -, um homem baixo, more-,vestindo
jeans, ulantes." deu vrios tiros na porta da cauine do piloto e feriu dois Se
muitos
passageiros se preocupavam com as reservas de combustvel, iloto Renhe
simplesmente no entendia como o avio continuava voando. voando. E voando. Uma
coisa que
parecia no acabar mais. A perna no parava de doer. E Renhe tentava administrar
a dor, concen-do-se nela, truque que costumava dar certo. As vezes olhava para
fora,
via
ens passando e imaginava que deviam estar voando IFR (por instrumentos).
o tinha a menor idia de onda podiam estar, embora soubesse que o seqestra-r
pretendia ir para Braslia-estava l na frente quando ele o ordenara.
De vez em quando, Renhe arqueava o corpo para a esquerda e olhava
direo  cabine de comando. O homem armado continuava l, mas,
iosamente, sempre virado para o lado do comandante.
a que ele fez alguma coisa com o Sass?" (Era assim que Renhe
ava Salvador Evangelista na intimidade.) "Por que ser que ele nunca
a para o lado direito da cabine?", indagava-se, preocupado.
Como jamais abdicava de sua religiosidade, Renhe pedia a Deus que lhe
e foras para no sentir raiva do homem do revlver. Para ter capacidade
perdo-lo.
Angelo fazia contas. Estimava que o avio tivesse uma autonomia de
horas, tempo que acabara de se esgotar. Ela notava que voavam muito
o e que no havia nenhum sinal de preparativos para pouso.



141




Caixa-Preta




Houve um momento de expectativa, quando Nonato virou-se para passageiros e, num
ingls arrevesado, perguntou: "Tem algum estrangei aqui?" Mas logo ele viu Shiba
e o tipo bronzeado, ambos no lado esquerdo primeira fila. Resolveu, sabe-se l
por que razo, conversar com o da janeh Afastou-se da porta da cabine de
comando,
deu trs passos at ele e, sempi falando em ingls, quis saber sua
nacionalidade. O homem disse ser iranian O seqestrador aparentemente se
satisfez com a resposta,
pois o deixou paz. E no se interessou pelo japons.
Nonato regressou ao cockpit, deu uma olhada para fora do avio e
guntou ao comandante:
-        Cad o Palcio do Planalto?
-        No sei. T fechado. No d para ver.
-        Ento vamos pousar em Braslia.
Naquele instante, Murilo procedia a um grande crculo, tendo como centro. Mas,
aproximar-se da cidade, era tudo que no queria. O hom
poderia ver o palcio e voltar a ter a idia maluca de lanar o avio sobre ele.

-        Mas, meu Deus, eu j no lhe disse - gemeu o comandante -Braslia est
fechado.
- Ento vamos para Goinia. Murilo no tinha certeza se dava para chegar em
Goinia. De Brasli~
at l eram 20 minutos de vo. Preferia Anpolis, na metade da distncia.
-        No vai dar para chegar em Goinia - explicou ao seqestrador.
-        Ento vamos para Anpolis.
O        comandante suspirou aliviado. Inclinou as asas e tomou o rumo Anpolis.
At que enfim haviam chegado a um acordo.




142
a




Captulo 9

p'"i orina Braga continuava lanando anotaes em seu dirio. Escreveu

~ cia ter tomado um novo rumo.
que o avio, depois de dar algumas voltas ao redor de Braslia, pare-
1
Kajo Pieper olhava pela janela, tentando descobrir para onde estavam indo.
Dnhecia a regio. Durante muitos anos trabalhara como comprador de nquel ri
Gois. Depois
de alguns minutos de observao, concluiu, embora no muito nvicto, que voavam
para sudoeste, quem sabe para Anpolis ou Goinia.
1
Cada minuto qu passava parecia uma eternidade. Pieper podia ouvir,
imo se viesse de algum lugar muito longe, o dbil e aflito murmrio das
teces dos passageiros.
Renate e Klaus Borgards no tinham a menor idia de onde se encontra-
im. Muito menos faziam questo de saber. Queriam apenas que o avio pusasse.
Percebiam que o piloto, depois de fazer diversas curvas, tomara bva direo. No
suspeitavam
da tragdia que ocorrera no cockpit e se im-ressionavam com a quietude dos
passageiros, todos em seus lugares, rim querendo bancar o heri. s vezes,
Klaus falava
baixo com Renate, rocurando ser otimista:
- Vai dar tudo certo, querida. Ns j vamos pousar - cochichava, ~m dizer de sua
maior preocupao: o combustvel, que no havia como no
itar no fim.
Mesmo sem saber dos projetos camicases do seqestrador, no eram
oucos os passageiros que temiam o pior. Tudo levava a crer que o homem

143




Caixa-Preta




era um louco, no um ativista poltico de comportamento previsvel. louco armado
que atirava ao menor pretexto, como se podia ver pelos tripulantes feridos.
Por medo de se tornar a terceira vtima, ningum ousava conversar, no ser em
sussurros. Alguns pensavam na educao dos filhos, tentavam lembrar de contas
que haviam
deixado por pagar, de crditos a receber, disposies de seus testamentos. O
pessoal do BDMG se comunicava p bilhetes. Cada um queria saber do outro opinies
sobre
o seqestrador e motivos.
O chefe de equipe Pinho acreditava que o avio voava para sudoeste, Braslia
para Anpolis ou Goinia, trecho que o Vasp 375 percorrera naqu
manh, muito antes do incidente.
Curiosamente, Renhe, apesar de ser aviador - ou, talvez, exatamen por causa
disso (pilotos de jatos esto habituados a se guiar, e a confiar, ap nas nos
instrumentos)
-, continuava no fazendo a mnima idia de oni estavam. E, cada vez mais,
surpreendia-se pelo fato de o combustvel no tc acabado. Olhava o relgio,
incrdulo.

E se resignava a esperar que as turbina emudecessem. Ou ser, perguntava-se,
mais torcendo do que acreditand que em Belo Horizonte puseram uma quantidade de
combustvel
superior normal?
Um pouco antes, Renhe registrara que o avio voava em crculos. agora, pelas
asas niveladas, via que seguia reto. De seu assento de corredor via nuvens.
Tinha certeza
que Murilo iria fazer alguma coisa, que no~ simplesmente gastar todo o
combustvel e deixar o avio cair. Quem sabe iria tentar derrubar o
seqestrador, atravs
de algum tipo de manobra n brusca. Renhe pensava tambm na morte, na
possibilidade de a histria acabar mal. "Puxa vida, terminar minha vida desta
maneira estpida,
tanta coisa quc no fiz, e que poderia ter feito...'~ - perdeu-se em lamentos os
mais diverso
Ditzel, cada vez mais temeroso de que o combustvel fosse acabar -sentindo que o
seqestrador no estava nem um pouco preocupado isso -, fez um bilhetinho, que
mostrou
a Yoda e Komatsu. Solicitou-lhe que soltassem seus cintos. Era bem possvel que
tivessem de tomar alguma medida para neutralizar o homem.
Os dois japoneses concordaram, no demonstrando muita convico. Logo
depois, o avio entrou numa zona de turbulncia e voltaram a se afivelar.



144
r




VP-375 - Terror na Ponte Area




Mais atrs, o passageiro que, desde o incio do seqestro, vinha narran-passo do
vo, e que agora todos sabiam ser procedente de Porto
dizia para quem quisesse ouvir que o combustvel iria se esgotar em
instantes.
- Ns tnhamos tantas horas de autonomia, ao decolar. O tempo est
-        o homem argumentava, teorizava e agourava. E os vizinhos de medo.

Nessa altura dos acontecimentos, a notcia do seqestro do Vasp 375 j o
conhecimento de todo o Brasil. Sem saber exatamente onde o Boeing pousar, as
emissoras de
televiso optavam por transmitir de Braslia e ;entavam flashes ao vivo do
aeroporto da capital.
No Rio de Janeiro, destino original do Boeing, parentes e amigos dos
;ageiros do 375 se acotovelavam, aflitos, junto ao balco de atendimento
 cata de informaes.
Num apartamento em So Conrado, Zona Sul do Rio, Fernando, 14 tinha diante de si
um prato de comida, que ele mesmo preparara ao do colgio. Enquanto almoava, o
jovem ligou a televiso. Soube as-o avio de seu pai, comandante Fernando
Murilo, fora seqestrado.
Novecentos e trinta quilmetros a noroeste do local onde estava o garo-375 volta
e meia o japons Shiba se via tentado a atacar o pistoleiro.
continuava temendo haver algum cmplice entre os passageiros, princi-~te o homem
moreno ao seu lado, ao qual pouco antes o seqestrador algumas perguntas em
ingls,
o que podia ser algum tipo de dissimula-Disfaradamente, Shiba olhou mais uma
vez para o vizinho, estudando-suspeitosamente as feies.
Houve um momento de expectativa, que logo se transformou em sur-csa, quando o
seqestrador se afastou um pouco do cockpite disse a todos:
- Eu quero pedir desculpas a vocs, por tudo isso que est acontecendo.
O pedido desanuviou um pouco o clima de tenso. Ouviram-se alguns iraas a
Deus".
Assis Costa Couro no via motivos para se sentir otimista. Pensava no ~anto a
sensao real de seqestro era diferente daquilo que se via nos fil-~s. Seus
pensamentos
foram interrompidos por seu vizinho de poltrona, dair Assis, que lhe segredou:
- Eu vou partir pra cima desse sujeito. No d pra aceitar uma situao dessa.



145



Caixa-Preta




- Calma, pelo amor de Deus - Assis Couro apelou ao outro Assis.. s o que
faltava, pensou, um novo tiroteio a bordo.
Do cockpit do PP-SNT, j era possvel enxergar a pista de Anp
- T vendo ali a pista? - Murilo perguntou ao seqestrador, faze um sinal com o
polegar apontado para o lado de fora.
Na posio em que se encontrava, atrs do jump seat, Nonato tinha
viso muito limitada. No viu o aeroporto. Nem tentou ver. Limitou.
ordenar, adiantando o revlver para a cabea do comandante:
- Vamos para Goinia.
Murilo precisou se conter para no externar seu desespero. A cada nuto que
passava, a tragdia tornava-se uma perspectiva mais realista. Se c tinuasse a se
sujeitar
 vontade do louco, teria uma pane seca (falta de coi bustvel). Se forasse o
pouso em Anpolis, talvez levasse um tiro. Deu ii' olhada nos instrumentos e
mentalizou
alguns clculos, no muito elaborau diga-se. Sim. Ainda tinha combustvel para
ir a Goinia. Mas era a ltima ch ce. Depois, seria o que Deus quisesse.
Querendo

dar conta de sua real situ a Braslia, virou-se para o pistoleiro e informou,
mantendo o microfone aber'
- S estou com 2.800 libras. Minha autonomia  de 15 minutos.
- Ciente, Vasp 375 - limitou-se a dizer o homem do Cindacta, sargento que vinha
conversando com o PP-SNT desde o incio do vo. que agora ele tinha s suas
costas,
literal e figuradamente~ diversos cujas patentes subiam at brigadeiro.
O caa Mirage continuava seguindo o Vasp, guardando uma p distncia. Na hiptese
de uma queda do 375, haveria testemunhas auditi' visuais. E o local do desastre
seria imediatamente plotado pela Fora Are:
que otimizaria a chegada de equipes de socorro, embora provavelmente teis a essa
altura.
Murilo sentia certo alvio pelo fato de que o seqestrador aparentemc te
desistira de jogar o avio sobre o Palcio do Planalto, hiptese que voltara a
mencionar
e que ia se tornando impossvel  medida que o Boerng~ afastava de l. Se
conseguisse pousar em Goinia, no solo as coisas seria muito mais fceis de se
resolver.
Mas o combustvel se esgotava.
- Tenho apenas 1.800 libras - agoniou-se Murilo, abrindo o para Braslia.

146




No Cindacta, o suspense atingira o auge. Um Boeing 737-300 tinha idade para 50
mil libras de combustvel. Com apenas 1.800 era como automvel com dois litros
no
tanque.
Na cauda, Pinho verificou as horas. Passavam alguns minutos das duas Olhou para
baixo. Pareciam estar se aproximando de uma regio

Com efeito, Mutilo dera incio a uma aproximao alta para o Aeropor-Santa
Genoveva, em Goinia. J abandonara o nvel 370. Descia para o
~lloo.
Sem que o seqestrador objetasse, informou ao Cindacta:
- O passageiro me autorizou a pousar em Goinia.

Por medida de segurana, a Aeronutica interditara os aeroportos de isilia,
Anpolis e Goinia. Desviara todo o trfego da regio, onde agora s tvam o Vasp
375
e o Mirage que o seguia. Trocara as freqncias de todas icronaves. O cu era
todo de Mutilo ou, melhor, do homem que apontava rma para sua cabea.
Com as manetes muito reduzidas (uma vez que voavam em forte ngulo descida), o
consumo agora era desprezvel. O Vasp 375 encontrava-se nos ~dores de Goinia, 
nordeste
da cidade, ainda muito alto e com combus-ei para alguns minutos, suficientes
para, com um pouco de sorte, aterra-n sem novos incidentes.
Nesse momento, Raimundo Nonato encostou a arma na cabea do co-indante e disse:
- Vamos para So Paulo.
S ento Mutilo teve certeza de que aquele moo jamais o deixaria pousar.




147
VP-375 - Terror na Ponte Area




Captulo 10




O
      comandante Murilo virou-se para o seqestrador e disse apena~
-     Eu no acredito. A gente talvez no consiga pousar nem em Goinia. O
combustvel vai acabar a qualquer momento.
- Eu no quero saber - o homem armado no se importou. -mos para So Paulo.
Murilo concluiu que o sujeito iria mat-lo com um tiro, tal como fizc com
Vngelis. Percebeu que, para ele, no tinha a menor importncia mai ou morrer.
Se no tomasse uma atitude radical, e imediata, podia pr d qualquer esperana
de salvar seus passageiros.
Indagava-se sobre o melhor procedimento~ quando as luzes das bc de combustvel
comearam a piscar. Ora acendia uma, ora apagava o indicando que a presso do

combustvel tornara-se insuficiente para turbinas funcionando. Os quatro tanques
do Vasp 375 estavam quase secos.
Mutilo no pde se dar ao luxo de refletir sobre os prs e contras primeira
idia que lhe veio  mente: derrubar o seqestrador, quem sabe faze com que sua
cabea batesse em algum lugar, pondo-o a nocaute. Pediu Vngelis, estivesse onde
estivesse, que intercedesse por ele, por sua tripula e seus passageiros.
Precisava de toda a ajuda dos cus, da sorte e do amigo morto. Po. decidira
virar o Boeing de cabea para baixo, executar o que em aviao chama de tonneau.
Esperava tirar partido do efeito surpresa e pousar em Goi nia enquanto o
seqestrador se achasse fora de combate.

148




VP-375 - Terror na Ponte Area




Mesmo que os motores se apagassem durante a manobra, por falta de
~ombustvel, tinha condies de ir at a pista em vo planado, uma vez que se
rncontrava alto, a 10 mil ps.
Como no tinha como alertar os tripulantes e passageiros, Mutilo acen-~eu e
apagou repetidamente os avisos de apertar os cintos, para no pegar
riingum totalmente desprevenido, quem sabe de p no corredor.
Embora tonneau fosse um procedimento usual num avio militar de ~reinamento ou
de caa, ningum jamais ousara execut-lo num Boeing 737, estando totalmente
fora de suas especificaes. Consistia em fazer um giro :ompleto com a aeronave,
em torno de seu prprio eixo.
Como o pistoleiro se mantinha de p, portanto sem cinto de segurana, no tinha
como no cair. E, quem sabe, perderia o revlver, oportunidade ~ue Mutilo
aproveitaria para tentar pousar no Aeroporto Santa Genoveva, :m Goinia, cuja
pista via  sua frente, um pouco  esquerda, na posio :orrespondente s 11
horas no mostrador de um relgio imaginrio.
Mutilo j executara incontveis tonneaus em sua poca de aviador mili-:ar
(pilotando avies de treinamento T21 e T6).
No perdeu nem mais um segundo. Com a mo direita, fazendo uso do ~e1etor
automtico de potncia, aumentou a velocidade do Boeing. Levou o manche 
frente, torcendo-o para a esquerda, fazendo o 737 inclinar-se sobre i asa desse
lado. Ao mesmo tempo, chutou o pedal direito (do leme de dite-~o), para segurar

o nariz na linha do horizonte e no entrar em mergulho. O zho surgiu na janela
da esquerda. O cu apareceu na da direita, por trs do zadver do co-piloto.
Prosseguindo no giro do avio, Mutilo empurrou o manche para man-:er o nariz
alto (uma vez que, no momento em que virou de cabea para jaixo, a funo do
leme profundor se invertera). A cidade de Goinia surgira ria parte superior do
pra-brisa. O giro foi mantido at que o Vasp voltou posio inicial,
aparentemente intacto.
Para desolao do comandante, o seqestrador continuava de p, gru-lado na
porta, a mo esquerda agarrada na cortina do cockpit, a direita empu-rihando o
revlver, como um demnio indestrutvel.
Murilo no parou para pensar, nem para destilar sua raiva. Viu que a
relocidade cara muito, por causa do tonneau, e que o motor esquerdo parara,
por falta de combustvel. Decidiu executar um parafuso.



149



Caixa-Preta




Se o tonneau e uma manobra violenta, o parafuso  devastador. O
perde a sustentao e cai de bico, girando as asas como um pio - dao noi
Para comandar seu parafuso, Mutilo inclinou a asa esquerda e deu coice no pedal
do mesmo lado. O Boeing desequilibrou-se, totalmente compensado. A asa esquerda
entrou em estol (perdeu a sustentao -dizer: deixou de ser asa).
O 737 dobrou-se sobre seu lado esquerdo. Estremeceu, como que preso com a
audcia do piloto. A semelhana de uma perdiz alvejada pleno vo, o Vasp 375
mergulhou sobre a cidade de Goinia, as asas rodopio.
Tum, tum, tum, a cada giro Mutilo temia que as asas se soltassem.
Na cabine de passageiros, em meio  gritaria que se seguiu, cada um
um pensamento e uma reao. Mas todos tiveram certeza de que viviam
ltimos minutos.
O bancrio Humberto Peanha pensou na mulher, Ilma, e nos filhos, Humberto
Jnior e Herbert.
Corina Braga no entendeu nada do que estava acontecendo. No viu
avio virar de cabea para baixo, nem rodopiar. Sentiu-se colada  poltron
Assis Costa Couto julgou que o avio ia se partir. Tentou levar a
at o encosto da cadeira da frente, mas no conseguiu. S lhe restou aceita~
triste realidade de que ia morrer.
Percebendo que sua vida terminava naquele instante, Klaus apertou
mo de Renate. Comeou a rezar. Pensou nos trs filhos, que iriam
sozinhos.
Na cauda, o piloto Gilberto Renhe s sentia o avio tremer, tr tremer. Trepidava
tanto que caiu uma PSU (Passenger Service Unity -dade com mscaras de oxignio,
luzes individuais e seletor de ar-condicion:
do que existe em cada fila de poltronas) sobre alguns passageiros  sua frent
Desabou um painel inteiro. "Bem, agora acabou." Renhe mais uma vez preparou para
morrer, pesadelo que, para ele, vinha se tornando uma con~ tante naquele dia.
Durante o tonneau, Takayoshi Shiba no sentiu muito medo. Imagino~ que o piloto
tinha total controle da aeronave e estava apenas querendo morizar o
seqestrador. Mas veio o parafuso, diversas sirenes de alarme ram
simultaneamente no cockpit, o Boeing vibrou como uma betoneira



130

VP-37C - Terror na Ponte Area




baachou que a estrutura da aeronave se rachara ao meio. Pensou na fam-
~preparou-se para a morte. Com dificuldade - pois sua cabea parecia li 50
quilos -, olhou para Komatsu,  sua direita. O outro tambm o iva. Os dois
japoneses no disseram uma s palavra, mas seus olhos troca-comovidos adeuses.
Shiba pensou na hiptese de o seqestrador ter matado o piloto, assim io fizera
com o da direita. O que deveria fazer?, indagou-se angustiado. assento era o
mais prximo do cockpit. Portanto, sua responsabilidade maior do que a das
outras pessoas. Sim. Se o piloto estivesse morto, ele, ba, deveria assumir os
controles, embora no fizesse a menor idia de ~o se pilotava um avio. Sem
contar que, antes, teria de lutar com um nem armado. Shiba viu-se assaltado por
um turbilho de dvidas en-~nto mergulhavam.
Como o avio fizera o tonneau inclinando-se para o lado esquerdo, Jos vis
Ditzel, no direito, vira a asa apontando para o cu. Mas, certo de que iloto
executara a manobra de propsito, gritara para Yoda: "It's intentio-don't worry,
it's intentional.'~*
Mas quando, no final do tonneau, a terra surgiu do seu lado e, logo ois, durante
o parafuso, a fortssima vibrao tomou conta da aeronave, zel concluiu que ia
morrer. " o fim", pensou, "no h estrutura no mun-que suporte isso. Parece um
britador de minrio de ferro." E ficou aguar-do o avio se desintegrar ou entrar
pelo solo adentro.
Ao lado de Angelo, Amauri Lage achou que o avio no ia agentar a niobra e que
o seqestrador iria dar tiros a esmo. Sentiu que chegara sua a. Pensou na
mulher, Maria Margarida, e nos filhos, Leonardo e Patrcia. ida, que de repente
lhe pareceu muito curta, passou-lhe inteiramente pela ea.
Manoel Raimundo sentiu o avio caindo. "Pronto, ele matou o coman-te e o avio
vai se espatifar no cho." Virou-se para a janela,  esquerda. iou para cima e
viu a terra. Olhou para baixo e viu o cu. Sabia que ia rrer. Mas no sabia se
morria com o olho aberto ou fechado. No queria a exploso. Temia que doesse na
hora de morrer. Ao mesmo tempo em fechava os olhos, para no sofrer, um instinto
lhe dizia que, mantendo-os

Lntencional, no se preocupe, ~ intencional.

151



Caixa-Preta




abertos, teria mais chances de sobreviver. Pensou na mulher, Lbia, e filhos,
Rgis e Trcia. Como acreditava em outra vida, imaginou como do outro lado. Logo
iria saber.
Quando sentiu o avio despencando, Renato Resende lembrou-se do que os
acompanhava. Imaginou que o seqestrador se apavo rara, ao ver o da FAB, e
matara o piloto. E que agora o Boeing estivesse  deriva, cain Pediu a Deus para
que no cassem em cima de ningum. Pensou na fam
Foram os piores momentos da vida de Cludio Diniz. Teve certeza de o avio iria
se espatifar no solo. Viu as profundezas da terra. Sentiu o chegando. A
impresso era a de que iria doer muito. Cludio conheceu, naq le instante, todos
os medos. E gritou desesperadamente:
- Vai doer, eu no quero, eu no quero morrer. - Chegou a sentir sensao fsica
da dor. Lembrou-se de cada fase de sua vida. Desde o incio. D a mais remota
infncia, em Corinto. Viu a cerimnia do seu casamento, o n mento dos filhos.
Lembrou-se de uns cheques pr-datados, que levava no bo pertencentes a uma firma
que constitufra meses antes. - Meus cheques vo queimar-, gemeu. Lembrou-se de
um velocpede, um lindo Velotrol, que ra de presente quando era menino. Agarrou-
se nos braos da poltrona, machu os pulsos com a fora que fez. Gritou. Gritou
muito. Cludio no queria morr
Alfredo Queiroz julgou que o combustvel se esgotara e que tudo iria acabar nos
prximos segundos. Lamentou no haver corpo para ser enter do. Sentiu uma enorme
saudade das filhas, Laura, de quatro anos, e Loren de apenas um.
Quatro filas  frente, Angelo sentiu um forte aperto no pulso.
- Minha filha,  o fim,  o fim,  o fim - gemia Lage.
A comissria, que tambm no tinha dvidas de que estavam caindo crispou as mos
contra os braos da poltrona. Entregou sua alma ao Criador,:
Lage apertava-lhe mais e mais o pulso.
-  o fim,  o fim,  o fim - repetia-se agoniado.
Ela resignou-se com a morte, mas lamentou que no fosse sobrar nada,
nem para catar com uma pazinha.
Aterrorizado, Kajo Pieper no sabia se o Boeing ficara sem combustvel ou se o
piloto fora atingido e se encontrava ferido ou morto. Certeza mesmo, Piper s
teve de que estavam caindo. Contraiu-se todo e esperou o impacto com o cho.



152
d
M

VP-375 - Terror na Ponte Area




S quando viu a terra sobre sua cabea, Marialice Szpigel se deu conta de ie o
avio voava de cabea para baixo. Teve a impresso de que as asas batiam, ~mo as
de um pssaro. O barulho das turbinas pareceu-lhe ensurdecedor. Ps mos sobre a
cabea, inclinou-se para a frente, na posio de pouso de emer-~ncia. Mas
preparou-se para morrer. Ao contrrio da maioria, no gritou.
Assim que os avisos dos cintos de segurana piscaram, antes das mano-~as
acrobticas, o chefe de equipe Pinho levantara-se de sua poltrona, na ,tima
fila, e fora sentar-se num dos tamboretes retrteis junto  porta de Ida
traseira esquerda, onde j estava o comissrio Valente.
Quando sentiu que o avio girava, aparentemente desgovernado, Pinho itou para
Valente:
- Segura, aperta o cinto. Aperta o cinto que vai acontecer alguma coi-
- E, tomando do microfone, disse aos passageiros, pelo PA (passenger iresser): -
Favor se acalmem, favor se acalmem. Apertem os cintos. - F-mais por fora de
reflexo condicionado pelo treinamento, pois no tinha a .enor dvida de que o
avio ia cair. Gemeu para o colega ao lado: - Valen-chegou nossa hora.
Ao perceber o avio de cabea para baixo, Renhe lembrou-se de uma .anobra
chamada overheaa~ que costumava executar em sua poca de Aero-~utica. Consistia
em virar o avio sobre o prprio dorso e mergulhar na reo de um alvo no solo,
situado quase na vertical. "Quem sabe o Murilo
-conjeturou-, numa tentativa desesperada, decidiu comandar um overheacl Lra,
simultaneamente, derrubar o cara e perder altura. No. Provavelmente
seqestrador atirara em Murilo, que cara sobre o manche. O avio vai itrar pelo
solo adentro, voando a pleno."

os comandos, Mutilo tentava, desesperadamente, desfazer o parafuso, com-imindo o
pedal da direita e procurando nivelar as asas. A tentativa se teve-u
infrutfera. O Boeing seguiu girando e mergulhando em direo ao solo.
O comandante comeou a se apavorar. Tentou novamente. Nada. O no teimava em
girar em parafuso. S na terceira tentativa  que o 737 xelou suas asas e voltou
a voar. Vendo que a velocidade era excessiva, Mu-lo trouxe o manche para a
barriga e elevou o nariz.
A inrcia fez com que cada um dos ocupantes do PP-SNT sentisse seu ~so
duplicado, talvez triplicado, o corpo comprimindo o assento, como se



153
VI-




Caixa-Preta

estivessem numa montanha-russa no instante em que o trenzinho volta subir aps
um mergulho abrupto.
Dessa vez, Raimundo Nonato fora nocauteado. Cara do lado de for do cockpit, as
costas viradas para o lado direito da aeronave.
Mesmo estando l na cauda, Renhe foi um dos primeiros a v-lo cadc Sentiu que
tinha de agir imediatamente. Levantou-se e tentou correr para Mas, como agora o
avio subia em ngulo acentuado, era como se escala& um morro. S nesse instante
Renhe percebeu que sua perna estava quebra No sentia dor, mas percebia o troc,
troc, troc do atrito de osso com oss Cravando os dedos das mos nas poltronas ao
longo do corredor, teve m de no chegar a tempo. Comeou a gritar:
- Pega ele, pega ele, pega - continuava a ver o homem no cho, de ser dominado.
- Pega ele, pega ele...
Mas Nonato se recuperara. Pior, recuperara a arma, se  que a em algum momento.
Ia apont-la novamente para o piloto, talvez para parar, quando percebeu que
alguns passageiros haviam se levantado. gueu-se penosamente~ deu um passo em
direo a eles, esticando o bra com o revlver.
Os brados de ataque cessaram, como que por encanto. Mesmo porque milagrosamente,
o Boeing parecia estar voando normalmente.
Alm de Renhe, um passageiro se levantara numa das filas da frente, para atacar
o pistoleiro. Mas a enfermeira, sentada numa das primeiras percebeu que o
seqestrador iria mat-los, levantou-se tambm, bloqueou corredor com o corpo e
gritou:
- No. No. Ele vai matar vocs.
Por sorte (ou, quem sabe, por puro milagre) o Vasp 375 se encontrava
na altitude de trfego (1.500 ps) e apenas ligeiramente enviesado em relao
 pista do Aeroporto Santa Genoveva. Como se fosse um motorista desfazen-do o
volante aps uma curva, Mutilo deixou apenas o nariz correr um pouco
e a faixa de asfalto surgiu bem  sua frente.




154

pessoas que se encontravam na torre de controle, no ptio e na ~..parafiiso
cada do aeroporto - e que viram o Vasp mergulhar, na sada do
- tiveram a ntida impresso de que o jato iria se espatifar
intra o solo. Viram-no sumir numa depresso prxima  cabeceira da pista.
guardaram angustiados a exploso. Mas, surpreendentemente, o Boeing res-rgiu das
profundezas da baixada e se aproximou para pouso.
Como no decurso de um parafuso o nariz do avio gira ao redor da linha do
irizonte -  maneira dos ponteiros de um relgio na horizontal -, o fato do
sp 375 ter terminado a manobra alinhado com a pista foi pura obra do acaso.
A bordo do Boeing, Mutilo no tinha muito tempo para pensar em
rte ou azar. Era preciso tomar algumas providncias, antes do pouso. Isso, e
iro, se o seqestrador no se recuperasse e pusesse tudo a perder.
Como no tinha co-piloto, precisou executar as tarefas previstas para os ~s. Em
primeiro lugar, foi necessrio baixar o trem de pouso, procedimen-que s podia
ser feito em velocidade inferior a 270 ns. Deu uma olhada indicador de
velocidade: 260 ns. timo. Mutilo baixou o trem. Mas re de elevar o nariz e
aguardar que a velocidade casse para 210 ns. S to pde acionar os flapes.
Sempre atento  sua posio em relao  pista, rocurando no pensar no
seqestrador, o comandante deu uma ltima ecada no combustvel.
Havia agora apenas 250 libras nos tanques. Uma turbina parara por
~dealimentaoeMutilotemiaqueaoutratambmseapagasse.



155
Captulo 11
5'.




Caixa-Preta




Embora ele no tivesse como saber disso, a estrutura do Boeing sara intacta das
manobras acrobticas. No fora projetada para suportar manho buffet (trepidao
causada por presso aerodinmica). Parte do lizador se perdera e cara num
conjunto de casas populares de Goinia, sorte sem atingir ningum.
Tendo regressado  sua poltrona, Gilberto Renhe, mesmo perceber que o avio se
aproximava para pouso, no imaginou que estivessem prxir a um aeroporto. Achou

que Mutilo estava aterrando num canto qualquer. tou para os que estavam
prximos:
- Abaixa a cabea, abraa, abraa - referindo-se  posio padro pouso forado.
E ficou aguardando a pancada.
Quando cruzou a cabeceira da pista, Murilo cortou a potncia da na que lhe
restava, elevou o nariz e arredondou - arredondamento  o que precede (e
viabiliza) o pouso - a aeronave. Precisou usar de fora para mover os comandos,
talvez por causa do peso do corpo de V pressionando o manche da direita, talvez
por causa dos danos no dor, na cauda.
Ao tocar na pista, os pneus emitiram aquele trinado tpico de atri
borracha com o asfalto, como que louvando a chegada em terra firme. meiro os do
trem principal, depois os da triquilha.
Fernando Mutilo de Lima e Silva acabara de praticar uma faanha iria entrar para
os anais da aviao. Executara um tonneau com um Boeii fato sem precedentes,
emendara a manobra com um parafuso (tambm dito) e completara a seqncia
pousando o avio. F-lo sem co-piloto, do que, a qualquer momento, poderia levar
um tiro e que talvez o abortasse sua tentativa por simples falta de combustvel.
O comandante olhou para o companheiro morto e sentiu que viera a fora que
encontrara para pousar o Boeing em meio a tantas dificuldades
Eram 14h15. Desde a decolagem em Belo Horizonte, o Vasp 375
vera no ar durante trs horas e 23 minutos.
Na cabine de passageiros, o pouso foi visto como um milagre dos
O alemo Pieper mal podia acreditar em seus olhos, ao ver a pista sando
velozmente pela janela. Renate Borgards, que se encolhera como feto ao pensar
que o avio iria espatifar-se contra o solo, mantinha os fechados, supondo-se
morta.

156




VP-375 - Terror na Ponte Area




Angelo beliscou-se para ter certeza de que estava viva. Mais atrs, em s postos
junto  porta traseira, Pinho e Valente olhavam assombrados para ista. No
sabiam onde estavam, embora houvessem passado por ali de nh.
Renhe ficou perplexo quando viu que o avio pousara numa pista. Che-ia pensar
que estavam numa estrada. Mas, quando o Boeing rolou suave-:nte, viu que se

tratava de um aeroporto. E no demorou a identific-lo ~io sendo o Santa
Genoveva, onde j pousara inmeras vezes.
De todos os cantos da aeronave, ecoavam suspiros de alvio. A no ser lo susto,
os passageiros, amarrados pelos cintos, nada haviam sofrido.
Houve pequenas seqelas,  claro. Um cheiro forte e azedo de urina e '.es - que
algumas bexigas e intestinos mais rebeldes no tinham consegui-reter nos
momentos finais e decisivos do vo - agora agredia as narinas. as era um dano
menor, muito menor, sabiam.
Mesmo se o seqestrador readquirisse o domnio da situao, no solo oferecia
muito menos risco. Poderia matar, no mximo, uns dois ou trs, Ltes de ser
dominado.
O     avio parara junto a uma das cabeceiras da pista.
Prximo a Angelo, Cludio Diniz, afobado, quis abrir a porta de emer-~ncia. Ela
se ops:
- No! Ns no Vamos abrir nada. - Angela tinha medo de que, l na ente, o
seqestrador atirasse num dos pilotos (ela no tinha razes para ~por que um
deles estivesse morto).
Diniz rendeu-se ao argumento.
Renhe tambm percebeu que algumas pessoas namoravam a porta tra-~ira, com ntida
inteno de fugir por ali. Mas ficou se perguntando se seria ma boa alternativa.
Shiba no perdera um movimento sequer do homem armado. Viu que, ~srante as
manobras acrobticas, ele se desequilibrara por alguns minutos, ~mpo do qual o
piloto se aproveitara para aterrar em algum lugar. Mas o ~qestrador no perdera
seu revlver. Agora, ainda meio grogue, sustentava-c nas ombreiras da porta e
voltava a ameaar, com a arma, o piloto e os ~ssageiros, movendo o brao para a
frente e para trs.
~     Recuperada do susto, Corina Braga notava que, pela primeira vez, havia
~iedo nos olhos do seqestrador. Medo. Em vez da segurana que demons-157



Caixa-Preta




trara quando o avio estava no ar, ele agora movia a arma nervosam como se
esperasse um ataque a qualquer momento. No tinha mais a postura arrogante.
Sendo professor de estatstica, Manoel Raimundo conclura que, de
das leis das probabilidades~ havia uma grande chance de escapar com vi
Embora armado, o indivduo era um s contra mais de 100.
No cockpit, o comandante Murilo agradecia a Deus: "Pelo menos, m passageiros
esto salvos", pensou. E voltou a olhar para o companheiro u to. Nesse instante,
a turbina da direita tambm se apagou, por absoluta de combustvel.

158




Captulo 12




om o avio atracado em terra firme, o terror que os passageiros ha-viam sentido
durante o tonneau e o parafuso deu lugar a um senti-mento de sofrida ansiedade.
O homem l na frente no dava sinais
haver entregado os pontos. Muitos se lembravam de cenas, que a televiso ra e
meia mostrava, de seqestros em diversos lugares do mundo, nos quais vio
decolava, pousava, decolava, pousava, s vezes percorrendo diversos ses antes do
desfecho.
Alguns estavam otimistas. O nimo de Klaus, por exemplo, mudou to-nente depois
que o avio aterrou. Ele disse a Renate que tinha certeza de tudo terminaria
bem.
O seqestrador agora semicerrara a cortina que havia na entrada da ca-.e de
comando, de tal maneira que, embora pudesse controlar tanto o pilo-iuanto os
passageiros, estes ltimos ficavam impossibilitados de ver o que ~assava no
cockpit.
Angelo continuava tendo de lidar com pessoas que queriam fugir pela ela de
emergncia.
- Gente - ela argumentava -, vocs no podem se esquecer que o nandante tem uma
arma apontada para sua cabea. L na frente tem mui-passageiros. Se a gente
sair, o cara vai ficar com raiva. Ns vamos nos ~'ar, mas e o pessoal que est
perto da cabine? E o comandante? Algum vai bar levando um tiro.



159



Caixa-Preta

Aos poucos, ela conseguiu refrear os impulsos dos mais afobados. quando julgou
que estava tudo calmo, um homem lhe pediu que obtiv uma faca na galley. "Que
diabos ele pensa que vai fazer com uma faca?", ela irritou profundamente e
recusou categoricamente o pedido.
Quinze minutos depois da aterragem, tiveram incio negociaes en o seqestrador
e a torre do aeroporto, conduzidas por intermdio do com dante. Aparentemente,
Raimundo Nonato se conformara com o pouso pelo menos naquele instante, no
consistia em ameaa para o piloto.
Murilo mantinha ligada a APU, unidade geradora auxiliar, pequena t bina
localizada na cauda do avio, que podia funcionar durante algumas h ras com
resduos de combustvel. Assim, era possvel usar o sistema de rdi o que lhe
permitia conversar com a torre.
O seqestrador pediu para pr o som da torre no alto-falante da cabi de comando
e passou a ouvir a conversa. Ordenou que o piloto man
reabastecer o avio, para que pudessem voar para Braslia.
Mesmo supondo que as autoridades jamais consentiriam no abaste
mento da aeronave, Murilo concordou em transmitir o pedido. Mas, ant
queria que o corpo de Vngelis fosse removido do cockpit.
- Posso tirar ele, botar para trs? - pediu ao seqestrador.
- No. No pode.
- Mas ele est morto. No vai te fazer nada.
- No. No pode. Vamos abastecer o avio. Vamos para Brasilia.

A polcia ocupara toda a rea onde o Boeing se encontrava, numa das extre~
midades da pista.
No interior do avio, um dos passageiros se levantou e pediu ao seqes
trador que permitisse que as mulheres, crianas e tripulantes feridos fosseni
libertados. O pedido foi prontamente rejeitado.
Entretanto, algum tempo depois, os passageiros sentados do lado es~ querdo
perceberam que uma escada estava sendo conduzida para junto d~ porta principal
do Boeing. Raimundo Nonato autorizara que um trator trouxesse, desde que o
tratorista estivesse vestindo apenas um calo, pan no surpreend-lo com uma
arma. Depois de muita insistncia do coman dante, Nonato decidira permitir o
desembarque do morto e dos feridos. Mi no das mulheres e crianas.



160
IA

VP-375 - Terror na Ponte Area




Mais de meia hora j se passara, desde o pouso, quando o comandante ~se pelo
alto-falante:
- Ateno, solicito a presena de um mdico na cabine de comando, ri socorrer o
co-piloto, que est ferido.
Embora o mdico sentado na oitava fila soubesse que diversos passagei-de Belo
Horizonte o conheciam, no se manifestou.
Depois de aguardar alguns minutos, sem que ningum se apresentasse, urilo voltou
a chamar pelo alto-falante.
- Ateno, solicito a presena do chefe de equipe e de um comissario a bine,
para remover o co-piloto.
O chefe de equipe Pinho encontrava-se na galley traseira, procurando mdios de
enjo para dar a alguns passageiros que no haviam se recupera-das acrobacias.
No pde ir imediatamente.
Mas Angelo chegou logo ao cockpit. E a primeira coisa que viu foi o rpo de
Vngelis, debruado sobre o manche, com sangue e uma pasta de rdura amarelada
escorrendo da cabea.
Ela olhou para o comandante. Percebeu que os olhos de Murilo esta-m vermelhos; a
cara, inchada. Mesmo assim acreditou, ou quis acreditar, ie Vngelis estivesse
vivo.
- Murilo, ele est ferido, n? Por isso voc chamou o mdico.
- No, Angela, ele est morto. O passageiro - apontou com o queixo ra o
seqestrador - quer que voc tire o corpo do avio.
Angelo procurou conter-se.
- Mas eu, Murilo? - questionou. - Eu no tenho fora.
- Voc tem que tentar, Angela. Tem que tentar.
O     pistoleiro resolveu apressar as coisas. Ps o revlver nas costas da
romoa e disse:
- Est demorando muito.
Ela conseguiu deslocar o corpo da poltrona e o trouxe para o cho. Mas ritiu-se
desfalecendo. Avisou ao seqestrador:
- No tenho condies. Eu no tenho condies. - E esperou que ele matasse. -
No tenho condies - repetiu. E desmaiou.
Pinho chegara  cabine de comando. Gemeu, horrorizado, ao deparar-com o cadver
no cho. Fragmentos do crebro esparramavam-se pelo inche e por sobre a poltrona
da esquerda. O uniforme de Vngelis estava talmente ensangentado.



161

Caixa-Preta

162

ndo alcanou a pista, Renhe olhou para cima,  esquerda, e viu que o andante, de
sua janela, assistia ao desembarque. Murilo parecia desolado ~rava. O que no o
impediu de fazer um sinal para os que desembarca-ordenando-lhes que fossem
embora. Que se mandassem dali.
Eram cinco para as trs da tarde. Dois maqueiros esperavam do lado de e levaram
o corpo at uma ambulncia estacionada a uns 200 metros do rng.




163
VP-375 - Terror na Ponte Area

Uma equipe da TV Globo filmara toda a cena - que parecia ter-se ocessado em
cmara lenta - e a transmitira ao vivo para todo o pas.




Captulo 13




D
epois que o chefe de equipe Pinho e os tripulantes feridos (carre-gando o
cadver) saram do Boeing, Raimundo Nonato mandou que a escada fosse retirada.
Mutilo transmitiu a exigncia  torre e
foi atendido.
A ambulncia conduzindo os feridos e o morto partiu a toda para o
Hospital Santa Genoveva, prximo dali.
Pinho permaneceu no aeroporto. Levaram-no para uma sala anexa  Torre de
Controle, onde o interrogaram. A polcia queria informaes detalhadas sobre o
seqestrador. Alm da descrio fsica, os agentes precisavam saber como ele
estava vestido, seu posicionamento dentro da aeronave, quantas armas tinha,
munio, calibre, tudo aquilo que fosse importante para o caso de uma invaso.
No interior do Boeing, os japoneses - que j duvidavam que o seqes-trador
pudesse convencer o piloto a decolar novamente - tiveram certeza de que as
autoridades no o permitiriam quando Yoda viu soldados se esguei-rando para
debaixo do avio. "Eles vo furar os pneus, ou coisa parecida", pensou Yoda.
O seqestrador, que tambm deve ter visto os militares, aproximou-se da primeira
fila e perguntou a Ditzel:
- Voc est vendo algum? Algum soldado ou polcia?
-     Sim, estou vendo alguns - Ditzel achou melhor falar a verdade, pois o
homem poderia constat-la por conta prpria e, vendo-se trado, pr
em prtica algum tipo de retaliao.

164

VP-375 - Terror na Ponte Area




De vez em quando, o comandante informava aos demais refns sobre as ciaes,
falando-lhes pelo PA e sempre se referindo ao homem armado nosso passageiro aqui
na frente".
Encorajada pelo clima de civilidade, no qual as coisas vinham se proces-uma
senhora que se encontrava nos fundos levantou-se e pediu, em
alta, ao seqestrador:
- Moo, pelo amor de Deus, arranja uma gua para eu dar um reme-para o meu
marido. Ele  cardaco e est passando mal.
Raimundo Nonato disse alguma coisa ao comandante, que lhe passou garrafa d'gua.
O seqestrador fez ento sinal para Costa Couto, cha-
o para peg-la. Ps a arma em riste, como que advertindo o passa-para no
ensaiar nenhum movimento em falso. Aproveitou o embalo correr, de modo rspido e
agressivo, a mira do revlver pelas filas de ~ronas.
Assis levantou-se, deu alguns passos at o pistoleiro e pegou a gua. ando se
virou para trs, para ver onde estava a senhora, no viu quase Igum. Assustada
com a exibio aparatosa do revlver, a maioria das pes-escondera por trs das
poltronas, fugindo da linha de tiro.
Como seria de se supor, muita gente no agentava mais de vontade de kao
banheiro. A alem Renate Borgards, cuja situao era insustentvel, foi a
iimeira a pedir. Tal como uma colegial comportada, levantou as mos e fez
solicitao em ingls, completando com gestos as palavras. O seqestrador
~tendeu e autorizou-a a ir ao toalete traseiro.
Seguiram-se outros. Logo estabeleceu-se uma rotina. Quando um che-iva, outro se
levantava e pedia. Nonato autorizava, indicando os banheiros trs com a ponta do
revlver.
Todos se impressionavam com a resistncia fsica e psicolgica do se-~estrador,
que se mantinha firme, de p, arma em punho, ora virada para o ~ckpit, ora para
trs, sem dar sinal de estar cansado. Em nenhum momento ~lbuciara uma praga ou
palavro. No falara mais alto do que o estritamente ~cessrio para fazer-se
ouvir.
Mutilo desligara o sistema de ar-condicionado para poupar o pouco ~mbustvel que
lhe restava. Assim, podia manter em funcionamento por ais tempo a APU (sem a
qual no poderia falar pelo rdio). Logo, o calor mou-se insuportvel.



165

Caixa-Preta




Com o Boeing parado na pista de pouso, o Aeroporto Santa Genov encontrava-se
interditado. Os vos que para l se dirigiam foram desvia para Braslia e
Anpolis. Mas, estando o SNT prximo a uma das cabecei havia, na faixa de pista
que sobrava, espao suficiente para a aterragem avies menores. As 1 5h, pousou
um Bandeirante da FAB, lotado de agen da Polcia Federal.

As negociaes prosseguiam, sempre atravs de Murilo. O seqestrad exigia o
reabastecimento do avio. Concordava em se render s autoridad mas s o faria em
Braslia. No voltara a mencionar ao comandante a possi lidade de jogar o Boeing
sobre o palcio.
As autoridades aeronuticas haviam decidido que o avio em hipt
alguma seria liberado para decolar. O prprio presidente da Repblica, J
Sarney, fora ouvido a respeito e concordara: nenhuma negociao sobre e
ponto.
Nas imediaes do Boeing, aos poucos, atiradores de elite iam se posici nando em
locais estratgicos, antevendo a possibilidade de o seqestrad 5Ut~lt Junto auma
das i~melo~ An rnrbpit, onde, com muita pencia e sort poderiam abat-lo.
De dentro da aeronave, era possvel ver os militares rastejando. W davam a
impresso de ser uma equipe treinada para aquele tipo de emerge cia. Os homens
pareciam baratas tontas, deslocando-se para c e para l. todo momento se
agitavam, como se fossem iniciar um assalto.
A essa altura, os refns tinham muito mais medo do pessoal de fora d que do
seqestrador. Klaus Borgards, por exemplo, temia que os soldad tomassem algum
tipo de atitude impensada, pondo em risco a vida de todo
Nonato se inquietava com a movimentao dos soldados e exigiu qu fossem
afastados. Como no foi atendido, mandou o comandante avisar as~ autoridades de
que iria executar um dos refns. A ameaa surtiu efeito: o~ movimento cessou
imediatamente.
No cockpit, Mutilo tentava dialogar com o seqestrador.
- Eu quero ir para Braslia - insistia Nonato.
- Veja bem, amigo - o comandante se esforava para manter o auto-domnio -,
dificilmente vo abastecer este avio. Dificilmente. Porque no  norma deles
abastecer o avio numa situao como esta.
- Ento eu quero um caa.



166
1




VP-375 - Terror na Ponte Area

Um caa. O cara agora queria um caa! Havia momentos em que Muri-a impresso de
que seu pesadelo jamais terminaria. Um caa...
- Olha - explicou, procurando ponderar cada palavra -, ns estamos no meio da
pista. O caa no vai pousar aqui nunca. Um avio de caa de muita pista para
pousar e decolar. Aqui, ele no pousa nunca.
Mas, como o moo insistia, o comandante decidiu submeter a exigncia
Lutoridades.
- O, Goinia, o passageiro aqui est querendo um caa.
Na torre, alm do pessoal de servio, e de agentes da Polcia Federal,
o secretrio de Segurana Pblica de Gois, Ronaldo Jaime, e o presi-Vasp,
Sidney Franco da Rocha, que acabara de chegar de So Paulo
LearJet que pousara na pista de taxiamento. Trouxera consigo, alm do
' dos pilotos da empresa, um outro comandante, aposentado, que pare-
ter ligaes com a polcia e que assumiu as funes de negociador.
No podia haver pessoa mais inbil. Ao falar com Mutilo, referia-se ao
strador - que ouvia a conversa atravs do alto-falante do cockpit como
baitola, no raro filho da pura. Entre outras imprudncias, dizia:
- Esse filho da puta no vai sair da com vida. Ns vamos matar esse Esse cara
j aprontou demais. J matou um, agora est fodido. -palavras causavam grande
constrangimento ao comandante e preocupa-
seriamente os passageiros das primeiras filas, que ouviam tudo.
Depois de muita conversa, o seqestrador consentiu que, em vez de um
a, lhe fornecessem um Bandeirante. Mas, por volta das 16 horas, ao ver
e o Bandeirante no aparecia, voltou a exigir que o Boeing fosse reabasteci-
e levantasse vo rumo a Braslia.
Desta vez, a torre respondeu com um "no" categrico.
- Impossvel - disse o prprio presidente da Vasp. - O avio de cs est
danificado, sem estabilizador. No d para decolar.
Angelo, que se mudara para a terceira fila e ouvia a conversa, lembrou-de um
seqestro ocorrido pouco tempo antes, no Lbano, que durara 11 as e no qual um
tripulante fora executado pelos terroristas. E se perguntou anto tempo aquele
homem sozinho suportaria a presso, antes de entregar-ou, pior, antes de matar
mais algum.
s 16h30, chegou ao aeroporto o diretor-geral da Polcia Federal, dele-do Romeu
Tuma. Desembarcou de um Bandeirante e dirigiu-se imediata-ente  torre de
controle.

167



Caixa-Preta




Tuma decidiu manter a oferta do Bandeirante. Mandou dizer ac qestrador que, no
avio menor, ele poderia voar para Braslia e acertar contas com o governo. O
plano do delegado era o de neutralizar o pist na hora da troca de avies,
matando-o se necessrio.
As horas se passaram lenta e penosamente. Embora ningum mais a que o Vasp 375
voltaria a decolar, os refns temiam as conseqncias de tiroteio final. Nada
indicava que o seqestrador tivesse alguma inte render-se.
J era noite quando, finalmente, Raimundo Nonato concordou troca de avies. Mas
no sem algumas exigncias: o Bandeirante seria do por uma s pessoa; esse
piloto teria de estar de calo, sem camisa e ci ria estacionar a aeronave perto
da cauda do Boeing.
Algum tempo depois, em meio  escurido da pista, e iluminado ape
por seus prprios faris, um trator trouxe uma escada e a encostou na traseira.

Eram quinze para as sete da noite. Com a bateria no fim, o interior Boeing
encontrava-se quase no escuro, iluminado apenas pelas luzes de er gncia. Murilo
sabia que o desfecho do seqestro, fosse qual fosse, era imin~ te. E que sua
vida correria grande risco assim que pusesse os ps fora do a~




168




Captulo 14

)     Bandeirante se aproximou com as luzes de navegao piscando e os faris
acesos. Em seu interior, aparentemente, havia apenas um
piloto, de calo e sem camisa, conforme exigira o seqestrador.
ibm por ordem de Nonato, a aeronave deu quatro voltas ao redor do
ing. Parou a uma distncia de uns 50 metros da escada.
No cockpit do 737, Nonato encostou o revlver na cabea de Mutilo,
trou-o pelo brao e disse:
- Eu vou pra esse Bandeirante com voc. Quero levar tambm o co-;rio e a
aeromoa. Quando a gente estiver dentro do Bandeirante, eu
a moa. Voc e o comissrio vo comigo pra Braslia.
Na cabine de passageiros, os refns viram o comandante sair do cockpit,
cabelo grisalho brilhando no foco da luz de emergncia. Mutilo chamou:
- Angela, Angela.
- Estou aqui, Mutilo - Angelo respondeu da fila 3.
- Ele quer que voc desa com a gente, como refm. O Valente tam-ter de ir.
Quando Angela e Valente se aproximaram, Nonato, mantendo o revl-:ontra a cabea
de Mutilo, posicionou-se de maneira a controlar simulta-mente os trs
tripulantes. Fez um gesto com a arma, dando incio  pro-o rumo  porta
traseira.
Enquanto passavam, alguns passageiros procuravam se mostrar
drios:

169



Caixa-Preta




- Vo com Deus, meus filhos. Estamos rezando por vocs. Que ~ proteja vocs. -
Mas, apesar do d que sentiam, seus rostos no escon
a satisfao por ver o seqestrador ir embora.
Eram decorridas oito horas e trs minutos desde a decolagem em.
Horizonte.
Muitos passageiros supunham, no sem lgica, que assim que o grt sasse haveria
um tiroteio. Por isso,  medida que o seqestrador pass com o revlver, alguns
se sentavam ou deitavam no cho, onde seria difcil serem atingidos por uma bala
perdida. Amauri Lage envolveu cabea com o assento removvel da poltrona e
encolheu-se aguardan fuzilaria.
Quando chegaram  cauda, os comissrios giraram a alavanca da
neta e abriram a porta do avio. Nonato perguntou ao comandante:
- Voc no vai me trair, n?
- No, no, vai dar tudo certo - garantiu Murilo. - Eu tenho cer za de que vai
dar tudo certo.
Antes de se expor do lado de fora, Nonato exigiu que o comandante
dois comissrios se agrupassem mais e formassem um bloco coeso, um
ao seu redor.



O     Bandeirante estacionado ao lado do Boeing era uma armadilha, cuidados
mente preparada pela polcia, para eliminar o seqestrador. Estava sem e sem
escada. Em seu interior, na parte traseira, havia um plstico prei espcie de
cortina, com pequenos furos, por trs da qual um atirador emp nhava uma pistola
.765. Para alar-se na aeronave, Nonato teria de usar duas mos, momento em que
ficaria extremamente vulnervel a um ata

Desde as primeiras negociaes entre Murilo e a torre, Raimundo
nato vinha aos poucos adquirindo confiana no comandante. Este o tratas
respeitosamente, ao contrrio do homem no rdio, que o insultava.
Por vrias vezes, o comandante fora fiador, junto  polcia, da palavra
Raimundo. E aparentemente o perdoara por ter matado o outro piloto.
Nonato no estava acostumado a ser tratado com tanto respeito. apenas um
tratorista, pouco mais que um peo, nmade solitrio, acostuma do a vagar de
obra em obra, de alojamento em alojamento, trabalhador empreitada, de vnculos
temporrios. A obra acabava e ele ia embora, busca de outra, que tambm
terminaria. No tinha nenhum amigo que

170




rresse naquela poca aflitiva de desemprego. Murilo fora a nica pessoa o
tratara com dignidade, em muito tempo.
Talvez por isso ou, quem sabe, devido ao cansao, Nonato no tenha onfiado de
uma armadilha to bvia, um avio sem escada e sem porta, uma cortina de
plstico em seu interior.
O seqestrador e os trs tripulantes desceram as escadas do Boeing e cami-ela
pista. Aproximaram-se do Bandeirante. Como Raimundo era muito o avio batia-lhe
acima da cintura, quase no ombro.
O comandante formou com as mos em concha um calo para Nonato 'no Bandeirante.
Mas no tinha a menor inteno de ir atrs. Assim que ~qestrador se erguesse,
Murilo tencionava se agachar, passar por baixo da 'onave e sair correndo pelo
outro lado. Sabia que se tratava de uma arapuca. Vendo-se livre da ameaa da
arma do seqestrador, Angelo e Valente j se afastado, devagarinho.
Quem sabe temendo um confronto cara a cara com o pistoleiro, o policial se
encontrava no interior do Bandeirante, por trs do plstico, puxou pre-
Lturamente o gatilho de sua pistola. Raimundo no se erguera o suficiente ser
atingido. A bala no o acertou e passou rente ao rosto do comandante.
Tuiiimmmmm! Quando ouviu o tiro zunindo em seu ouvido Murilo se ;ustou, desarmou
o calo e largou o seqestrador. Raimundo desabou no
da pista. Levantou-se rapidamente, sem se preocupar com a pessoa atirara de
dentro do avio. Quis apenas vingar-se do homem que o trara. )fltOU o .32 para
o peito do comandante e atirou. Murilo deu um salto ~o, mas no escapou
totalmente do tiro. A bala varou sua perna esquerda, ~n pouco acima do joelho.

Como se os dois tiros tivessem sido um sinal acordado entre soldados e pliciais
civis, iniciou-se um pesado tiroteio. A saraivada de balas veio de ~dos os
lados. O homem que estava dentro do Bandeirante surgiu  entrada ~aeronave,
atirando com a .765. Angelo teve certeza de que ia morrer. Mas uviu a voz de
Valente, que berrava:
- Corre, Angela. Corre em ziguezague, corre atrs de mim. Corre.
O atirador do Bandeirante conseguiu acertar trs tiros no seqestrador, ~nhum
deles mortal. Nonato continuava se preocupando apenas com o co-mandante.
Disparou mais cinco tiros em sua direo. Mas no voltou a atin-~-1o. Mutilo
corria, tambm em ziguezague, em direo ao Boeing, sem no-ar que fora alvejado
e sem sentir nenhuma dor.

171
VP-375 - Terror na Ponte Area



Caixa-Preta




Subiu as escadas do 737 e, vendo que estava sozinho, fechou a
um s golpe.
Angelo e Valente haviam se refugiado num matagal ao lado da
-     Eu no te falei, em Braslia, que meus pesadelos sempre acontc
- Valente disse  colega. - Viu? Ns dois no meio de um tiroteio. Eu te falei?
Meus pesadelos sempre acontecem.

172
1




Captulo 15




lo interior do Boeing, houve alguns segundos de muda expectativa quando Mutilo
voltou. Os passageiros olharam para trs, procu-rando ver se o seqestrador
viera com ele. Finalmente, tiveram cer-que o piloto estava sozinho. Ao ver
encerrado o ato, os refns pror-em palmas as mais entusisticas.
Como se no escutasse os aplausos, Mutilo atravessou toda a extenso
)rredor em direo  cabine.
- Ele teve o que mereceu - dizia, querendo convencer a si prprio de
o pistoleiro tivera um fim justo.
Quando o piloto desapareceu no cockpit, os aplausos foram cessando aos cos, como
num teatro. Uma senhora se levantou e convocou todos a rezar. A maioria aceitou
o convite. Sob clima de grande emoo, rezaram um nosso e uma ave-maria.
Catlicos praticantes, Renate e Kiaus Borgards, comovidos, rezaram pinho, em
alemo.
Na cabine de comando, Murilo ligou o rdio e comunicou:
- Torre Goinia, eu j estou fora de perigo. Ele (o seqestrador) est ~nho na
pista. Acho que foi atingido. Os dois comissrios que desceram higo conseguiram
fugir.
Enquanto falava, Mutilo sentiu um lquido morno escorrendo por sua ~a. Apoiou o
p no painel, levantou a cala e viu muito sangue.

173



Caixa-Preta




-     Olha - disse para a torre -, eu tambm estou ferido.
Do lado de fora, a meio caminho entre o Bandeirante e o Boeing, * nato
encontrava-se deitado de bruos no asfalto da pista. Um dos prc .765 perfurara
seu intestino grosso. Outros dois haviam penetrado em abdome e se alojado nas
ndegas. A cala jeans branca estava ensangent~ Um soldado encostava a ponta de
um fuzil em sua nuca e dizia:
-     No se mexa, seno eu atiro.
Depois de se certificar de que no havia mais nenhum perigo, Mu voltou a abrir a
porta traseira do Boeing. Valente e Angelo puderam re nar, seguidos de diversos
agentes da Polcia Federal. O interior da aerot era agora palco de grande
comemorao. Exultantes, abraando-se e do-se uns aos outros, e dando tapinhas
nas costas do piloto, os passagc mal acreditavam que, depois de tanta agonia e
sofrimento, iriam sos e salvos.
O comandante Mutilo foi levado para o Hospital Santa Genoveva, o comissrio
Ronaldo Dias e o tripulante extra Gilberto Renhe se recup vam dos ferimentos.
Depois de submetido a minuciosa revista, Nonato foi encaminhado mesmo hospital.
Alm da caixa de munio, a polcia encontrou em sua chila, em meio a um monte
de quinquilharias, 800 cruzados em dinheir trs bilhetes usados da Ponte Area
Rio-Belo Horizonte.
Um boletim mdico, divulgado s 20h30, revelou que Raimundo beta trs tiros no
flanco direito,  altura dos rins. Sua presso arterial e out sinais vitais eram
normais. O dono do hospital, doutor Ludovico de Aln~ da, que o assistia, disse
que o paciente no corria risco de vida.
Trs horas mais tarde, os mdicos permitiram que a imprensa registra as
primeiras fotos do seqestrador, no momento em que saa do centro gico, onde
fora operado. Ainda sob o efeito de anestsicos, Nonato foi mado ao leito da
UTI. Do lado de fora da unidade, agentes da Polcia F~ se mantinham em viglia.




174

Captulo 16




a manh de sexta-feira, o hospital divulgou novo boletim sobre o
estado de sade de Raimundo Nonato. Os mdicos informaram
que, no fossem os tranqilizantes com os quais fora medicado, ele
poderia andar. Nonato foi transferido da UTI para um apartamento. Sem-
e algemado ao leito, era vigiado o tempo todo pela polcia.
No Hotel Umuarama, onde haviam passado a noite, os passageiros do
-375 tomaram o caf da manh cercados por reprteres e por cinegrafistas
televiso. Foram unnimes em declarar que deviam suas vidas  percia e sangue-
frio do comandante.
Os trs japoneses, Shiba, Komatsu e Yoda, viajaram para o Rio de Janei-num
jatinho fretado por suas empresas. Quatro dos passageiros, ainda
.uito traumatizados para voltar a voar, alugaram um txi na porta do hotel e
guiram por estrada para suas casas em Belo Horizonte.
Os tripulantes Mutilo, Renhe e Dias receberam alta do hospital naquela anh. O
caso mais grave era o de Renhe, que, com fratura no pernio, saiu ima cadeira de
rodas. Como no podia deixar de ser, Mutilo foi atropelado ir um batalho de
reprteres.
No incio da tarde, o co-piloto Salvador Evangelista foi enterrado em
iritiba.

acordar dos sedativos, Raimundo Nonato quis saber onde estava. Admi-que havia
feito uma loucura e comeou a chorar. Disse aos mdicos e

175
Caixa-Preta




policiais que seqestrara o avio em protesto contra o presidente Jos S seu
conterrneo, que no prendia os corruptos nem acabava com a in
No sbado, numa entrevista ao telejornal Hoje, da TV Globo, o tor Ludovico
disse, entre outras coisas, que o estado de sade do seq dor continuava
evoluindo bem e que logo ele poderia ser interrogado polcia.
Com efeito, no domingo, um delegado e um escrivo da Polcia F
puderam tomar o primeiro depoimento do paciente.

Foi a ltima coisa que Raimundo Nonato fez em vida.
Quando tudo indicava que seria transferido para uma priso, para
dar julgamento, Nonato morreu em seu leito de hospital. Sua morte foi misteriosa
e inesperada que os mdicos do Santa Genoveva, e os legis Goinia, recusaram-se
a fornecer um atestado de bito.
Foi preciso que a Polcia Federal convocasse, s pressas, em Campin legista da
Unicamp, professor Fortunato Badan Palhares. Que, para tran lidade geral
(murmurava-se nos corredores do hospital que Nonato fora sassinado pela prpria
polcia com uma injeo letal), silenciou os desco dos ao atestar que o
seqestrador do Vasp 375, e assassino de seu co-pil morrera de um quadro
infeccioso por ser portador de anemia falcifor~ uma doena congnita.
Como Badan Palhares era profissional dos mais conceituados - seu inclusive o
acadmico que, anos antes, identificara uma ossada como send~ do carrasco
nazista, e tambm mdico, Josef Mengele (laudo, diga-se de p sagem, no aceito
pelo governo de Israel) -, o assunto foi esquecido.
Quando, muitos anos depois, Badan Palhares se envolveu com diver autpsias
controversas (inclusive a do empresrio P. C. Farias, em Alagw ningum se
lembrou do longnquo caso de Goinia para pr em dvici legitimidade do laudo
cadavrico de Raimundo Nonato Alves da Concei




176
D comandante Murilo viveu horas de tenso e medo no ar. Sua ercia e controle
emocional salvaram a vida de 97 passageiros. Acervo pessoal de Fernando Murilo
de Lima e Silva)

O passo a passo ao terror
1.   Comandante Murilo.
2.   Co-piloto Vngelis.
3.   Jump seat piloto Renhe.
4.   Local onde ficou Raimundo Nonato.
5.   Trajeto percorrido pelo seqestrador.
6.   Ga/Ieydianteira. Local de onde Nonato atirou no comissrio Ronaldo Dias.
7.   Poltrona do passageiro iraniano.
8.   Poltrona de Takayoshi Shiba, nico ponto de onde se podia ver o co-piloto
morto~
9.   Poltrona de Komatsu.
10. Poltrona onde ficou o passageiro Ditzel, pouco antes do sequestro.
11. Poltrona de Yoda.
12. Poltrona do seqestrador Nonato.




A reconstituio de um
momento dramtico.
A ilustrao acima mostra
a posio do
seqestrador no  E
momento em que ele
mata o co-piloto. Apesar
do choque, Murilo
conseguiu avisar ao
Cindacta, em Braslia.
A notcia caiu como
uma bomba.
iuIIEIUUIIEIEIUEIuu




A ilustrao retrata a viso que Takayoshi Shiba tinha de sua cadeira. Foi o
nico passageiro que testemunhou o que se passou na cabine de comando.
O passageiro Jos CIo Ditzel, que
dia acompanhava
grupo de alerr
para o Rio de Jan
(Acervo pessoal de Jos O

(




A comissria Angelo voltou rapidamente ao trabalho depois do seqestro. Em
seguida, foi promovida a chefe de equipe. (Acervo pessoal de Angela Barroso)
No tonneau, o avio gira em torno de seu prprio eixo, mantendo uma trajetria
horizontal. J no parafuso, o piloto provoca a perda de sustentao para depois
mergulhar a aeronave numa espiral descendente.




Parado prximo  cabeceira da pista, o Boeing foi cercado por soldados do
Exrcito. A imagem encontra-se serrilhada porque foi
captada a partir de uma cmera de IV que registrava os primeiros minutos
da ao policial.
(Arquivo/Agncia O GIob~
~5

corpo do co-piloto Salvador Evangelista  retirado pelo piloto Renhe e
comissrio Ronaldo Dias.
~rquivo OPopulai)

Sedado e algemado ao leito, o seqestrador foi declarado fora de perigo. Dias
depois morreu.
(Arquivo/Agncia O Globo)




O comandante Murilo e a filha do co-piloto morto - Salvador
Evangelista - aps a cerimnia de entrega da medalha da
Ordem do Mrito Aeronutico.
(Acervo pessoal de Fernando Murilo de Lima e Silva)
O comandante Murilo est aposentado.  um homem
tranqilo, mas ainda
acalenta um sonho:
voltar a pilotar.
(Acervo pessoal de Fernando Murilo de Lima e Silva)
-x
7
/
~.

1
A comissria Angela Barroso
tambm recebeu a medalha do
Mrito Aeronutico.
(Acervo pessoal de Angela Barroso)

Captulo 17




~ lgumas semanas aps o seqestro do Vasp 375, o comandante Muri-lo foi
condecorado com a medalha do Mrito Aeronutico. Como 
de praxe na cerimnia, uma esquadrilha de caas da FAB evoluiu em ~homenagem e
na das outras pessoas agraciadas na ocasio, inclusive a me co-piloto Salvador
Evangelista, que recebeu a comenda em nome do filho assinado.
Murilo permaneceu dois meses em casa, convalescendo do tiro desfe-ido por
Nonato. Fez fisioterapia para recuperar os movimentos da perna tada. Depois,
teve de fazer novo exame fsico e psicotcnico - como exi-i~ as normas
aeronuticas, sempre que ocorre um acidente.
Aprovado nos exames, passou por um perodo de treinamento em si-iladores, antes
de voltar a voar. Finalmente escalaram-no, no por coinci-icia, para um vo
374/375. Alis, seus trs primeiros vos, depois do re-:sso, foram na rota Rio-
Porto Velho-Rio, sentado na poltrona de co-piloto ~ndo um instrutor  esquerda.
Nada houve de sadismo nessa escalao para 175: era uma maneira de testar sua
recuperao psicolgica.
Aps um ms com instrutor, liberaram-no para comando. E o primeiro
voltou a ser na rota de Porto Velho. Nos dois anos seguintes, continuou
~andando 737-300.
A Vasp foi ento privatizada. O novo dono, Wagner Canhedo, empre-io do setor de
transportes urbanos em Braslia, resolveu imprimir novo
rno  empresa. Requereu e obteve concesses de linhas internacionais e

177
w



Caixa-Preta




arrendou aeronaves DC-10. Mutilo foi um dos primeiros pilotos a ser
nado para o novo equipamento.
Depois de um perodo de treinamento, em Houston, e diversas s
simulador, em Los Angeles, Murilo passou a pilotar DC- 10, j como i -At 1993.
Nesse ano, Canhedo trocou os DC-10 por MD-1 1 e descanou-pilotos com a mesma
sem-cerimnia com que se desfez do equipamento.
O heri do vo 375 foi mandado para o olho da rua, ou enxot Vasp, como ele mesmo
se refere ao episdio. E teve antecipado o final carreira em, no mnimo, 15
anos. Como se no bastasse, ficou seis mes receber um tosto, at que sua
aposentadoria fosse regularizada.

Durante muito tempo, o tripulante extra do 375, piloto Gilberto R cobrou-se a
respeito do episdio. Dvidas do tipo: ser que no pod& salvado a vida do
amigo, co-piloto Salvador Evangelista? Ser que no ria ter se atracado com o
seqestrador?
Renhe atravessou um perodo de estresse, que ele mesmo classifica brabssimo, e
que durou 18 meses. Nos quais ficou afastado de vo. Q retornou  ativa,

completou sua instruo para comando. Do 737, p diretamente para o MD-1 1 e
tornou-se um comandante internacional. maneceu na Vasp at 1999, quando foi
demitido da empresa. Hoje com MD-1 1 na China Airlines, de Taiwan.
Embora no sinta dio de Raimundo Nonato, Renhe lembra-se
depois do seqestro, sentiu-se muito confortvel ao saber que ele morrer
hospital.
Renhe e Samira tm agora duas filhas. Embora ele passe a maior
do tempo em Taiwan, a famlia continua morando em Lagoa Santa.

Em So Paulo, onde morava na poca do seqestro, o chefe de equipe 375, Jos
Ribamar Abreu Pinho, ficou um ano sob acompanhamento m~ co, recuperando-se do
choque emocional. Ao regressar, foi promovido pa~ Airbus. Voou at maro de
1993, quando se aposentou. Atualmente m em Braslia.

A comissria Angela Maria Rivetti Barros Barroso (Angelo) voltou rapi mente aos
vos. Mais tarde, foi promovida a chefe de equipe e passou ~



178
1




VP-375 - Terror na Ponte Area




as internacionais, voando em MD- 11. Profissional apaixonada por seu tra-ho,
permaneceu na Vasp at 1999, quando foi despedida. Hoje mora em
Paulo.

dois outros comissrios do vo 375, Dias e Valente, abandonaram a avia-
depois do incidente.

tre os passageiros e tripulantes do VP-375, ficou uma grande dvida a peito do
caa Mirage que a FAB enviou para interceptar o Boeing. Na ca do seqestro,
alguns jornais informaram que a misso do Mirage era rubar o 737, caso este
voasse na direo do Palcio do Planalto ou de um outro prdio pblico de
Braslia.
As pesquisas para elaborao deste relato revelaram que jamais houve a
possibilidade (de o Boeing ser abatido). O ento ministro-chefe do Ga-iete Civil

da Presidncia da Repblica, Ronaldo Costa Couto - cujo ir-o, Francisco de Assis
Costa Couto, encontrava-se a bordo do 737 seqes-do -, esclareceu que em momento
algum o palcio soube da inteno nicase do seqestrador. Tanto que, enquanto o
Vasp 375 orbitava ao redor Braslia, o presidente Jos Sarney permaneceu em seu
gabinete.
Analisando-se de maneira desapaixonada o vo 375, v-se que a discus-(sobre uma
possvel ordem dada ao piloto do Mirage para que abatesse o
eing no caso do ataque suicida) no faz muito sentido. Simplesmente por-~, por
razes bvias, nem o comandante Murilo nem nenhum outro piloto
ogaria contra um prdio, mesmo tendo um revlver apontado para a cabe-
O mximo que um aviador faria, nesse tipo de situao, seria tentar dese-ilibrar
o seqestrador, atravs de uma manobra brusca ou acrobtica (como
o caso de Mutilo), ou ento atracar-se com ele, para tentar domin-lo.

horas passadas a bordo do Vasp 375 marcaram para sempre a vida dos ~sageiros.
Marialice Szpigel, por exemplo, divide sua vida em duas partes:
~es e depois do seqestro. Tornou-se outra pessoa. Reavaliou sua vida. Seu
:amento.
Curiosamente, Marialice perdeu naquela tarde o medo que sempre tive-de voar.
Tendo experimentado o tonneau e o parafuso, hoje acha at graa
ando um avio entra numa reles turbulncia.



179




Caixa-Preta




Todos os passageiros do 375 entrevistados para este trabalho nu
pelo comandante Fernando Murilo um grande respeito e admirao.
do que isso: creditam-lhe suas vidas, O alemo Karl-JosefPieper, em minu
relato escrito que fez do episdio, descrevendo-o minuto a minuto, diss
a capacidade de pilotar de Murilo, seu jeito de negociar (com o seqestr~
e com as autoridades), sua calma e conscincia evitaram uma tragdia. Renate e
Klaus Borgards, tambm alemes, que amam o Brasil e
sileiros, e que j visitaram este pais inmeras vezes, fazem questo de
que sero eternamente gratos ao comandante.
Vrios depoimentos colhidos para este relato foram tomados
uma chopada, comemorativa do dcimo aniversrio do seqestro, que
niu, em Belo Horizonte, diversos passageiros do vo 375.
No Japo e na Alemanha, os passageiros do VP-375 tambm se rei quase todos os
anos no dia 29 de setembro, data que consideram to tante como a de seus
aniversrios,
pois julgam ter ganho uma vida extra episdio. O comandante Murilo j participou
de alguns desses encontros Alemanha, como convidado de honra. Em Tquio, Shiba,
Komatsu e se encontram a cada ano para celebrar a data com um comovido banza.
Em relao a Raimundo Nonato Alves da Conceio, as opinies passageiros
divergem. Alguns julgam que o seqestrador do Boeing no cia outra coisa seno
morrer. Outros,
como o japons Shiba e Francisco Couto, acham que Nonato era uma pessoa com
srios distrbios mentais.
Depois do seqestro~ ao saber que Nonato planejava jogar o avio o palcio
presidencial~ para protestar contra os males que os planos cos do governo
causavam aos

brasileiros, principalmente aos pobres, no conseguiu evitar ter pena dele.
Sentimento que nutre at hoje.
O seqestro do Vasp 375 mudou totalmente a maneira de ser e de sar de Takayoshi
Shiba. Lembra-se que, quando a polcia entrou no aps o tiroteio, todos os
passageiros,
com exceo dos japoneses, rezavan Shiba se impressionou com o clima de emoo
que envolvia a prece e vergonha de ser ateu.
Ao regressar ao Japo, disse isso a um padre catlico. E se converteu
cristianismo. Hoje  batista. Aps o incidente, afirma Shiba, nunca mais deixo~
de agir de
acordo com sua nova f. Ficou sabendo como  fcil acabar com um~ vida humana e
no quer ter nada do que se arrepender quando a morte chegar)



180




VP-376 - Terror na Ponte Area




~mbora o feito do comandante Fernando Murilo no seja muito conhecido
grande pblico, ele costuma ser lembrado com admirao por pilotos de
~do o Brasil.
Na poca do seqestro, tcnicos da Boeing examinaram os registros do DR
(gravador dos parmetros de vo) do PP-SNT e se surpreenderam com s manobras
executadas pelo
comandante do Vasp 375. Teoricamente, a ae-onave no poderia t-las suportado.

~posentado muito a contragosto, Murilo mora com a famlia em Petrpolis, ia
regio serrana do Estado do Rio de Janeiro. Seu hobby  cozinhar. Costu-ria
tambm praticar
jogging todas as manhs, quem sabe para estar em forma aso volte a ser chamado
para um emprego de aviador, sonho que ainda aca-enta e que fica mais difcil a
cada
dia que passa.
Se algum interromper sua corrida matinal para uma conversa, logo ir ,erceber
que o anjo protetor do Vasp 375 - a despeito da frustrao por :star em terra, e
da
injustia de que foi vtima -  um homem em paz con-.igo mesmo.

E se o cu ainda lhe faz falta, muito mais falta ele faz l em cima, em neio s
nuvens, no comando de um jato de passageiros. Como os 97 cujas udas o velho
Cafajeste,
piloto de linhas areas por alma e vocao, salvou iuma quinta-feira de
primavera.




181
L




RG-254




A Noite por Testemunha








Caixa-Preta

Tripulao do PP-VMK
Comandante Czar Augusto Paduia Garcez, 32 anos, gacho, solteiro
Co-piloto Nilson de Souza Zille, 29 anos, mineiro, solteiro
Chefe de equipe Solange Pereira Nunes, 25 anos, paulista, solteira
Comissria Jacqueline Klimeck Gouveia, 23 anos, carioca, solteira
Comissria Flvia Conde Collares, 22 anos, carioca, solteira
Comissria Luciane Morosini de Meio, 22 anos, gacha, solteira




Lista de passagefros do RG-254
Embarcados em Uberaba
Fukuoka, Shiko - 56 anos, casado, paraense, mecnico
Manso, Jos de Jesus - 39 anos, casado, mecnico



Embarcados em Goiflnia
Fonseca, Josete Maria da - 53 anos, sogra de Ktia e Liceia Melazo
Melazo, Bruno Tavares Fonseca - um ano, filho de Ktia Melazo
Melazo, Dbora - um ano, filha de Liceia Melazo
Melazo, Giuseppe Tavares - trs anos, filho de Ktia Melazo
Melazo, Ktia Celina Tavares - 25 anos, paraense, casada, me de Giusepp Bruno
Melazo, Liceia U[iana Secbin - 26 anos, casada, me de Dbora



Embarcados em Braslia
Mariani, Giovanni - 39 anos, italiano, tcnico industrial
Nbrega, Maria de Ftima Bezerra - 34 anos, engenheira industrial
Sarno, Fidelis Rocco - 50 anos, advogado em Salvador, Bahia



Embarcados em Imperatriz
Alencar, Manoel Ribeiro de - 39 anos, cearense, lavrador, garimpeiro Aiencar,
Wiison Lisboa - 67 anos, casado, fazendeiro, aviador, industrial,
merciante
Cavalcante, Maria Deita Martins - 41 anos, casada, maranhense
Chaves, Epaminondas de Souza - 36 anos, casado, paraense, engenheiro, empx
srio
Coelho, Newton Macedo Santos e - 26 anos, garimpeiro
Gemes, Carlos de Aquino Meio - 27 anos, casado, maranhense, economista
Kososki, Eiza Maria Gasparin - 32 anos, casada, irm de Rita Gasparin
Lima, Hiima de Freitas - 31 anos, maranhense, comerciante
Meio, Cleonilde Nunes de - 53 anos, maranhense, solteira, irm de Enilde Mel
Meio, Enilde Nunes de - 59 anos, maranhense, solteira, irm de Cleoniide Mel
Oliveira, Antnio Farias de - 36 anos, comerciante
Oliveira, Rita de Cssia Gasparin - 30 anos, casada, irm de Elza Gasparin
Paiva, Cleide Souza de - 18 anos, maranhense, me de Thais Paiva
Paiva, Thais Souza de - um ano, filha de Cleide



184

RG-254 - A Noite por Testemunha




'e Filho, Marcionlio Ramos - casado, 33 anos, funcionrio da Petrobras Ariadne
Suelen da Silva - cinco meses, filha de Regina Clia
a, Afonso - 19 anos, maranhense, garimpeiro, irmo de Regina Clia raiva
Jos Gemes da - 23 anos, maranhense, garimpeiro
Regina CUa Saraiva da - 27 anos, goiana, me de Ariadne e irm de crise
Odeane de Aquino (Da) - 19 anos, maranhense, casada



rcados em Marab
uerque, Roberto Regis de - 24 anos, solteiro, agropecuarista ies Neto, Henrique
Santos - 37 anos, paraense, professor universitrio ~do Ji.nior, Evandro - 27
anos,
marido de Rgia Azevedo
~do, Rgia Santos - 29 anos, mulher de Evandro
1, Jos Luis Serrano - 33 anos, casado, paraense, mdico legista ora, Marinz
Araijo - 25 anos, empresria, me de Bruna Coimbra Bruna Lorena Coimbra - trs
anos,
filha de Marinz
ha, Jos Maria dos Santos - 37 anos, paraense, casado, engenheiro agrnomo
Severina Pereira - 50 anos, contadora
~, Joo Roberto da Silva - 39 anos, paraense, mdico oftalmologista ~n, Marcus
Giovanni - 21 anos, paraense, estudante de direito mento, Antnio Jos do - 48
anos,
amazonense
iio, Meire Silene - 19 anos, solteira, paraense
is, Paulo Srgio Altieri dos - 33 anos, engenheiro, funcionrio pblico Antnio
Jos Arajo da - 33 anos, paraense, casado, mecnico de heli-lpteros
ira, Raimundo Carlos Souza - 29 anos, tcnico em minerao da Docegeo 'es, Ruth
Maria Azevedo - 32 anos, funcionria do Ibama

185
pr.




1~
1

Captulo 1




Boeing 737-200, prefixo PP-VMK, que cumpria o vo RG-254, da Varig, era apenas
uma das diversas aeronaves que o ACC (Area Control Center) Belm, ou
simplesmente
Centro Belm - locali-do no Aeroporto Internacional de Val-de-Cans, da capital
paraense -, ntrolava naquele final de tarde de domingo, dia 3 de setembro de
1989.
Cabia ao Centro Belm orientar os avies que se aproximavam para uso no Val-de-
Cans e os que apenas passavam pela rea rumo a outras calidades. A estes
ltimos,
Belm passava informaes rotineiras, como letins meteorolgicos e condies de
trfego na regio. Como o ACC no a dotado de radar, todas as posies
reportadas
pelos pilotos eram aceitas me boas pelos controladores de terra. No havia como
chec-las.
O espao areo sob responsabilidade do Centro compreendia, alm dos edores da
cidade, a foz do rio Tocantins, o setor sudeste da Ilha de Maraj um trecho da
costa
paraense, ao Norte.
Por intermdio da estao de rdio localizada no Aeroporto de Marab, onde o
Varig 254 decolara rumo ao Val-de-Cans, o ACC o autorizara a ar no nvel 290 (29
mil
ps) at Belm.
s 17h49, o Centro Belm comunicou  torre de controle de Val-de-s que o 254
decolara de Marab aos 35, querendo com isso dizer 20h35 u (hora de Greenwich),
que
correspondia s 17h35, hora local tanto em arab quanto em Belm.

187



Caixa-Preta




Oito minutos depois, o ACC recebeu uma chamada de outro V RG-266, que procedia
de Braslia, informando que o RG-254 no conse receber o Centro Belm na
freqncia
VHF (Very Htgh Frequency) , nor mente usada.
O ACC decidiu tomar a iniciativa de chamar o 254.
- Varg dois cinco quatro, Varig dois cinco quatro, Varig... controlador repetiu
diversas vezes o chamado, na esperana de que o 254 respondesse. Mas, como isso
no aconteceu, voltou a fazer a ponte por termdio do RG-266. Pediu a este que
mandasse o 254 chamar Be1~m freqncia 8.855 quilohertz (kHz) em HF (High
Frequency),
de alc muito maior.

Como o Aeroporto Val-de-Cans passava por obras de ampliao em dernizao, a
sala HF fora temporariamente deslocada para uma dependn situada a 150 metros de
distncia
do Centro e da Torre de Controle.
Naquele instante, os operadores de HF dividiam suas atenes entre tarefas de
rotina e a tela de um aparelho de tev que mostrava imagens Estdio do Maracan,
no
Rio de Janeiro, onde a seleo brasileira de fute enfrentava a do Chile, em
partida decisiva do Grupo Trs das eliminat da Copa de 1990, na Itlia. O
Brasil se
classificaria com uma vitria ou empate. Se o Chile vencesse, pela primeira vez
o futebol brasileiro estaria f de uma Copa do Mundo.
Coube a Jos Casemiro Ribeiro Neto, um veterano de 57 anos, aten
)
a chamada do RG-254 em HF.
- Estimo posio 25 minutos fora - informou o 254. - Estou pro to para iniciar a
descida. Est faltando energia na cidade? No recebo 128.
-        Referia-se a 128.2 megahertz (MHz), uma das freqncias em VHF ACC
Belm.
- Negativo - respondeu Casemiro.
-        Dois cinco quatro solicita autorizao para descer para o nvel 2O~
-        Positivo. Dois cinco quatro autorizado para 200. - Belm permiti~ que o
Varig 254 descesse de 29 mil para 20 mil ps.
A Sala HF passou as informaes do 254 ao Centro de Controle e recc
beu ordens para dizer ao piloto que continuasse falando em HF mas, ao m~
mo tempo, tentasse o contato em VI-IF.



188




RQ-254 - A Noite por Testemunha




Casemiro retransmitiu as instrues ao 254. Enquanto falava, pde ver televiso
o rbitro argentino Juan Loustau dar incio ao segundo tempo do o. Quatro
minutos
depois, o centroavante Careca marcou um gol para o ii. Houve grande vibrao na
sala HF.

No ACC Belm, onde a comemorao do gol no fora menor, os con-ladores no viam
razes para se preocupar com o 254. Acreditavam que o ig, mesmo no conseguindo
falar
em VHF, encontrava-se prximo, j e a etapa Marab-Belm era curta e as
condies meteorolgicas, timas. nica precauo era no permitir que entrasse
em rota de
coliso com o
-266,        nica outra aeronave voando na rea naquele instante.
s 18h19, o 254 voltou a falar com a Sala HF, em 8.855 kHz. Infor-ou que
atingira o nvel 200 e que continuava sem comunicao com o ntro. Solicitou
prosseguir na
descida. Casemiro perguntou ao Varig se ele ha algum problema tcnico.
O piloto no disse que sim nem que no. Laconicamente, respondeu:
- Aguarde.
No Maracan, um foguete foi disparado da arquibancada. Aparente-ente atingiu o
goleiro Rojas, do Chile. O jogador caiu na rea e o jogo foi terrompido.
Na sala HF, Casemiro sugeriu ao 254 que tentasse outras freqncias de roximao
em VHF. Havia diversas em Belm.
- Negativo - respondeu o 254. - Continuo sem nenhum contato
VHF.
Se achou estranho o Varig continuar no sintonizando o\JHF, mesmo estan-to
prximo da estao transmissora, Casemiro guardou a estranheza para si.
- Desa para o nvel 40 - ateve-se a instruir, sabendo que no havia ais risco
de coliso pois o RG-266 acabara de pousar. - Ajuste altmetro ra 1.007
milibares
- completou, fornecendo a presso atmosfrica preva-cente naquele momento em
Val-de-Cans, num procedimento padro de strues para pouso.
- Estou sem contato com o Centro, com a aproximao e com a torre
        voltou a reportar o 254.
Casemiro no pareceu se impressionar.
- Voc e o unico trfego conhecido - informou. - Avistando a pis-prossiga para
pouso.



189



Caixa-Preta




No saguo do aeroporto, eram muitas as pessoas que aguardavam amigos que, dentro
de alguns minutos, conforme mostrava o quadro de sos, desembarcariam do vo 254.
O professor Paulo Cunha esperava seu colega da Universidade Fed' do Par,
Henrique Antunes Neto. Vanderlei Martins da Costa aguardav:
mulher, Marinz Arajo Coimbra, que chegaria de Marab com a filha casal, Bruna,
de trs anos.
Marilcia Chaves, mdica da Santa Casa de Belm e mulher do ei nheiro
Epaminondas Chaves, acabara de chegar ao aeroporto acompanh2 dos filhos Tiago,
de 13 anos,
e Diogo, de dez. Os meninos estavam ansio para ver o pai, que vinha de
Imperatriz.

Na sala HF, Casemiro voltou a falar com o PP-VMK. Eram 18h28. Mais vez o Varig
254 disse que continuava sem comunicao com o ACC Belm. que no o impediu de
solicitar
autorizao para completar a descida.

- Positivo - respondeu o operador de rdio, depois de consultai Centro. - Pista
livre. Descida autorizada, desde que o 254 tenha B visual.
Mas o tempo foi passando e o Varig no chegou.
s 18h35, uma hora aps a decolagem do PP-VMK em Marab, e minutos aps o
horrio previsto para o pouso, o ACC Belm declarou aeronave incursa na Fase de
Incerteza.
Embora o 254 no o tivesse Belm entendia que seu piloto tinha, no mnimo,
dvidas com relao sua real posio.
Cumprindo o que estabelecia o regulamento, Belm suspendeu todas operaes de
pouso e decolagem no Val-de-Cans, dando exclusividade RG-254. O ACC pediu s
emissoras
de radioauxlio de Porto Velho, e Braslia, alm de outras que porventura
estivessem na escuta, que fi~ atentas a um eventual contato por parte do 254. O
PP-VMK
passara a preferncia sobre qualquer outro vo.
Na estao de passageiros, as pessoas que aguardavam o 254 se espre
miam junto ao balco da Varig.
- O que est acontecendo? Por que o avio no chegou?
Receberam evasivas como resposta:
- Est atrasado. Estamos aguardando um posicionamento.

190




O professor Cunha subiu  torre de controle, onde tinha amigos. Ficou :ndo que o
254 sobrevoara a regio de Belm mas, por alguma razo, no
dizara a cidade.
 medida que o tempo foi passando, sem que a Varig informasse a res-o vo, a
preocupao dos parentes transformou-se na mais profunda stia.

salas de controle de trfego areo, sabia-se que o 254 permanecia no ar, ~, s
18h55, o piloto voltara a chamar Belm atravs do HF. Novamente atendido por
Casemiro.
O Varig solicitou a freqncia das estaes de aa' asting (rdios comerciais) da
cidade.
Uma delas, Casemiro sabia de cor: Rdio Liberal, 1.330 kHz. Outra, ele
eve no manual Rotaer: Rdio Guajar, 1.270 kHz. Passou-as ao 254.
Minutos depois, o Varig informou:
- Consigo sintonizar a Rdio Liberal e a Rdio Guajar. Mas continuo iVHF.
Cada vez mais intrigado, Casemiro voltou a perguntar ao Varig se havia
im problema tcnico com a aeronave.
- Aguarde - limitou-se a dizer o 254.
O operador de rdio passou as informaes ao Centro, onde a inquieta-era geral.
Meia hora antes, o avio parecia estar nos procedimentos finais pouso. E
simplesmente
sumira. Temia-se que o Varig, aps ter ultrapassa-a vertical da cidade,
estivesse perdido sobre o oceano.
Para alvio dos controladores, s 18h59 um Boeing 727 cargueiro, pre-PP-VLV,
tambm da Varig, chamou o ACC Belm e informou que
bara de estabelecer contato com o PP-VMK. Este estimara seu pouso no [-de-Caris
s 19h05, portanto dentro de apenas seis minutos. A coordena-da Varig, que
tambm
conversara com o 254, confirmou a estimativa de gada.
Mas os seis minutos se passaram e nada aconteceu. Nenhum sinal no ~o, nenhuma
aeronave  vista. Na Torre de Controle, os olhos dos opera-rcs perscrutavam a
noite

que descera sobre a cidade. Nenhum farol, ne-uma luz de navegao. Nenhum sinal
do 254. Absolutamente nada.
s 19h06, o PP-VMK voltou a falar com a sala HF. Nada disse sobre as
imativas anteriores (e erradas) de chegada.



191
RG-254 - A Noite por Testemunha
p



Caixa-Preta




- Tenho combustvel para uma hora e quarenta - limitou-se a i mar, como se tudo
o que acontecera at ento fosse pura rotina. -mantendo o nvel 40 (4 mil ps) -
prosseguiu. - Quais so as condies tempo em Belm? Continuo sem ver a pista.
Como o Centro acabara de fornecer  sala HF o boletim meteorolgi acompanhado de
instrues para o pouso do Varig, Casemiro apressou-se passar as informaes ao
254.
- Vento calmo, visibilidade acima ae 1 U quiioiflettos, nuvens a z u
a 10 mil ps. A temperatura  de 28 graus, a presso... - Casemiro paro
frase no meio, ao se dar conta de que aquelas informaes eram inteis, jq
o        254 parecia no ter a menor idia de onde se encontrava. Optou por
guntar: -J est recebendo a marcao de Belm (sintonizando um radioa
xlio de Belm)?
- Negativo - respondeu o 254. - Recebo apenas emissoras de bro casting.
Desconcertado, Casemiro limitou-se a transmitir o resto das instru -e
informaes.
- Dois cinco quatro autorizado a descer para 2 mil ps. A temperat local,
repito,  de 28 graus. A presso  de 1.007 milibares, vento de 60 gra com 12
ns. A pista
em uso  a 06. Pode prosseguir quando tiver o visual pista.
Novamente o Varig no apareceu. Mas, passados alguns minutos, vo~ tou a falar
com a sala HF, informando que continuava sem comunica~ com o Centro e que no
avistava
as luzes da cidade (o Sol j se pusera havi~ quase uma hora).
quela altura, boa parte do pessoal do ACC e do Servio de Proteo Vo
deslocara-se para a Sala HF. Esta se transformara, de fato, no Centr Belm.
Como o Val-de-Cans fora interditado havia mais de meia hora, os pr meiros
problemas comearam a surgir. Um Boeing da Vasp, vo VP-19 aproximava-se de
Belm, procedente
de So Lus. O Centro informou que aeroporto estava fechado e sugeriu ao Vasp
que prosseguisse at o aeropori alternativo - no caso, Macap - ou regressasse a
So
Lus.
Mas, como e comum na aviao, o Vasp catimbou. Disse que no ouv Belm com
clareza suficiente e prosseguiu em direo ao Val-de-Cans.



192

RQ-254 - A Noite por Testemunha




Belm no se deixou iludir. Insistiu que as operaes de pouso e decola-n haviam
sido suspensas.
- Positivo - acusou o 192. Acusou mas no adotou nenhum procedi-'nto para
regressar a So Lus. Muito pelo contrrio. Positivo - repe-
- Ns vamos ento prosseguir para Belm. Vamos bloquear Belm no B (nvel 350) e
permanecer na escuta.
s 19h23, o Vasp voltou a chamar o Centro. Disse que a rota Mara-
Belm se encontrava visual. Portanto, j que o 254 vinha por ela, e ele i o
enxergava, no havia risco de coliso. Solicitou autorizao para ;cer.
Os argumentos no sensibilizaram Belm, que mandou o Vasp perma-:er l no topo
(a 35 mil ps). E aproveitou para pedir-lhe que tentasse um nato com o 254,
tentativa
essa que o 192 procedeu imediatamente, mas
~ se revelou infrutfera.

Trs minutos depois, o PP-VLV, 727 cargueiro que antes conseguira falar n o RG-
254, chamou Belm e informou estar a 150 milhas fora da cidade.
O Centro optou por instruir o 727 a se manter no nvel 330 (33 mil ), 2 mil ps
abaixo do Vasp, ambos longe do 254 (a 4 mil ps).
Incluindo o Varig 254, com seus problemas, eram agora trs as aerona-que o
Centro tinha de controlar.
- Mantenha o trs trs zero (rumo 330) - disse para o PP-VLV. -porte cinco
minutos fora.
s 19h27, o Vasp atingiu a vertical da cidade. Comeou a circular. Con-uava
tentando um contato com o Varig 254. Durante dois minutos, cha-'u-o pelo VHF nas
freqncias
128.2, 125.2, 126.9 e 12 1.5, sem resulta-
O Vasp ento voltou a chamar o Centro e, sempre fingindo-se de desen-.dido,
pediu para descer.
Belm cingiu-se ao regulamento:
- A operao continua suspensa - respondeu, categrico. - Escolha i nvel para
esperar, acima do 200, ou prossiga para alternativa.
O Vasp forou a barra:
- No haveria uma chance da gente descer para altitude de trfego e OiS chamar a
torre?
- Negativo, 192. No h posio segura, uma vez que no temos co-ecimento do
setor onde se encontra o 254.



193

Caixa-Preta




Desolado, o Vasp informou ao Centro que aguardaria mais cinco tos, ao cabo dos
quais, se o aeroporto no tivesse sido liberado, regressa So Lus.
Enquanto mantinha o 192 e o cargueiro sob controle, Belm contata 254 pelo HF.
As vezes, o 254 no respondia. Em outras, limitava-se a dizc
- No me chame mais. S me chame quando tiver uma inform~ importante.
O ACC decidiu pedir ao Centro Braslia que chamasse o RG-254 SELCAL (Selective
Cal!). Esse equipamento~ existente em todas as aen comerciais, funciona como um
telefone.
Cada avio tem sua freqncia e cdigo exclusivo. O cdigo do PP-VMK era HLEG.
Braslia no teve a menor dificuldade para falar com o Varig pelo CAL. Mas o
254, ao invs de dar sua posio e informar o que pr fazer, mandou Braslia
aguardar
alguns instantes.
Esgotados os cinco minutos, o Vasp pediu a Belm o nvel 350 retornar a So
Lus. Mas, para sua decepo, o Boeing presidencial, presidente Jos Sarney a
bordo,
iria decolar de So Lus para Braslia. C  de praxe nesse caso, a rea de So
Lus fora interditada at a decolagem Fora Area n~ 1.
Belm ofereceu ao 192 seguir para Macap. O Vasp detestou a suge~ No achou a
menor graa, estando num vo So Lus-Belm, desembar seus passageiros em
Macap, onde,
quela hora, e ainda por cima num mlngo, a empresa no teria estrutura para
assisti-los. Preferiu retornar a Lus, mesmo sabendo que, l chegando, talvez
tivesse
de sobrevoar at que o avio do presidente se dignasse a decolar.
Em Belm, o pessoal do ACC, cada vez mais preocupado com o decidiu chamar em sua
residncia o capito Carlos Rodrigues, chefe do tro. Informaram-no que um 737 da
Varig encontrava-se presumid perdido.
Como morava na rea residencial da prpria Base Area de Val-de-( Rodrigues
levou apenas cinco minutos para chegar ao Centro de ( Assumiu o comando das
operaes.
Fizeram-lhe um breefing da situao.
O capito arriscou um contato com o 254 atravs do VHF, que se mostrou intil.
Dirigiu-se ento  sala HF, onde assumiu as do operador Casemiro.
E        194

RG-254 - A Noite por Testemunha




s 19h47, Rodrigues conseguiu falar com o Varig atravs do SELCAL. n fazer
rodeios, pediu ao piloto sua posio.
Surpreendentemente, o 254 respondeu que voava na proa 350 de San-e que tinha
como auxlio bsico uma radiodifusora daquela localidade. Santarm... Confuso
com a
informao, o capito tratou de pr as idias ordem. Se o avio vinha de Marab
para Belm e, mais de uma hora ois do horrio previsto de chegada, tinha proa
350
de Santarm,  porque lesviara enorme e absurdamente para oeste. Mas isso era
algo a ser apurado )0i5, quando o PP-VMK j estivesse no solo e seus ocupantes,
sos
e salvos. importante agora era orient-lo para que pousasse com segurana em Be-
~ ou, quem sabe, em Santarm, j que voava naquela direo.
- , 254 - perguntou Rodrigues -, quais so as condies a a bordo?
- Tudo normal.
- Qual  a freqncia dessa rdio de Santarm?
Em vez de responder  pergunta, o Varig deu algumas informaes vagas ~re o vo.
E, sem mais nem menos, saiu do ar, deixando atnito o capito.
Se, para a sala HF, o RG-254 disse que tinha proa de Santarm, para a )rdenao
Varig ele voltou a dizer que prosseguia para Belm em condi-~s visuais e que
sintonizava
a Rdio Liberal. Disse que j estava quase che-ido. O capito Rodrigues soube
disso atravs do PP-VLV (que conversara n a coordenao Varig e com o prprio
254,
sendo que, com este, em
na freqncia 131.1) e sentiu um frio na espinha. Teve um pressenti-:nto de que
algo muito srio ocorria no ar. O 254, por algum motivo sterioso, parecia estar
escondendo
alguma coisa.
Todas as estaes de radioauxlio do norte do Brasil haviam sido alerta-e
acionadas. O Varig 254 tornara-se prioridade absoluta nos ares. Precisa-ser
rastreado,
precisava ser encontrado, custasse o que custasse.
Enquanto o Centro tentava descobrir a localizao do 254, e mantinha ~P-VLV
sobrevoando a cidade, um Lear Jet executivo, prefixo 4XCUT, ~mou pelo rdio.
Informou
sua posio no nvel 430 (43 mil ps), a nove nutos fora de Belm. Pediu
instrues para descida e pouso. O Centro cor-t-lhe a pretenso. Mandou que
reportasse na
vertical da cidade e que aguar-~se l em cima, no nvel 430, at que a situao
do 254 fosse esclarecida.
O 4XCUT no gostou nem um pouco. Informou ao Centro que recebera ia mensagem do
254 dizendo-se com proa de Santarm, a sete minutos fora



195




Caixa-Preta

daquela cidade. Portanto, se o Varig estava prximo a Santarm, no risco de
coliso. O CUT voava visual e via perfeitamente a cidade de toda iluminada.
Tentou forar
o ACC a deix-lo prosseguir para o pouso.
- Negativo - respondeu Belm. - O Quatro X-Ray Charlie form Tango (cdigo de
fonia para 4XCUT) deve manter o nvel quatro zero e aguardar novas instrues.
Queira
confirmar, senhor, se informou teriormente que o 254 estava a sete minutos fora
de Santarm.
-        Positivo - respondeu o piloto do Lear.
Em vez de desinterditar Belm, como o Lear esperava, o Centro deci fechar
Santarm para pouso e decolagem. Eram agora dois os aerdroi interditados, numa
regio
onde havia pouqussimas pistas com balizamc noturno. Eram tambm dois os avies
pendurados no ar, sobre Belm, pera de um pouso do 254, sabia Deus aonde. Sem
contar
os avies retidos~ terra no Aeroporto Val-de-Cans, alm dos que ficariam, a
partir daquele tante, presos em Santarm.
s 20h05, o capito Rodrigues voltou a falar, por HF, com o 254. Este, entre
algumas informaes bvias, como a de que sara de' b s 20h35 zulu, limitou-se
a dizer
que tinha proa de 1900, o que significava muita coisa, pois no deu (porque
provavelmente no sabia) posio.
Belm quis mais detalhes, mas o 254 disse apenas:
- Aguarde. Um minuto mais tarde, o Varig 254 desconcertou totalmente Belm
informar que tinha proa 170 de Marab e que recebia o NDB (radioauxlk de
Carajs.
Nada batia com nada. Depois de ter dito para um (coordenao que se encontrava
nas proximidades de Belm e para outros (inclusive 4XCUT) que estava a sete
minutos
de Santarm, o Varig agora se dizia proa 170 de Marab, sinal de que voava do
norte para o sul, prova~ ao sul de Belm. Quanto  emisso de rdio, que dizia
receber
de Carajsi simplesmente no era possvel. O radioauxlio daquela localidade s
funcio-nava durante o dia - sara do ar s 19h30.
O capito muniu-se de pacincia e informou ao Varig que Carajs havia encerrado
suas transmisses s 19h30 e portanto a aeronave no poderia estar recebendo o
sinal.
        1        196
p.

RG-254 - A Noite por Testemunha




Por desencargo de conscincia, Belm tentou falar com Carajs por tele-
O operador Vladimir Calado foi o encarregado da tarefa. Primeiro Ca-
i-        chamou o escritrio da Infraero, no aeroporto daquela cidade. Nada.
tm atendia. Depois tentou o PABX da Companhia Vale do Rio Doce.
~        Tentou falar com alguns bancos. Nada. Tudo fechado, como seria de
esperar num domingo  noite.

As informaes do RG-254 eram analisadas com desconfiana pelo
Que diabos estaria acontecendo com o Varig para responder sempre evasivas ou
dando informaes conflitantes e desencontradas? Ser que um seqestrador a
bordo? Fosse
esse o caso, por que o piloto no acio-pelo transponct'er, o cdigo 7.500 de
seqestro (interferncia ilcita)? Cada minuto que passava era um minuto a menos
de
combustvel. Preocu-om isso, Rodrigues determinou a Calado que chamasse Marab e
per-qual era a autonomia do PP-VMK.
Marab respondeu que no sabia a autonomia, mas que o Varig decola-com 7.300
quilos de combustvel. Seria preciso calcular a quanto isso cor-)ndia em termos
de tempo
de vo, clculo que Rodrigues sabia ser apto-
- -        pois a autonomia depende de diversos fatores, inclusive altitude, de
funcionamento das turbinas etc. etc.
        Como, a essa altura, o Varig 254 j deveria ter pousado em Belm havia
~ase duas horas, diversos avies procuravam saber notcias de seu paradeiro.
itre eles, o Varig 266, que antes fizera a ponte de rdio entre o 254 e Belm
agora estava parado no ptio do Val-de-Cans.
s 20h14, o 4XCUT, que orbitava ao redor de Belm (a 43 mil ps de
o que lhe propiciava grande raio de alcance no rdio), voltou a falar
o Varig 254. Este informou que tinha proa de Carajs.
Quatro minutos depois, o 254 chamou Belm. Reportou ao capito igues estar no
nvel 80 (8 mil ps). Tinha proa 160, que confirmou ser Carajs. Disse ter menos
de
meia hora de autonomia.
Na sala HF e no Centro de Controle, ningum entendia nada. A hist-toda parecia
um grande pesadelo. Carajs... Agora o 254 se dizia indo
Carajs, com proa sul. Alm de completamente perdido, o VMK apa-ttemente voava
em crculos.
Como seu pessoal ainda no conseguira contatar a Infraero em Carajs,
apito Rodrigues perguntou ao Varig por que no se dirigia ao aeroporto



197



Caixa-Preta




de origem, Marab. O 254 respondeu que o combustvel no era suficien

para isso.
Belm sabia que seria preciso correr contra o relgio para pr e
funcionamento o Aeroporto de Carajs antes que a autonomia do RG-254
esgotasse.
Diversas aeronaves agora se revezavam conversando com o 254:
4XCUT, sobre Belm, um Vasp que voava de Manaus para Braslia e os V rig 231 e
266, pousados respectivamente em Santarm e no Val-de-Cans. todos o Varig se
disse
com apenas 15 minutos de combustvel. Quinze mm tos. Era s o que tinha.
s 20h30, o tenente-coronel Jos Roberto, chefe do Servio Region de Proteo ao
Vo de Belm, conseguiu falar com a residncia do superin tendente da Infraero
em
Carajs. Solicitou-lhe acionar, por todos os meios seu alcance, o pessoal
necessrio para acender as luzes da pista do aerdrom da localidade.
- Um 737 da Varig, em perigo iminente, est voando para a - di o coronel.
O telefonema detonou uma operao de guerra. Diversas pessoas for
mobilizadas. Finalmente, pouco antes das 21 horas, Belm foi oficialmen
comunicado por Carajs que o aerdromo local j estava com as luzes d
balizamento da pista acesas e em condies de receber o 254.
A informao foi recebida sem grande entusiasmo. Da pista de Santa rm, o
comandante Domingos Svio, do RG-23 1, que acabara de convers com o RG-254,
informara ao
capito Rodrigues que o 254 tinha apenas cin-co minutos de combustvel. Se no
enxergasse Carajs imediatamente, iria tentar um pouso na floresta.
- Eles esto com 54 pessoas a bordo - comentou com o capito um operador da
torre de Santarm.
- Sim, 54 pessoas - concordou Rodrigues, correndo os olhos por seu pessoal, sem
disfarar a emoo. Um pouso forado,  noite, no escuro da~ floresta. Aquelas
54
pessoas no tinham a menor chance, foi o que cada um dos homens pensou, no
silncio que se seguiu.
s 20h48, o 254 informou ao 231 estar a 8.500 ps. Disse tambm
que acabara de enxergar o fogo de duas queimadas e que tentaria pousar
perto delas.



198

Diversas aeronaves tentavam fazer pontes entre o 254 e os centros de
ntrole. Procuravam auxiliar de algum modo. Em Val-de-Cans, na sala HF,
s militares se limitavam a torcer por um milagre de ltima hora. Ningum
onseguia entender como um Boeing 737 pudera ter permanecido por mais
e trs horas - sobre terra firme e comunicando-se o tempo todo - sem
nseguir achar um aeroporto para aterrar.
s 21 horas, esgotada sua autonomia, e no tendo pousado em Carajs,
PP-VMK foi considerado desaparecido. Foi acionado o Servio de Busca e
alvamento da Fora Area.




199
RG-254 - A Noite por Testemunha

Captulo 2




s 9h43 daquele domingo, o PP-VMK decolara, com 23 minui



Ade
atraso, do Aeroporto de Guarulhos, em So Paulo, dando inl(
ao vo RG-254 para Belm, com sete escalas intermedirias.
O vo 254 era um tpico "mata-bicha". Sim. Um "mata-bicha". C esse apelido
(politicamente mais do que incorreto), os tripulantes defini~ vos como aquele,
numa aluso
aos inmeros comissrios gtiys que entra' na aviao buscando o glamour de
Paris, Nova York, Roma etc. e se vam com um pinga-pinga do tipo do RG-254: So
Paulo-Uberaba-U
dia-Goinia-Braslia-Imperatriz-Marab-Belm, maratona essa que o VI~ iria
cumprir antes do pr-do-sol daquele dia de fim de inverno.
Os vos paradores dos domingos costumavam se transformar em mados convescotes.
Crianas brigavam pelos melhores lugares, junto s jan las. Encantavam-se com as
caixinhas
das refeies de bordo. Parentes acena vam das sacadas dos aeroportos.
Naqueles sobe-e-desce, mais caractersticos da poca dos avies a pis to - vos
que a prpria Varig, alguns anos mais tarde, iria satirizar nu comercial de
grande
sucesso na tev -, era comum a aeronave mudar to, talmente de curso, para
cumprir uma escala desalinhada do rumo principal. No caso do 254, o rumo de
ponta a ponta,
So Paulo-Belm, era norte. Mas os rumos dos trechos intermedirios variavam.
Nas trs primeiras eta-.

pas, So Paulo-Uberaba, Uberaba-Uberlndia e Uberlndia-Goinia, voa-,
va-se norte, sem desvios. Entre Goinia e Braslia, guinava-se para nordeste,



200

RQ-234 - A Noite por Testemunha




a etapa mais longa do vo, entre Braslia e Imperatriz, retornava-se ao irso
norte. Mas na penltima etapa, Imperatriz-Marab, o rumo era oes-perpendicular
ao sentido
geral do vo. No trecho final, Marab-Belm, rumo voltava a ser norte, ou quase
norte, mais precisamente 0270, j que )rte exato  0" ou 3600.
No seria de se espantar se, em certos momentos do vo, um dos pilo-s, tendo
cometido um erro de proa, demorasse a perceb-lo. Para que isso lo ocorresse,
era preciso
que o co-piloto no se limitasse a copiar os rumos seridos nos instrumentos pelo
comandante ou vice-versa. Crosscheck era na palavra mgica da aviao, que j
salvara
muitas vidas. Era preciso tam-m fazer os acompanhamentos vertical e lateral da
navegao, para detectar pidamente qualquer engano em tempo de corrigi-lo.
Com suas sete escalas, o 254 era um teste de resistncia para um passa-iro que
se dispusesse a completar todo o percurso, coisa que raramente ontecia, pois
havia
vos diretos de So Paulo para Belm, alm de outros ie paravam apenas em
Braslia.
Naquele domingo, duas tripulaes foram escaladas para o PP-VMK. A imeira, com o
comandante Genaro, cumpriria o vo So Paulo-Braslia; a ~unda, sob o comando de
Czar Garcez, o trecho Braslia-Belm.
Tratava-se o VMK de um Boeing modelo 737-200, especificao 737-~1, adquirido
novo em folha em 1974. Seu nmero de srie era 21.006. Em anos de servios, o
PP-VMK
voara um total de 33.373 horas.
Depois de 54 minutos de vo, o Varig 254 cumpriu a primeira etapa viagem e
pousou em Uberaba s 10h37. Alguns passageiros desembarca-rn e outros subiram no
avio.
Destes ltimos, apenas dois prosseguiriam  Belm.
O nisei Shiko Fukuoka - um mecnico de mquinas pesadas que aca-ra de regressar
de uma temporada no Japo, onde trabalhara como oper-numa empresa de autopeas
-
subiu as escadas do Boeing sobraando na maleta de vinil preto, tipo 007,
contendo, entre outras coisas, 3.600 ,lares que economizara na viagem.
Fukuoka estava louco para chegar em Belm, onde o aguardavam a ulher, Maria
Gracelina, e quatro filhos - dois meninos e duas meninas.
O tambm mecnico Jos de Jesus Manso morava em So Jos do Rio
eto, So Paulo, cidade prxima a Uberaba. Seu nome no constava da tela-



201



Caixa-Preta




o de passageiros. Voava com uma passagem emitida em nome de seu tro, Antnio
Lima, a quem substitua numa viagem de servio a Moi Dourado, Par, a ser
completada
no dia seguinte.
O        Boeing decolou de Uberaba s 10h50 e pousou em Uberlndia 11h23. Nesta
cidade, entrou mais uma leva de passageiros, nenhum d

para Belm. O 254 decolou para Goinia s 11h50.
Em Goinia, onde o Varig pousou s 12h32, embarcou Josete Fonsc acompanhada de
duas noras (Ktia Celina Melazo e Liceia Uliana Melaz trs netos: Giuseppe (trs
anos)
e Bruno (um ano e oito meses), filhos Ktia; Dbora (que faria um ano no dia
seguinte), filha de Liceia. O aniv rio de Dbora seria celebrado com grande
festa em
Belm, onde a famlia arrendatria da Churrascaria Rodeio.
A escala durou 23 minutos. Faltavam cinco minutos para as 13
quando o Varig 254 decolou para Braslia.
O Boeing pousou na capital federal s 13h22. Dos passageiros que embarcaram,
trs iam para Belm: Fidelis Rocco Sarno, advogado em Sal dor, a engenheira
Maria de
Ftima Bezerra Nbrega e o tcnico indust italiano Giovanni Mariani.
Como quase sempre acontecia naqueles sobe-e-desce, a cada etapa
avio atrasava mais um pouco. O embarque em Braslia j se deu com
hora e vinte minutos de atraso.
Alm do comandante Czar Augusto Padula Garcez, 32 anos, a tripi o que ali
assumiu o vo 254 era composta do co-piloto Nilson de Soi. Zille, 29, da chefe
de equipe
Solange Pereira Nunes, paulistana de 25 anos~ das comissrias Flvia Conde
Collares, 22, Jacqueline Klimeck Gouveia-ambas cariocas, e Luciane Morosini de
Melo, 22,
gacha. Os seis voando juntos desde a vspera, quando saram de So Paulo.
Haviam p tado no Hotel Nacional.
Zille iria pilotar o Boeing nas etapas Braslia-Imperatriz e Imperatri2
Marab. No ltimo trecho da viagem, Marab-Belm, Garcez assumiria
controles.
Garcez chegara de frias havia pouco mais de um ms. Logo ao voltar envolvera-se
num pequeno incidente no Aeroporto Internacional Johan Pengel, em Paramaribo, no
Suriname, ao bater com a ponta da asa de seu 73 na escada de um DC-10 da KLM.

202




RG-264 - A Noite por Testemunha

O comandante era gacho de Santa Maria, torcedor do Grmio, soltei-Disfarava o
sotaque falando como carioca. Tratava-se de um aviador por o. Desses que,
quando
menino, dizia aos amigos e  famlia: "Quando crescer, vou ser piloto."
Agora, 32 anos, sonho realizado, morava num bom apartamento na Zona do Rio de
Janeiro. Garcez gostava das coisas boas da vida. Saa com belas
ulheres. Cuidava da sade e no descuidava da silhueta. Cabelo aloirado,
usculoso, sempre bronzeado, era um freqentador assduo da praia.
Sua ficha de piloto computava um total de 6.928 horas de vo, das s 989 em
Boeing 737-200, no sendo portanto muito grande sua experin-a no equipamento.
Mas voava
havia 13 anos. Formara-se no Centro de rmao de Pilotos Militares em 1976.
Possua o brev PLA (Piloto de Li-as Areas) desde 1982. Antes de se tornar
comandante
de Boeing 737-200, ara Boeing 727 e Electra.
A etapa Braslia-Imperatriz transcorreu sem incidentes. Tendo decola-s 14h05, o
PP-VMK - pilotado por Zille, sob o acompanhamento de arcez - pousou na cidade
maranhense
s 14h51.
Entre os passageiros que embarcavam em Imperatriz, os irmos Afonso Regina Clia
Saraiva iam para Belm, onde pegariam outro vo, para Maca-. Afonso, de 19
anos,
iria tentar a sorte no garimpo Loureno, prximo uela cidade, que vinha
atraindo aventureiros e faiscadores de todo o norte e ordeste, onde o marido de
Regina j
estava trabalhando.
Regina levava no colo a filha Ariadne Suelen, de apenas cinco meses.
Estando de mudana, acabavam de despachar volumosa bagagem, con-ndo, entre
outras coisas, utenslios domsticos, um aparelho de televiso e ma caixa de
madeira envernizada,
na qual se encontrava Leti, filhote de ihuahua, de plo marrom-claro liso, que
pesava menos de dois quilos e ertencia a Ariadne. O cachorrinho, explicou o
funcionrio
do balco da arig a Regina Clia, viajaria no poro de bagagens.
Tambm para o Loureno ia Manoel Alencar, um lavrador analfabeto
ue        se tornara garimpeiro e que viajava vestindo uma camisa do Flamengo.
Marcionlio Pinheiro chegara ao Aeroporto de Imperatriz acompanha-io da mulher e
da filha de um ano. Vieram de carro de Aailndia, onde noravam. Marcionlio
pretendera chegar  capital paraense a tempo de ver, ~ela televiso, o jogo
Brasil x
Chile. Mas, como o vo se atrasara, ele j se



203



Caixa-Preta




conformara em perder o primeiro tempo da partida. Despediu-se da mi para que ela
pudesse guiar de volta a Aailndia  luz do dia, e ficou agu dando a chamada
para
o embarque.
Mesmo que perdesse o jogo todo, Marcionlio tinha todos os moi para estar feliz
naquela tarde. No dia seguinte, faria, em Belm, um t~ psicotcnico. Acabara de
ser

promovido na unidade da Petrobras emA dia. Faltava apenas o psicotcnico para
poder assumir nova funo.
Pouco depois das 16 horas, os alto-falantes fizeram a chamada. Os
sageiros se dirigiram ao avio.
Como estava acompanhada da filha Thais, de um ano e seis meses, (
de Paiva, 18 anos, foi uma das pessoas que teve prioridade no embarque.
Hilma de Freitas Lima, 31 anos, fora a Imperatriz visitar a famlia. Mc em Boa
Vista. Era uma guerreira. Me de quatro filhos pequenos, sustentava~ vendendo,
em
Roraima, roupas que comprava em So Paulo. Naquela nc pegaria em Belm um vo
para So Lus do Maranho, onde visitaria os pais.
Em Belm, tambm fariam conexo, s que para Manaus, as irms Clc
nilde e Enilde Meio, maranhenses que residiam em Fortaleza.
O engenheiro Epaminondas Chaves, 36 anos, paraense de Marab, ra de carro de
Araguana - onde a empresa de sua propriedade constri
uma agncia do Banco da Amaznia - para pegar o 254 em Imperatriz.
Tambm embarcaram em Imperatriz as irms Rita e Elza Gasparin, M~ Deita
Cavaicante, o comerciante Antnio Farias, o garimpeiro Newton cedo e Wilson
Alencar, 67,
um prspero comerciante e industrial, em Anpolis, Gois, piloto desde a dcada
de 1940.

Assim que entrou no avio, Odeane Souza, a Da, 19 anos, escolheu poltrona do
lado esquerdo. J sentia saudade do filho Tiago, de um ano, acabara de deixar
com a
me. Ao lado de Da, sentou-se o economista Cark Comes, tambm de Imperatriz,
gerente da Companhia de Cigarros Sou Cruz na cidade. Os dois passaram a
conversar.
Embarcado o ltimo passageiro, as portas foram fechadas. Garcez duziu o Boeing,
pela pista de rolamento, at a interseo com a pista princi~ pai, atravs da
qual
fez o taxiamento para a cabeceira. L chegando, fez a aeronave girar 1800 em
torno de seu prprio eixo e, depois de alinh-la no centro da pista, fez um
sinal a
Zilie, autorizando-o a proceder a decoiagem.



204




RG-254 - A Noite por Testemunha

Minutos depois, o Boeing correu pela faixa de asfalto. s 16h35, as das
descolaram do cho. O 737 decolou para a penltima etapa de sua riga jornada.
Aps a decolagem, o Varig 254 seguiu no rumo oeste para Marab, ando sobre o
leito do Tocantins. Quinze minutos depois, interceptou a nfluncia do Tocantins
com
o Araguaia. Marab no demorou a surgir na ande curva do rio, na ponta sui do
Lago de Tucuru.
O        piloto Wilson gostava de cronometrar o tempo quando voava,
o como passageiro. Tendo marcado a hora de decolagem em Imperatriz, ao
r que o avio iniciava os procedimentos de pouso em Marab conferiu o
onmetro: 25 minutos. Wilson olhou para baixo e viu o Tocantins, que ali
uma guinada abrupta para o norte e segue na direo de Belm, tal como
Varig deveria fazer naquele domingo, aps decolar de Marab.
A paisagem era extremamente familiar ao velho aviador. J voara in-eras vezes
pela regio, pilotando seus prprios avies, o ltimo deles um motor Piper
Seneca.
Embora o vo Imperatriz-Marab tivesse sido tranqilo, a aproximao ri Marab
no foi muito fcil, devido  nvoa seca e  fumaa das queimadas
roas, que prejudicavam a visibilidade. Esticando-se no assento, e mcli-indo o
corpo para a frente, Zille girou o pescoo e observou, pela janela do mandante,
a
pista  sua esquerda, enquanto o Boeing perfazia a perna base. soi se encontrava
baixo, a oeste, vermelho por causa da fumaa.
Na cabine de passageiros, o advogado Rocco deu uma olhada no rel-o. Dezessete
horas.
No Maracan, o rbitro Juan Loustau trocou acenos com os goleiros affarel, do
Brasil, e Rojas, do Chile, para saber se tudo estava ok. S ento dou o apito,
dando
incio ao jogo decisivo.




205




Captulo 3

U
m pouco antes das quatro da tarde, o engenheiro Paulo Altieri,
retor de Meio Ambiente da Secretaria de Sade do Par, desemb cara de um txi e
entrara esbaforido na estao de passageiros
Aeroporto de Marab.
Naqueles primeiros dias de setembro, a vida de Altieri no vinha pautando pela
pontualidade. Fora a Marab participar de um encontro Ibama sobre desmatamento.
Na
ida, perdera o avio de Belm para Marab tendo chegado atrasado ao evento.
Agora, no domingo, assim que chegou aeroporto, descobriu que acabara de perder o
Bandeirante
da Brasil Cent que o levaria de volta a Belm.
Altieri escolhera o vo da Brasil Central - que chegaria a Belm pou depois das
cinco horas - para perder o mnimo possvel do jogo Brasil Chile. Restou-lhe a
opo
de regressar pelo vo 254, por sinal atrasado mali de uma hora. No balco da
Varig, o engenheiro soube que o avio deveri~ chegar de Imperatriz s 17h em
ponto e
decolar para Belm s 17h20, o quc significava que ele iria perder quase que o
jogo todo.
O motivo do atraso de Altieri no fora a reunio de trabalho, que ocor-rera na
vspera, mas uma animada roda de cerveja na praia do Rio Tocantins,
Depois de receber o talo de embarque, Altieri deu um pulo  lanchone-te do
aeroporto. L encontrou, bebendo cerveja, Antnio Jos da Silva, urr mecnico de
Belm
que fora a Marab fazer a manuteno de um helicpter do Ibama e que tambm
regressava no RG-254. Os dois homens, que j~

206




RG-254 - A Noite por Testemunha




iam bebido juntos na praia, passaram a conversar enquanto assistiam ~, que
transmitia do Maracan, onde as duas equipes, perfiladas, ouviam unos nacionais.

O superintendente do Ibama, Jos Maria Gadelha, que presidira a
o da vspera, tambm aguardava a sada do Varig, assim como Roberto ~is de
Albuquerque, um agropecuarista de Imperatriz. Regis viajara para .rab trs dias
antes
para ver a namorada. Agora prosseguiria viagem para m, onde faria uma conexo
para Manaus. Roupas folgadas, e de bom te, disfaravam seus quase 130 quilos.
Era grande a ansiedade no aeroporto. As pessoas se acotovelavam junto poucos
aparelhos de teve.
Futebol no era a grande preocupao de Severina Pereira Leite, uma itadora de
Caruaru, desquitada, me de quatro filhos. Iria pernoitar em Lm e voaria para
casa
na segunda-feira.
Belm era o destino final de diversos passageiros, entre os quais o pro-sor
universitrio Henrique Antunes Neto e dois mdicos: o legista Jos .s Serrano
Brasil
e o oftalmologista Joo Roberto da Silva Matos.
O PP-VMK acabara de pousar. Enquanto conduzia o Boeing para o tio, Garcez pediu
 Rdio Marab liberao do nvel 290 (29 mil ps), para le proceder  etapa
seguinte
e final, do vo. A rdio consultou o Centro :lm, que liberou o 290 sem maiores
indagaes. O operador de Marab Lediatamente passou a informao ao 254.
Quando o 737 parou junto  estao de passageiros, e os motores foram
rtados, o co-piloto Zille desceu para fazer a inspeo externa da aeronave.
Procurando no perder tempo, Garcez consultou o plano de vo e leu o dicativo
0270 correspondente
ao rumo magntico da etapa Marab-Be-rn. Usando o polegar e o indicador da mo
direita, girou o dial situado na ~rte inferior direita do HSI (instrumento
indicador
de situao horizontal) fez mover, ao centro, um ponteiro cuja extremidade tinha
a forma de um tiozinho estilizado.
Enquanto o ponteiro girava, um mostrador no canto superior do instru-Lento,
semelhante a um odmetro de automvel, indicava a marcao exata, prrespondente
 proa
que seria seguida aps a decolagem.
Garcez parou em 270, que lhe pareceu corresponder ao nmero 0270 ~dicado no
plano de vo.



207



Caixa-Preta




O instrumento comportava trs dgitos. No plano de vo, constavam tro. Garcez
ignorou o primeiro dgito (talvez por ser um zero  esquerda) e ju1 que 0270 era
2700.
No se lembrou que, no plano de vo, o ltimo algarisiu direita correspondia a
dcimo de grau; 0270 na verdade significava 27,00.
Esse erro de interpretao iria alterar tragicamente o destino do vo
e de seus ocupantes.
Depois de ajustar a proa, Garcez inseriu no PMS (PerformanceMa~ ment System) a
distncia para Belm: 187 milhas nuticas, corresr 346 quilmetros. Assim que o
avio
decolasse, o PMS iria fornecendo a tncia e o tempo que faltava para o destino.

Trata-se o PMS de um gerenciador de desempenho da aeronave. N um equipamento
burro, limitado. Resume-se a contabilizar a pe~formt vertical do vo e o consumo
de
combustvel. No deve ser usado como ii trumento de navegao.
O        PP-VMK no era equipado de um GPS, instrumento que, por int mdio de
uma rede de satlites, informa ao piloto a cada momento as coor~
nadas geogrficas em que se encontra.
Garcez pretendia executar um vo direto, voando em cruzeiro no nv 290 (29 mil
ps). Seria uma etapa de 48 minutos, com a chegada em Bc antes do pr-do-sol.
Teria
como radioauxlios balizadores Belm (de pro~ Marab (de cauda) e Tucuru (de
travs).
Tratava-se portanto de um vo diurno, curto, em direo ao litoral com cu quase
que de brigadeiro. Um simples feijo-com-arroz. Para fac ainda mais a navegao,
nas proximidades de Belm havia diversos geogrficos proeminentes e facilmente
identificveis, como a Ilha de M~ e o esturio do Amazonas. O tempo era bom ao
longo
da rota at Belm, C( ausncia de formaes. A visibilidade era prejudicada por
uma nvoa seca pela fumaa das queimadas, abundantes naquela poca do ano.
Quando regressou da inspeo externa, Zille, em vez de consultar
prprio plano de vo, ou as cartas de rota, como era de sua obrigao, limitou
se a dar uma olhada no HSI do comandante, onde a proa inserida era 2700.
Zille girou os botes de seu prprio HSI e ajustou a proa para 2700, porque lhe
pareceu normal manter-se quase no mesmo curso da etapa anterior. Nilson Zille s
fizera o trecho Marab-Belm uma vez na vida, na qualidade de estagirio e
acompanhado de um instrutor.



208




s 17h20, os passageiros de Marab embarcaram. Entre eles, Marcus Mutran, 21
anos, estudante de Direito. Era filho de Oswaldo Mu-maior pecuarista de Marab,
e irmo
de Nagib Mutran Neto, prefeito
municpio.
Marinz Coimbra ia para Belm com a filha Bruna, de trs anos. Como

parecia ser uma miniatura da Xuxa (vestia-se exatamente como a estre-as
comissrias bateram palmas e cantaram A turma da Xuxa quando ela
com a mae.
Roberto Regis sentou-se na quinta fila, de trs para a frente, logo atrs
engenheiro Paulo Altieri e do procurador do Incra Antnio Nascimento. tudante
Meire Ponchio,
que tambm embarcou em Marab, escolheu lugar no lado direito da ltima fila.
Completado o embarque, as portas foram fechadas e os pilotos cuidaram
checagens relativas  partida. Um trator procedeu o push back, empurrando
oeing para o centro do ptio. S ento as turbinas foram acionadas.
Ao contrrio do que quase sempre ocorria quela hora do dia em Mara-quando o
vento costumava soprar no sentido oeste-leste, naquele domin-havia apenas uma
brisa
ligeira, soprando do norte. A pista em uso, tam-ao contrrio do habitual, era a
07, correspondente ao rumo 700 (mais
cisamente 680), um pouco  direita da direo de Belm.
Enquanto taxiava para a cabeceira, o 254 foi informado pela Rdio Ma- que a
temperatura externa era de 35 graus e que o altmetro devia ser tado para 1.005
milibares.
A rdio voltou a confirmar ~ nvel 290 (29 mil para o vo at Belm. Eram 17h33,
hora local, 20h33 zulu.
Uma das comissrias entrou na cabine e disse ao comandante que um
sageiro (tratava-se de Paulo Altieri) queria saber do andamento de Brasil x
ile no Maracan.
Garcez mandou Zille perguntar  Rdio Marab, que informou que o
o continuava O x 0. A aeromoa voltou l para trs com a informao.
Ao atingir a cabeceira, Garcez girou a aeronave em torno de seu prprio
o, alinhando a bequilha com a faixa central da pista. Com a mo direita
aberta, levou  frente as manetes. As duas turbinas Pratt & '~XJhitney
ponderam ao comando silvando estridentemente. O Boeing comeou a
ver-se. Logo, as 40 toneladas engoliam vorazmente o asfalto.
Eram 17h35 quando o PP-VMK decolou para o seu ltimo vo.



209




Captulo 4




N
os aeroportos, a numerao das pistas corresponde s suas dire

Se uma cabeceira tem o nmero 03, por exemplo, isso significa um avio dela
decolando, ou nela pousando, tem proa aproxim~
de 300. Se a cabeceira for 18, o rumo ser 1800. E assim por diante. Com Varig
254 decolou da pista 07, saiu no rumo 70~, vale dizer na radial Marab.
Aps a decolagem, o trem foi recolhido. Marab chamou o 254 e
lhe que reportasse assim que atingisse o nvel 180 (18 mil ps).
- Ciente - Zille acusou a recepo.
- Marab - limitou-se a responder o operador do aeroporto, logo em seguida
chamar Belm e informar que o 254 decolara aos 35(20k
zulu, 17h35 local).
O RG-254 seguiu subindo na V2, velocidade que garantiria a diri1 dade do avio
caso ocorresse a perda de um dos motores. Iniciou uma curva de 1580 para a
esquerda,
ao invs da pequena curva (41~) no mes~ sentido, que deveria fazer para tomar a
direo de Belm. Passou pari mente  ponte rodoviria sobre o Rio Itacaiunas
que,
logo abaixo, desguan Tocantins. Segundos depois, cruzou o prprio Tocantins,
que ali faz um comprido e desengonado.
Quando a barra mvel do HSI se posicionou sobre a barra fixa qi
apontava para o rumo 270, o Boeing nivelou automaticamente as asas e s
guiu rumo oeste, mantendo-se em ngulo de subida.

210




RG-254 - A Noite por Testemunha




Em vez de se manter do lado leste do Tocantins, e seguir em direo a elm tendo
o rio  sua esquerda, o Varig 254 voltou a cruz-lo. Afastou-se e seu leito e
voou
para o corao da floresta.
Do cockpit, era possvel ver o Sol escorrendo para o horizonte, bem ente do
nariz (se a proa estivesse correta, o Sol se poria  esquerda do avio).
Se um dos pilotos prestou ateno  posio do Sol, no deve ter estra-hado:
nada mais lgico que, num vo rumo 270~ (oeste), o Sol poente se contre  proa.
Na cabine de passageiros, a chefe de equipe Solange e as comissrias iciaram o
servio de bordo que, naquela etapa, consistia em sanduche de ueijo e pequenos
salgados,
alm de bebidas que serviriam de um carrinho.

O engenheiro Epaminondas Chaves prestava ateno ao vo. Natural de arab, j
voara inmeras vezes entre sua cidade e Belm. Achou estranho o ocantins ter se
afastado
para a direita. Mas no se preocupou muito. O avio oderia estar se desviando de
uma formao de nuvens, ou coisa parecida.
O piloto Wilson Alencar, entretido com um jornal, no prestou ateno o Sol nem
ao rio. Nem mesmo olhou para baixo. S por isso no percebeu ue o avio tomara
rumo
errado (naquela rota, Wilson conhecia os rios, as endas e at os currais).
Depois da decolagem, o italiano Giovanni permaneceu, durante alguns inutos,
contemplando a paisagem desolada a oeste de Marab, na qual se estacavam troncos
de rvores
nus e enegrecidos pelas queimadas. Logo se nsou. Abriu uma revista e passou a
fazer palavras cruzadas.
Com poucos passageiros, e quase nenhuma carga, o Varig 254, leve, nhou altura
rapidamente. Logo cruzava o nvel 140 (14 mil ps), sempre m ngulo de subida.
Os relgios
do painel de instrumentos do cockpit mar-vam 20h41 zulu (correspondentes s
17h41, hora de Marab e Belm). entro de pouco mais de uma hora, o negro da
noite se
sobreporia ao verde a floresta que comeava a surgir abaixo.
Dois mil quilmetros ao sul dali, o jogo de futebol permanecia O x 0. O rasil
atacava e o Chile se defendia, embora os chilenos  que precisassem da itria.
O advogado Fidelis Rocco, embarcado em Braslia, indagou de uma das eromoas o
tempo de durao do vo. Ela respondeu que, mais ou menos, o minutos.



211



Caixa-Preta




O mecnico Jos de Jesus Manso - que, assim como Shiko Fukuc embarcara em
Uberaba e se encontrava a bordo do RG-254 desde as 11 manh - deu uma olhada no
relgio.
Quase seis da tarde. Observou diversos passageiros lamentavam no estarem vendo
o futebol, principalm te um homem que falava alto e parecia bbado.
s 17h43, o RG-254 informou a Marab que cruzara o nvel 180
mil ps) e subia para o FL-250 (25 mil ps). Marab deu ciente e -
mou que o contato com o Centro Belm deveria ser feito em 128.2
gaherts (VHF).
O co-piloto Zille conferia os dados do vo. A distncia entre Mar~ Belm era de
241 milhas nuticas (446 quilmetros). Tendo decolado Marab s 17h35, e sendo
de
48 minutos o tempo previsto da etapa, o VMK deveria tocar o solo do Aeroporto
Val-de-Cans s 18h23. No pen queimaria 2.400 quilos de combustvel. Haveria uma
sobra
de quase toneladas, suficientes para irem at o aeroporto alternativo, Macap, e
voarem mais de uma hora.
As 17h49, atingiram o nvel de cruzeiro. O Boeing foi nivelado. E
os passageiros, s os ouvidos mais atentos perceberam uma ligeira reduo i
rudo das turbinas.
No Rio de Janeiro, terminara o primeiro tempo da partida de futebol

A bordo do Boeing, algumas crianas estavam irrequietas. Giusepp. Melazo, trs
anos, confinado havia mais de cinco horas (embarcara em nia), pulava do colo da
me,
Ktia, para o da av, Josete, do outro lado corredor, sob o olhar indulgente das
comissrias.
Paulo Altieri estava louco para saber do jogo. Aproveitou que uma co-missria
passava e pediu-lhe para perguntar na cabine de comando.
A moa foi at l, fazer a indagao. Os pilotos chamaram Marab, pelo
rdio, souberam que estava no intervalo e que o placar continuava zero a
zero. Em vez de levar a resposta diretamente a Altieri, a aeromoa divulgou a
informao pelo PA (passenger aclresser).
Jos Maria Gadelha conversava com Ruth Tavares, sua funcionria no
Ibama. Embora conhecesse bem a rota Marab-Belm, Gadelha no prestara
ateno  decolagem nem acompanhava a navegao.
No cockpit, o PMS (o tal instrumento burro) mostrava que Belm en-contrava-se a
89 milhas nuticas. Nada mais inexato. O Boeing sobrevoava a



212




RG-254 - A Noite por Testemunha




~'uk a dos Carajs. Prosseguindo em sua rota equivocada, logo adiante inter-as 1
ria o Rio Xingu, que, como o Tocantins, corre no sentido sul-norte.
Vou Se Garcez e Zille estivessem balizando lateralmente a navegao, como ~aJ
crevem as normas de pilotagem, teriam feito naquele momento a verifi-
o da passagem do VOR de Tucuru.
~O O VOR  um equipamento que emite ondas de rdio em todas as direes. i~
instrumento no painel do avio aponta para a direo de onde procede a
misso. Sendo assim, se os pilotos tivessem balizado Tucuru, o sinal teria se
dado  direita (no trecho Marab-Belm o sinal tem de vir da esquerda).
b' Se, em seguida, num processo de crosscheck, tivessem sintonizado o VOR e
Carajs (que sairia do ar dentro de 32 minutos, encerrando sua jornada
~        'ria de trabalho), teriam plotado Carajs a sudeste, e no a sudoeste
(caso
~        rota Marab-Belm).

~' Com esses procedimentos, teriam detectado o engano de proa e - atra-vs de um
exerccio simples de trigonometria, b--b da navegao area -plotado o ponto
exato onde se encontravam.
No fizeram nada disso. Simplesmente continuaram voando para oeste,

direo ao pr-do-sol.
No Rio de Janeiro, teve incio o segundo tempo da partida. Logo aos uatro
minutos, Careca entrou na rea do Chile, deu um corte seco em dois
eiros, tirando-os da jogada, e chutou para o gol. O goleiro Rojas ainda endeu
parcialmente. Mas a bola escapou de suas mos e foi morrer mansa-ente na rede.
Gol
do Brasil. Um a zero.
-        Em etapas curtas, como Marab-Belm, o tempo de vo em altitude (e
'tude) de cruzeiro  muito pequeno. J havia alguns minutos que o 254
curava entrar em contato com Belm, atravs de VHF, para pedir autori-o para a
descida. Mas como se encontrava a grande distncia (e se afastava a vez mais,
para
oeste), os pilotos, por mais que tentassem, no consegui-
falar com o Centro. Foram socorridos por outra aeronave da empresa,
-        e cumpria o vo RG-266 e tambm se dirigia ao Val-de-Cans. O 266
terceptou a mensagem e fez a intermediao entre o VMK e Belm.
Aproveitando-se da ponte, o 254 solicitou autorizao para descer para nvel
200.
- Positivo - respondeu Belm ao 266. - O dois cinco quatro esta torizado para
200. Pede para ele continuar tentando um contato em VHF.



213



Caixa-Preta




Se fosse dotado de um radar de aproximao, o Centro teria pera
que o RG-254 no se encontrava na rea. Mas Belm no dispunha dc
equipamento.
Mesmo sem contato por VHF, Garcez no desconfiou do erro de r~
Prosseguiu estimando sua posio to-somente pelas indicaes decrescc
do PMS.
Passados alguns minutos, o RG-254 voltou a tentar contatar Belm VHF, nas
freqncias 128.2 e 125.2, sem sucesso. Precisou usar no o RG-266 para informar
a Belm
que atingira o nvel 200 (20 mil ps), voava no rumo 270, na radial 90 da
cidade, e para pedir instrues.
O Centro de Controle limitou-se a instruir o Varig 254 a proceder a tt curva
para a esquerda, a fim de interceptar a radial 240 do VOR de tentar um contato
em HF.
O Centro no se deu conta de que se o 254 estives5 simultaneamente, com proa 270
e na radial 90 da cidade, estaria vindo do ext mo norte do Maranho e do Oceano
Atlntico, e no de Marab. O piloto RG-266, que conduzia a ponte, tambm no
notou o absurdo da informao.
Mesmo sem descobrir que o erro de origem era seu (de proa errad~
Garcez notou a discrepncia. Indagou de Belm como poderia, estando
rumo 270, e na radial 90 de Belm, interceptar a radial 240 da cidade.
Nesse instante, o RG-266, que se encontrava nos procedimentos
de descida, perdeu contato com o RG-254 e no pde transmitir a

ao Centro.
Garcez mandou Zille chamar Belm em HF, na freqncia 8.855 quilo.
hertz.
-        Continuo sem contato - informou o 254 a Belm. - Devo com algum
problema no sistema de rdio. Solicito permisso para prosseguir
na descida.
Belm nada perguntou sobre a pane.
- Desa para o nvel 40 - limitou-se a instruir. - Ajuste altmetro para 1.007
milibares. Prossiga visual para pouso, sem restries, desde que
aviste a cidade.
- Mas eu estou sem contato com o Centro, com a Aproximao e com a Torre.
Belm no deve ter ficado muito impressionado, pois limitou-se a
responder:



214
1-




RQ-264 - A Noite por Testemunha




- Avistando a pista, voc  o nico trfego conhecido. Pode prosseguir a pouso.

Eram 18h20.
Pelo tempo de vo, Garcez deveria ter se dado conta de que Belm tinha estar na
sua cara. E, como isso no acontecia, reavaliado a navegao. Mas ricluiu que o
avio
poderia estar com algum tipo de pane no poro eletro-trnico, localizado sob a
cabine de comando, e que essa pane seria a causa-ra da falha de comunicao.
Optou
por prosseguir no vo de descida, man-~do a proa 270.
Tendo percebido que o avio comeara a descer, Paulo Altieri achou .e daria para
assistir, do aeroporto, aos 15 minutos finais de Brasil x Chile. cou olhando
pela
janela, ansioso, procurando a Baa de Guajar e a cidade. as viu, logo adiante,
apenas um rio de guas escuras, cheio de praias, dife-rue dos rios barrentos do
esturio
do Amazonas.
No Maracan, uma torcedora de Niteri, de nome Rosemary Barcelo Silva, disparara
um foguete da arquibancada. O Boeing acabara de com-etar os 48 minutos estimados

para o total da viagem. Uma bola de fogo biu das arquibancadas do estdio e caiu
na rea do Chile. O Varig 254 uzara perpendicularmente o Rio Xingu.
Na cabine de passageiros, as comissrias haviam recolhido as bandejas lanche. Em
vez de se dirigir ao seu lugar na parte traseira da aeronave, e ali ;uardar o
pouso,
Jacqueline decidiu dar um pulo  cabine de comando para mar um cigarro. Garcez
no se importava com isso. Mas ela no quis ir zinha. Foi at a colega Luciane,
sentada
l na frente, e disse-lhe:
- Estou morrendo de vontade de fumar. Vou l na cabine com o Gar-~z. Voc vai
comigo?
- T. Ento vamos - Luciane pegou uma laranja (o lanche reservado tripulao,
naquela etapa, consistia unicamente em frutas) para chupar l na ente.
J no cockpit, enquanto descascava a laranja com uma faquinha, Luciane ercebeu
que havia algo de anormal.

- Eu no estou avistando Belm - Garcez informava pelo rdio.
J acqueline sentara-se no jump seat, fumando. Luciane, de p, escorava-na porta
do cockpite olhava para fora. Tambm no via nada. Ou, melhor, ia apenas uns
quadradinhos
de plantaes, num terreno alagado, parecendo rrozais. Ela abaixou-se ao ouvido
de Jacqueline e soprou-lhe:

215



Caixa-Preta




- No est com cara de Belm. Isso no tem nada a ver com
As duas passaram a examinar a paisagem. No havia cidade. No' nada. Apenas as
tais plantaes, cercadas de matas. E o avio estava ir baixo, no que parecia
ser
um procedimento de descida. De repente, Lucia sentiu-se uma intrusa, ali no
cockpit, num momento em que o comandar parecia estar em dificuldades.
- Puxa, eu acho melhor a gente sair daqui - disse a Jacqueline. No tem nada a
ver a gente aqui, n?
J acqueline concordou, apagou o cigarro. As duas saram.
- Ser que est acontecendo alguma coisa? - Jacqueline preocupava.
- Sei l - Luciane pensou um pouco. - Sei l - repetiu. - 1' No deve ser nada.
Daqui a pouco eles acham - optou por tranqilizar

outra. - Sei l. De repente, desviou um pouco da rota.
- Engraado, estou achando a paisagem diferente - l atrs, o rintendente
Gadelha, do Ibama, comentava com Ruth Tavares, ei procurava Belm pela janela.
Ruth, que
at ento nada notara de entretida na conversa com o chefe, comeou a ficar
nervosa.
Na ltima fila, o engenheiro Epaminondas mudara da poltrona do C( redor para a
da janela. Passara a perscrutar o terreno abaixo. Estava cada mais intrigado.
Depois
da decolagem, notara o Rio Tocantins do lado err~ do. Mais tarde, percebera que
o Sol no se punha  esquerda, como seria caso numa rota sul-norte. E agora nada
havia embaixo que indicasse estarei nas proximidades de Belm. E,
surpreendentemente, o avio se preparas para pousar. "Pousar aonde?", perguntou-
se Epaminondas.

Diversos outros passageiros estranhavam o fato de que, embora aparen.
temente estivessem pousando, no se via Belm. Nenhum sinal da cidade,
baa, do deita. Nem das cidades prximas. Nada.
Da - que batia animado papo com Carlos Comes desde a decolag
em Imperatriz teve a ateno despertada pela conversa entre um ho
uma mulher, perto deles.
Tratava-se de Marinz Coimbra, que dividia um conjunto de trs assen-tos com a
filha Bruna - naquele momento dormindo - e o oftalmologista
Joo Roberto Matos.
Embora fosse catlica, Marinz rezava de acordo com as orientaes de

um guru. E os adeptos desse mestre tinham de orar, em horrios especficos,



216




RCi-254 - A Noite por Testemunha




)ltados para cada um dos pontos cardeais. Por isso ela levava sempre consigo rna
bssola de mo.
Quando procurou o norte, para dar incio s oraes, Marinz viu que ;tava  sua
direita. No desconfiou de nada. Em seguida, ao rezar para o ste, precisou ficar
de joelhos sobre o assento e virar-se para a cauda do Boeing. ~epois rezou para
o sul, que se encontrava  sua esquerda. S quando foi zar para oeste  que
descobriu
que alguma coisa estava errada. O oeste en-~ntrava-se exatamente na proa do
avio. "Como poderiam estar voando para este" - ela se indagou -, "se iam de
Marab para
Belm?" Mostrou a ssola ao mdico.

Matos examinou a bssola, prendeu-a entre o polegar e o indicador da io direita
e moveu-a horizontalmente para um lado e para o outro. Como, o sarem de Marab,
ele j tinha achado esquisito o rumo tomado, concluiu ue Marinz tinha razo. O
avio no s decolara em direo ao oeste como .rosseguia naquele rumo.
Macaco velho na rota, que percorria todas as semanas, Matos espichou-e por sobre
Marinz e Bruna e olhou para baixo, pela janela. A paisagem era Dtalmente
desconhecida.

No viu Belm, nem a baa. No viu o Rio Tocan-~ns, nem a linha de transmisso
Tucuru-Belm, da Eletronorte, que de-'criam estar do lado esquerdo da aeronave.
Muito
menos viu a rodovia PA-50, estrada pavimentada que une Marab a Belm, quase em
linha reta, kando portanto na vertical da rota de vo. Lembrou-se do Sol, que
teria
de star se pondo  esquerda. Nada.
Espichou-se mais ainda, torceu o pescoo e tentou ver a paisagem rente do
avio. Pde notar, no avermelhado da linha do horizonte, o Sol omeando a se pr
no prolongamento
da proa. Tudo confirmando que voa-'am para oeste.
Matos ficou imaginando se no seria um problema de trfego areo, que cria
obrigado o avio a fazer uma grande volta para chegar a Belm. Era uma iiptese
no muito
provvel. Mas tambm no era provvel um comandante ~rrar a rota, muito menos
num trecho to simples como Marab-Belm. Ain-la mais  luz do dia e com tempo
bom.
Voltou a olhar para baixo e viu um .j~. Sentiu-se altamente desconfortvel ao
ver que era um rio diferente da-lueles prximos a Belm. Concluiu que precisava
falar
com uma das aeromo-as a respeito de tantas coisas estranhas.

217



Caixa-Preta




Depois de sair do cockpit, as comissrias Jacqueline e Luciane havi
dirigido  galley traseira, onde Flvia aguardava o pouso.
Flvia - que, tal como Luciane, tinha pouqussimo tempo de vo
passara por trs situaes de emergncia, todas em Electras da Ponte A Rio-So
Paulo. Duas haviam sido causadas por turbulncias (numa delas, passageiro se
machucara
ao bater com a cabea no teto). Na terceira, os tos ficaram sem saber se o trem
de pouso descera ou no, pois as luzes mdi tivas no se acenderam. Felizmente, a
pane era das luzes e no do trem. D do a esses incidentes desagradveis e
sucessivos, Flvia se considerava u comissria azarada. Ao ouvir que o avio no
conseguia
avistar Belm, para Luciane:
- Eu sabia. Eu sabia que um dia isso iria acontecer comigo. Tu acontece comigo.
Embora Jacqueline e Flvia, quela altura, estivessem seriamente pr cupadas,
Luciane se mantinha tranqila, robotizada pelo treinamento rece te. Em nenhum
momento
seus instrutores haviam mencionado a possibili de de um avio perder-se em rota.
Atingida a hora estimada para a aterragem em Belm, uma sensao
grande desconforto se apoderara de boa parte dos passageiros. A inquieta~
era geral.
Roberto Regis percebera que havia algo errado. Ao olhar para baixo, vi
um nico rio. J viajara inmeras vezes a Belm. Sabia que nos arredores fi
cidade era s gua. gua por todos os lados.
Tendo observado que o avio descera bastante, a engenheira Maria d Ftima
estranhou no ver a Baa de Guajar. O mesmo ocorria com Licei Melazo, que podia
ver que

o lugar onde o avio se encontrava nada tinha ver com Belm. O garimpeiro Jos
Comes da Silva tambm achava esquis to estar vendo apenas mata, com o avio
aproximando-se
cada vez mais d terra.
Nem s os passageiros olhavam para fora. No cockpit, o comandan examinava,
intrigado, o solo  esquerda e  frente da aeronave, para ver enxergava Belm.
Do lugar
onde presumia que se encontrava, no tinha con no ver a cidade. O Sol comeava
a se pr. As primeiras luzes j deviam est acesas, refletindo-se nas guas da
baa.
Nada. Garcez olhou para o outro lad atravs da janela do co-piloto. Nada.



218
r'.
1




RQ-254 - A Noite por Testemunha




Desconcertado, ajustou o radar meteorolgico na funo "mapeamen-e tentou
localizar-se em relao ao terreno -  frente de Belm havia .versos acidentes
geogrficos
relevantes (Ilha do Maraj, Rio Amazonas etc.), cilmente detectveis pelo
instrumento. No viu nada disso na tela. Entre-.nto, ao invs de concluir que
estava no
local errado, julgou que as imagens ;tavam sendo mascaradas por algum tipo de
interferncia.
Depois que o PP-VMK atingiu o ponto que seria o de destino, confor-ie
programao feita em Marab, o PMS comeou a apresentar indicadores egativos de
distncia e
de tempo. Garcez ainda se manteve no rumo 2700 or alguns minutos, na direo do
que pensava ser o Oceano Atlntico, pro-rngamento natural da rota Marab-Belm.
Se
encontrasse a linha do litoral, ~ria fcil achar a cidade.
Mas, como voavam para oeste, evidentemente nada disso aconteceu.
Frustrado pelo novo infortnio (o PMS j acusava 30 milhas nuticas egativas e o
litoral no surgia), Garcez executou uma curva de 1800 e tomou rumo inverso:
900.

Restava-lhe achar Belm visualmente, ou sintonizar al-uma rdio comercial que
facilitasse a localizao. No se deu conta do ab-urdo do novo rumo, oeste-
leste. No
deu conhecimento da situao, e mui-o menos de suas dvidas, ao Centro Belm,
nem  Coordenao Varig, coi-as que podia fazer pelo HF. Continuou sem marcaes
dos
auxlios de
Lionavegao. Completou a descida para o nvel 40 (4 mil ps), do qual seria
nais fcil observar detalhes do solo abaixo, aproveitando o resto da luz do lia.
Reduziu
a velocidade para 200 ns (370km/h).
Obediente aos comandos, o jato voava docilmente de volta ao Rio Xin-~u, que
sobrevoara minutos antes, tendo agora o Sol na popa.  frente do ~ariz do
Boeing, na
linha do horizonte, era possvel ver o sombreado da noi-~, que no demoraria a
fechar-se sobre a imensido da floresta.




219




Captulo 5




O
 engenheiro Epaminondas Chaves tentava afugentar o medo lheando uma revista. Mas
no conseguiu concentrar-se na leitu
Temia que alguma coisa anormal, estranha, muito estranha,
vesse acontecendo. Suas preocupaes foram interrompidas por uma
~        e
(Maria de Ftima Nbrega) que, de um assento um pouco mais a
virou-se para ele e perguntou:
-        J no passou da hora da gente pousar?
-        E, acho que sim. Vou ver se descubro o que est acontecendo.
A comissria Luciane passava pelo corredor, voltando da galley traseir~
Epaminondas no perdeu tempo com rodeios.

-        Este avio est rodando sem direo - afirmou, categrico. - Esi regio
aqui embaixo no  a de Belm. Alm disso, eu conheo bem esta rot
O Rio Tocantins teria de estar do lado esquerdo. E melhor voc avisar o pilot~
Luciane desnorteou-se com as palavras do passageiro.
-        Desculpe, senhor - respondeu -, mas o comandante sabe o est fazendo.
Se Garcez sabia ou no o que estava fazendo, era algo que a prpria Luciane j
vinha se questionando desde que sara do cockpit. Mas simples-mente no podia
compartilhar
seus temores com um passageiro. Foi atrs da chefe de equipe Solange, para
informar-lhe do ocorrido.
Coincidentemente, Solange acabara de ser alertada, pelo mdico Joc
Roberto Matos, de que o avio voava num rumo errado. A chefe de equipE

220




RG-254 - A Noite por Testemunha




o pensou duas vezes. Decidiu informar-se com o comandante. Foi inter-ptada no
caminho por um terceiro passageiro, o legista Jos Lus Serrano rasil, que
gesticulou
nervosamente cobrando explicaes. Ela prometeu es-arecer o assunto.
No cockpit, o comandante Garcez suspeitava de uma pane nos instru-entos de
navegao. Mas, mesmo que fosse uma pessoa extremamente fran-,sabia que no
podia chegar
para os passageiros e dizer-lhes:
- Infelizmente, estamos com um problema aqui na frente. Nos perde-os e no
estamos conseguindo achar Belm. - Poderia haver pnico.
Entretanto, tinha de dar algum tipo de explicao. Estava justamente ensando em
algo lgico para dizer, quando Solange entrou na cabine, inda-ndo sobre o
atraso.
- As pessoas esto querendo saber o que est acontecendo infor-ou a chefe de
equipe. - O que  que a gente deve dizer?
-        Espera um pouco. Espera um pouco - ele respondeu, no conse-indo
disfarar o nervosismo.
- Mas eles esto dizendo que a gente j devia ter pousado. Esto per-ntando por
que  que a gente no pousa - insistiu Solange.
- Perdemos contato pelo rdio com Belm - disse Garcez.

-        Digo isso aos passageiros?
-        No, no. Deixe-me pensar. No. Pode deixar que eu mesmo falo m eles.
Garcez acionou o microfone. Na falta de uma desculpa melhor, infor-ou pelo PA
que o Aeroporto Val-de-Cans estava com falta de energia. Disse ue iria sobrevoar
a
rea de Belm at a situao se normalizar. No se esque-u de dizer que tinham
ainda mais de duas horas de autonomia.
Como o Boeing levava apenas 48 passageiros, muitos, ao ouvir o comu-icado do
piloto, deslocaram-se para poltronas vazias, junto s janelas. Vi-m, no lusco-
fusco
da noite que se aproximava, a mancha de um rio, bastan-largo, bem  frente, na
perpendicular da rota do avio.
Regina Saraiva mostrou ao irmo Afonso que o rio, cheio de ilhas, era uito
diferente do Tocantins.
O        engenheiro Paulo Altieri tambm sabia que estavam muito longe da ~dade.
Mas no imaginou que pudessem estar perdidos. Um Boeing de car-ira, pensou, no
se perde como um teco-teco. Altieri olhou as horas e con-221



Onhca-Preta




cluiu, desolado, que o futebol j era. Chamou uma comissria e pediu ia
segunda dose de usque.
Marcionlio Pinheiro encostou a testa na janela, para que sua viso fosse
ofuscada pelo reflexo das luzes da cabine no vidro, e notou que o tinha
cachoeiras. Mesmo
acreditando que se encontravam perdidos, a i mao, passada pelo comandante, de
que tinham mais de duas horas de au nomia, o tranqilizara. Na pior das
hipteses,
pousariam em outro iu Ou, quem sabe, regressariam a Marab.
quela altura, todos se preocupavam. O garimpeiro Newton Co esquadrinhava o solo
abaixo. As irms Enilde e Cleonilde no tiravam olhos de seus relgios. Chamaram
uma comissria e a interpelaram. LJ ram que, se o pouso atrasasse muito,
perderiam sua conexo para
Tendo recebido seu usque, Paulo Aitieri optou por no beb-lo. que seria
prudente manter-se alerta. Limitou-se a inclinar ligeiramente o cop encostar os
lbios
em sua borda, sentindo levemente o amargoso gelado bebida.
As aeromoas continuavam sendo pressionadas por uma saraivada
perguntas:
- Por que o avio no pousou? Por que no estamos perto de Beln
Na falta de melhor opo, respondiam com evasivas:
- O comandante informou que est faltando energia. O comandante se... O
comandante sabe... Logo pousaremos.., a autonomia.., etc. etc. etc.
- Eu no acredito numa palavra do que elas esto dizendo - o ecorn mista Carlos
Comes cutucou o brao de sua vizinha de poltrona, Da..
Belm  um aeroporto internacional. Deve ter um gerador.
Wilson Alencar tambm percebeu que a histria da falta de energia e conversa
fiada. L embaixo, s havia floresta e um rio. Apertou o boto chamada das
comissrias.
Foi atendido por Solange. Explicou que era pilot que conhecia bem a regio de
Belm, e que no havia a menor hiptese estarem prximos  cidade.
No cockpit, os pilotos continuavam tentando se localizar, perscrutando o terreno
como se estivessem num avio do tempo do ona. Olhavam para baixo e para os
lados,

at onde os olhos alcanavam. A nvoa seca dificultava. lhes a observao. Mas,
como voavam baixo, puderam ver um grande rio meia-luz do crepsculo.



222




RG-254 - A Noite por Testemunha




o PP-VMK, agora voando oeste-leste, interceptara novamente o Rio Xin-num trecho
onde existem belssimas cachoeiras, a oeste da Serra dos Caraj s,
50 quilmetros a oeste de Marab e 640 quilmetros a sudoeste de Belm.
Apesar da distncia em que se encontravam da rota, se os pilotos tives-m
detectado naquele instante o erro inicial, poderiam - recapitulando os mos
tomados at ento
- ter se localizado geograficamente e retornado a arab, ou at mesmo tomado um
atalho nordeste e triangulado para Be-m. Havia combustvel para qualquer dessas
alternativas.
Mas Garcez procurava localizar-se pela geografia do terreno. Passou a
ar o rio como referncia, ora acompanhando seu curso, ora cruzando-o na
erpendicular. Cotejou o traado de seu leito com alguns mapas que havia no
ockpt. Infelizmente, no o identificou como sendo o Xingu, convicto estava
e que se encontrava nas imediaes de Belm. Para piorar as coisas, a noite
e fechava sobre a floresta.
Procurando no se deixar levar pelo desnimo, Garcez pediu a Belm, or HF, a
freqncia das estaes de broaclcasting da cidade. Belm fome-eu-lhes duas
freqncias:
1.330 kHz, Rdio Liberal, e 1.270 kHz, Rdio uajar.
Garcez sintonizou ambas as freqncias, sem maiores dificuldades. E,
o logo o fez, girou o nariz do avio para a esquerda, apontando-o na direo
'ndicada pelo ponteiro do radiogonimetro (instrumento que indica de onde
rocedem sinais de rdio captados).
A proa passou a ser de 2000, que parecia coincidir com o curso do rio baixo.
Garcez concluiu que Belm s podia estar  sua frente, na desemboca-ura do rio,
to
convicto estava de que j passara da cidade - e sabendo que epois tomara rumo
inverso. Comeou a subir o Xingu (sem saber que estava ubindo e, muito menos,
que se

tratava do Xingu), voando rumo sul, afastan-o-se cada vez mais de seu destino.
Uma das rdios captadas transmitia a partida Brasil x Chile, interrompida uando
a bola de fogo lanada pelo foguete da torcedora Rosemary caiu perto do oleiro
chileno
Rojas que, mais do que depressa, jogou-se no gramado, encenan-o ter sido
atingido pelo disparo. A outra rdio transmitia uma missa dominical.
Uma lei, existente havia mais de 50 anos, obrigava as rdios a fornece-rem seus
nomes e prefixos, assim como suas localizaes, com intervalos de,
no mximo, dez minutos. Fora criada justamente para orientar os avioes.



223
2



Caixa-Preta




Jorge Veiga, um lendrio locutor da Rdio Nacional nos anos 40 e
inventara um bordo que se tornou famoso:
- Al, al, aviadores do Brasil. Aqui fala Jorge Veiga, Rdio Nacio do Rio de
Janeiro.
Naqueles tempos de avies a pisto, os pilotos se valiam muito desse sistet de
orientao. Algum que voasse para Vitria, por exemplo, precisava aper
sintonizar
uma rdio daquela cidade e acompanhar a indicao do ponteiro, p~ navegar com
segurana at l. Da a obrigatoriedade de as rdios se identificare
Mas, naquele domingo, as rdios sintonizadas pelo Varig 254 no. fizeram.
Excitado com o drama que se desenrolava no gramado do Marac~
-        quando o goleiro Rojas deu tintas  sua pantomima cortando o prp
superclio, fazendo jorrar sangue -, o locutor que narrava os incidentes jogo
simplesmente
se esqueceu. A outra rdio, que transmitia a missa, no fez para no profanar o
ato religioso.
Para desgraa dos ocupantes do RG-2 54, as emissoras no eram de
lm. A recepo em 1.270 kHz era da Rdio Brasil Central de Goinia,
freqncia da Rdio Guajar de Belm. E a outra era da rdio Clube Goinia,
1.329 kHz, quase a mesma freqncia da rdio Liberal de BeL~ (1.330 kHz).
Condies peculiares
de propagao de ondas eletromagnt cas, especialmente ativas naquele dia,
faziam com que o PP-VMK captasse sinal de Goinia (1.300 quilmetros a sudeste)
mas no
o de Belm quilmetros a nordeste).
Num determinado momento, em que a porta do cockpit foi aberta p uma das
comissrias, alguns passageiros ouviram a voz tpica de locutor futebol e
concluram que,
por estarem ouvindo o jogo do Brasil, os piloto haviam se distrado e perdido a
rota.
Garcez se decepcionou ao constatar que as emissoras no forneciam se nomes e
prefixos, como era de costume. Mesmo assim, e na falta de alterna tiva melhor,
optou
por manter-se no rumo indicado pela agulha do radiogo-nimetro, acreditando que
as rdios s podiam ser mesmo de Belm.
s 18h55, transcorrida uma hora e 20 minutos de vo, o RG-254 infor-mou por HF
ao Centro Belm que se encontrava no nvel 40 (4 mil ps) &
tinha proa de 2050.

- Consigo sintonizar a Rdio Liberal e a Rdio Guajar, mas no con-sigo falar
em VHF - completou o piloto.

224
Ii




RG-254 - A Noite por Testemunha




Como o alcance da rdio VHF de Belm era de 300 quilmetros, tudo ia crer que o
254 encontrava-se no mnimo a essa distncia do Aeroporto 1-de-Cans. J as
rdios
comerciais e transmisses em HF podiam ser capta-num raio de milhares de
quilmetros.
Mas, tal como Garcez e seu co-piloto, o Centro Belm tambm no foi az de
enxergar o bvio ululante, ou seja, que o 254 no podia estar por rto.
Como o 254 j estava atrasado mais de meia hora, s 19h a Coordena-) Varig o
chamou pelo SELCAL. Sem que se possa saber por qu, Garcez ;pondeu estimando seu
pouso
em Belm dentro de cinco minutos.
No espao da ltima meia hora, o 254 voara para leste (rumo 900), pois para o
sul (rumo 1650), mais tarde para oeste (2700) e novamente para ~ul (entre 2100 e
1650).

A maioria dos passageiros achava que o avio voava em crculos. Liceia elazo
vira o rio surgir  frente, depois de um lado, mais tarde do outro. O ,r-do-sol
tambm.
Mas achou que o piloto estava apenas aguardando o stabelecimento das luzes do
aeroporto. Jos Maria Gadelha e o doutor Joo berto Matos tambm notavam que o
avio
fazia curvas o tempo todo, as as raramente niveladas.
Consciente de que os passageiros estavam assustados, Garcez, ao tentar
anqiliz-los, assustou-os ainda mais ao dar uma nova verso para o no-)USO.
Disse pelo PA
que os instrumentos de orientao do avio estavam em me, mas que sintonizara a
Rdio Liberal de Belm - informao esta que, m de errada, nada de positivo
significava
para um leigo.

Algumas pessoas haviam se levantado de seus assentos e, de p no corre-or,
discutiam a situao. O clima tornava-se cada vez mais tenso, pesado. [m cheiro
azedo
de medo pairava no ar abafado. quela altura, o Varig 254 deveria estar
estacionado no ptio do Aeroporto Val-de-Cans. Entretanto, oava mansamente (na
estpida submisso
das mquinas) rumo  distante ~oinia, por onde passara no incio da tarde.
Garcez continuava tentando safar-se sozinho do imbrglio em que se ~ietera.
Continuou a falar com Belm como se nada de mais srio estivesse ~ontecendo.
- Mantenho nvel 40 (4 mil ps), tenho combustvel para uma hora e 0- informou.
- Quais so as condies meteorolgicas de Belm? Con-225



Caixa-Preta




tinuo no vendo a pista - disse-o como se no avistasse apenas a pista e
a cidade inteira, como era o caso.
Tal como se estivesse falando com um avio j na aproximao, B. informou
singelamente que o vento era de 1200, com cinco ns, e a vi dade, acima de 10km.
Disse
que havia trs cmulos a 2 mil ps e trs cmulos a 10 mil ps. A temperatura
era de 28 graus e o ponto de orvalho
O 254 acusou o recebimento da mensagem e disse que voltaria a m contato to logo
avistasse o aerdromo.
- J est recebendo a marcao de radioauxlio? - perguntou Bei
- Negativo - respondeu Garcez. - Recebemos apenas radiodifu ras locais (na
verdade, as de Goinia).
Eram 19h06.
Apesar do no-recebimento das marcaes, no ocorreu a Garcez ir ps um nvel
mais alto, a fim de ter mais ngulo de recepo dos radioat Nem ocorreu a Belm
questionar
o RG-254 sobre seus procedimentos, mnimo estranhos.
As comunicaes entre o avio e a terra pareciam uma conversa de si
dos. Belm agia e falava como se o Varg realmente estivesse chegando e
Varig respondia como se a cidade se encontrasse escancarada  sua frente.
- Dois cinco quatro autorizado a descer para o nvel 20 - diss surdo de baixo,
referindo-se a 2 mil ps, uma altitude praticamente de de pista. E continuou: -
Ajuste
do altmetro, 1.007. Temperatura do ar, graus. Vento agora  de 50 (graus) com
12 ns. Pista em uso  a zero me Pode prosseguir quando tiver o visual da pista,
sem
restrio.
- Positivo. Dois cinco quatro - confirmou o surdo de cima. Cor mou, mas preferiu
continuar no nvel 40. Garcez j tinha certeza de es~ perdido. No tinha como
no
ter. Mas preferiu no discutir o assunto, mesmo com Zille. Limitava-se a dar-lhe
ordens.
Garcez poderia ter feito, com o co-piloto, um minucioso crosscheck
a

procedimentos adotados desde a decolagem de Marab ou usado o rdio par~
declarar formalmente uma emergncia. Neste caso, acionaria imediatamente alm
dos servios

de apoio de terra, outras aeronaves. Poderia tambm te chamado a Coordenao
Varig e dizer-lhes que estava perdido, caso em qu poria toda a estrutura da
empresa
 sua disposio para ajud-lo a se localizai
Estando do lado de fora do problema, e no sob presso como os piloto
do RG-254, outros aviadores e especialistas teriam aconselhado Garcez a subii

226




Rcl-254 - A Noite por Testemunha




Se os rgos de terra estavam intrigados, e os pilotos do 254, atnitos, dos
tssageiros o mnimo que se pode dizer  que comeavam a entrar em pnico.
Mas nem todos.
Roberto Regis achava apenas que havia algum imprevisto desimportan-atrasando a
chegada. Afinal, avies como aquele voavam com pilotos ex-:rimentados. O
comerciante
Antnio Farias supunha que os pilotos sabiam ~ue estavam fazendo, tal como
acabara de dizer uma das aeromoas. Marcio-lio Pinheiro, apenas desconfiado,
olhava para
o seu relgio, tentando se Dbrar da hora da decolagem para poder marcar o tempo
de vo.
Na turma dos pessimistas, o engenheiro Epaminondas dizia para quem iisesse
ouvir:

- Bem que eu vi que o rumo no estava certo. Perto de Belm, os rios .o tm
praia.
O piloto Wilson olhava preocupado para a noite l fora. O rio desapare-ra na
escurido. Surgiam agora, muito de vez em quando, luzes esmaecidas Lmareladas,
indicando
fazendas ou pequenas povoaes. Nenhuma cidade.
L na frente, Garcez continuava "ciscando". Fez uma curva para a direita,
.tra para a esquerda. Tomou a proa 195. Apesar de noite fechada, ao longe,
horizonte,  sua direita, uma estreita faixa alaranjada mostrava os ltimos
~tgios do dia, a oeste. Nas demais direes, o escuro da mata se amalgamara
m o escuro do cu. Abaixo, o mximo que o comandante conseguia ver agora
i uma queimada aqui, outra acol, e uma outra mais adia fite.
O manto da noite se abatera sobre o belssimo Xingu, cujas praias e :hoeiras
encontravam-se agora escamoteadas pela escurido.

J que no podia oferecer uma justificativa convincente aos passageiros, ndo-
lhes conta dos motivos do atraso, era preciso, ao menos, entret-los. ~rcez
mandou que
as aeromoas servissem um lanche adicional e nova ro-da de bebidas. Liberou
tambm os cigarros, j que o tempo de vo ultra-ssara uma hora (em 1989, era
proibido
fumar apenas nos vos com menos uma hora de durao).
A comissria Luciane achou tima a idia do lanche, o que lhe permitiu Lnter-se
ocupada, sem ter de dar explicaes o tempo todo. Servia rpido e o parava para
escutar
as perguntas.
O segundo lanche no fez muito sucesso, quase ningum o quis. O mesmo se pode
dizer do carrinho de bebidas. Foi acolhido, se no com entusiasmo,



227




Caixa-Preta




pelo menos com suspiros de alvio. Diversos passageiros pediram doses refc
das. No eram poucos os que haviam resolvido "beber" um pouco de corage~
O garimpeiro Jos Comes da Silva estivera observando o rio at a ch da da noite.
No vira nenhuma cidade em suas margens. Agora, sem enxer nada, dava-se conta de
que estavam mesmo perdidos, como a todo mome diziam outros passageiros.
Angustiado, o advogado Fidelis Rocco Sarno no dava descanso s
missrias:

-        Cad Belm? Por que no chegamos em Belm? Onde est B
- disparava-lhes.
A funcionria do Ibama Ruth Tavares levantara-se de sua poltror fazia footng
pelo corredor, muito nervosa, indo at a frente e voltando. l das comissrias
deu
um pulo na galley e voltou com um copo de gua cc acar para acalm-la.
Providncia das mais inteis, ressalte-se. Minutos pois, Ruth foi acometida de
uma crise
histrica.
-        Eu no quero morrer - comeou a gritar, causando grande desa forto aos
demais passageiros, que se viraram, assustados, em sua direo.
Rapidamente ela foi acudida por seu chefe, Jos Maria Gadelha, doutor Serrano
Brasil e pelo engenheiro Altieri. Depois de conversar co Ruth, o mdico foi at
a galley
e perguntou a uma das comissrias se algum antidistnico a bordo.
A moa disse que sim. Mas ele teria de fornecer o nmero de seu C
e assinar um protocolo.
Enquanto Gadelha e Altieri tomavam conta de Ruth, o doutor irritado com a
burocracia, foi pegar seus documentos. Retornou  galley, biu-os s moas e
assinou o papel.
S assim obteve o remdio. Fez com Ruth o tomasse.

Por todo o avio ouviam-se rezas. O medo se alastrava pelo 254 comc
um rastilho de plvora.
quela altura, boa parte dos passageiros tomara conhecimento de qw
Wilson era piloto. Muitos foram at ele:

-        Por favor, comandante, o que  que est acontecendo?
Frustraram-se ao constatar que Wilson - que, a despeito dos aconteci
mentos, mantinha o semblante tranqilo - no fazia a menor idia.
Na parte traseira da aeronave, o mecnico Antnio Jos Arajo da Silva, qu
j embarcara embriagado, falava muito alto e reclamava do atraso da chegada.

228




RG-254 - A Noite por Testemunha




Era possvel ver a Lua do lado direito do avio, em quarto crescente. a,
embaciada, a luz filtrada pela nvoa seca e pela fumaa das queimadas.
erto Regis, que mudara de assento, pde v-la de sua janela. Mas, para
surpresa, o crescente desapareceu e, pouco depois, surgiu do outro lado, 1
inequvoco de
que o avio no mantinha um rumo fixo. Regis, que ara por manter-se sbrio,
sentia-se incomodado com os passageiros que paravam de beber.
De suas respectivas poltronas, Paulo Altieri e Odeane Souza, a Da, ibm
perceberam que a Lua mudara de lado. Da comentou o fato com rios Comes.
No cockpit, a situao permanecia inalterada. s 19h30, o blim-blom SELCAL
voltou a soar. Desta vez, era o Centro Braslia querendo saber se ~54 tinha
alguma informao
para Belm. Garcez atendeu.
- Favor aguardar - limitou-se a dizer, sem outras explicaes.
O co-piloto Nilson Zille podia ser inexperiente, mas no era imbecil. J
riclura que seu comandante, salvo por um golpe de extrema sorte, jamais i
encontrar o Aeroporto
Val-de-Cans. Por isso Zille decidiu guardar no ~aninho a Carta de Descida de
Belm. Ao faz-lo, observou que, no papel no procedimento de descida (arco DME)
-, constava
o rumo 027 e no 0. Como se houvesse, num timo, recuperado toda sua lucidez,
Zille olhou ra a noite estrelada,  frente do pra-brisa, e deparou com a
constelao
do uzeiro do Sul. Como um navio  deriva, o PP-VMK, cumprindo o 254 na ~pa
Marab-Belm, navegava mansa e estupidamente em direo ao sul.

O relgio de bordo marcava 22h39 zulu, correspondentes a 19h39, hora ~a1. O RG-
254 decolara duas horas e quatro minutos antes, para um vo :imado em 48
minutos.
Nos ltimos 68 minutos, voara a 4 mil ps de ura, mantendo-se a maior parte do
tempo entre os rumos 1650 e 2150, reo contrria  rota Marab-Belm.
- Olha aqui - disse o co-piloto, perdendo de vez o respeito pelo co-andante, e
exibindo a Garcez a carta de descida de Belm - a merda que c fez.
Merda essa da qual Garcez j tomara conhecimento ao verificar na carta EPV de
baixa altitude que o rumo de Marab para Belm era 027 e no 270.
O comandante, em vez de se mostrar surpreso com a informao do co-loto,
limitou-se a levar o indicador  boca e depois apont-lo para o teto,



229



Caixa-Preta




onde se situava o microfone do CVR (Cockpit Voice Recorder), gravador
vozes da cabine de comando.
Apesar do agravamento da situao a cada minuto que passava, o de Garcez era
muito mais dirigido  possibilidade de a empresa descobrii falha cometida. As
repercusses
poderiam ser extremamente negativas, vavelmente resultando em demisso. E foi
isso que ele quis dizer ao co-p ao apontar na direo do microfone.
Descoberto o erro inicial, o importante agora era localizar-se
mente nas cartas de rota e procurar um aerdromo para um pouso de
gncia. Mais tarde, encontraria uma desculpa para seus erros.
De uma coisa, Garcez j devia ter certeza, mesmo sem saber onde
encontrava: tendo voado para oeste por tanto tempo, e depois no sentido
jamais conseguiria atingir Belm com o combustvel que tinha nos tanques
Localizar-se com exatido era tarefa das mais difceis, tantas haviam
as curvas e proas tomadas desde a sada de Marab.
Depois de repassar mentalmente os principais procedimentos adotad desde a
decolagem, o comandante concluiu que estavam em algum ponto sudoeste de Marab e
de Carajs
e ao sul de Santarm, j na cobertura Carta de Rota de Aerovia de Baixa L-3.
Tratava-se de uma carta de~ altitude, que mostraria localidades ao sul da radial
270
de Marab (que haviaxr1 tomado logo depois da decolagem) e que lhes forneceria
mais dados do terre~ no, alm de um maior nmero de estaes de radioauxlio.
Enquanto aguardava que Zille achasse a carta, Garcez finalmente decidiu subir
para melhorar os alcances (visuais e de rdio) e economizar combustvel. Optou
pelo
nvel 80 (8 mil ps). Manteve a velocidade variando entre 200 e 210 ns durante
a subida. Foi necessrio usar um pouco mais de potncia. Sofria, como se fosse
de
seu sangue, cada gota de combustvel que o Boeing queimava.
Precisava localizar um aerdromo, qualquer um. A alternativa seria morrer,
levando junto 53 pessoas. Tinha dvidas entre seguir para Santarm, que tudo
indicava
estar ao norte, ou rumar para nordeste, hiptese em que poderia voltar ao ponto
de partida, Marab, ou pousar em Carajs.

Na cabine de passageiros, os engenheiros Paulo Altieri e Epaminondas Chaves
cobravam energicamente da chefe de equipe a informao sobre quan-do, e onde, o
avio
iria pousar. Ela foi mais uma vez ao cockpit indagar do comandante.



230
1'




Em vez de enviar a resposta por Solange, Garcez informou pelo PA que procurando
um local para pouso, podendo ser Santarm ou um retor-Marab. Disse que tinham
ainda
90 minutos de autonomia. O novo comunicado deixou alguns passageiros, como o
prprio Altieri mecnico Jos de Jesus Manso, um pouco mais tranqilos. Mas no
con-Epaminondas,
que comeou a rezar para Nossa Senhora da Concei-santa do dia do seu
aniversrio, e Santa Rita de Cssia, padroeira dos ntes.
O        piloto Wilson Alencar acionou seu cronmetro, para monitorar a isagem
dos 90 minutos indicados pelo comandante. Tentou munir-se de nismo mas, ao olhar
para
fora, no viu nenhuma luz de cidade. Apesar de
preocupado, o velho aviador levantou-se e foi at onde alguns passa-discutiam a
situao. Procurando erguer-lhes o moral, disse a todos
em aviao, sempre se decola com muito combustvel de sobra.
- Quem sabe d at para chegar a Braslia - concluiu, no demons-muita
convico. E cuidou de no revelar que, para chegar a Braslia,
preciso primeiro saber onde estavam.
O        certo  que o Varig 254 j voava havia duas horas e 15 minutos, uma
hora e 14 minutos no nvel 40 (pouco mais de mil metros), no
precioso combustvel fora queimado inutilmente.
O comandante voltou a falar pelo PA. Disse aos passageiros que tinham

uma hora e 15 de autonomia. Mas  evidente que no falou da possibi-cada vez
mais provvel, de terem apenas uma hora e 15 de vida.

231
RG-254 - A Noite por Testemunha




Captulo 6




P
or mais que procurasse, o co-piloto Nilson Zille no conseguiu locali-zar a
carta de baixa altitude L-3 - justamente a que mais poderia ser til naquele
instante
- embora ela se encontrasse no cockpit.
Na ausncia da L-3, Garcez pegou outra carta e abriu-a sobre o manche. Seu
indicador passeou ansioso por algumas localidades com aerdromos do-tados de
pista com
balizamento noturno - no s pouqussimos, como muito espaados na regio,
frise-se. Concluiu que o aeroporto mais perto devia ser o de Santarm.

Sintonizou o radioauxlio de Santarm e a agulha do radiogonimetro apontou para
o rumo 350. Garcez aproou o nariz do Boeing naquela direo, o que implicou numa
curva de quase 1800. Ao cabo do giro, verificou quanto lhe sobrava de
combustvel e fez algumas contas. Tinha pouco mais de uma hora de vo. Voltou a
chamar Belm
pelo HF. Informou proa 350 de Santarm.
O        RG-254 voou por pouco tempo no novo rumo. Pois, ao rememorar algumas
das direes tomadas at aquele instante, e fazer novas estimativas, Garcez
deduziu
que no dava para alcanar Santarm. O combustvel seria insuficiente.
Procurando no se deixar levar pelo desespero, Garcez voltou a exami-nar a
carta. Desta vez chegou  concluso de que os aerdromos mais prxi-mos eram os
de Carajs
e Marab. Tratou de sintonizar os radiofaris das duas localidades, nas
freqncias 320 e 370 kHz. Teria assim marcaes de proa.

232




RG-254 - A Noite por Testemunha




Por coincidncia das mais infelizes, os sinais que recebeu foram os de do Garas
(freqncia 320 kHz, a mesma de Carajs) e de Goinia kHz, a mesma de Marab),
que
a propagao ionosfrica de ondas ele-romagnticas trouxera at ali. Como se
encontrava muito distante - tanto
e Barra do Garas como de Goinia - no pde ouvir os sinais em Morse
mitidos pelos radiofaris. Via apenas o ponteiro de marcao do instrumen-
 o, sinalizando a direo.
Entretanto, por duas vezes, ouviu sinais de bipe em cdigo Morse iden-tificando
Goinia: trao, trao, ponto / trao, trao, trao / ponto, ponto =
01 (Goinia). Mas Garcez, sob severo estresse, devido  iminncia de uma
tragdia, agarrou-se ao galho  beira do despenhadeiro, interpretando o sinal
orno sendo o que ele desejava, Marab: trao, trao / ponto, trao, ponto /
rao, ponto, ponto, ponto = MRB (Marab).
No momento em que desistira de Santarm, e optara pela direo de
Carajs e Marab (na verdade Barra do Garas e Goinia), Garcez voltara a
imprimir ao Boeing um giro de 1800. Em cada uma dessas guinadas, o Varig

54 procedia a uma longa curva e queimava precioso combustvel.
s 20h05, Belm voltou a chamar o 254, pedindo informaes sobre o
00.

quela altura, Garcez j devia saber que nenhuma dissimulao lhe seria 'til,
mesmo que, num golpe de extrema sorte, uma pista de pouso iluminada urgisse 
sua frente,
como que por encanto. De qualquer maneira, ele teria e contar a verdade sobre o
rumo inicial errado. E, se viesse a morrer -iptese que, a cada minuto que
passava,
tornava-se mais considervel -, os rros seriam descobertos mal os investigadores
comeassem a bater coisa com oisa, a ler a fita do FDR (registro dos parmetros
de vo) e a ouvir a gravao o CVR (gravador de vozes da cabin e).
Mas, confessar erros, aparentemente, no era do feitio de Czar Augus-o Padula
Garcez. Talvez no constasse das especificaes de sua personalida-e. Por isso,
quando
Belm voltou a cham-lo, ele limitou-se a dizer que inha proa 190. E confirmou
que decolara de Marab s 20h35 zulu (17h35, ora de Marab), como se o Centro
no
o soubesse.
s 20h10, Garcez tomou a iniciativa de falar com Belm. Informou que
inha proa 170 de Marab e que recebia marcao do NDB (radiofarol) de
~arajs (que, como sabemos, era de Barra do Garas). Mas ficou perplexo



233



Caixa-Preta




quando E
zulu (19k
O Cen'
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aquilo. J que n
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da pista fosse aceso a
do-se um pouco para
de Goinia. Decidiu q'
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Tomada a deciso
te mais difcil, mesmo ~
mudanas de rumo que
Garcez voltou a entrari
que estavam indo para Cara
L atrs, o comunicad motivo,  bvio. J voavam sido de menos de uma hora. em
Carajs, no Suriname, em Bolvia, na Patagnia, no quint
Mesmo tendo prestado aten garimpeiro Afonso Saraiva no cor tecendo. J o
comerciante Antnio
        dia algl        ou pela janela

        escuricL        ~avam apenas a
        At        moas haviam
curand        i os copos, pa
avio e        do controle. estavan , como seria pouco 4



234




Finalmente, alguns se levantaram, foram at a galley - sem tomar co-ihecimento
de Jacqueline e Flvia, que tentaram, mas no tiveram como,
~t&-los - e se serviram na marra.
Quando as comissrias se deram conta, o bar fora tomado como que de
Uma festa felliniana comeou a rolar na galley do 254. Uns dez ho-bebiam doses
as mais generosas, numa tentativa desesperada de afugen-
o        medo. A maioria preferia usque (havia cinco garrafas de Teacher's) e
caubi. Outros optavam por cervejas. As latas eram retiradas do
e corriam de mo em mo. Espocavam as argolas, a espuma escorria,
ngava, borbulhante. Houve gente que bebeu vinho no gargalo das garrafas.
No houve nenhum tipo de violncia, ningum ofendeu nem agrediu
3ingum. Mas, se o bar fosse trancado, eles o arrombariam - sentia-se pelo
das vozes, pelos olhos rtilos, pelo rubor dos narizes e das orelhas. Um
- s chegou a levantar um copo e gritar: "Brasil." Jamais se soube se foi por
causa do jogo de futebol, cujo resultado nenhum deles sabia, se era um brin-de
de saudao
ao doutor Serrano Brasil, um dos que bebiam, ou se o homem implesmente achou por
bem dar um brado patritico ao se avizinhar o fim.
Para os que no haviam bebido, era desagradvel ter aquele monte de
bbados inoportunos zanzando na traseira do avio. E as aeromoas, por mais
que tentassem, no conseguiam evitar a aglomerao e o vozerio.
Alguns passageiros, ao contrrio, estavam calmos. O professor Henri-que Antunes,
por exemplo, permanecia quieto em seu lugar, escrevendo pa-horrentamente. Rgia
Azevedo e seu marido Evandro procuravam distrair-e conversando com as pessoas ao
seu redor.
Roberto Regis deslocara-se para a penltima fila. Queria vigiar de perto
o pessoal da bebida. A grande preocupao do mecnico Shiko Fukuoka era ua mala
de dlares.
Embora, quela altura, acreditasse que o avio iria ter de fazer um pouso

o mato, a comissria Luciane Morosini no pensava em risco de vida. No
e ocorria a hiptese, por exemplo, de o Boeing, uma vez esgotado o com-ustvel,
bater de frente numa montanha. Ela supunha que o problema se
esumiria a adotar os procedimentos de pouso de emergncia e de evacuao
aeronave, tal como aprendera no treinamento. Morrer, nem pensar.
Era uma das poucas pessoas a ter tanta confiana. Muito mais experien-e, a chefe
de equipe Solange achava que ia morrer, o que no a impedia de



235
RG-254 - A Noite por Testemunha



Caixa-Preta




levar a cabo seu trabalho, aparentando normalidade, evitando transmitir a
passageiros o pavor que sentia.
A comissria Flvia continuava achando que tudo se devia  sua presen
a no voo.
- Eu sabia que isso ia acontecer comigo, eu sabia. J aconteceu mui
coisa comigo. Nos Electras, eu s tive emergncias. Isso s est acontecend
porque eu estou no avio - choramingava, repetia-se como um papagai -
        reivindicava para si a responsabilidade.        -
Sua colega Jacqueline era ainda mais agourenta (ou, quem sabe, mais
realista) e no menos repetltiva.
- Ns vamos morrer, ns vamos morrer, ns vamos morrer, nos va-mos morrer -
pressagiava monocordiamente, como um disco com defeito.
Luciane tentou tranqiliz-la.
- Voc precisa ter calma, Jacquie.
- Ns vamos morrer. Ns vamos morrer.
5 20h18, o Varig voltou a falar com a sala HF em Belm. Garcez informou~ a
proa, 1600, altitude, 8 mil ps, e confirmou que se dirigia a Carajs. Perguntou
se o aerdromo de l j estava operante. Belm respondeu que ainda no.
Um minuto depois, o blim-blom do SELCAL soou no cockpit. Aciona-do por Belm, o
Centro Braslia entrou no Varig 254, querendo saber deta-lhes da navegaao.
Garcez confirmou o nvel, 80, a proa, 1600, voltou a dizer que preten-dia
alcanar Carajs e que tinha 45 minutos de autonomia.
Braslia acusou o recebimento da transmisso e informou que Belm estava tendo
dificuldades para encontrar o responsvel pela Infraero em Ca-rajs, sem o qual
no
seria possvel pr em funcionamento aquele aeroporto. Indagou do 254 se este no
poderia ir para Marab, em vez de Carajs.
- Negativo - respondeu Garcez. - Nosso combustvel no  suficien-te para
alcanarmos Marab.
Garcez tinha todas as razes do mundo para concluir que no chegaria a lugar
nenhum e que as chances de sair vivo eram mnimas. No sabia, nem tinha como
saber,
se a regio em que se encontrava era plana, ondulada, ou mesmo montanhosa. Se
estava sobrevoando algum rio, lago ou desfiladeiro. Quando olhava para baixo,
via apenas
uma ou outra queimada. Nenhum cidade, nenhuma luz, nenhum sinal de civilizao.



236

RG-254 - A Noite por Testemunha




Tudo indicava que a nica testemunha da tragdia seria a noite amaz-aquele
domingo especialmente contemplada com um cu estrelado.
A cada minuto mais convictos de que o combustvel iria terminar antes
alcanassem algum aeroporto, e que o pouso forado (ou, melhor dizen-a queda)
era inevitvel,
Garcez e Zille tentavam estabelecer novos conta-HF. Falaram com o Centro Manaus
e com outras aeronaves. Informa-
a todos sobre a iminente aterrissagem, infelizmente sem poder dizer o
importante: o local onde ela ocorreria.
Sem que ningum soubesse, s 20h30 fora-se a ltima esperana. Na-instante, o
Varig 254 passara a 100 milhas nuticas (185 quilmetros)
Base        Area de Serra do Cachimbo (em seu travs oeste), em cuja pista -de
balizamento noturno - o Boeing poderia pousar sem problemas. ainda, na ocasio,
quase
30 minutos de autonomia, o que lhe dava um alcance de mais de 200 quilmetros,
teria ido para l se soubesse onde
-.        Era o ltimo aerdromo  disposio do 254.
Uma nova chamada pelo SELCAL avisou o PP-VMK que o encarrega-do Aeroporto de
Carajs fora encontrado e que, dentro de alguns minu-as luzes da pista seriam
acesas.
O indicador de combustvel nos tanques 737 mostrava agora um total de 400
quilos.
 evidente que as providncias em Carajs no tinham a menor utilida-Iludido
pelas marcaes erradas (de Goinia e Barra do Garas), o 254
ncontrava-se no extremo sul do Estado do Par, entre o vale do Xingu e a
sul da Serra dos Gradas, em plena selva.
Apesar dos reveses, o Varig 254 continuava se comunicando. Conse-alar com o RG-
23 1, pousado em Santarm - cujo aeroporto se encon-interditado justamente por
causa
do 254. Forneceu-lhe sua proa (dado
quando no se sabe onde se est) e o nvel de combustvel (informao
mais aflitivas que, naquele caso, mostrava apenas quanto faltava para o

.vio cair).

A partir desse momento, Garcez e Zille dedicaram-se a repassar cada das
estratgias que iriam adotar para o pouso na floresta.
Zille sabia que suas chances de sobrevivncia, alm de extremamente remotas,
repousavam nas mos do comandante.
No havia instruo no mundo a respeito do procedimento correto para
pouso noturno de um 737, em terra firme, fora de pista, com visual zero,



237



Caixa-Preta




manobra considerada impossvel tanto pela Boeing como pelos rgos
nuticos, inclusive a FAA dos Estados Unidos.
Restava aos pilotos do RG-254 conceber seus prprios parmetros,
serem adotados naqueles instantes finais do vo, a no ser que optassem
abandonar os controles e se deixar abater como gado no matadouro.
A primeira dvida era se desceriam com os motores ligados (caso que teriam fora
hidrulica nos comandos, faris acesos e possibilidade adiantar um pouco o local
de pouso, caso se deparassem com um morro, outro obstculo visvel  luz dos
faris) ou desligados (hiptese em que desce. riam como um planador, se  que se
pode
chamar de planador um avio mais de 30 toneladas voando a, no mnimo, 200km!h).
Sem motor, terian de pousar no ponto em que a descida terminasse, fosse qual
fosse.
Depois de examinar as diversas possibilidades, decidiram manter-se no nvel 80
(8 mil ps) at que o combustvel se esgotasse, evitando assim o risco de uma
exploso
na hora do impacto. Isso os obrigaria a descer sem motores, em vo planado, at
alcanar as rvores. Se vissem luzes de alguma fazenda ou lugarejo, tentariam
pousar
perto delas, o que lhes proporcionaria um socorro mais rpido.
Como o pouso seria s cegas - a luz da Lua crescente, esmaecida pela
nebulosidade das queimadas, em nada os ajudaria -, melhor seria pousar olhando
apenas os instrumentos,
concentrando-se em manter o Boeing voan-do numa velocidade ligeiramente acima do
ponto de estol, para que o impac-to com a floresta fosse o menor possvel.
Garcez e Zille discutiram a melhor maneira de se proteger do choque contra o
painel de instrumentos. Optaram tambm por manter o trem de pou-so recolhido, o
que
lhes daria maior sustentao. As rodas no fariam diferena na hora do contato
com o solo. O pouso seria feito sobre a copa das rvores.
Decidiram que a velocidade de descida seria de cerca de 150 ns (280km/h).
Escolhidos os parmetros, iniciaram os procedimentos de preparao
para o pouso de emergncia, agora iminente.
Ligaram a APU (Auxiliary Power Unity) para que pudessem ter energia
aps a parada dos motores.
Mantinham um fio de esperana - se bem que menor a cada momento
- de que uma pista iluminada, quem sabe a de Carajs, surgisse na linha do
horizonte, pondo fim ao pesadelo.



238

RG-234 - A Noite por Testemunha




Quando a quantidade de combustvel estava em 300 quilos, o Varig recebeu uma
chamada do comandante do Varig 231, Domingos Svio, freqncia exclusiva da
empresa.
Garcez forneceu sua proa, 160, altitude,
e disse que levava 48 passageiros. Informou ao colega o total de tbustvel e
solicitou ao 231 que indagasse ao Centro Belm quais eram as Jies de Carajs
naquele
momento.
O 231 informou que Belm acabara de informar que as luzes de baliza-ento de
Carajs estavam acesas.
o        dilogo entre os dois avies da Varig foi acompanhado com grande teno
e angstia pelo comandante Miguel ngelo, da Vasp, que, pilotando VP-282,
naquele
instante sobrevoava o sul do Par.
ngelo exultou quando, em determinado instante, o piloto do 254 dis-ao 231:
- Parece que estou vendo uma cidade. Parece que vai dar. Mas logo se corrigiu:
- No.  apenas uma queimada.
Por mais paradoxal que possa parecer, Garcez parecia estar mais calmo o que
Svio. Do RG-254, saa uma voz pausada. O RG-23 1 respondia afli-tenso,
frustrado por
no poder ajudar em quase nada.
Svio perguntou a Garcez:
- O, Garcez, voc no conseguiu ir para Belm por qu? A resposta foi um primor
de inobjetividade.

-  que eu - disse Garcez - no tinha a indicao de Belm, a bs-la estava com
outra proa, a gente ficou andando entre Belm e Marab e no nseguiu chegar a
lugar
nenhum. Agora estamos indo para Carajs e o temos mais combustvel para ir a
lugar nenhum, entendeu?
s vezes, o 254 via luzes espaadas, nada que se assemelhasse a Carajs, u mesmo
a uma cidade de pequeno porte. (Eram, na verdade, algumas vilas fazendas
equipadas
com gerador.)

L embaixo, na selva, algumas pessoas viram a passagem do Boeing. uando, por
exemplo, o 254 passou sobre a aldeia Cocraimoro, na reser-a Gorotir, dos
Caiaps, perto
da divisa dos Estados do Par e do Mato rosso, os ndios perceberam que o avio
se encontrava numa altitude ferior  normal. Puderam ver clramente suas luzes
de
sinalizao, nas ontas das asas.



239



Caixa-Preta




Um pouco mais ao sul, no acampamento da minerao da Rhodia Brasil, s margens
do Igarap Bom Jardim, os homens recolhidos s barrar tambm ouviram quando o
Boeing
passou baixo (a 8 mil ps). Um deles te a impresso de ter ouvido um estrondo.
A essa altura, as autoridades aeronuticas consideravam a queda do Boei
praticamente inevitvel. Em Belm, um coordenador de Busca e Salvamen
- que, desde as 19h40, assumira posio no Centro de Controle - estab leceu
contato com o RG-254.
Garcez reportou que o combustvel estava chegando ao fim e que
proceder a um pouso na floresta. Disse o mesmo ao Varig 231.
Enquanto ouvia seu comandante falar com Garcez, o co-piloto do
pedia ao Centro Belm que tomasse algum tipo de providncia.
- Faam alguma coisa - disse, exasperando-se. - Tem 54 caras pen durados l em
cima.
No 254, Garcez lutava para manter a capacidade de raciocnio. Mesm. sem ter
noo da regio onde se encontravam, havia grande possibilidade estarem
sobrevoando selva
plana (a Amaznia , essencialmente, uma gran plancie). Infelizmente, no tinha
como saber a altitude (relativa ao nvel dc mar) exata em que encontrariam as
rvores
(se  que havia mesmo rvor embaixo, e no um rio ou lago).
Garcez decidiu que, ao final da descida, quando o avio atingisse mil ps, ainda
aguardaria alguns segundos. Ento procederia ao arredondan (manobra final de um
pouso) do Boeing, cabrando (elevando) o nariz e brando a velocidade, na
esperana de encontrar nesse instante o topo das rvores, nas quais pretendia
bater com a
barriga do aviao.
Ele sabia que as chances de seu plano dar certo eram mnimas, talvez
uma em 100. Pousar um avio naquelas condies era uma proeza da qual
nenhum piloto na histria da aviao fora capaz.
Prxima providncia: era preciso avisar aos passageiros. Chamou a che-fe de
equipe Solange  cabine e informou-lhe:
- Temos somente 15 minutos de autonomia de vo, O nico jeito fazermos um pouso
em algum lugar por aqui mesmo. Eu quero que voce informe isso s outras
comissrias
e depois prepare os passageiros para um pouso de emergncia. Mas, antes, deixa
que eu mesmo quero dar a notcia a eles.



240

RG-254 - A Noite por Testemunha




Solange saiu para reunir-se com as comissrias.
Garcez sabia que explicar a situao era tarefa das mais delicadas. No era ii
dizer para as pessoas que se preparassem para pousar (o termo mais certo ia
"cair")
na selva em plena escurido. Que se preparassem para morrer.
Enquanto reunia foras para fazer mais esse speech, Garcez virou-se para [ireita
e disse ao co-piloto:
-        , Zille, todos ns temos um dia.
O        outro engoliu em seco e tentou dar uma fora:
-        Vamos l, comandante,  isso ai...
Sempre consciente de que suas palavras estavam sendo registradas pelo ~(R,
Garcez tomou do microfone. Gaguejou pelo sistema de alto-falantes Boeing um
speech emocionado,
no qual misturou informaes, desinfor-aes, dados falsos e reais e frases
desconexas.
-        Senhoras e senhores passageiros,  o comandante que vos fala. Tive-os
uma pane de desorientao nos nossos sistemas de bssola e... agora, na oa de
Marab
no temos ainda indicao da distncia de Marab a que nos .contramos. J os
rgos de controle de rea esto cientes... temos a proa de Iarab. Carajs 
antes...
Acre... Ah... - Garcez no conseguiu eximir-se um suspiro, antes de prosseguir.
-        O Centro Belm est tentando colocar o Aeroporto de Carajs em
ncionamento para que... caso a gente... chegssemos em Carajs antes, )demos
efetuar o pouso
naquela localidade. Informamos que devido ao )5S0... a nossa... procura de um
auxlio bsico... estamos com o nosso mbustvel... nosso combustvel j est no
final..,
ainda com 15 minu-s. A comissria.., chefe de equipe... agora vai fazer um
breefing para o 150 de termos que fazer um pouso forado antes da pista de...
Carajs.
Garcez deu outra paradinha, como que pensando no significado de suas ilavras, e
concluiu:
-        Pedimos a todos que mantenham a calma, porque... uma situao )mo
essa... realmente  muito difcil de acontecer... mas realmente nos... vemos
para que...

isso no acontea. Agora... possibilidade de chegarmos a arajs antes do final
do combustvel. Acredito que tenhamos ainda dez mi-utos de vo... Dez a 15
minutos
e... gostaramos que todos prestassem ~eno ~  nossa instruo da comissria
para o caso de pouso forado e... ramos para que... consigamos... atingir a
cidade
de Carajs antes da nossa



241




Caixa-Preta




falta de combustvel... Deixamos a todos com a esperana de que... isso passe
apenas de um... um susto para todos ns. Pela ateno, muito e... (a frase foi
interrompida
por alguns segundos quando soou na alarme de reduo de potncia) ... e que
tenham todos um... um bom
Seguiu-se na cabine de passageiros um silncio abissal, ii
apenas pelo lamento agoniado das turbinas, em suas ltimas revolues.




242

Captulo 7





 pesar de aterrorizada com a expectativa da morte, a chefe de equipe Solange
agia com comovente bravura. Tendo explicado a cada uma
das comissrias como seriam os preparativos para o pouso forado, ~ora falava
aos passagelros.
-        Prestem muita ateno - disse, atravs do PA, atendo-se a um peech
padro da empresa para aqueles casos. - Coloquem suas poltronas ia posio
vertical.
Apertem bem os cintos de segurana. Procurem mcli-iar-se para a frente, abraar
os joelhos e manter a cabea o mais baixa pos-ivel. Por favor, retirem todos os
objetos
pontiagudos dos bolsos. Tirem ambm os culos, relgios, pulseiras, qualquer
coisa que possa machucar ia hora do pouso. As mulheres que estiverem de salto
alto devero
tirar os apatos. Queiram ler as instrues de emergncia dos cartes nas bolsas
rente das poltronas.
Depois que concluiu a fala, Solange foi inspecionar os passageiros.
-        O que  que voc pode fazer pela minha filha? - perguntou Regina
;aramva, sentada na primeira fila (ao lado do irmo Afonso) e tendo ao colo
~riadne Suelen.
Regina no estava apavorada. Pouco habituada a voar, supu-iha que pousos
forados fossem coisas corriqueiras. Mas estava apreensiva :om a filha, temendo
que se machucasse,
ou simplesmente que tomasse um usto. Decidira fazer o possvel para mant-la
dormindo at o avio pousar.

A chefe de equipe pensara muito no beb. Temia que a criana, solta no :olo da
me, pudesse ser lanada contra a divisria que separava a cabine de

243



Caixa-Preta




passageiros da galley dianteira. Decidiu passar me e filha para a segunda
Afonso foi junto.
- Protege bem sua filhinha - foi a ltima recomendao de 5 Regina, antes de
sair para olhar outras pessoas.
Cada aeromoa fazia das tripas corao para acalmar e instruir os pa
geiros. Assim que o avio parasse, explicavam, todos deveriam abandon.
imediatamente e se afastar para o mais longe possvel.
Recm-sada do programa de treinamento, Luciane Morosini tinha tidos na
lembrana os procedimentos de emergncia. No sentia muito m No achava que o
avio iria
cair no mato, mas pousar numa clareira ou campado. Via tudo com otimismo e
procurava se condicionar para nao meter erros na hora de abrir a porta e evacuar
a aeronave.
As comissrias decidiram recolher todas as malas e volumes dos baga~ ros sobre
as poltronas (bins) e guard-los nos banheiros, para evitar que gissem as
pessoas,
caso os compartimentos se abrissem na hora do pouso selva. Precisaram fazer
vrias viagens aos toaletes, carregadas de volumes. piloto Wilson Alencar
levantou-se
e foi ajud-las.
O mecnico Shiko Fukuoka recusou-se a entregar sua maleta 007. -que no se
separava dela de jeito nenhum. As irms Rita e Elza Gasparin, naquele momento se
mudavam
para uma fila mais atrs, viram quando discutiu com uma aeromoa.
Sem saber que a valise continha dlares, a comissria insistia:
- Por favor, senhor, me d sua maleta. Vou guard-la l atrs. razes de
segurana.
- No. Vai ficar aqui comigo.
Quando a moa desistiu e se foi, Fukuoka, cada vez mais angustiad com a
possibilidade da perda do dinheiro, abriu a valise e comeou a lo. Tirou 1.500
dlares e
os distribuiu entre os bolsos do palet. Deixou restantes 2.100 dentro da mala e
colocou-a entre as pernas. Arqueou-se, j posio de pouso forado.
Muitos passageiros trocavam de lugar, procurando assentos que, em seu
juzo, poderiam ser mais seguros na hora do pouso.
Alguns haviam se levantado para pegar documentos nas bagagens de
mo, antes que as comissrias as levassem. Flvia perguntara a um deles:
- Por que voc est se levantando? Por favor, sente-se, ponha os cintos e se
prepare para o pouso.



244

RG-254 - A Noite por Testemunha




A resposta a desconcertou.
- Estou apenas pondo os documentos no bolso. Para facilitar a identi-cao do
meu corpo.
Cada um se preparava a seu modo para a hora do impacto.
O superintendente Gadelha, do Ibama, apertou bem o cinto de segu-ana de sua
colega Ruth Tavares e, s depois, ajustou o seu. Depois de achar uas poltronas
vagas,
e juntas, que supuseram ser mais seguras, Elza e Rita se ~ntaram. Deram-se as
mos.
Boa parte dos bbados melhorara do porre, como se eles tivessem toma-.0 um
miraculoso antdoto, e sentara-se comportadamente em seus assentos. a o mecanico
Antnio
Jos, ao contrrio, decidiu ir para a cabine de coman-~o. Ergueu-se de sua
poltrona e encaminhou-se para a proa. Mas, quando se proximava da galley
dianteira, foi
interceptado por outros passageiros, que o eguraram. S faltava essa. J no
bastava cair no meio do mato, em plena ioite, que dir com um intruso
atrapalhando os
pilotos.
Muitas pessoas liam aflitas os cartes com as instrues de sobrevivncia
- aqueles aos quais ningum d bola at surgir uma ocasio como aquela. )utras
procuravam munir-se do mximo possvel de travesseiros, para amor-ecer o
impacto.
Rgia Azevedo discutia alguns aspectos prticos com o marido Evandro. J casal
rememorou onde estavam as chaves do cofre da casa e prometeram xm ao outro que,
se
apenas um dos dois sobrevivesse, este cuidaria das crian-~as com todo carinho.
Marcionlio Pinheiro alimentava esperanas de sair vivo. Mas sua f foi ~ba1ada
quando um azarento (ou realista) gemeu l do fundo:
- Chegou a nossa hora.
Sentindo calafrios, e temendo desmaiar, Marcionlio levantou-se e foi a galley
traseira. Encontrou-se com outro passageiro, Antnio Farias, que decidira beber
mais
uns tragos antes de o avio bater. Marcioniio engoiiu em trs sorvos uma lata
de cerveja e tomou os quatro ltimos dedos de uma garrafa de Campari.
Sem se levantar de sua poltrona, Enilde Meio girou o pescoo e gritou para trs:
- Gente, no vamos entrar em pnico. Vamos rezar. - E comeou a puxar um pai-
nosso, que recebeu grande adeso.



245

Caixa-Preta




- Pai nosso, que estais no ceu... - balbuciando a orao, M~ abandonou a ga//ey
e foi para um dos banheiros da cauda. Quem sabe uma boa refugiar-se ali, na hora
da queda. Mas viu que o cubculo ~ cheio de bagagens. Concluiu que no era um
bom local. Retornou  a de passageiros.
-        Santificado seja o Vosso nome... - Apesar de todas as evidn em
contrrio, ao mecnico Jos de Jesus Manso no ocorria que o comanda te
estivesse realmente
pensando em pousar em plena floresta. Achava qi tal pouso forado iria ocorrer
em alguma pista, e que o piloto j a seu campo de viso. Mesmo assim, o medo o
enregelou
e ensurdeceu. ouvia o barulho das turbinas. Nem as preces e lamentos dos
passageiros. P netrou num mundo silencioso que erigiu como defesa.
-        Venha a ns o Vosso reino... - O garimpeiro Jos Gomes da nutria
esperanas de que o avio alcanasse Caraj s. Pelo que entendera fala do
comandante, o
pouso forado s se daria se no conseguissem chega quele aeroporto.
O        engenheiro Paulo Altieri olhou para baixo e viu uma queimada. Cal-culou
que devia estar a uns trs ou quatro quilmetros de distncia. Ateu,
materialista,
no lhe ocorreu rezar. Tinha convico de que ia sobreviver, Preocupou-se ao ver
vazias as poltronas junto s sadas de emergncia.
Como a chefe de equipe passava com algumas bagagens, Aitieri pe-gou-a pelo
brao.
-        No vai ficar nenhuma comissria perto das sadas? - interpelou-a.
-        Quem  que vai abri-las, quando o avio parar?
-        Ter de ser um dos passageiros - explicou Solange -, porque as
comissrias tm de ficar perto das sadas principais, duas na frente e duas
atrs.
-        Tudo bem - ele respondeu. - Mas, ento, eu quero saber como que as
portas de emergncia funcionam.
-        Vem c - disse a chefe de equipe. - Vem que eu vou explicar o
mecanismo.
Solange foi com ele at o local e, rapidamente, ensinou tudo. Altieri
sentou-se na poltrona junto  janela que pretendia abrir. Perto deLe, do lado
direito, a contadora Severina Pereira Leite se lamentava, chorando.
- Quem  que vai cuidar dos meus quatro filhos? - perguntava, sem se dirigir
especificamente a ningum. - E de minha me? Quem  que vai cuidar?



246
Rc_-254 - A Noite por Testemunha




-        Calma - Altieri tentou confort-la. - Fique calma. Eu mesmo vou rar
voc, assim que o avio parar.
A comissria Jacqueline procurou algum para tomar conta da sada de
mergncia do lado direito. E optou pelo jovem Marcus Mutran.

-        O senhor se importaria de sentar ali, naquela janela? - perguntou o
rapaz.
- No. Eu no me importo. Eu sento onde voc quiser. Se eu tiver de morrer, no
tem problema. Ningum depende de mim.
Os passageiros emendavam um pai-nosso no outro.
- Seja feita a Vossa vontade... - O tcnico de minerao Raimundo Siqueira achou
que devia tentar deixar um registro para a posteridade. Pegou sua Yashica, foi
at
a parte dianteira do avio e comeou a bater fotos dos outros passageiros,
alguns sentados, outros caminhando pelo corredor  pro-cura de um lugar mais
seguro.
Enilde parou de puxar a reza e sorriu para a objetiva. Ktia Melazo, que
tambm mudava de lugar, preferiu virar as costas. Outros posaram de cara sria.
As aeromoas continuavam remanejando as crianas e suas mes.
- Assim na terra como no cu... - Roberto Regis ofereceu seu lugar, na penltima
fila do lado esquerdo, para Liceia Melazo, que viera da frente com a filha
Dbora,
trazidas por uma comissria. Liceia sentou-se com a menina no colo e apertou o
cinto de segurana, deixando Dbora solta mas envolvendo-a com os braos.
Liceia estava aterrorizada. Tinha certeza de que ia morrer.
- A morte, eu vou ver a morte, a morte, a morte.  assim que  a morte
- repetia baixinho. S pensava na morte. Segurou a filha e um travesseiro,
comprimindo-os com fora contra si. Orou a Deus, pediu perdo por seus pecados e
lastimou
que Dbora fosse morrer to nova.
Regis sentou-se na fila imediatamente adiante.
- O po nosso de cada... - enquanto caminhava pelo corredor, ins-pecionando os
passageiros, Jacqueline rezava junto com eles.
Depois de desistir do banheiro, e de estudar cuidadosamente a localiza-o de
diversos lugares vagos, Marcionlio optou por sentar-se numa das lti-mas filas,
na
poltrona da janela. Mas no se sentiu seguro. Moveu-se para o assento do
corredor. Retirou a almofada flutuante do assento do meio e a usou como escudo
para proteger
a cabea.



247



Caixa-Preta




- Perdoai as nossas ofensas... - Marcionlio pensou na mulher, na pequena e nos
pais que se encontravam em So Lus e nem sabiam que ele viajando. Lembrou-se
que,
durante a vida inteira, sempre pensara em com pessoa se sente num avio em
queda. Agora sabia exatamente como era.
-        Assim como ns perdoamos queles... - Odeane de Aquino, a sentia medo.
Muito medo. Seus 19 anos de vida se desenrolaram em. mente. Pensou nas coisas
que
no havia feito. Descobriu que a morte era E que o medo era frio.
-        No nos deixeis cair em tentao... - Da, apavorada com a ch do fim,
sentiu a mo do vizinho, economista Carlos Gomes, apertando a s
-        Mas livrai-nos do mal... - recitaram juntos.
-        Esse avio pode explodir, mas no vamos morrer - disse Carlos Gon

Da quis crer. Crer nele e Nele. Gomes comeou a chorar.
-        Minha mulher no trabalha fora - gemeu. - Eu vou deixar crianas
pequenas - acrescentou, contradizendo a f de segundos antes..
Como  que elas vo ficar?
Enquanto ouvia o lamento do vizinho, Da pensava no filho Tiago e
marido Chico, que ficaria vivo. "Com quem ser que ele vai se casar? Cot
 que meu filho vai ficar? Como  que vai ser a vida dele?"
- Amm. - A chefe de equipe Solange munia-se de foras, que nun~ soubera
possuir, para acalmar os passageiros. - No  nada de mais, gent
No  nada de mais - repetia, como se realmente acreditasse.
"E se o avio estivesse sobre o mar?" Da tinha muito medo de cair mar. "Se
estavam perdidos, poderiam estar sobre o mar. Ningum, nem mes mo o piloto,
sabia onde
estavam. Poderiam muito bem estar no meio oceano." Da sentiu mais frio ainda.
No queria morrer afogada.
Depois de ajudar a guardar as bagagens de mo nos banheiros, remanc jar as
crianas e preparar as pessoas para o pouso, a comissria Luciane foi para o
corredor
da porta principal. Sentou-se num dos bancos retrteis, reser-vados aos
comissrios, virada de costas para a cabine de comando e de frente para os
passageiros. Podia
v-los atravs da divisria de acrlico, cuja metade superior era transparente.
Preparava-se para atar os cintos quando percebeu que se sentara no bancc
reservado  chefe de equipe. Virou-se para ela, que se aproximava, e disse-lhe:
-        Eu estou no seu lugar.



248



RG-254 - A Noite por Testemunha




-        No, Luciane, no tem problema. Pode pousar ai. Eu fico no outro do e
abro a porta da galley. Vamos ficar assim mesmo. - Solange disse-o
anqiiilamente,
como se estivessem conversando sobre cadeiras num restau-inte e no sobre o
lugar onde, provavelmente, iriam morrer dentro de ai-ins minutos.
-        T bom. Eu abro esta aqui - Luciane concordou, referindo-se rta da
esquerda. E comeou a prender o shoulder, cinto de ombro com o
ial os bancos dos comissrios so equipados. Notou que a chefe de equipe
inclinara para a frente, na posio de impacto de passageiros. - Mas,
ange - Luciane alertou a outra -, ns temos de pr o shoulcer.
Solange voltou a erguer-se e apontou para a divisria de acrlico.
-        T vendo o silkscreen? J imaginou se vem tudo na nossa cara. J
naginou esse acrlico explodindo todo ele na nossa cara?
-        Isso  verdade - Luciane no s concordou, como desistiu de seu rprio
shoulcler. Inclinou-se tambm, segurando os joelhos, tal como ensi-ara aos
passageiros.
O piloto Wilson tinha certeza absoluta de que ia morrer. Mas queria inlmizar o
impacto contra seu corpo, preservando-o para um enterro mais ~cente. Como a
maioria
dos passageiros atrs dele encontrava-se nas poltro-as da janela ou do corredor,
Wilson passou para um lugar do meio, onde a ssibilidade de algum, vindo de trs
na hora da queda, chocar-se contra ele a menor. Seria um defunto mais inteiro.

Depois de se mudar, Wilson pegou um papel e uma caneta e comeou a ;crever. Fez
uma espcie de testamento rpido. Deu conta do andamento s negcios mais
importantes.
Mas no se limitou a eles. Como, ao longo de ~da a sua vida, fora um bomio
incorrigvel, amante da noite, farrista invete-do, achou por bem confessar
alguns pecadilhos
e pedir perdo  mulher elas estrepolias que cometera.
Sentada no colo da me, Marinz Coimbra, a pequena Bruna, os olhos 'regalados,
prestava ateno ao movimento das comissrias. Marinz tre-iia de medo. Mas no
chorava,
para no assustar a filha. Protegendo-a m um travesseiro, limitava-se a aguardar
o desfecho dos acontecimentos, perando o pior. Lembrou-se que, em desastres de
avio,
s vezes era difcil reconhecimento dos corpos. Tirou da bolsa a carteira de
identidade e )locou-a no seio.



249




Caixa-Preta




Junto a me e filha, o mdico Joo Roberto Matos inclinara-se para
frente e abraara os joelhos. No via nada.
Na cauda, as comissrias Jacqueline e Flvia haviam assumido seus pos-tos.
Jacqueline sentara-se na banqueta junto  porta esquerda. Prendera uma lanterna
na cintura,
por dentro da saia. Flvia sentara-se no banco da galley. De onde estavam, era
possvel observar a cabine de passageiros, bastando in-clinar um pouco o
pescoo.
Se no morressem na queda, caberia a elas abrir as portas traseiras, to
logo o avio parasse.
Flvia, alis, tinha convico de que no iria morrer. Achava que o Boein~
iria pousar num pasto ou em alguma superfcie plana. Seu maior medo era c
de ficar presa no interior da aeronave.
J acqueline, ao contrrio, estava certa da morte. E tinha muito medo d sentir
dor nos momentos finais. Tinha mais medo de sentir dor do que di morrer. A morte
era
desconhecida. A dor, no. Era algo que conhecia muit bem, e temia mais do que
qualquer outra coisa. Imaginou a montanha qu poderia estar  frente do avio. E
se
estivessem voando sobre o mar, morreri afogada. Ficou pensando se, na hora do
pouso, a lanterna no iria penetn em sua barriga. Tentou prender os shoulclers.
Entretanto,
por mais que fizess fora, no conseguiu extra-los de seu compartimento.
- Meu cinto est preso - gemeu agoniada para a colega.
Flvia levantou-se, deu dois passos at L e no encontrou dificuldad
para afivelar o shoulder da outra.
No cockpit, o co-piloto Nilson ZilLe esperava a hora de morrer. Ma
surpreendentemente~ via a morte como uma coisa tranqila. Rezou e enc
mendou a alma a Deus.
Quando o total de combustvel nos tanques caiu para 100 quilos, motor nmero 1
se apagou. Eram 20h57. Garcez teve de picar um pouco nariz, para o avio no
entrar

em estol, hiptese em que mergulharia de bic Perdeu mil ps na manobra. Apertou
o boto do microfone.
- O motor nmero 1 acabou de parar - informou s comissaria~ passageiros. - A
gente vai ter que descer agora. Eu no vou poder falar m; porque a gente vai ter
que
se preparar para o pouso, ok? Ateno, tripula~ preparar para o pouso forado.
Na cabine de passageiros, gemidos sentidos, preces aflitas, pragas ira
acolheram as palavras do comandante.



250




A outra turbina ainda trabalhou por dois longos minutos. Depois parou mbm, como
era impossvel no acontecer.
- , Zille. Todos ns temos um dia. Eu causei isso.  uma pena que a no tenha
descoberto isso antes. A gente se v do outro lado. - En-pilotava, Garcez
lamentou-se,
despediu-se, confessou-se ao co-piloto. Com o emudecimento das turbinas, os
passageiros agora podiam ouvir
assobio lamuriento do vento. Sentia-se, via-se, cheirava-se o medo. O medo .rava
no ar, entrava pelos poros. Uns descobriram que o medo se localizava baixo
abdmen.
Outros, que o medo obstrua a garganta. Que o medo ~cava as bocas, que o medo
soltava os esfncteres, o mnstruo e as bexigas,

medo corria pelas artrias, acelerava o corao, abafava o pulmo. Que medo ia e
voltava, em vagas. Medo. O medo do uivo do vento, do silncio,
choro das crianas. O medo de que cada um daqueles sons, e daqueles ~ntimentos,
fosse o ltimo som, antes do claro do crebro explodindo, o
rno sentimento, antes da escurido.
Souberam que o medo parece uma besta  espreita, um gatilho clicando, ima luz se
apagando, um rastilho correndo, um ferro se fechando, um aoite ~stalando, uma
mina desmoronando, calcanhares de botas batendo. O medo ~um avio perdido na
noite, os tanques vazios, as turbinas paradas, caindo.
O medo tornara-se o nico passageiro do Varig 254. Para Jacqueline, o medo era o
choro das crianas.
Ela disse para Flvia:
- T vendo, Flvia, as crianas sentem as coisas. Elas sabem que a gente ~vai
morrer.
Mas as crianas se calaram. E cessou o arrulho das rezas. O Varig 254 era ~agora
o silncio mais profundo da mais funda das cavernas. Do mais escuro

251
RG-254 - A Noite por Testemunha
- Ah, meu Deus do cu. Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo. Pura
o pariu, eu no acredito que isso est acontecendo. No, eu estou so-iando. Deus
meu. Caralho, como pde? Minha Nossa Senhora.
Algumas crianas comearam a chorar. Jacqueline clamou por Deus, voz alta, cada
vez mais certa da morte. Depois ficou repetindo:
- A gente vai morrer, a gente vai morrer, a gente vai morrer, a gente...
- Cala a boca, fica quieta, Jacquie - berrou Flvia. - Voc no vai .orrer. Mas,
se continuar falando, vai acabar perdendo a lngua na hora que avio pousar.



Caixa-Preta




abismo dos mares. Dos recnditos de um sepulcro. Do vazio mais longnqu
do infinito sideral.
Sentada l na frente, Luciane tinha a impresso de que o silncio
durava uma eternidade. "A que horas vai cair?" "A que horas vai bater?" "Va
mos, bata logo." Ela se perguntava. Ela pedia.
Luciane comeou a rezar. No propriamente a rezar. Ela no acredita no Deus de
todo mundo, mas apenas num ser superior, numa espcie d energia. Foi para essa
energia,
para esse ser, que ela disse que, se tivesse
ficar aleijada, preferia morrer. Disse-o como se tivesse poderes para negociar
"Pode tirar minha vida agora. Acaba comigo. Eu no quero ficar aleijada. E no
quero
viver sem poder fazer nada."
No cockpit, Garcez comportava-se tal como se espera de um piloto d
linhas areas. Tinha calma suficiente para passar a informaao (da perda d
turbinas) pelo rdio e ter um ltimo contato com o RG-23 1.
-        Estou vendo duas queimadas - informou. - Vou tentar o pouso. Sem
combustvel, a APU deixou de funcionar. O CVR e o FDR para
ram de gravar. As luzes externas do avio se apagaram e os faris j no pode-
riam ser acesos.
Os pilotos passaram o Stand by Switch para a posio battery. A bateri passou a
suprir o Boeing com fora alternada, no cockpit e na cabine d passageiros
acenderam-se

as luzes de emergncia. Plidas, amarelas, sotur-nas. Eram decorridas trs horas
e vinte e seis minutos desde a decoLagem em Marab.
Enquanto desciam em vo planado, nose up (nariz levantado) num n-gulo entre
oito e nove graus, Garcez e Zille perscrutavam os instrumentos do painel,
iluminados
pelas luzes de emergncia. O comandante controlava o, indicador de velocidade e
o c/imb (indicador de velocidade vertical). O co-piloto "cantava" a descida,
atravs
da leitura do altmetro.
- Setenta, 68, 65... - em meio ao silncio das turbinas, e ao assobio lamuriento
do vento, percebia-se, na voz emocionada de Zille, mais do que uma contagem
regressiva
de altitude, a contagem dos segundos que lhes res-tavam. De vida.
No incio, a velocidade de descida era de 1.200 ps por minuto. Mas, 
medida que o ar foi se tornando menos rarefeito, baixou para mil ps por
minuto. Isso lhes dava um tempo de planeio entre sete e oito minutos antes



252




Lmpacto com o cho, caso no estivessem sobrevoando montanhas, hip-~ em que
tudo que estavam fazendo era intil e na qual o PP-VMK trom-ria de frente e se
fragmentaria
em milhes de pedaos, matando todos os ocupantes, como, de resto, costuma
acontecer em desastres de avio.
Roberto Regis no tinha a menor dvida de que vivia seus ltimos mi-tos. O
comandante lhes dissera que o avio voava na direo de Carajs.
sabia que Carajs era uma rea montanhosa. No via como um Boeing desse pousar
com sucesso, sem motores, no escuro, em meio a montanhas. ~ocupava-o tambm a
possibilidade
de incndio e exploso na hora do acto com o solo. Pelas janelas, era possvel
observar diversas queimadas. faltava carem no meio de uma delas.
No momento da parada da segunda turbina, Regis acionara o cronme-de seu
relgio. Optou, como ltima atividade de seus 24 anos de vida, por car o tempo.
E, enquanto

o via passar, ficou pensando nas coisas que leria ter realizado. Pensou no filho
que sempre quis ter, e que no tivera. nentou-se por no haver se casado, por
no
ter feito nada de importante vida. Mas no sentiu medo. Apesar das frustraes,
aceitou a morte, em consigo mesmo.
Mesmo com os motores desligados, as ps das turbinas continuaram indo em
windmiL'/ (movidas pela fora do vento). Isso gerou presso su-ente para fazer
funcionar,
intermitentemente, o sistema hidrulico. Com ande dificuldade, Garcez conseguia
operar os ailerons e profundores (super-moveis de comando, localizadas nas asas
e
na cauda, que permitem ao
manobrar o avio), como se fosse o motorista de um carro ou cami-equipado com
direo hidrulica, cujo motor, com defeito, ligasse e
e a todo momento.
Foi exatamente a impresso que Da teve. Que o avio voava aos solavan-~s. "Meu
Deus, eu vou morrer agora", gritava. Carlos Gomes apertava-lhe a Io com tanta
fora
que ela achou que os ossos estavam sendo triturados.
Quando, por falta de fora hidrulica, o avio embicava, e Garcez no Inseguia
sustentar o nariz, tanto no cockpit como na cabine de passageiros ~ivia-se o
sopro
do vento: ssssshhhhhh...
Boa parte dos passageiros continuava firme nos pais-nossos em voz alta. Ias
agora j no era mais uma reza sincronizada. Cada um rezava um trecho. qui e
ali, algum
clamava por Deus. Muitos ocupantes do Varig 254 que-



253
RQ-234 - A Noite por Testemunha



Caixa-Preta




riam apenas chegar ao cu de bem com o Altssimo. E, se possvel, sem sentir~
dor na hora da morte.
Na penltima fila, Liceia Melazo gritava desesperadamente, assustando a.
filha Dbora. Roberto Regis, sentado  sua frente, virou-se e tentou acalm-la.
- Flaps down - comandou Garcez.
ZiHe tentou baixar os flapes, mas s conseguiu lev-los at a posio
dois, por insuficincia de presso hidrulica.
Regis teve sua ateno desviada do cronmetro para o mecnico Ant-nio Jos, que
se levantara de sua poltrona e caminhava pelo corredor. D
galley traseira, a comissria Flvia gritava para o passageiro:
- Volta, senta em seu lugar, volta, aperta o cinto, volta, obedea s.
instrues... Volta...
Mas o mecnico no obedecia. Andava de l para c. Em alguns mo-mentos, parecia
ir para a ga//ey. Em outros, parecia estar tentando acalmar as.
pessoas.
Sem pensar muito na asneira que poderia estar fazendo, Regis ergueu
penosamente seus 130 quilos, foi at Antnio e o convenceu a ficar quieto;
F-lo sentar-se de volta em seu lugar e apertou-lhe o cinto.
Sem combustvel, e com a APU desligada, os pilotos contavam com
apenas quatro indicadores funcionando no painel de instrumentos: horizon

te artificial, altmetro, climb e velocmetro.
Vexvk c~tze Gatcez precisava usar de fora fsica para sustentar o nari Zille
passou a ajud-lo no manche, e no muque. Mesmo a quatro mos, tarefa era
dificlima.
Ora tinham fora hidrulica, graas ao movimento das turbinas em cata-vento, ora
os comandos ficavam duros. De vez em quando~ os pilotos arriscavam uma olhada
para
fora. Era possvel ver algumas luzes de fazenda.
A descida era feita a 170 ns (31 Skm/h). A velocidade vertical se manti-nha ao
redor de mil ps por minuto. O co-piloto continuava dando conta da
altitude ao comandante.
Regis notou que o mecnico se levantara de novo e se dirigia  galley traseira.
Desta vez, preferiu ignor-lo. Voltou a monitorar o cronmetro. Viu que passara
da
marca dos seis minutos. Ps-se na posio de pouso forado, reclinando o tronco
para a frente e protegendo a cabea com as mos e como travesseiro.



254
Ir-




1
- Dois mil ps - cantou Zille.
- Mil e oitocentos - agoniou-se.
- Mil e seiscentos - suspirou.
- Mil e quatrocentos - gemeu.
- Mil e duzentos - lamentou.
Seguiu-se o soar estridente da sirene de estol, avisando que o Boeing ava
prestes a perder a sustentao, embicar a proa e entrar pelo cho aden-o, o que
significava
morte certa para todos.
- Mil ps - gritou Zille, alto o suficiente para fazer-se ouvir em meio alarme e
ciente de que poderia ter pronunciado suas ltimas palavras.
Num milsimo de segundo, o crebro de Garcez processou as duas in-rmaes: risco
de estol e aproximao do solo. Empurrou o manche para a :nte, buscando
sustentao
e, quando pde senti-la, trouxe a alavanca para barriga. Sabia que j estava a
apenas alguns segundos do pouso.
Garcez estimara com preciso a altitude da floresta, no nico lance de ~rte
daquele domingo. O avio, que fizera a aproximao final a mais de Z5OkmIh,
graas 

ltima puxada no manche atingiu a altura das copas das rvo-ts a 205km/h e a
uma velocidade de descida (vertical) de 800 ps por minuto.
Eram 21h06.
A queda havia durado mais de sete e menos de oito minutos, talvez os mais longos
da histria da aviao brasileira. Para Jos Maria Gadelha, que egurava a mo de
Ruth Tavares, parecera uma eternidade. Elza Gasparin sinais se esquecer
daqueles momentos de agonia. O engenheiro Paulo Altieri ~chou os olhos, cerrou
os dentes
e esperou o impacto com o cho.
Finalmente ouviu-se um baque surdo. Algum gritou:
- Bateu o fundo.
Rgia Azevedo ouviu um estrondo e o estalo de rvores se quebrando. Desmaiou.
Gadelha tambm perdeu os sentidos, ao sofrer forte pancada na cabea. Sua
poltrona
se desprendeu e foi lanada para a frente. Afonso Saraiva sentiu um golpe
violento na cabea. Elza, um forte puxo nos cabelos, como se estivesse sendo
escalpelada.
Os dentes da comissria Jacqueline cravaram-se em sua lngua, quase decepando-a.
No momento do choque, o mdico Joo Roberto Matos apertava a mo de Marinz
Coimbra, que continuava segurando no colo a filha Bruna. Ma-~os desmaiou.



255
RG-264 - A Noite por Testemunha



Caixa-Preta




Totalmente curvada e apertando com fora os braos cruzados  frente;
dos joelhos, Regina Saraiva, ao sentir o primeiro impacto, incrustou-se sobre
seu beb, que encapsulara sob o peito, formando uma concha protetora.
De costas para o cockpit, a chefe de equipe Solange viu suas pernas se-rem
impelidas para cima e para trs, como se estivesse dando um salto mortal
invertido. Sentiu uma dor fortssima na coluna.
 direita de Solange, Luciane notou que o avio batera trs vezes. Devido  sua
posio errada, debruada sobre os joelhos (e virada para a cauda do avio), seu
esterno dobrara-se em arco, pressionado pelo peso da cabea, que a desace-
lerao multiplicara por 15. Sentiu uma forte presso no peito e uma pancada.
Os choques s no foram maiores porque o fundo do avio servira de amortecedor
do impacto - como uma pedra que, lanada quase na horizon-tal contra a
superfcie
de um lago, bate na gua e sai quicando -, exatamente como pretendera Garcez.
Esse atenuante no impediu que o mecnico Ant-nio Jos - de p no corredor, sem
nenhum
apoio -, impelido pela inrcia, atravessasse como um blido toda a extenso do
charuto do Boeing. Seu vulto passou entre Solange e Luciane. A cabea de Antnio
chocou-se
contra a porta do cockpit. Funcionou como um arete, arrombando a porta, fazendo
com que se abrisse para a frente, no sentido contrrio ao das dobradias. Ele
sofreu
morte instantnea.
A fila de trs poltronas (junto a uma das sadas de emergncia) onde se
encontrava o estudante Marcus Mutran foi uma das primeiras a se soltar.
Projetado com violncia
para a frente, Marcus tambm morreu. No teve tempo de sentir dor.

Shiko Fukuoka sofreu uma forte pancada no rosto e teve a artria femo-ral
seccionada pela mala de dlares que insistira em manter no colo. Logo iria
morrer, vtima de hemorragia.
Depois de tocar na copa das rvores, a cerca de 30 metros de altura, o Boeing
inserira-se por entre as folhagens, rompendo galhos e troncos e mer-gulhando em
direo
ao cho. Duas rvores grossas retiveram as asas, arran-; cando-as da fuselagem.
Com a velocidade reduzida para 6Okm/h, a fuselagem percorreu apenas
30 metros na floresta, o suficiente para que os galhos de uma rvore fizessem
um rombo no lado esquerdo do cockpit-  altura da cadeira do comandante
-        e os de outra rasgassem o lado direito, atingindo a perna do co-piloto.



256




RG-254 - A Noite por Testemunha




O        Varig 254 imobilizou-se no cho mido da floresta, sem asas, tomba-o
lado direito.
Os trens de pouso, mesmo recolhidos, desprenderam-se do bojo do avio.
radome (compartimento que forma o nariz do avio e onde se localiza o
- fora arrancado. Os pra-brisas permaneceram intactos. As turbinas se ~epararam
das asas.
No PP-VMK, havia um transmissor de emergncia, chamado "disposi-~ivo rdio
impacto", instalado prximo  cauda. Esse aparelho era acionado tutomaticamente,
sempre
que ocorria um fator de carga (acelerao/desace-trao) muito forte, como
acabara de acontecer. Imediatamente o transmis-ior passou a emitir um sinal de
emergncia
nas freqncias de 121.5 MHz e !43 MHz.
Se o Varig 254 tivesse voado mais alguns dcimos de segundo, antes de ~ater,
todos teriam morrido. Pois o nariz do Boeing parou a menos de dez netros de uma
rvore
gigantesca, beque que no teria tomado conhecimento lo arrasto do avio,
estancando-o de chofre. Prova disso era a rvore (de limenses 50% menores) que
arrancara
uma das asas, cujo bordo de ataque icou cravado em seu tronco, como uma
machadinha.

Quando as asas bateram nas rvores, o piso da aeronave experimentou irte toro,
fazendo com que as filas de poltronas do Boeing - com exceo la ltima da
esqerda
e das duas ltimas da direita - saltassem dos trilhos e issem projetadas para a
frente, amontoando-se na parte Jianteira da cabine Ie passageiros. Foi como se
uma
frma de gelo, ao ser torcida, cuspisse os :ubos para cima.
Presas pelos cintos s poltronas, as pessoas foram lanadas  frente, as ~ernas
e troncos imprensados, as cabeas se chocando com as ferragens. Como ~ no
bastasse,
o teto falso da aeronave desabou sobre elas.
Enquanto se recuperava do choque; Solange notou que as luzes de emer-~ncia
haviam permanecido acesas.
Logo depois de o avio ter batido nas rvores, o engenheiro Paulo Altieri ibriu
os olhos e viu as luzes amarelas passando para trs em velocidade verti-iinosa
(na
verdade no eram as luzes que passavam para trs, mas sim sua poltrona que,
solta, fora impelida para a frente). Sentiu uma violenta panca-no trax e outra
na coxa
esquerda, alm de uma saraivada de golpes por xdo o corpo.



257



Caixa-Preta




Dentro do cockpit, as poltronas do comandante e do co-piloto resisti-ram bem. Os
dois aviadores mantiveram-se em seus assentos, atados aos cin-tos de quatro
pontas.
Czar Garcez acabara de executar uma aterrissagem impossvel, ao ani-nhar um
Boeing 737 na copa das rvores da floresta amaznica, em plena noite, sem
nenhuma referncia
externa. Se tivesse treinado a vida toda para aquele pouso, no t-lo-ia feito
melhor. Se, em algum momento, outro avia-dor tentar repetir a faanha, vai
morrer.
O comandante nada sofreu, alm do abalo provocado pela desacelera-o, que o
deixou cego e atordoado por alguns segundos.
O co-piloto Zille no teve a mesma sorte. A borda de sua poltrona, de metal,
saiu do lugar, atingindo-o na parte posterior da cabea, fissurando-lhe a calota
craniana
e prostrando-o sem sentidos. O cinto de segurana que-brou-lhe a clavcula.
Galhos de rvores, que penetraram no cockpt, feriram sua perna direita em trs
lugares,
fraturando a tbia.
Roberto Regis vira tudo acontecer muito rpido. Ouvira o barulho da primeira
pancada nas rvores, o rudo das asas se quebrando, viu as luzes de emergncia
piscando
e as poltronas se deslocando para a frente. Seu brao direito sofreu um violento
repuxo. Torceu a perna esquerda e machucou as costas. O cinto de segurana
estrangulou
seu abdmen. Percebeu sua poltrona indo para a frente. Antes que uma pancada na
cabea o fizesse desmaiar, tentou se proteger, com a mo direita espalmada para
a
frente. Tudo se apagou.

Logo atrs de Regis, Liceia Melazo no conseguiu reter Dbora no colo
e perdeu-a.
A engenheira Maria de Ftima Nbrega teve a impresso de que seu
brao fora arrancado.
Para o aviador Wilson, tudo se passou rpido como um raio. Foi como se estivesse
em meio  fria de um ciclone, levando pessoas e coisas de roldo para a cabine
de comando. Foi golpeado por trs pelo corpo de Marcus Mu-tran e desfaleceu.
Marcionlio Pinheiro achou que a aeronave se despedaara totalmente.
Enilde e Clonilde Meio viram-se atropeladas por diversas pessoas e poltronas.
O        comerciante Antnio Farias sentiu o corpo sendo perfurado.
Inclinada para a frente, a cabea nos joelhos, Da desmaiou ao primeiro
impacto e no enxergou mais nada. Batera com a cabea nas costas da poltro-na da
frente. No viu quando os destroos a soterraram.



258




RQ-254 - A Noite por Testemunha




O PP-VMK atingira o solo numa rea de floresta fechada, nas coorde-adas
10045'S/052021'W, ao norte da Serra do Roncador, 670 quilmetros sudoeste do
aeroporto de
origem, Marab, e 1.070 quilmetros a sudoeste o aeroporto de destino, Belm.
Garcez e Zille haviam cometido um erro de avegao de mais de mil quilmetros~
apesar
de estarem se comunicando om outras aeronaves e rgos de controle o tempo todo.
O absurdo dos bsurdos se materializara.
Se tivessem percorrido mais seis quilmetros~ teriam atingido um pasto lano,
retangular, de grandes dimenses (l5xlOkm), sem nenhum obstculo com suaves
ondulaes.
Se tivessem feito uma ligeira curva para um dos lados, antes de bater, teriam
colidido com um morro de pedras e morrido jnstantaneameflte.
O silncio inicial, logo aps o choque, foi seguido de gritos e gemidos dos
feridos. Os passageiros que podiam se mover, por no estarem desmaia-dos nem
presos s
ferragens, correram em busca das sadas, temendo uma exploso ou incndio.

Entretanto, como o pouso forado se dera com os tanques de combust-vel vazios,
e com os motores desligados, sem contar que as asas haviam sido
arrancadas, no houve fogo.
As luzes de emergncia permaneceram acesas. A porta principal (dian-teira
esquerda) e a porta de comissaria traseira emperraram. Emperradas tam-bm
ficaram as janelas
de emergncia~ no ponto onde, at alguns minutos antes, encontravam-se as asas.
A porta de comissaria traseira ficou encostada em galhos de rvores.
-        No cone de cauda, o banco da comissria Flvia resistiu. Mas o de Jac-
queline desprendeu-se de seu encaixe. Ela ficou pendurada no ar, presa pelo
cinto
de segurana. No por muito tempo. O cinto se desafivelou sozinho e ela caiu no
cho da aeronave. A estrutura da galley despencara sobre ela e Flvia.
Jacqueline
sentiu a lngua ardendo. A boca engolfou-se em sangue.
Na outra extremidade do Boeing, a aeromoa Luciane ergueu-se com extrema
dificuldade e olhou  esquerda, para a proa do avio. O corpo de um passageiro
(mecnico
Antnio Jos) destrura a porta da cabine de comando. E se estatelara na entrada
do cockpit.




259




Captulo 8




uando se recuperou do choque inicial, Garcez viu-se envolvido pelo

()
silncio. Surpreendeu-se por estar vivo, o que lhe parecera imposs-vel. Mas
temeu que os demais estivessem mortos.

itamente desembaraou-se dos cintos de segurana. Olhou para a direita e viu que
o co-piloto estava apenas desacordado, embora ferido e san-grando muito. Garcez
procurou reanim-lo. Logrou xito. Aos poucos, Zille recuperou os sentidos e
comeou a gemer de dor.
O comandante tentou abrir a janela da esquerda. Mas estava emperrada e no se
moveu nos caixilhos.

Precisava urgentemente avaliar a situao na cabine de passageiros. Er-gueu-se
da poltrona e olhou para trs, na direo da porta do cockpit. Tomou um susto. A
porta
fora arrombada e desabara no cho. Sobre ela, havia um cadver.
Garcez optou por no lidar com o morto naquele momento. Decidiu abandonar o
avio pelo lado do co-piloto. Contornaria a aeronave para ter acesso  cabine de
passageiros.
Constatou que a janela da direita fora arranca-da, provavelmente por um galho de
rvore. Havia um rombo muito maior do que a janela. Como no dava para saber a
que
altura se encontrava do solo, por causa da escurido exterior, decidiu fazer uso
da corda de escape (scape rope). Esgueirou-se pelo buraco e comeou a descer
pela
corda. Logo desco-briu que o cockpit encontrava-se ao rs-do-cho. As rvores
haviam cedido com o peso descomunal e com a fora do deslocamento da aeronave.

260




RG-254 - A Noite por Testemunha




~        Mesmo estando de p no cho da floresta, Garcez conseguiu alcanar
~i1le e o ajeitar mais confortavelmente. Mais tarde, depois de ver as outras
~essoas,
voltaria ao cockpit para remov-lo.

Na cauda da aeronave, o engenheiro Epaminondas Chaves, perplexo, perce-lera que
sua fila de assentos era a nica do lado esquerdo que permanecera no ~igar.
Com o deslocamento das poltronas, as janelas de emergncia haviam icado
desguarnecidas. Paulo Altieri, de um lado, e Marcus Mutran, do ou-ro, que haviam
se responsabilizado
por aquelas sadas, haviam sido lanados para a frente. Altieri encontrava-se
preso as ferragens. Mutran, morto.
Entre os que estavam lcidos, e livres dos destroos, a maioria s pensa-ra em
abandonar o avio o quanto antes, cumprindo as instrues que as omissrias
haviam
dado antes da queda.
Desde o momento em que o avio parou completamente, a nica preo-upao de
Marcionlio Pinheiro, ao constatar que sobrevivera  queda, fora aber se estava
inteiro

e em condies de andar, milagre que logo verificou e Lo qual se admirou muito.
Seu instinto de sobrevivncia lembrou-o do perigo de exploso. A nica lia que
lhe passou pela cabea foi a de pular fora do Boeing. Desvencilhou-~ do cinto e
correu
para a cauda, onde j encontrou Epaminondas, Antnio arias e Jos Gomes da Silva
- Epaminondas sara ileso do choque; Farias tnha a mo esquerda e o joelho
direito
machucados; o garimpeiro Gomes, o rao deslocado, a mo esquerda ferida e uma
pancada nas costas. Os trs ~ntavam escapar por ali.
As comissrias Flvia e Jacqueline, ainda atordoadas, e cadas no cho, aviam
sido pisoteadas pelos que passavam afobadamente em busca da sada. rotegendo-se
com
as mos, elas aos poucos foram se recuperando. Jacqueli-e passou o dedo pela
lngua e percebeu que ela quase fora arrancada. Sentia imbm uma dor lancinante
nas
costas. Elvia sofrera uma forte contuso no ~elho esquerdo.
Ajudando-se mutuamente, as duas conseguiram erguer-se. Foram para porta traseira
esquerda, que Epaminondas, Farias, Gomes e Marcionlio :ntavam abrir. Ao v-las,
um deles gritou:
- Como  que abre? Potra, como  que abre?



261




Caixa-Preta




- E s virar a alavanca no sentido da seta - gritou Jacqueline. - No sentido da
seta - repetiu, exalando uma golfada de sangue junto com as palavras.
Mesmo girando a alavanca corretamente, foi difcil abrir a porta. Um
galho de rvore a bloqueava parcialmente. Finalmente conseguiram.
Os homens fugiram primeiro. Antes de pular, as duas aeromoas foram procurar
suas lanternas, que haviam perdido no momento da queda. S de-pois de encontr-
las,
saram do avio, que temiam fosse explodir. Jacqueline tinha o rosto
ensangentado e todos os dentes da frente quebrados, alm do corte na lngua.
Flvia agravou
a contuso do joelho na hora em que pulou no mato.
Um cheiro forte de querosene exalava das asas arrancadas - que se
encontravam a uns 50 metros do charuto do Boeing -, dando a impresso
de que uma exploso era iminente.
Como estava escuro l fora, cada um que pulava fazia-o sem enxergar nada,
torcendo para que a queda no fosse muito grande. Mas, embora o avio estivesse
tombado
para o lado direito, e a porta esquerda se encontrasse num plano mais alto, era
um pulo de menos de dois metros. E o cho eras fofo. Ao carem, os sobreviventes
se levantavam imediatamente e tratavam de~ correr para longe, embrenhando-se na
mata. Quando se viam a salvo, pula-vam, comemoravam e se abraavam, mesmo os
mais
feridos.
A engenheira Maria de Ftima (com fortes dores no brao direito) e a jovem Meire
Ponchio, que viajavam em filas traseiras, tambm haviam con-seguido chegar at a
cauda. Pularam logo depois das comissrias. Saram no encalo dos demais.

Na outra extremidade do Boeing, Ariadne Suelen nada sofrera na que-da. Assim que
o avio parou, Regina Saraiva, que tinha apenas algumas esco-riaes na perna
direita,
pde ver que seu beb continuava dormindo. Aclu-la de sobrevivncia que, com o
prprio corpo, erigira para a filha funcionara perfeitamente.
Um pouco mais  frente, a comissria Luciane Morosini, assim que sc recuperou da
queda, tentou abrir a porta principal. Sentia fortes dores -sofrera leses em
quatro
vrtebras e um achatamento do esterno. Respirav~ em ritmo acelerado, como um
cachorro, compensando na freqncia o qu~ no aspirava em volume. No entanto,
por mais
que fizesse fora, no conse guiu abrir a porta, encostada numa rvore.

262




RG-254 - A Noite por Testemunha




Do lado direito, a chefe de equipe Solange abrira a porta de comissa-ria e
inflara o s!ider (escorrega de emergncia). Luciane foi at ela e disse,
ofegante:
- Eu estou sem foras. No consigo respirar direito. Minha porta no est
abrindo. Por favor, vem me ajudar.
Solange, evitando olhar para a entrada do cockpit, onde estava o cadver do
passageiro que fora colhido de p na hora da queda, foi at a porta princi-pal.
Tentou,
fez fora, mas tambm no conseguiu abri-la.
Luciane lembrou-se do beb, com o qual se preocupara antes do pouso. Abriu
caminho por entre os destroos e as pessoas que se levantavam. Conse-guiu
alcanar Regina.
- Me d a menina - disse. E pegou Ariadne, sempre dormindo, das mos da me.
Saiu com ela no colo pela porta da galley. Como o Boeing estava adernado para o
lado
direito, no precisou pular. Apenas descer o equi-valente a pouco mais que um
degrau.
O slider- que, devido  pequena altura, no fazia a menor falta - fora perfurado
por um galho de rvore. Era possvel v-lo, murcho, iluminado pelas luzes de
emergncia

do avio, das quais um facho amarelado descia em diagonal. Na floresta, a
escurido era completa.
Ao olhar em direo  cauda do Boeing, Luciane percebeu que as asas haviam sido
arrancadas. Viu apenas a fuselagem, nua, flica.
Atrs dela, haviam sado Regina, seu irmo Afonso e mais dois homens. Luciane
devolveu o beb, sempre imperturbvel,  me. Voltou ao avio para tirar outras
pessoas.
Mas seu peito e costas doam muito. Cada vez ficava mais difcil respirar. Parou
um pouco, tentando recobrar as foras. Viu ento Gar-cez, que sara do cockpit e
entrara no avio pela porta de comissaria.
- Garcez, eu no consigo tirar mais ningum. Estou sem respirao.
- Ento deixa - disse o comandante. - Procura um lugar para se deitar.
Regina passara Ariadne para Afonso, que sofrera um corte na cabea, e voltara
para o interior do Boeing a fim de socorrer outras pessoas. Assim que entrou,
viu um
homem (o mecnico Shiko Fukuoka) morto, tendo ao peito uma mala aberta e cdulas
de dlar espalhadas. Viu tambm um cadver de mulher (a contadora Severina
Pereira
Leite), com o rosto esmagado, espremi-do entre duas fileiras de poltronas.



263




Caixa-Preta




Ao acordar do desmaio que sofrera na hora do impacto, Da percebeu
que se encontrava pendurada pela perna esquerda e pelo brao direito, presos
entre assentos. O corpo todo doa horrivelmente.
Enquanto tentava enxergar ao redor, Da sentiu uma forte presso das
ferragens sobre sua perna. Em rota de fuga, Raimundo Siqueira passava por




Por favor, me salva. Me tira daqui, pelo amor de Deus.
cima dos destroos que a prendiam. Da urrou de dor e conseguiu agarrar
Raimundo pela cala. Implorou:
Raimundo parou, viu onde ela estava e disse:
- Fica calma, eu vou tirar voce.
Com a ajuda dele, Da conseguiu desembaraar-se. Os dois acharam uma fresta em
meio ao amontoado de poltronas, meteram-se por ela e conse-guiram chegar 
galley
dianteira. Junto  porta, Solange guiava alguns passa-geiros para fora do avio.
Raimundo e Solange ajudaram Da a sair. Assim que se viu do lado de fora, a
primeira coisa que lhe ocorreu foi verificar se seu rosto estava muito
machucado, se
havia algum corte que pudesse deixar cicatriz. Constatou, com grande alvio, que
havia apenas alguns inchaos e, aparentemente, nenhum ferimento. Auxiliada pela
chefe de equipe, Da estirou-se no cho.
Dentro do Boeing, ao acordar, o superintendente do Ibama Jos Maria Gadelha
percebeu que fraturara o frontal e um dos cotovelos. Ao se mexer, viu tambm que
deslocara

a coluna. O corpo doa em diversos lugares. Perto dele, sua colega Ruth Tavares,
que no conseguia enxergar nada, achava que tinha ficado cega e gritava por
socorro.
A essa altura, Garcez j retirara Zille do cockpit. Pusera o co-piloto dei-tado
numa espcie de bacia, formada pelo radome arrancado.
Depois de acomodar Zille, o comandante voltou para ver os passageiros
presos. Ao ouvir os gritos de Ruth (que quebrara o p direito), foi at l,
examinou-a rapidamente e assegurou-lhe que no estava cega.
Ainda havia muita gente viva no interior do avio.
- Evandro, estou presa. H uma pessoa morta na cadeira em cima de mim. Eu estou
encostada nela. Quero sair daqui - foram as primeiras palavras
de Rgia Azevedo (logo depois de recuperar os sentidos), dirigidas ao marido.
Ele tambm se encontrava preso, a alguns metros de distncia. Nada
podia fazer.



264



- Eu estou aqui - avisou. - No consigo mexer as pernas. Mas fique a. Algum vai
aparecer para tirar a gente.
~        Pedidos de socorro vinham de todos os cantos. Garcez e Solange faziam
ssvel para atender os que chamavam.
Apesar de trs fraturas no antebrao, o economista Carlos Gomes con-~uira
escapar da aeronave, assim que se recuperou do impacto.
O garimpeiro Newton Coelho no percebeu que fraturara a clavcula, m sentiu os
cortes que sofrera na face e na mo direita. Desmaiara por ~uns minutos e, ao
acordar,
tratou de sair pela porta traseira. Fugiu para a presta.
Dentro do Boeing, Marinz Coimbra via-se coberta de sangue. Achou pe estava
morrendo. Mas no demorou a perceber que o sangue era de outra ~ssoa. Tateou em
busca
de Bruna e viu que ela tambm estava viva. Tentou pi-la para perto de si.
Constatou ento que a filha tinha as pernas presas ps ps das poltronas e que o
brao
da menina parecia quebrado. Marinz pva presa do busto para cima, embora
praticamente ilesa.
O comandante encontrava-se dentro da aeronave. Marinz teve a im-~csso de que
ele se preparava para sair. Gritou:
- No sai. No saia, que eu estou viva. Socorro, me tira daqui.
Garcez foi at ela e puxou-a pelos braos. Marinz no se mexeu do

- Espera - ele disse. - Eu vou conseguir ajuda. - E saiu em busca i chefe de
equipe.
Quando acordou de profundo desmaio, o mdico Joo Roberto Matos ve dificuldades
para se lembrar do que ocorrera. Ouviu gemidos, vindos de dos os lados. Um
lquido
morno e viscoso pingava sobre ele.
Matos, cujo corpo sofrera um movimento de rotao, para a frente e ~pois para
baixo, na hora do choque, encontrava-se de joelhos, preso entre ~ltronas. Tentou
movimentar-se.
Mas o mximo que conseguiu foi mover a hea. Sentia fortes dores na perna
esquerda. Toda vez que tentava mov-la, ira ficar numa posio mais confortvel
(ou menos
insuportvel), um obje-agudo penetrava numa ferida na perna.
Depois de algum tempo, Matos percebeu que a garotinha Bruna encontra-

-se debaixo dele. Sobre a cabea do mdico, havia o cadver de um homem, do ial
pingava o tal lquido, que logo Matos percebeu tratar-se de sangue.



265
RG-254 - A Noite por Testemunha



Caixa-Preta




Marinz implorou por socorro:
-        Roberto, a gente precisa de voc - ela desesperava-se.
O        pedido de Marinz foi abafado por gritos histricos de Liceia Melazo,
que perdera a filha Dbora na hora da queda. Liceia queria fugir do avio e
exigia que a retirassem de onde se encontrava presa.
Sem que Liceia soubesse, seu sobrinho Giuseppe, de trs anos, acabara de morrer.
E a me de Giuseppe, Ktia, com afundamento do lado esquerdo da cabea,
agonizava.
Bruno, de um ano, irmo de Giuseppe, que sofrera violenta pancada na cabea,
encontrava-se desacordado.
Garcez retornara com Solange. Os dois tentaram puxar Marinz do meio
das ferragens, sem sucesso. Tentaram remover outras poltronas, para ver se a
soltavam. Nada. Alguma coisa a prendia.
Enquanto isso, Liceia, que sofrera um corte na canela, conseguira safar-se
sozinha e fugira para os fundos do Boeing, onde encontrou a porta traseira es-
querda aberta. Saltou por ela e correu para o mato, certa de que a filha
morrera.
Ao recuperar-se do desmaio, o engenheiro Altieri no tinha noo de onde se
encontrava. Pessoas ao seu redor gritavam sem parar. Viu que estava preso e que
o doutor
Serrano Brasil se encontrava debaixo de suas pernas. Altieri sentia fortes dores
na coxa esquerda e no peito.
Na selva, Marcionlio, um dos primeiros a abandonar o Boeing, tentava se afastar
para o mais longe possvel, com medo de exploso. Levava um tem-po para
percorrer
alguns metros de floresta, devido  escurido e aos cips entrelaados. Sua
cabea sangrava muito, por causa de um corte no couro cabeludo. Parou, tirou a
camisa
e passou-a ao redor do ferimento. Quando retomou a caminhada, ouviu um grito de
mulher.
-        Espera ai.
Marcionlio aguardou que ela viesse at ele.
Era Liceia.
Os dois se deram as mos e prosseguiram na fuga. Sem enxergar nada, tropeavam,
caam, cortavam-se nos espinhos. Depois de algum tempo de caminhada,
encontraram-se
com os outros passageiros e com as duas comis-srias (Jacqueline e Flvia) que
haviam fugido pela porta traseira. Juntaram-se todos em roda, de mos dadas, a
uns
100 metros do Boeing.
Dentro do avio, seguiam-se cenas de desespero. O engavetamento das
poltronas ferira seriamente a perna direita de Cleide Paiva e as duas pernas de



266

filha Thais. Ambas estavam presas numa posio horrvel, os corpos de-LdOS para
a frente.
Presas tambm estavam as irms Cleonilde e Enilde Meio. Cleoniide ~era
afundamento do crnio e da face, fraturara o brao esquerdo e tinha i profundo
ferimento na
perna direita. Enilde quebrara trs costelas, alm sofrer uma leso no nariz e
escoriaes as mais variadas.
- Um dos mortos era o professor Henrique Antunes que, dentre todos os sageiros,
fora o que se portara com mais calma antes e durante a queda. rto dele, num
caderno
aberto, era possvel ver os textos que escrevera en-anto aguardava o desfecho do
vo.
Prximo  galley dianteira, o advogado Fidelis Rocco Sarno acordou ois de muito
tempo. Desembaraou-se dos escombros e ergueu-se com rema dificuldade. Sofrera
fratura
exposta do osso frontal, quebrara o nariz, riaxilar, a perna direita e o joelho
esquerdo. Como se no bastasse, tinha profundo corte na face e outro no
tornozelo
direito. Mesmo com tantos inentos, conseguiu arrastar-se at a porta traseira.
Desceu do avio. Cami-u alguns metros na floresta e voltou a desmaiar.
Em momento algum Maria Delta Cavalcante perdera a consciencia. ara apenas
atordoada com o baque. Mas, ao tentar mover-se, para sair do lo, verificou que
sua perna
esquerda se encontrava enganchada em alguma ~a.
O garimpeiro Manoel Alencar estava muito machucado. Seu queixo se tira em vrios
pedaos, tinha um rombo no couro cabeludo, um ferro Letrara em seu rosto,
prximo
ao olho direito. Outro ferro rasgara-lhe um joelhos. O brao direito e as
costas, que haviam recebido fortes pancadas, am terrivelmente. Pior: o
massacrado Manoel
encontrava-se totalmente ~o s ferragens, como um animal capturado numa
armadilha. E, por mais tentasse, no conseguia se mover um centmetro sequer.




267
RG-284 - A Noite por Testemunha
2

Captulo 9




epois de inspecionar cuidadosamente a rea e os destroos, o co-D
 mandante Garcez informou aos sobreviventes que permaneciam
prximos ao avio de que no havia nenhum risco de incndio. Podiam passar a
noite ali sossegadamente.
O        piloto Wilson Alencar permanecera desmaiado por longo tempo. Ao
acordar, em meio aos lamentos dos feridos, constatou que sua perna direita
estava presa.

Depois de muito esforo, conseguiu solt-la. Passou a mo pela 1 cabea e viu
que sangrava. As costelas doam muito, dificultando a respirao. Olhou ao redor
e
viu um cadver (o estudante Marcus Mutran) atado pelo cinto a uma poltrona.
Como as luzes de emergncia do avio permaneciam acesas, Wilson pde ir at a
porta traseira, que encontrou aberta. Saiu do avio. A escurido na floresta era
total
e ele no viu os sobreviventes deitados no cho perto da parte dianteira do
Boeing. Mas ouviu gritos e vozes, vindos de algum ponto no meio da mata, e foi
ao encontro
deles.
Dentro do Boeing, Marinz Coimbra (que no parava de gritar por so-corro) e sua
filha Bruna continuavam presas. Raimundo Siqueira, que tinha
um brao quebrado, veio do lado de fora do avio para ajud-las.
- Por favor - implorou Marinz. - Me tira daqui de qualquer jeito.
Usando o brao bom, Siqueira puxou-a com fora e conseguiu solt-la.
Mas, por mais que tentasse, foi impossvel tirar Bruna.

268




RG-254 - A Noite por Testemunha




Roberto Regis acordara naquele instante e no tinha a menor idia de anto tempo
se passara desde a queda. Tentou se mover, mas viu que estava so pelo brao
esquerdo,
totalmente distendido. No sentia dores, apenas rmncia. Os ossos da coluna
pareciam ranger (fraturara cinco vrtebras). Apesar das luzes de emergncia, do
lugar
onde se encontrava Regis no quase nada. Mas ouvia, vindos de um ponto prximo,
os gemidos ago-dos de uma mulher.
Tratava-se de Ktia Melazo, presa com os dois filhos: Giuseppe, morto, uno,
gravemente ferido. Ktia, com hemorragia interna, ainda no se
conta da morte de Giuseppe. Gritava que estava sentindo muito peso 'are seu
corpo. Pedia um canivete ou faca para se soltar. Acreditava, errada-:nte, que
apenas
o cinto a prendia ali.
Do lado de fora, Garcez e Solange haviam improvisado camas para os

'ridos, usando assentos de poltronas e travesseiros que puderam recolher :re os
escombros.
O nico cadver retirado do Boeing, e posto no cho da mata, era o do ecnico
Antnio Jos.
Entre vivos e mortos, havia umas 30 pessoas no interior do avio. Era uito
difcil libertar os feridos. Alguns tinham ferros enfiados no corpo, que
:netravam ainda
mais quando as ferragens eram deslocadas.
O engenheiro Paulo Altieri era um dos que no conseguiam se mexer. sentia dor.
Apenas uma enorme presso no peito e falta de ar.  custa de esforo, conseguiu
desprender
o cinto de segurana e mover-se para o Mas o deslocamento fez com que um ferro,
que se encontrava cravado
costas do doutor Serrano Brasil, preso sob Altieri, penetrasse ainda mais Io
mdico.
- Arreda, arreda - gritou Brasil.
Mas o corpo de Altieri continuou pesando sobre o mdico, e o ferro o
Lpunhalando. Brasil pedia para que algum o tirasse dali. Com o passar do empo,
seus gritos
e gemidos foram diminuindo. Altieri pde sentir, prximo s suas pernas, o outro
se debatendo, j nos ltimos estertores. Finalmente, o Loutor Brasil morreu.
Sem conseguir se orientar, e ainda com pavor de o avio pegar fogo,
legis fazia fora para se soltar das ferragens. Mas, com sua luta, machucava o
arimpeiro Manoel de Alencar, que gritava de dor.



269



Caixa-Preta




O        calor dentro do avio tornara-se insuportvel. Regis respirava com
dificuldade. Ouviu barulho de vidros se quebrando. Era o comandante que, com uma
machadinha,
quebrava janelas para ventilar o local e aliviar o calor e a fedorentina de
sangue, vsceras e excrementos que pairava no ar viciado. Alguns estilhaos das
janelas
caram sobre Regis.
L fora, os Saraiva haviam se acomodado no cho da floresta, perto da sada de
comissaria. Ariadne fora amamentada e voltara a dormir. Regina enfaixara a
cabea
de Afonso. Este, sendo garimpeiro e mais do que habitua-do ao desconforto da
selva, tambm adormecera. Antes, dera uma busca nas imediaes do poro de
cargas do
Boeing, chamando pelo cachorrinho de Ariadne. No ouviu nenhum latido e concluiu
que o chihuahua morrera na queda.
Perto de Regina, o advogado Fidelis Rocco intercalava momentos de
lucidez e de inconscincia.
 medida que quebrava as janelas, Garcez ia verificando, pelo lado de]
fora, o estado dos passageiros presos. Sua ateno foi despertada por uma]
mulher que gritava:
- Comandante, me tira daqui.
Era Cleide Paiva, presa com a filha Thais.
- Comandante, me tira daqui - ela voltou a pedir.

- Espere, fique calma, espere um pouco. - Garcez fez o possvel para aparentar
tranqilidade. - Eu estou sem ferramentas.
Enquanto circulava ao redor do Boeing, examinando os feridos, o co-mandante
passava-lhes, pelos buracos das janelas, gua e refrigerantes.
Alguns s puderam beber com o auxlio de canudinhos de refresco, que Solange
obtivera na galley. Para outros, mais fora de alcance, Garcez improvi-sou tubos
cortando
pedaos dos dutos de oxignio das mscaras individuais. Enquanto atendia os
passageiros, o piloto conversava com um, consolava outro, cobria as feridas com
trapos
que produzia de tecidos que ia rasgando.
Como Ktia Melazo gritava muito, o comandante conseguiu estabele-cer (atravs de
outras pessoas presas) uma cadeia que, de mo em mo, fez a gua chegar at ela.
Ktia gemeu um agradecimento, bebeu um pouco e acal-mou-se por alguns instantes.
Mas logo voltou a gritar de dor. No por muito tempo. Aos poucos seus gritos se
transformaram em gemidos, at cessarem por completo.



270




Por volta da meia-noite, Ktia morreu de hemorragia. O pequeno Bru-uou ali, com
uma grave leso na cabea, junto aos cadveres da me
irmo. Josete Melazo, sogra de Ktia e Liceia, e av dos meninos, encon-
-se a dois metros de distncia, presa s ferragens pelo tornozelo direito, ,
fraturado, quase esmagado pelas pernas das poltronas.
Trs horas e meia depois do pouso, a carga da bateria se extinguiu e as de
emergncia se apagaram. Dentro e fora do avio, a escurido passou
quase total, a no ser pelos fachos das lanternas de Garcez, Solange e ciane,
cujas pilhas tambm no demoraram a se esgotar.
Se antes fora difcil tirar as pessoas de dentro do Boeing, agora, sem Iminao,
isso era impossvel. Seria preciso aguardar o amanhecer. Mesmo ~rque,
tripulantes
em condies de ajudar, s havia dois. Zille e Luciane esta-
feridos e as duas outras comissrias haviam se embrenhado na floresta.
Garcez ps Luciane junto com Zille, ambos com muitas dores, na cama tprovisada
com o radome.

Fidelis Rocco permanecia no lugar em que desmaiara logo aps sair do Em duas
oportunidades, o comandante foi at ele, sempre com uma
~a1avra de consolo.
- Estamos aqui com vocs. Vamos tentar ajudar a todos.
Como Liceia Melazo fugira para a floresta, sua filha Dbora passou a Roite
sozinha, soterrada, chorando, com um corte na cabea e uma fratura to brao
esquerdo.
Foi assim que,  meia-noite, teve incio o seu primeiro niversrio.
Para Rgia Azevedo, a noite parecia durar uma eternidade. Procurava onversar com
Evandro, embora no o visse. s vezes, o marido tentava se ~exer. Mas, aos
menores
movimentos, sentia muita dor.
Averiguando daqui e dali, conversando com um e com outro, Garcez )ube que alguns
passageiros e duas comissrias haviam escapado pela porta aseira esquerda e
fugido
para o mato. Concluiu que o nmero de mortos ~a inferior ao que estimara nas
primeiras inspees.
O mecnico Jos de Jesus Manso sentia fortes dores na coxa e p direi-~s.
Respirava com dificuldade e gritou que estava sem ar. Garcez surgiu na nela,
pelo lado
de fora, e pediu-lhe que pusesse a mo no rosto, pois iria iebrar o vidro.
Depois de faz-lo, o piloto enfiou o brao pela janela e fez ti exame
superficial no passageiro.



271
flG-254 - A Noite por Testemunha




Caixa-Preta




-        Eu no vou poder tirar voc da agora - disse-lhe. - Tenho impresso de
que seu fmur est quebrado. Lamento, mas vai ter de aguardar
at amanh de manh.
Preso havia mais de quatro horas, o garimpeiro ManoeL Alencar vi
Garcez passando. Sem mover a parte inferior da boca, por causa das fraturas
no queixo, que doam terrivelmente, gemeu um pedido de socorro:
- Ai, moo. Por favor, seu moo, me tira daqui. Me tira, seu moo implorou. -
Ai, meu Deus, seu moo...
- S amanh, amigo. S amanh. No escuro no d pra fazer nada.
- Ento quebra mais uma janela, pelo amor de Deus. T muito calor.'
Garcez quebrou diversas, prximas ao ferido, que pde se arejar um pouco. Mas
no teve outro remdio seno o de passar a noite ali, acordado, esperando ~. dia
clarear,
o corpo traspassado feito um Cristo na cruz. Entre todos os feridos, era o que
mais gritava. Era o que gritava mais alto. Era o que sofria mais.
Solta das ferragens, Marinz Coimbra permanecia ao lado de Brun que no parava
de gritar. Perto delas, o mdico Matos tinha de lidar com u dilema angustiante.
Junto
ao seu joelho esquerdo, havia uma lmina de ferro' muito afiada, pedao do p de
uma das poltronas. Se relaxava a perna, o ferr penetrava em seu joelho. Se
tentava
mudar de posio, para livrar-se da lmi-na, seu corpo pressionava a perna de
Bruna, aumentando a dor da menina.

Houve uma hora em que Matos sentiu uma vontade incontrolvel d'
urinar. No teve remdio seno faz-lo nas calas. Sentiu enorme alvio.
Tendo descoberto que Matos era mdico, Garcez foi at ele e disse qu
precisava de sua ajuda. Tentou solt-lo mas, na escurido, no conseguiu.
Para Paulo Altieri, a dor s chegou de madrugada. Gritou, gemeu, ur-rou de dor.
Delirando muito, custou a perceber que sua boca estava encosta da numa poa de
sangue
vazado de um morto. No tinha como evitar quc~ sua lngua sentisse o gosto
repugnante.
O garimpeiro Manuel continuava gritando noite afora. Pensando que ele estava
dependurado nas rvores, Altieri pediu para algum subir l em
cima para retir-lo.
Apesar dos esforos de Garcez e Solange, outros passageiros morreram naquela
madrugada. Entre eles, o procurador do Incra Antnio Jos Nasci-mento, que
sofrera uma
perfurao na cabea, e a comerciante HiLma dc Freiras Lima, com esmagamento do
trax.



272

Uma guerreira. Regina Clia Saraiva protegeu seu beb com o corpo na hora da
queda do avio. Devido  reduo brusca da
velocidade, a menina de apenas cinco meses teve seu peso
aumentado em 15 vezes. Mesmo assim, a pequena Ariadne no
sofreu nenhum arranho.
(Acervo pessoal de Raimundo Siqueira/Jos Maria Gadelha)




A comissria Luciane Morosini de Meio tinha apenas trs meses de aviao quando
ocorreu o acidente. Mais tarde, j recuperada, voltou a fazer a mesma rota: "era
preciso superar o trauma". (Acervo pessoal de Luciane Morosini)
Rota original do vo RG-254. O Boeing saiu de So Paulo s 9h43 da manh e
deveria chegar a Belm por volta das 18h20. O avio nunca chegou ao seu destino.
Caiu
na seiva quando o combustvel acabou.
Onze horas e vinte e trs minutos de vo.

        010/.        0103/.
        WA10000120000        FL1041 1L04
MLI DAI        10011010 0094 03010 110        000        ALI        ALA
MYflTOOS 140/000 ITcr 0-131/213       0,2         0,1        1,0
DOUTO        0151 052 OlhE        AtUO 0/0        FIO        10        000
DANO        0240 904 00.40 . 1.0        2,4        5.0        5,0        00.2
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        90        AI        MC FL U02 IAS 005 20 ACOIME 000,000        00
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        02        08 00:04        A
        119.3        013        250
BEL        054 0210 DC        10 00.40        /        0,0       2,4
001 FICA 1090 00.20 OURO        0,0 9, 8 PISO 0110 03100 1012
        4004000        00011.        0002
Em vez de tomar o rumo 027~, o Boeing seguiu na direo oeste (270v). A m
interpretao do piano de vo aconteceu porque a numerao rumo magntico da
etapa Marab/Beim
estava expressa em quatro dgitos (como podemos ver ao lado). Ao ver 0270, o
comandante leu como sendo 270. Um erro passvel de acontecer. Quinze entre 22
comandantes
internacionais, testados em Amsterd, cometeram o mesmo equvoco.
olhEi IIFORTUT1041 00011 0010000000
        ALi 1100 TIME        0040        OURO        2,1        FL        22
0111        0241        032110        4000
        ALI 901 TIME        00:51        O/RI        2.2        FL        25
0111        02,5        0180        01000
        ALT SIM 0296        01:00        4204        2,0        EL        20
lISO        0305        02112        1000
        OOIW0210 AO 08:22L                        05/09209
-        III
90
Rota        aproximada do vo 254. Em nenhum momento, o avio se aproximou de
seu destino. Muito pelo contrrio. Depois de tomar o rumo oeste, o
comandante Garcez obviamente no encontrou Belm. Desorientado, fez diversas
mudanas de curso. Finalmente seguiu para o sul, at cair por falta de
combustvel.
O Boeing caiu a cerca de 1200km do seu destino,
aps 3h46m de um vo absurdo.

Com o choque, as poltronas se deslocaram para a frente. Diversos passageiros
ficaram presos s ferragens.
(Wilson PedrosalAJB)
Clareira aberta pelo Boeing no momento da queda. Uma rvore arrancou a asa
direita. (Acervo pessoal de Raimundo Siqueira/Jos Maria Gadelha)
A operao de resgate na selva.
(Gilberto Alves/AJB)




Marinz cuidou o tempo todo da filha Bruna. No
momento da queda, Bruna, de apenas trs anos, ficou com o p direito preso nas
ferragens.
(Acervo pessoal de Raimundo
Siqueiral Jos Maria Gadelha)
Rgia Azevedo ao chegar 
Fazenda Crumar do Xingu,
trs dias aps o acidente.
(Acervo pessoal de Raimundo
Siqueiral Jos Maria Gadelha)
1

Depois de ficar quatro dias preso no poro do Boeing, sem comer e sem beber, o
cozinho chihuahua Leti, que pertencia a Ariadne, foi localizado pelas equipes
da
FAB. O sobrevivente
~        ganhou o apelido de "ltimo".
(Wilson Pedrosa/AJB)




1




O        passageiro Shiko Fukuoka retornava de uma temporada de trabalho no
Japo. Morreu abraado  sua maleta de dlares.
(Acervo pessoal da famlia Fukuoka)
Alguns sobreviventes
na varanda da zenda. Da esquerda ara a direita: Rita de Cssia, Jos Maria
e comissria
Flvia Collares.
(Acervo pessoal de
Raimundo SiqueiralJos
Maria Gadelha)




A comissria Luciane Morosini falando ao telefone
com a comissria Andre Piha, do acidente de Orly em 73. Ela acabara de chegar
em casa, em Porto Alegre, e vira as flores enviadas por Andre.
Apesar de nunca temem se visto, elas conversaram
emocionadamente sobre suas experincias.
Rita de Cssia com
Jos Maria Gadelha,
aps o resgate.
(Acervo pessoal de
Raimundo SiqueiralJos
Maria Gadelha)



Os sobreviventes que fugiram para o mato haviam se agrupado ao redor lanternas
das comissrias Flvia e Jacqueline. Eram 12 pessoas. Quando baterias se
esgotaram,
e a escurido tornou-se completa, aconchegaram-se s aos outros.
O        corte na lngua de Jacqueline sangrava muito. Alm dos dentes da :nte
quebrados, toda a arcada inferior se deslocara. Flvia sentia fortes dores
joelho.
Foi a noite dos horrores da vida de cada um daqueles homens e mulhe-
, encolhidos na selva. Ningum dormiu um segundo. Ouviam rudos que
iham do avio: sobreviventes gritando, Garcez e Solange acudindo os feri-.s,
janelas sendo quebradas. Envoltos pela escurido, temiam ser atacados
r animais selvagens. Os barulhos da floresta os assustavam. Receavam se

~ver e cair nalgum buraco. Liceia Melazo chorava a perda de Dbora. Mui-choravam
de dor.
S por volta das cinco e meia da manh, quando o dia comeou a Lrear, os que
haviam fugido puderam ver-se uns aos outros.
Apenas o engenheiro Epaminondas encontrava-se ileso, sem um ranho.




273
RG-254 - A Noite por Testemunha




Captulo 10




S
e a noite de domingo para segunda-feira foi angustiante para os sobre-
viventes do desastre, nos Aeroportos de Imperatriz, Marab e Belm, e nos das
demais cidades de onde os passageiros haviam embarcado, o
sofrimento dos parentes e amigos no era menor.
-        Desaparecido? Mas como, desaparecido? - os familiares simples-mente no
se conformavam com as explicaes dos funcionrios da Varig. Estes no tinham
alternativa
seno a de dizer que o avio desaparecera. -Desaparecido? Voc est dizendo que
o avio caiu? Caiu aonde? Mas ele j no estava quase chegando? Ah, meu Deus!
Minha
Nossa Senhora! - De Uberaba a Belm as perguntas e os lamentos se sucediam.

Desde as 21 horas, quando se esgotara o tempo de autonomia do RG-254, o Servio
de Busca e Salvamento da FAB (Salvaero) dera incio aos pro-cedimentos de rotina
programados para aqueles casos. Embora as buscas pro-priamente ditas s fossem
comear ao nascer do Sol, algumas providncias preliminares j tinham sido
adotados
durante a noite.
Como Carajs fora a ltima localidade mencionada pelo piloto do Boeing
desaparecido, Belm entrou em contato com o operador de rdio local per-
guntando-lhe se ouvira, antes das 21 horas, algum rudo de jato.
- Negativo - garantiu o operador. - Nenhum rudo. Nenhum avio sobrevoou baixo o
aeroporto ou a cidade esta noite.
Como o PP-VMK era equipado de um aparelho radiotransmissor de
emergncia, que emitia sinais em caso de acidente, sinais esses captados por



274



~tlites, s 22h45 o Salvaero decidira entrar em contato com o INPE (Insti-ito
de Pesquisas Espaciais), em So Jos dos Campos, So Paulo, que moni-rava esses
satlites
atravs de uma estao localizada em Cachoeira Paulista.
O        pessoal de busca queria informaes sobre eventuais sinais de alarme
~cebidos a partir da hora em que o comandante do RG-254 travara seu kimo dilogo
pelo
rdio, por volta das nove da noite.
Inicialmente, as hipteses consideradas mais provveis eram as de que o P-VMK
cara na regio da Serra dos Carajs ou no Oceano Atlntico (pro-ngamento da
rota Marab-Belm).
Mas podia ter cado em qualquer lugar, mtro de seu raio de autonomia. Como, duas
horas antes de dar posio ~rto de Carajs, o piloto informara estar se
aproximando
de Belm - tanto ie pedira instrues para descida e pouso no Aeroporto Val-de-
Cans -, era ,ssvel que estivesse em algum ponto do esturio do Tocantins ou na
Ilha
de [araj, regies prximas  capital paraense.
Com tantas possibilidades, era importante que o INPE detectasse o lo-ida
transmisso, se ela realmente estivesse ocorrendo. Nesse caso, assim ie o dia
clareasse,
aeronaves de busca seriam enviadas para a rea.
De So Jos dos Campos, o engenheiro Paulo Roberto Serra, do INPE, formara ao
Salvaero que a estao rastreadora de Cachoeira Paulista (co-iecida por sua
sigla,
LUT) funcionava 24 horas por dia. Seu responsvel, genheiro Gonzalo Valenzuela,
no se encontrava de servio durante a noi-estando a estao a cargo do operador
Paulo Shoiti. Serra ligara para Shoi-e comunicara-lhe o desaparecimento do
Boeing. A partir de ento, o Sal-ero passou a ter contato direto com a LUT.
O        comandante Domingos Svio, ltima pessoa a ter conversado com o Irig
254, dera complemento ao vo RG-23 1, aeronave PP-CJP, decolando ,Santarm e
aterrissando
no Val-de-Cans. Desembarcara seus passageiros e dita autorizao da empresa para
sobrevoar a rota Belm-Carajs, no que 1 imediatamente atendido.
O        objetivo de Svio era ver se enxergava foguetes de sinalizao, que
cleriam estar sendo disparados nas imediaes de Carajs por sobreviventes um
eventual,

e bem-sucedido, pouso forado na floresta. Poderia tambm xcrgar vestgios de
incndio, caso houvesse ocorrido o pior. O CJP decola-de Belm pouco depois das
23
horas.

275
RQ-254 - A Noite por Testemunha



Caixa-Preta




Efetivamente Svio voou at Carajs, onde bloqueou o aeroporto local,
sem pousar, e retornou a Belm, usando outra rota na volta. No viu nenhum
vestgio do avio desaparecido.
Para proceder s operaes de busca na segunda-feira, a FAB deslocou
para Belm naquela noite um turbolice quadrimotor Hrcules, diversos bi-motores
Bandeirantes e alguns helicpteros de grande porte.

Nenhum evento  mais importante, e mais dramtico, para uma empresa area do que
a queda de um de seus avies. Por isso, naquela primeira noite, o alto comando
da
Varig, tendo  frente o presidente Hlio Smidr e o diretor de Operaes Milton
Comerlato, deslocou-se para Belm a bordo de um Electra, para acompanhar de
perto
o trabalho de localizao do VMK e assis-tir os parentes dos passageiros.
Tanto entre os executivos da empresa como entre os oficiais do Salvaero
envolvidos no planejamento das operaes de busca, o pessimismo era gran-de. Era
difcil
imaginar a hiptese de um Boeing pousar com sucesso no mar ou na floresta em
plena noite.
Assim que tomavam conhecimento do desaparecimento do vo 254, os pilotos, no s
da Varig como tambm das demais empresas, queriam saber quem pilotava o 737. E
logo
os nomes de Czar Augusto Padula Garcez, gacho, 32 anos, nome de guerra Garcez,
e de Nilson de Souza Zille, 29, nome de guerra Zille, eram divulgados no boca-a-
boca,
microfone-a-micro-fone, dos aviadores. Como o mundo da aviao  pequeno, boa
parte dos colegas os conhecia.
A Varig sabia que precisava urgentemente avisar os parentes dos tripu-lantes
desaparecidos, antes que soubessem do ocorrido pela imprensa.
Por volta das duas horas da manh, seu Alceu e dona Leci, pais do co-mandante
Garcez, foram acordados em sua casa no bairro de Passo D'Areia, Zona Norte de
Porto
Alegre, e informados que o Boeing pilotado por seu filho sumira na Amaznia. O
mesmo ocorreu nas casas das famlias de cada um dos outros cinco tripulantes, em
diversas
cidades.
s 2h45, em Cachoeira Paulista, o operador Shoiti, da LUT, registrou um sinal
captado pela passagem nmero 04862 do satlite SARSAT-4, emi-tido de um ponto
localizado
nas coordenadas 10057'S!OSloSS'W, nordeste do Estado do Mato Grosso.



276

V
 o local do desastre, os sobreviventes que haviam passado a noite na selva
voltaram ao avio s seis da manh. Encontraram Garcez, de p, exausto, tomando
conta
dos feridos.
Raimundo Siqueira quis saber o resultado do jogo do Brasil. O piloto ou-se com a
pergunta. Respondeu que no sabia e que no escutara ne-~um jogo.
Garcez formou com a chefe de equipe Solange, o engenheiro Epami-~ndas, o
garimpeiro Afonso, o comerciante Antnio Farias e Marcionlio ~nheiro uma turma
para retirar
os feridos. Optou por deixar os mortos no I~terior da aeronave. O cadver do
mecnico Antnio Jos, j do lado de ira, foi levado para longe.
-        A equipe ps-se a trabalhar. Deram preferncia s crianas. Thais foi
~ka
 juntamente com a me, Cleide Paiva. Marinz Coimbra sentiu enorme o ao ver a
perna de Bruna libertada.
Antnio Farias surgiu  porta do avio, carregando nos braos uma
~cnina, que entregou a Solange.
-        - Quem  a me desta aqui? - perguntou a chefe de equipe, exibindo
~crian~a~ que choramingava.
-        Liceia, que passara a noite chorando a morte de Dbora, correu ao en-
kntro da filha.
Dentro da aeronave, enquanto aguardava sua vez de ser retirado, o en-~~eito
Paulo Altieri conseguira encontrar uma posio menos desconfort-277
Captulo 11



Caixa-Preta




vel, apoiando as costas no cadver de Fukuoka. Sentia dores fortssimas. Gri-
tava muito. Dizia palavres.
Garcez aproximou-se dele e sentenciou:
-        Se continuar gritando, vai ser o ltimo a ser retirado.
De vez em quando, o superintendente do Ibama, Jos Maria Gadelha
- que, mesmo ferido, procurava ajudar os que se encontravam em pior esta-do -,
trazia gua ou suco para Altieri.
Solange conseguiu libertar Roberto Regis. Mas no suas roupas, que
ficaram enganchadas nas ferragens. Ela ajudou o corpulento passageiro, vesti-do
s de cuecas, a arrastar-se para fora do Boeing.
A equipe de socorro precisou remover diversas filas de poltronas para soltar
Maria Delta Cavalcante. Aparentemente, ela s machucara as pernas. Tinha,
entretanto,
uma hemorragia no pulmo - perfurado por uma costela fraturada - e uma leso nos
rins.
Pouco depois, saram o garimpeiro Manoel Alencar (o mais supliciado
entre os feridos) e Rgia Azevedo. Evandro, marido de Rgia, continuou preso.
Alguns sobreviventes examinaram os destroos e a rea do desastre. Pude-ram ver
que o charuto do Boeing passara miraculosamente entre duas rvores
gigantescas e que o nariz se imobilizara a dez metros de outra, mais espessa
ainda.
O        comandante localizara o rdio Beacon do avio, tambm conhecido como
ELT (Emergency Locator Transmitter), que enviava sinais de alarme em casos de
acidente.

Esse aparelho era operado manualmente, ao contrrio do dispositivo radioimpacto,
acionado automaticamente pela desacelerao ocor-rida no momento da queda.
Os sinais eram transmitidos em duas freqncias: 121.5, em VHF (que podia ser
captada pelo rdio de qualquer aeronave) e 243, em ADF (captada apenas por
rdios especiais,
de avies de busca). A bateria tinha capacidade para 48 horas de transmisso.
Para funcionar, o ELT tinha de ser imerso em lquido.
Havia gua proveniente do gelo do servio de bordo, que derretera. Mas
no foi suficiente para submergir o transmissor completamente.
Foi preciso que alguns tripulantes e passageiros urinassem num balde de gelo.
Despejaram o contedo no aparelho. O procedimento revelou-se acer-tado. Logo
confirmaram
que o equipamento funcionava normalmente: hou-ve interferncia no som do wa/kman
da comissria Luciane Morosini.

278




Afonso Saraiva preocupava-se com a sorte do cachorrinho Leti. Tentou 'o poro de
bagagens do Boeing, para ver se o encontrava. No conseguiu. ostou o ouvido na
chapa
de alumnio, para ver se ouvia algum latido. Nada.
Sem falar portugus, e sem nunca ter contato com uma floresta tropical, aliano
Giovanni Mariani sentia-se abandonado em meio aos outros feri-s. Quebrara duas
costelas.
Encolhido, assombrado com o tamanho das rvo-1,apavorava-se com os insetos, uns
voando ao seu redor, outros sitiando-o no
floresta.
Mesmo tendo cincia de que o rdio Beacon funcionava - significan-que, mais cedo
ou mais tarde, as equipes de busca os encontrariam -, no sabia quanto tempo
levaria
para isso acontecer. Era preciso por-tomar providncias para garantir a
sobrevivncia do grupo at a chega-do socorro.
Ele e Solange fizeram um inventrio dos lquidos, mantimentos e rem-s de que
dispunham.
O contedo do estojo de medicamentos era de pouca, ou nenhuma, lade naquela
situao: analgsicos, antidiarricos, remdios contra en-~, mercurocromo,
curativos

Band-aid.
O estoque de lquidos se resumia a dois litros de gua mineral, seis gar-rafas
de Coca-cola e seis de guaran, que haviam sobrado do longo vo e do ~onsumo
descontrolado
ocorrido durante a noite. Garcez determinou um racionamento: cada pessoa tinha
direito a um copinho, dos de caf, a cada ~uatro horas.
Sobrara pouca comida - mesmo assim, aqueles salgadinhos safados ~ue as empresas
areas servem em etapas curtas. Prensados uns contra os ou-~ros na hora do pouso
forado, haviam se transformado numa espcie de ~aoca, de pssima aparncia.
Havia tambm frutas - mas, laranjas, tangerinas, peras , no mui-racoisa,
sobras do lanche da tripulao. Decidiu-se que seriam exclusivas das ~rianas.
Todo o
leite tambm foi reservado para elas.
Depois de 15 horas preso nos destroos, o doutor Joo Roberto Matos ~i
libertado. Tendo o legista Serrano Brasil morrido, ele era o nico mdico lo
grupo. Foi logo
assediado pelos sobreviventes. Com a perna perfurada no :ornozelo e no joelho,
precisou valer-se de uma muleta improvisada para po-ler caminhar. Examinou cada
um
dos feridos.



279
RQ-254 - A Noite por Testemunha




Caixa-Preta




J era quase meio-dia quando Rgia conseguiu soltar Evandro, que ti-nha a bacia
fraturada. Altieri foi solto pouco depois. Mas optou por perma-necer dentro do
avio.
As irms Meio, Cieonilde e Enilde, foram as duas ltimas pessoas a serem
libertadas. Eram duas da tarde. Apesar da presena dos mortos, elas tambm
decidiram ficar
no Boeing, temendo um ataque de animais sel-vagens.
Como nenhum dos tripulantes recebera treinamento adequado para
sobrevivncia na selva, no sabiam, como tambm no lhes ocorreu, que as
fezes das pessoas tinham de ser enterradas, para evitar insetos.
Desidratados pelo calor, muitos passageiros foram acometidos de diar-ria. E
apressavam-se em defecar atrs das rvores prximas ao avio. As crianas faziam
suas
necessidades ali mesmo, junto das mes. Regina Clia Saraiva, que tinha um bom
estoque de fraldas descartveis, de Ariadne, no se preocupava em pr o material
usado
em sacos plsticos. Jogava-o em qual-quer lugar.
Muitos feridos, na impossibilidade de se locomover, urinavam e defeca-vam nas
prprias roupas.
Logo surgiram indefectveis moscas, que pousavam nas fezes e, em se-guida, nas
feridas dos sobreviventes. Os bernes (larvas de moscas) encontra-vam seu hbitat
ideal
no calor mido dos ferimentos, desencadeando o pro-cesso de apodrecimento das
carnes dilaceradas.
Num buraco na testa do advogado Rocco Sarno, por exemplo, varejei-ras enxameavam
ao redor da meninge exposta.

Com o estresse provocado pelo acidente, quase todas as mulheres mens-truaram.
Da, que j embarcara em Imperatriz menstruada, viu-se obrigada a dividir seu
pacote
de absorventes com as outras. Cada uma teve direito a um apenas.
A euforia inicial (por terem sobrevivido) deu lugar a um clima de sofri-mento e
tragdia, piorado pelas pssimas condies de higiene. Sem ter como prestar
algum
tipo de socorro prtico aos filhos feridos, as mes se limitavam a consol-los,
esperando, aflitivamente, que algum tipo de socorro chegasse logo.
A grande preocupao do piloto Wilson Alencar era o bilhete que escreve-ra na
vspera, quando pensou que ia morrer, confessando  mulher suas estre-280
o




lias de bomio. Agora fuava o interior do Boeing, procurando recuperar o ei
comprometedor. Finalmente o achou e o desfez em mil pedaos.
Entre os passageiros, um se destacava: o garimpeiro Afonso que, alm ser mateiro
experiente, sara do desastre com apenas um corte no couro tbeiudo. Afonso
movia-se
na selva com a intimidade de um Tarz e a habi-de de um macaco.
A maior preocupao do grupo era encontrar gua. Tentando descobrir rio, Afonso
subiu numa rvore de quase 30 metros de altura. Os outros iram assustados, com
medo
de ele cair.
Mas, com a maior tranqilidade, o garimpeiro berrou l de cima:
- Eu no estou vendo nada. S mata.
- Voc no est vendo nenhum rio? E casa? Voc est vendo alguma

- No, gente. S tem mato.
Um pssaro ento comeou a cantar. Mais do que depressa, Afonso iesceu da rvore
e explicou:
- Esse passarinho est indicando que tem gua aqui por perto.
Garcez reuniu alguns homens e os dividiu em duplas. Cada uma seguiu wma direo,
levando garrafas.
Quarenta minutos depois, o prprio Afonso Saraiva e Raimundo Si-Iueira
encontraram uma espcie de lago, raso e pequeno, pouco mais do que ima poa, com
gua barrenta,

quase lama. Os dois retornaram ao avio com ~ garrafas cheias. As pessoas
fizeram careta e tomaram o lquido marrom. ~4as, alm de ruim, era pouco.
Um grupo se formou e seguiu at o poo. O comandante foi junto. Um de matar a
sede no local, regressaram com diversos recipientes cheios, esolvendo o problema
da
sede.
Entre tantos feridos, um em especial causava grande consternao ao ~upo: Bruno
Melazo, de um ano, em coma profundo, retirado do avio pela rianh. Sua me e
irmo
(Ktia e Giuseppe) estavam mortos dentro do Boeing. Jsando apenas fraldas, Bruno
encontrava-se deitado, de costas, inconsciente, ium leito improvisado, ao lado
da
tia Liceia, da prima Dbora e da av Jose-e. Era visvel um afundamento em sua
testa.
Marinz Coimbra fazia o possvel para dar  filha Bruna um mnimo de onforto.
Obtinha-lhe pedaos de frutas. Trazia-lhe gua. Quando as dores



281
RG-254 - A Noite por Testemunha



C~a-Preta




na perna da garotinha se tornavam muito fortes, Marinz fazia com que ela
mordesse um pedao de pano.
No final da tarde, Afonso, numa de suas expedies, descobriu um iga-rap de
guas lmpidas. Quando regressou com a notcia, foi uma festa. Di-versos
sobreviventes,
inclusive alguns feridos, foram l beber  vontade, e at tomar banho.
Desde a queda do avio, Ariadne Suelen no passara sequer um simples
desconforto, com exceo,  claro, do calor. No sentira fome, pois a me a
amamentara. Muito
menos sede: acostumada  vida no garimpo e a se virar no mato, Regina captara
gua de chuva retida nas bananeiras. Mais tarde, quando Afonso descobriu o
igarap,
Regina foi at l. Voltou equilibrando na cabea um recipiente cheio d'gua. Deu
banho na filha e de beber a diver-sos feridos.
Quase na hora do pr-do-sol, Afonso deu nova alegria ao grupo, ao
descobrir, perto do igarap, uma picada, sinal inequvoco de presena huma-na em
algum local ali por perto.
Dentro do Boeing, Paulo Altieri no quis passar outra noite em meio
aos mortos. Rastejou at a porta traseira e gritou por socorro. Surgiu Cade-lha,
que o ajudou a sair.
Rgia oferecia dinheiro a quem a ajudasse a retirar Evandro do avio. Ele estava
deitado ao lado de um cadver, cuja pele tornara-se roxa e do qual comeava a
exalar
um odor ptrido. Afonso apareceu em socorro, recusou o dinheiro e carregou
Evandro para fora.
Entre os sobreviventes, restavam na aeronave o mecnico Jos de Jesus
Manso - com fratura no fmur - e as irms Enilde e Cleonilde. O estado
de Cleonilde piorara muito nas ltimas horas.

282




Captulo 12




a manh daquela segunda-feira, em Cachoeira Paulista, o engenheiro Gonzalo
Valenzuela assumira o comando da LUT e telefonara para Salvaero no Rio de
Janeiro, solicitando
detalhes do Beacon (radio-~nsmissor de emergncia) do VMK. Ficara sabendo que o
aparelho em ques-o transmitia nas freqncias 12 1.5 e 243 megahertz. Passou a
trabalhar
na iltragem dos sinais captados pelos satlites.
5 9h15, o satlite COSPAS-3, em sua passagem nmero 26085 sobre nordeste do
Estado de Mato Grosso, recebera um sinal de emergncia e o etransmitira para as
estaes
rastreadoras em terra, inclusive a de Cachoeira paulista.
Gonzalo comparara as coordenadas geogrficas do local da emisso do sinal com as
captadas durante a noite pelo tcnico Shoiti. Viu que eram as mesmas. Apressara-
se
em telefonar para o Salvaero. Disse que o PP-VMK se encontrava nas coordenadas
10057'S!OS 105 5'W, perto da localidade de So Jos do Xingu, Mato Grosso, a
leste
do Rio Xingu e a oeste da Ilha do Bana-nal (Rio Araguaia).
O Salvaero informou a LUT que o Boeing no poderia ter cado na-quela rea, pois
desaparecera na rota Marab-Belm, tendo inclusive solici-tado ao Centro Belm
autorizao
para pouso, quando se encontrava nas imediaes da cidade. Mais tarde, informara
estar nas proximidades de Carajs e pedira para que as luzes do aerdromo
daquela
localidade fossem acesas. Acusara tambm uma proa 1900 de Carajs e, em outra
ocasio,

283

Caixa-Preta




proa 1790 de Marab. Se estivera ao norte de Carajs e de Marab, pouco antes de
desaparecer, simplesmente no podia estar no Mato Grosso. A localizao provvel
era muito mais ao norte, rea para a qual as buscas estavam sendo dirigidas.
Enquanto a LUT e o Salvaero trocavam inf6rmaes e argumentos, em
Belm o Comando de Buscas obtivera diversas pistas do paradeiro do VMK.
Um piloto de garimpo, de nome Portela, afirmara ter visto destroos do Boeing
numa rea de queimadas conhecida como Porto Seguro, na Fazenda J a, a 60
quilmetros
de So Felix do Xingu, no sul do Par. Portela avistara indcios de
sobreviventes.
Quase ao mesmo tempo, o Salvaero de Belm recebera um telex infor-mando que o
avio desaparecido fora localizado prximo  cidade de Itacoa-tiara, no Estado
do Amazonas.
A redao do jornal O Liberal, de Belm, informara  Aeronutica que Alberto
Caetano, funcionrio da Empresa de Telecomunicaes do Par, re-cebera um
telefonema
de Adalton Vieira Bezerra, inspetor da Secretaria de Fazenda do Estado do Par,
informando que, na noite de domingo, vira um avio de grande porte fazer um vo
rasante sobre as instalaes da Minerao Xingu, no municpio de So Felix do
Xingu. Em seguida, Bezerra ouvira o estrondo do avio se chocando com o solo.
Todas as pistas tinham de ser checadas, inclusive a da queda no Mato Grosso,
embora parecesse absurda a hiptese de o avio estar l. Ao longo do dia, os
oficiais
se debruaram sobre as cartas aeronuticas e verificaram, entre outras coisas,
que So Felix do Xingu - de onde procediam duas pistas, de fontes distintas -
encontrava-se
a 480 quilmetros de distncia de So Jos do Xingu, suposto local da
transmisso dos sinais de emergncia.
O raio de autonomia do Boeing, alm do qual era impossvel ele estar, cobria uma
vasta regio: a ntegra dos territrios dos Estados do Par, Mara-nho e
Tocantins,
o leste do Amazonas, o norte de Gois, o noroeste da Bahia e o norte do Mato
Grosso. Sem contar uma grande rea do Oceano Atlntico, ao norte de Belm.
Na falta de algo concreto para informar aos reprteres, a Aeronutica dava
declaraes vagas. O coronel Roberto Brasil, diretor regional da Infraero no
Par, por
exemplo, insinuou que os pilotos do 254 poderiam ter se perdi-do enquanto
escutavam pelo rdio o jogo Brasil x Chile.



284

RG-254 - A Noite por Testemunha




No apenas a Aeronutica trabalhava nas buscas. A Varig solicitara aos pilotos
de todas as aeronaves de sua frota, que porventura viessem a sobrevoar a regio
Norte
naquela segunda-feira, que prestassem ateno a eventuais si-nais de emergncia
que o avio desaparecido poderia estar emitindo.
Seguindo essa orientao, um DC-10 da empresa, pilotado pelo co-mandante Rubem
Abrunhosa, em vo de carreira Rio-Manaus, ao percorrer a aerovia UZ6, entre
Braslia
e Manaus, detectou em seu VHF, na freqncia de 121.5 MHz, o inconfundvel sinal
de emergncia. O piloto fez uma nova passagem e anotou as coordenadas no mapa.
Abrunhosa informou o Cindacta e a coordenao Varig sobre o ocorri-do e, ao
chegar em Manaus, telefonou para o diretor de Operaes da Varig, comandante
Milton Jos
Comerlato, que se encontrava em Belm envolvido nas operaes de busca.
Algumas horas mais tarde, o mesmo DC- 10 retornou a Braslia, agora pilotado
pelo comandante Gelson Fochesato e tendo Abrunhosa como tripu-lante extra.
Autorizado
por Comerlato, e tendo posto mais combustvel nos tanques, Fochesato, ao se
aproximar do local antes plotado pelo colega, cujas coordenadas coincidiam com
as fornecidas
pela LUT, informou aos passagei-ros que faria algumas passagens baixas, 
procura do avio desaparecido.
Fochesato desceu do nvel 310 para o nvel 20 e deu algumas voltas nas
imediaes do local onde presumidamente se encontrava o Boeing. Nenhum dos
tripulantes enxergou
nada. Os passageiros tambm no. S viram o verde escuro da floresta. Julgando
que a EAB j tivesse enviado alguns avies de busca para a rea, Fochesato
preferiu
no permanecer muito tempo no local, principalmente por estar voando to baixo.
Temendo uma coliso, voltou a subir e prosseguiu viagem para Braslia.
Durante toda a segunda-feira, em Cachoeira Paulista, a LUT prossegui-ra em seu
trabalho. As 15h17 o satlite SARSAT-4, em sua passagem 04869, captou, e a
estao
rastreadora recebeu, novos sinais de um transmissor de emergncia, exatamente
nas coordenadas plotadas de manh pelo COSPAS-3 e, mais tarde, pelo DC-10.
Tecnicamente, o PP-VMK estava ali. Mas, teoricamente, no. No num vo Marab-
Belm. Era como se um avio da Ponte Area Rio-So Paulo, tendo desaparecido
entre
as duas capitais, fosse detectado ao norte de Belo Horizonte. Alm disso, o
local, nordeste do Mato Grosso, no batia com



285



Caixa-Preta

nenhuma das informaes prestadas na vspera, durante o vo 254, pelo co-
mandante Czar Garcez.
Mas, com a inflexibilidade - s vezes aparentemente obtusa - das m-quinas, s
16h32, novo sinal do Beacon fora captado, sempre da regio do Alto Xingu, desta
vez
na passagem 32348 do satlite COSPAS 2. Cumprindo sua obrigao, o engenheiro
Gonzalo voltou a avisar o Salvaero. Deu tambm co-nhecimento do fato ao diretor
do
INPE, Mrcio Nogueira Barbosa.
Se a Aeronutica acreditava em teoria de navegao area, Barbosa acre-ditava em
seu equipamento. Insatisfeito com o rumo dos trabalhos, telefo-nou diretamente
para
o ministro da Aeronutica, brigadeiro Octvio Morei-ra Lima.
A reclamao deve ter surtido efeito. Pois, s 17h30, o operador da LUT ouviu no
rdio um dilogo travado entre o Salvaero e um dos avies de busca. Na conversa,
ficava claro que a aeronave se dirigia para o local indicado pelo INPE e plotado
pelo DC-10. Mas era um avio apenas. Os demais continua-vam esquadrinhando a
rea
ao redor de Belm e de Carajs.
Pouco depois, novo sinal do Beacon foi captado do Alto Xingu, desta
vez na passagem 24369 do satlite SARSAT-2.
Como que para confundir a Fora Area, novas informaes chegavam a Belm,
sempre dando conta do paradeiro do Boeing, uma delas de Bom Jesus da Lapa,
Bahia. Outra
viera de uma empresa de minerao, de nome Canopus, no sul do Par. Um dos
empregados do garimpo Bom Jardim, pertencente  empresa, teria ouvido o rudo de
uma aeronave
voando baixo e, em seguida, um estrondo. Vira tambm um forte claro.
Cada uma dessas pistas tinha de ser criteriosamente checada.
Com a chegada da noite, as buscas foram suspensas. O Salvaero j
exclura a hiptese da queda em Itacoatiara. Telefonemas dados  regio nada
tinham apurado.
Para Elilson Bessa, gerente de aeroporto da Varig em Belm, a segunda-feira fora
infernal. Passara o dia lidando com pessoas exaltadas, algumas beira de um
ataque
de histeria, a maior parte familiares dos passageiros do vo 254 querendo saber
notcias do avio. Pior: como volta e meia o rdio e a televiso davam conta da
localizao
do Boeing, nos locais os mais dspares, os parentes acreditavam que a Varig j
tinha as informaes mas, por algum motivo suspeito, as ocultava.



286

todo, querendo informaes.
Marilcia Chaves, mulher do engenheiro Epaminondas, no tivera co-
de contar para o filho Diogo que o avio do pai desaparecera. Mas o
mais velho, Tiago, j sabia de tudo. No dormira um segundo sequer e comera nada
desde a noite da vspera.
Ao final da segunda-feira, o pessimismo em Belm era to grande que, na
Secretaria de Sade do Estado do Par, onde o engenheiro Paulo Altieri era
diretor de Meio
Ambiente, seus colegas comearam a preparar um salo oara o velrio. Mas os
preparativos foram interrompidos quando uma emis-rdio noticiou que uma
fazendeira, de
nome Maria das Graas Junes, municpio de Xinguara, ao sul de Marab, informara
atravs de rdio que
os passageiros do vo 254 haviam chegado  sua fazenda. E que, embora houvesse
vrios feridos, ningum morrera no acidente. Os sobreviventes, se-gundo ela,
estavam
viajando de carro para Marab pela BR-158.




287
RG-254 - A Noite por Testemunha
Houve um homem que ameaou quebrar tudo, s tendo sido contido o auxlio da
polcia. Heliane Siqueira, mulher de Raimundo Siqueira,
de minerao da Docegeo embarcado em Marab, assediara Bessa o

Captulo 13




Q
uando a segunda noite caiu sobre os destroos do Boeing, os sobre-
viventes acenderam uma fogueira. Passadas 24 horas da queda, a situao era
desesperante. As varejeiras haviam posto larvas nos
machucados de todas as vtimas, infeccionando-os. Ajudado por Garcez, o doutor
Joo Roberto Matos administrava aos feridos antibiticos que trouxe-ra em sua
maleta
de mo.
Outro que se desdobrava em assistir os companheiros era o superinten-dente do
Ibama, Jos Maria Gadelha, apesar das dores que sentia no brao
(esmigalhara a cabea do cbito).
A perfurao na cavidade ocular do garimpeiro Manoel Alencar cobrira-
se de bernes. Sua mandbula, estraalhada, doa pavorosamente. Ele no pa-rava
de gritar:
- Pelo amor de Deus, me ajudem. - Manoel chorava, gemia. - Me acode, meu Deus.
Me ajude.
Outro que gritava muito era o italiano Giovanni. Houve um momento
em que Zille impacientou-se com ele. Da bacia onde se encontrava, o co-piloto
berrou:
-        Cala a boca, argentino. - Muitos acharam graa, mas o italiano sentiu-
se humilhado. Ficou reclamando do aviador.
O        advogado Fidelis Rocco alternava perodos de conscincia e de de-lrio.
Quando acordava, sentia dores muito fortes, nas fraturas da face. Ti-nha febre
alta.
A exposio da meninge s moscas resultara em meningite.

288



O        mdico concluiu que, se o socorro no chegasse rpido, o ferido no
sobreviveria.
O beb Bruno Melazo no se movia nem chorava. Limitava-se a gemer, to baixo que
era preciso chegar perto para ouvi-lo. Parecia estar apenas ten-do um pesadelo.
Apesar da exausto, poucos sobreviventes dormiram naquela segunda noite. A
comissria Luciane, por exemplo, acordava a toda hora por causa dos gritos dos
feridos.
s vezes, ouvia o barulho de um avio, jatos de carreira que passavam em grandes
altitudes.

A lngua de Jacqueline, muito inchada, mal cabia dentro da boca. Doa muito.
Apesar do cansao, ela no conseguia dormir.
Fazia um pouco de frio. Mesmo assim, com exceo das irms Enilde e Cleonilde
Melo, todos preferiam se acomodar na floresta, para no ter de ficar perto dos
cadveres.
O cheiro tornava-se cada vez mais e mais insuport-vel. Os sobreviventes
reuniram cobertores e agasalhos e se agruparam, cola-dos uns aos outros. Ningum
sentia
fome, talvez por causa da fedorentina.
No dava para se fugir para longe, pois a mata era muito fechada. Ti-nham de
ficar na clareira aberta pelo avio.
Alguns achavam que as equipes de busca iriam encontr-los no dia se-guinte.
Outros argumentavam que era preciso abandonar a atitude de passi-vidade e sair 
procura
de socorro. Entre estes ltimos, destacava-se Marinz Coimbra, preocupada com o
p de Bruna, muito infeccionado.
Determinada como era, Marinz no deixava ningum em paz.
- Vamos, gente. Temos de sair atrs de alguma coisa - ela repetia de um em um.
Convencidos pelos argumentos, ou cansados do assdio, o certo  que todos
concordaram em organizar uma expedio, que sairia ao amanhecer.
Depois de conferenciar com o piloto Wilson Alencar, Garcez decidiu quem ia e
quem ficava.
- Olha, amanh cedo vai sair o Afonso, o Epaminondas, o Antnio Farias e o
Marcionlio.
Selecionados e preteridos aceitaram a deciso. Ningum discutiu. Era possvel
que, com um pouco de sorte, encontrassem uma fazenda ou povoado.
E a noite se passou entre choros de agonia e gemidos sofridos. Em meio  dor e
ao desconforto. Alguns perambularam pela escurido, para fazer o tempo passar
mais
rpido.

289
RQ-254 - A Noite por Testemunha




Longe dali, os parentes dos passageiros tinham mais uma decepo. Ao contrrio
do que dissera pelo rdio a fazendeira Maria das Graas, de Xingua-ra, nenhum
sobrevivente
apareceu em Marab. E os encarregados das buscas concluram que se tratava
apenas de mais um boato.
Quase  meia-noite, ao final do Jornal da Globo, a apresentadora e jor-nalista
Lilian Witte Fibe desmentiu a notcia da localizao do Boeing. Disse
tambm que as buscas prosseguiriam na tera-feira.
Apesar dos desmentidos, Marilcia Chaves, mulher do engenheiro Epa-minondas,
decidiu viajar na manh seguinte para Marab - onde morava sua famlia e a do
marido.
L, aguardaria notcias do avio, no qual estava tambm sua prima Marinz,
acompanhada da filha Bruna.
Ao longo da noite de segunda para tera, os sinais emitidos pelo Boeing
continuaram a ser captados pela LUT. Num total de seis vezes. Em intervalos que
variaram
de alguns minutos a vrias horas, sempre provenientes do Mato Grosso. O Salvaero
j decidira que, no dia seguinte, iria concentrar os esfor-os de busca naquela

regio. Mas, se o Boeng realmente estivesse l, con-cluam os oficiais, seria o
disparate dos disparates. O local ficava a mais de mil quilmetros de Belm,
destino
do vo 254.




290




Ao

lua-

~cas

or-
se
        a-        Captulo 14

a

g
5



que a tera-feira clareou, o Bandeirante prefixo 6544 do 2~ Ba-A7
talho de Busca e Salvamento da FAB, enviado na vspera para o ato Grosso, deu
incio  procura na rea onde os sinais de emergn-cia haviam sido detectados.
Mas
um avio s era pouco. O Boeing desapare-cido poderia estar camuflado sob as
rvores, o que exigiria um esquadrinha-mento minucioso do local. Na Amaznia,
era comum
avies acidentados serem engolidos pela floresta, muitas vezes ficando quase
invisveis.
Outras aeronaves, vindas de Belm, eram esperadas  tarde, para se in-corporarem
s operaes.
Cachoeira Paulista voltara a registrar sinais que, tudo indicava, proce-diam
mesmo do PP-VMK. Os aparelhos rastreadores da LUT agora contabi-lizavam 17
transmisses
desde a noite de domingo.

Corpos em decomposio, feridas apostemadas, excrementos, zumbido de varejeiras,
fetidez insuportvel... Ao amanhecer, a clareira do desastre se asse-melhava a
um
campo de batalha, depois da batalha.
Conforme havia sido decidido durante a noite, um grupo daria incio expedio
em busca de socorro. Mas quem porventura examinasse os quatro homens que se
preparavam
para deixar a clareira, e penetrar na floresta, no tinha como ter muita f no
sucesso da empreitada.
O        engenheiro Epaminondas, mesmo no estando ferido, encontrava-se ~rado
pelas 36 horas nas quais dormira muito pouco e quase no se

291



Caixa-Preta




alimentara, sem falar no esforo consumido no trabalho de retirada dos feri-dos
e nas expedies em busca de gua.
A ferida no couro cabeludo de Afonso Saraiva, o nico entre eles que tinha
experincia de selva, apresentava sinais claros de miase (processo de necrose
provocado
por larvas de moscas). Miase que tomara conta do feri-mento na testa de
Marcionlio Pinheiro. Antnio Farias tinha dificuldades para caminhar, por causa
do ferimento
no joelho.
O comandante Garcez distribuiu entre os quatro uma ma, uma caixa de sanduches
(azedados), trs isqueiros, um canivete, um colete salva-vidas e
dois foguetes de sinalizao.
Os homens partiram sob os olhos esperanosos dos demais. O objetivo
era alcanar a trilha descoberta na vspera por Afonso e seguir por ela at
achar uma aldeia ou fazenda.

Em Belm, a viglia continuava no Aeroporto Val-de-Cans. Dona Dayse, me da
passageira Ruth Tavares, j estava ali havia dois dias. Aos poucos, era vencida
pela
exausto e pela desesperana.
A famlia do superintendente Gadelha, do Ibama, com quem Ruth via-jara para
Marab, revoltava-se com a falta de informaes.
Convicta da morte de Epaminondas, Marilcia Chaves viajara para
Marab, onde aguardaria notcias da localizao do Boeing.

Depois que a expedio se embrenhou na floresta, Garcez e o doutor Matos
entraram no avio. Apesar do mau cheiro, Enilde e Cleonilde Melo conti-nuavam l
dentro.
O comandante disse-lhes que teriam de sair.
Como no podia se locomover por conta prpria, Cleonilde precisou ser removida
num cobertor. Tinha febre alta e murmurava palavras descone-xas. J do lado de
fora,
a comissria Jacqueline, com muito esforo, conse-guiu que ela comesse um pouco
de ma raspada e chupasse alguns gomos de tangerina, sobras murchas do servio
de
bordo.
Embora volta e meia tentasse ajudar os feridos, Jacqueline sentia suas
foras e nimo se esvaindo. A lngua estava coberta de pus. Falava com difi-
culdade. No conseguia fechar a boca, como se tivesse um ovo l dentro.
Quando o Sol esquentou de vez, Fidelis Rocco, um dos que permanecia
ao lado da aeronave - deitado no mesmo lugar, desde a queda do avio -,



292




RQ-254 - A Noite por Testemunha




'conseguiu suportar o fedor dos cadveres. Pediu auxlio a Gadelha, que o
sistira durante a noite. O superintendente do Ibama o ajudou a rastejar-se
um        pouco mais longe. Os ferimentos no rosto e na fronte de Rocco .vam-se
cobertos de larvas pustulentas. Ele apodrecia vivo.
Jacqueline simplesmente no tinha estmago para se aproximar de Roc-Buscava gua
para ele mas pedia a Gadelha que lhe desse de beber.

Gadelha, por sinal, conseguia se esquecer de seus prprios ferimentos. ~ttendia,
alm de Rocco, diversos feridos. As irms Rita e Elza Gasparin tam-,m iam de um
em um, confortando, distribuindo gua.
Como no podia deixar de ser, todos se sentiam imundos. As comiss-ias
Jacqueline e Luciane tinham biqunis em suas maletas, que eventualmen-~ usariam
na piscina
do hotel em Belm. Vestiram-nos no meio do mato e ~ram banhar-se no igarap.
Na clareira, alguns passageiros no gostaram da cena das moas de bi-juni
(note-se que s viram a parte de cima, pois elas usavam saias). Acharam iue as
duas estavam
se divertindo em meio  desgraa dos outros. Josete ~onseca, por exemplo,
considerou o fato uma afronta aos mortos.
O mdico Matos estava muito preocupado com o estado dos feridos. omo tinha em
sua bagagem, no poro do Boeing, grande quantidade de riedicamentos, decidiu
recuper-la.
Com o auxlio da chefe de equipe Solan-~, conseguiu arrombar o poro com a
machadinha. O acesso foi restrito e s lguns volumes puderam ser retirados.
Entre eles,
felizmente, trs caixas de emdios. Para felicidade do grupo, encontraram tambm
20 quilos de fei-io. Decidiram esquentar gua para cozinh-lo.
Embora o comandante continuasse a exercer liderana sobre o grupo -maioria dos
sobreviventes o tinha como heri, por causa do pouso -, havia lguma animosidade
contra
as comissrias. Os passageiros as viam como ser-iais. E se aborreciam quando
elas no os atendiam prontamente.
O clima era tenso. O moral, baixo. E tudo indicava que iria piorar, caso
'socorro no chegasse logo. Os sobreviventes no tiravam os olhos do cu, a
expectativa
de ver algum avio de busca.
Houve um momento em que viram, voando alto, um jato, que parecia :r de carreira.
Garcez e Solange soltaram foguetes de sinalizao. Alguns ~ssageiros ensaiaram
uma
gritaria, agitaram panos, mas logo viram que era ~til. O avio manteve-se em
sua rota e desapareceu por trs das rvores.



293



Caixa-Preta




O preparo do feijo foi uma lstima. Revelou-se parcialmente cozido, duro,
intragvel. Ningum conseguiu comer.
E assim se passou a tarde do segundo dia. Entreolhando-se cabisbaixos e vendo o
Sol sumir atrs das rvores, os sobreviventes se conformaram em aguardar a
chegada
de mais uma noite de horrores. Com o pressentimento de que a manh seguinte lhes
revelaria novos cadveres. Cleonilde Melo, o ad-vogado Fidelis Rocco, o
garimpeiro
Manoel Alencar e o beb Bruno dificil-mente suportariam muito mais tempo.

Pela manh, Epaminondas, Afonso, Marcionlio e Antnio Farias haviam
caminhado at o igarap. L tomaram a picada descoberta na vspera, que
margeava o curso d'gua.
A mata era to fechada que no dava para se ver o cu. Puderam comer

algumas frutas, escolhidas e colhidas por Afonso. Este ia na frente, atento ao
rio,  picada e aos sons da floresta.
Depois de uma hora de caminhada, extremamente penosa para Farias,
cujo joelho doa muito, encontraram uma clareira. L havia, maravilha das
maravilhas, bosta de vaca.
- Sei tirar leite de vaca - Afonso informou aos companheiros, deixan-do claro
que, se encontrassem o animal, de fome ningum morreria.
A caminhada prosseguiu e, de vez em quando, Afonso subia numa rvo-re e
explorava o terreno. Numa dessas ocasies, o rapaz gritou l de cima:
- Tem um roado ali.
Pouco mais tarde, encontraram uma trilha maior e, pastando placida-mente, um
boi. Em seguida, viram uma cerca de arame farpado.
s dez da manh, chegaram ao alto de uma colina. Eram decorridas
quatro horas e meia de caminhada. Viram a casa de uma fazenda, l embaixo.
Entreolharam-se em suas roupas esfarrapadas e temeram levar tiros ao
chegar. Decidiram gritar por socorro.
Belmiro Alves Ferreira, o Quincas, administrador da Fazenda Cruma-r do Xingu,
andava a cavalo com um dos seus homens quando viu, beiran-do a cerca de um
pasto,
quatro homens a p. Estranhando a presena de forasteiros, Quincas cutucou a
barriga da montaria, apressando-lhe o passo. Partiu ao encontro dos estranhos.
Quando
chegou perto, notou que esta-vam feridos.



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RG-254 - A Noite por Testemunha




-        Socorre a gente - pediu Epaminondas, chorando de emoo. -somos do
avio da Varig que caiu. Tem muita gente ferida, onde o avio
A gente precisa voltar para l, levando socorro. - Epaminondas lem-~ou-se que
tinha no bolso o bilhete da Varig. Tirou-o. - Olha aqui minha Lssagem.
- Pode carm - disse Quincas, sem pegar o bilhete. - Nis vamo esorv. Mas num
adianta nis ir pra l agora. Nis num temo remdio. Nis
que pedir socorro pelo rdio.
Os sobreviventes foram conduzidos  sede da Fazenda Crumar.

Quincas, embora surpreso com a apario, sabia do desaparecimento do Boeing. A
fazenda tinha um aparelho de televiso e antena parablica. Mas o capataz
pensava
que o avio tivesse desaparecido perto de Belm, muito lon-~ge de onde se
encontravam, distrito de So Jos do Xingu, municpio de ~Luciara, Estado do
Mato Grosso.
Os quatro homens custaram a acreditar quando Quincas lhes disse que estavam no
Mato Grosso.
Embora a Fazenda Crumar do Xingu dispusesse de campo de pouso, l ~no havia
equipamento de comunicao para informar s autoridades sobre o local do
acidente e
pedir socorro. Quincas esclareceu que seria preciso ir at uma fazenda prxima,
Ferro de Prata, onde havia o tal rdio. Enquanto os sobreviventes tomavam um
banho
e faziam sua primeira refeio desde do-mingo, Quincas partiu a galope para l.




295




Captulo 15




Q
 administrador Marsio Vilela de Andrade, da Fazenda Ferro de
Prata, saa de casa quando Quincas chegou esbaforido, informan-do-o a respeito
do avio. Marsio no perdeu tempo. Voltou, ligou
o        rdio e passou a transmitir a notcia.

Todos os dias, na hora do almoo, em Franca, So Paulo, Joo Alves da Silva
Jnior, 22 anos, fazendeiro e empresrio, falava pelo rdio com o pai, Joo
Alves da
Silva Sobrinho, que estava a mais de mil quilmetros de distn-cia, na Fazenda
Tucuns, de propriedade da famlia, em Tocantins. Nessas conversas, os dois
discutiam
seus negcios de gado e agricultura.
As 12h10 de tera-feira, 5 de setembro, pai e filho cumpriam a rotina diria
quando ouviram o aviso da localizao do Boeing. No incio, Jnior pensou que se
tratava
de uma brincadeira. Mas os apelos de Marsio se torna-ram insistentes. Ele dizia
haver diversos passageiros mortos e outros grave-mente feridos.
J tinior, que fazia um curso de piloto, disse a Marsio que iria ajud-lo.
Telefonou para o Aeroclube de Franca e obteve o nmero do Salvaero em So Paulo.
Ligou
para l. Foi atendido por um sargento. Informou-o sobre a localizao do avio.
O        militar disse que precisava checar alguns dados, pois a FAB j recebe-
ra inmeros trotes com informaes falsas sobre o vo 254. Jnior identifi-cou-
se
e deu como referncia o administrador do Aeroporto de Franca.



296




RG-254 - A Noite por Testemunha




Depois de fazer a verificao, o sargento tentou acessar diretamente a
~qncia do rdio da Ferro de Prata, tentativa que se revelou infrutfera.
r se ofereceu para fazer a ponte entre a fazenda e So Paulo.
O sargento consultou seu superior. Recebeu ordens para exigir a presena um dos
sobreviventes no rdio, a fim de responder a algumas perguntas, atra-das quais a
Aeronutica verificaria se a informao era ou no procedente.
Vendo que no adiantava argumentar, Marsio disse que iria at a Cru-
r buscar um dos passageiros. Ato contnuo, pegou seu caminho e voou com
Quincas para l. Vinte minutos depois, estavam de volta, trazendo o engenheiro
Epaminondas.
Por meio de Franca, Epaminondas identificou-se ao Salvaero. Relatou

que caminhara cerca de quatro horas  procura de ajuda. Que o avio cara numa
regio de mata fechada no norte do Mato Grosso.
Os militares exigiram provas de que ele falava a verdade.
Epaminondas irritou-se com as exigncias. Mas, como tinha no bolso a
passagem Imperatriz-Belm, forneceu o nmero do bilhete.
No foi o suficiente. O Salvaero quis saber o nome do comandante do avio e o
total de passageiros. Pediu detalhes do vo, o nmero da carteira de identidade
de
Epaminondas, o telefone de sua residncia em Belm e o nome de sua mulher, para
checar tudo por telefone. Epaminondas respondeu a todos os quesitos. Jnior
passou
as respostas a So Paulo.
Enquanto o Salvaero dava incio ao processo de verificao dos dados, Jnior,
que j no tinha a menor dvida de que a informao era verdadeira, telefonou
para
a casa de Epaminondas em Belm e soube que a mulher do engenheiro, Marilcia
Chaves, viajara para Marab.
Marilcia j se encontrava na casa de seus pais, em Marab, quando o
telefone tocou:
-  dona Marilcia Chaves?
- Sim,  ela - Marilcia se preparou para o pior.
- Aqui fala Joo Alves da Silva Jnior, de Franca, So Paulo. Seu ma-ido,
Epaminondas, est falando comigo pelo rdio. Ele se encontra numa zenda no Mato
Grosso
e est bem. Sobreviveu  queda do avio e nem mesmo est ferido.
Menos gil do que Jnior, o Salvaero precisou disparar uma srie de
telefonemas at conseguir falar com Marilcia. Esta, exultante porque j sou-



297




beta do marido, confirmou o nmero da identidade. S ento os militares
concluram que, desta vez, no era trote. Tratava-se realmente do RG-254.
Quincas informou ao Salvaero a localizao da fazenda e o local prova-vel da
queda do avio. Disse tambm que a Crumar possua um campo de pouso com 2 mil
metros
de comprimento e que o sobrevivente dispunha de uma pistola para sinalizar o
Local, to logo um dos aparelhos de busca se aproximasse.
Os militares o instruram a pr estopa embebida em leo diesel num
tambor e a acender um fogo junto  pista.
As transmisses de rdio da Fazenda Ferro de Prata haviam desencadea-do uma
corrente de solidariedade, formada por radioamadores. Jnior, por exemplo,
usando rdio
e telefone, fez e recebeu quase 100 chamadas e liga-es. Graas a esse esforo,
em todo o pas parentes dos passageiros do 254 souberam que o avio fora
encontrado
e que havia sobreviventes.

298




A
lm do Bandeirante que j se encontrava na regio de So Jos do Xingu desde a
segunda-feira, outros trs avies de busca haviam sido
deslocados para l.
No foi fcil para os pilotos da FAB encontrarem o campo da fazenda. Devido s
queimadas, a visibilidade era precria. Embora Epaminondas ti-vesse foguetes de
sinalizao,
ele no se entendeu com o manuseio e no conseguiu dispar-los. Mas Quincas,
cumprindo as instrues do Salvaero, ateara fogo a uns sacos de aniagem
embebidos em
leo e colocados dentro de tambores.
s 15h30, o piloto de um Bandeirante enxergou a coluna de fumaa negra e, logo
depois, a pista.
O avio fez trs passagens, estudando o campo, antes de pousar. Final-mente
aterrou, sem incidentes. Minutos depois, foi seguido por outro Ban-deirante e,
um pouco
mais tarde, por um Bfalo. Um quadrimotor Hrcules permaneceu no ar, sobrevoando
a rea.
O centro de apoio s operaes de resgate foi estabelecido na prpria
Fazenda Crumar. Os sobreviventes seriam transportados por helicpteros
(que j se encontravam a caminho) do local da queda para l. O Bfalo e os
Bandeirantes os levariam da fazenda para a Base Militar de Cachimbo.
quela altura, diversos avies fretados por jornais, revistas e emissoras de
televiso voavam para a localidade de So Jos do Xingu, onde tambm havia um
aerdromo.

299
Captulo 16



Caixa-Preta

Pouco mais de uma hora aps o pouso dos Bandeirantes e do Bfalo,
quatro helicpteros da FAB chegaram  Fazenda Crumare.
Dos quatro sobreviventes que haviam sado a p do local do acidente, trs
(Epaminondas, Marcionlio e Antnio Farias) partiram s 16 horas, num Ban-
deirante, com
destino  Base de Cachimbo. Os outros avies e helicpteros decolaram para ver
se encontravam o Boeing antes do pr-do-sol. Afonso no quis ir para Cachimbo.
Preferiu
ficar na fazenda, aguardando Regina e Ariadne.

No local da queda do Boeing, os sobreviventes ouviram um ronco de moto-res. No
princpio, dbil. Mas foi aumentando.
Eram quase 17 horas quando um avio da FAB, com pintura de camu-flagem em tons
de verde, sobrevoou os destroos. De cima, a tripulao do Hrcules prefixo
1462,
comandado pelo capito Celso Vieira Jnior, enxer-gou, sobressaindo-se em meio 
mata densa, o leme de direo do PP-VMK, com o inconfundvel logotipo da Varig.
L embaixo, os sobreviventes corre-ram para o meio da clareira e comearam a
gritar, agitar panos e mos, chorar e rir. Abraaram-se e beijaram-se. A chefe
de equipe
Solange, mais por come-morao, soltou um foguete. Emocionados, os tripulantes
do Hrcules viam as pessoas agitando as mos. E viram quando o foguete subiu.
Na clareira, a euforia era total. Apesar de suas fraturas e ferimentos, o
engenheiro Paulo Altieri se levantou, chorando emocionado. O economista Carlos
Gomes esqueceu-se
do brao quebrado e abraou-se com Da, cho-rando tambm. O italiano saiu aos
pulos, sem sentir as costelas quebradas.
Logo chegaram outros avies. Lanaram de pra-quedas mantimentos e
remdios.
Quando tudo indicava que - apesar de terem sido localizados - teriam de passar
mais uma noite sem socorro, pois o Sol j se punha, surgiu um helicptero e
baixou
uma corda, atravs da qual desceram paramdicos e es-pecialistas em selva. Mas a
aeronave no encontrou espao para pousar com segurana na clareira.
A equipe de resgate trouxe uma motosserra e equipamento de rdio. Enquanto
alguns homens se debruavam sobre os feridos, outros se lanaram ao trabalho de
abrir
uma clareira para que os helicpteros pudessem pousar na manh seguinte.
Um exame superficial dos feridos revelou que o estado de Cleonilde
Melo era desesperador. Decidiram resgat-la imediatamente, aproveitando-

300
RG-254 - A Noite por Testemunha




dos ltimos minutos de claridade do dia. Iaram-na numa maca para o elicptero.
Infelizmente foi tarde. Cleonilde morreu a caminho da fazenda.
Na Crumar, Afonso disse aos militares que seria capaz de voltar, sob a xz de
lanternas, at onde o avio cara. Organizou-se ento uma expedio oturna de
socorro
por terra. Alm do pessoal da FAB, e do exausto Afonso, ram nela o administrador
Quincas e seis empregados da fazenda.
Enquanto isso, no local da queda, a presena da equipe de socorro mui-) aliviou
o sofrimento dos sobreviventes.
Depois de quase 48 horas de suplcios, o garimpeiro Manoel Alencar e o dvogado
Fidelis Rocco receberam injees de morfina e puderam dormir.

s oito e meia da noite, chegou a expedio guiada por Afonso.
Marinz Coimbra no se conformava com o fato de Bruna passar mais ma noite sem
tratamento adequado. A perna da menina inchara ainda mais tinha uma colorao
roxa.
Marinz implorou aos militares que enviassem ma turma de volta  fazenda,
levando-a com a filha. Os homens se sensibi-zaram. Formou-se um pequeno grupo,
ao qual
se juntou Quincas.
A caminhada teve incio s 22 horas. Bruna chorava de dor, o p cada ez pior, o
brao quebrado doendo muito com o sacolejo do andar dos ho-iens, que se
revezavam
ao carreg-la.
No muito longe dali, os moradores de So Jos do Xingu assistiam ;pantados ao
movimento de jornalistas e pilotos. No final da tarde, dez avies aviam pousado
na
localidade. A noite os imobilizara no cho, alinhados into  pista de terra,
ondulada e meio torta. O lugarejo tornara-se o centro e atrao da mdia de todo
o pas.
A notcia de que o Varig 254 conseguira pousar na selva em plena noite ria
matria de primeira pgina dos jornais. E, naquela tera-feira, j era ma de
chamada dos
noticiosos da tev.
 uma e meia da manh, o grupo que levava Bruna chegou  sede da rumar. Como
havia trs avies na pista de terra batida, Marinz pediu ao ilotos da FAB que
um deles
decolasse imediatamente, levando-a com a filha ara um lugar onde houvesse um
hospital.
Os militares explicaram que decolar quela hora era uma operao de sco. Teriam
de esperar o amanhecer. Ela no entregou os pontos. Pediu, Lsistiu, implorou e,
finalmente,
conseguiu.
Para balizar o aerdromo, os homens puseram fogo em latas contendo topas
embebidas em leo. Postado numa das cabeceiras, o caminho ilumi-301



Caixa-Preta




nou, com seus faris, cacos de vidro e pedaos de plstico estrategicamente
colocados ao longo dos dois quilmetros de pista.
Valendo-se do balizamento improvisado, um Bandeirante decolou s
trs da madrugada, levando Marinz e Bruna diretamente para Braslia. s

6h30 de quarta-feira, me e filha deram entrada no Hospital Distrital.
Nessa mesma hora, na clareira do desastre, o heliporto de emergncia acabara de
ficar pronto. A informao foi passada pelo rdio  fazenda. Os quatro
helicpteros
decolaram. Pousaram ao lado do Boeing, um de cada vez, por volta das sete da
manh. Deram incio  remoo dos feridos.
Antes de embarcar nos helicpteros, os sobreviventes cantaram Para-bns... para
Wilson que, naquela quarta-feira, completava 68 anos.
Um dos oficiais recm-chegados identificou-se ao comandante Garcez. Este passou-
lhe formalmente a guarda dos destroos e dos passageiros, vivos e mortos. Tal
como

manda a tradio, herdada dos mares, Garcez foi o ltimo sobrevivente a deixar o
local do acidente. Embora ainda no o soubesse, sua carreira de aviador
terminava
naquele instante.




302




Captulo 17




D
 s helicpteros levaram os sobreviventes e os cadveres para a Fazen-da Crumar
do Xingu. De l, os avies da FAB os transportaram para a Base Area de Serra do
Cachimbo.
Depois de uma triagem, dividiram os feridos em dois grupos. Os que tavam em
condioes de sentar foram embarcados no Boeing 737 presiden-al, enviado pelo
presidente
Sarney. Os demais foram acomodados em ma-s num Hrcules da FAB. As duas
aeronaves decolaram para Braslia.
J na capital, foram levados ao Hospital de Base e submetidos a novos
ames. Alguns ficaram internados l mesmo. Outros seguiram para outros )spitais.
Apesar da luta travada por Marinz, era grande a possibilidade de Bruna

r o p direito (ou mesmo a perna) amputado.
A tripulao do PP-VMK foi transportada, num Electra da Varig, dire-mente de
Cachimbo para o Rio de Janeiro. Desembarcaram no final da rde no Aeroporto
Santos Dumont,
debaixo de grande assdio da imprensa.
Em Braslia, Regina, Afonso e Ariadne permaneceram apenas uma noite
Hospital de Base, onde Afonso recebeu curativos na cabea. Na quinta-.ra, 7 de
setembro, os trs embarcaram para Belm. Diversos assentos do io em que
viajaram
foram rapidamente tomados por jornalistas, interessa-s em fotograf-los, film-
los, entrevist-los.
Enquanto os sobreviventes eram tratados ou recebiam alta e se provi-nciava o
enterro dos mortos, no local do acidente a equipe da FAB encon-303



Caixa-Preta




trou, no poro do Boeing, vivo e sem nenhum arranho, Leti, o filhote de
chihuahua da famlia Saraiva. O cachorrinho sobrevivera ao impacto da que-da e a
quatro
dias sem gua e sem comida.
Ainda naquela semana, diversos sobreviventes foram remanejados de
hospital. A engenheira Maria de Ftima Nbrega e Roberto Regis foram trans-
feridos para o Rio de Janeiro. Outros foram encaminhados s suas cidades.
Marcionlio Pinheiro, que no quebrara nenhum osso, e ficara apenas um dia no
Hospital de Base, recebeu alta e voltou ao Maranho. Mas a alta foi prematura.
Em So
Lus, precisou se submeter a um tratamento de limpe-za e a uma cirurgia
reparadora, por causa da miase.
Antnio Farias tambm teve alta antes da hora. Saiu a contragosto do Hospital de
Base e viajou para Belm. Ao chegar l, seu estado piorou. Foi internado s
pressas
no Hospital da Amaznia. Suas suturas tiveram de ser refeitas. S pde voltar a
trabalhar um ms aps o acidente.
Em Macap, Afonso Saraiva tambm teve de ser hospitalizado, devido miase no
couro cabeludo. Dois meses depois do acidente, as larvas de mosca ainda
permaneciam
em seu organismo, infernizando sua vida. Durante mui-to tempo sentiu dores na
cabea.
Depois de ter alta em Braslia, Odeane de Aquino, a Da, viajou direto
para seu novo emprego, no Amazonas. S voltou a ver o filho Tiago dois
meses depois do desastre.
Para muitos, o suplcio custou a terminar.
Depois de ficar internada durante um ms no Hospital de Base, Bruna
foi transferida para o Hospital Regional da Asa Norte. S ento Marinz
pde ter certeza de que sua filha no corria mais o risco de perder o p.
Como, desde os primeiros instantes, verificou-se que o estado de sade do
advogado Fidelis Rocco Sarno era gravssimo, ele fora removido para o Hospital
Albert Einstein,
em So Paulo. Sua meninge estivera exposta duran-te trs noites e dois dias s
larvas de moscas. Essa condio mrbida quase o matou. O processo de limpeza do
local
foi doloroso e prolongado. S em novembro ele pde voltar para casa, em
Salvador.

Maria Deita Cavalcante ficou internada durante 47 dias no Hospital de Base, ao
cabo dos quais foi transferida para o Sarah Kubitschek. Alm de sria leso num
dos
pulmes, perfurado por uma costela, o desastre do vo 254 lhe valeu um colapso
dos rins. Entre outros tratamentos, ela precisou submeter-



304




RQ-254 - A Noite por Testemunha



de        a inmeras sesses de hemodilise. S recebeu alta alguns dias antes
do e-
O garimpeiro Manoel Ribeiro de Alencar foi o paciente que ficou mais IC ) no
Hospital de Base: 80 dias. Passou por inmeras cirurgias para te-nstituio do
queixo
esmigalhado. Recebeu diversos enxertos. Sobreveio-um abscesso, que precisou ser
drenado. Precisou usar ligas de borracha ra corrigir um desvio na mandbula. Sua
arcada dentria ficou seriamente omprometida.
Bruno Melazo, de um ano e oito meses, que perdeu a me e o irmo na ueda do PP-
VMK, tambm foi encaminhado ao Albert Einstein. Com 90% o hemisfrio esquerdo do
crebro
comprometido, morreu uma semana de-ois do acidente, no dia 10 de setembro. Foi a
12~ e ltima vtima fatal do
254. Apesar da tragdia que dizimou sua famlia, Giuseppe, pai de Bru-r,
grandeza suficiente para doar o fgado do menino a Dbora Ludovi-uma garotinha
de trs anos
que sofria de atresia das vias biliares.
Quando surgiram as primeiras entrevistas dos passageiros  imprensa, que o
mecnico nisei Shiko Fukuoka morrera abraado  sua mala,
dlares. Essa valise sumiu durante a operao de resgate. A famlia,
Fukuok~a morrendo. Recebeu apenas os 1.500 dlares que ele guardara tanto amava,
no pde receber todo o dinheiro em defesa do
bolso antes de o avio bater. Os 2.100 restantes desapareceram.
Numa entrevista ao jornalista Walter Lima, do programa Revista Na cio-da Rdio
Nacional de Braslia, Josete Maria da Fonseca, sogra de Liceia e Melazo,
criticou
severamente Garcez. Disse que o comandante, alm

istar ouvindo o jogo Brasil x Chile, bebia usque e namorava a comissria eline
durante o vo. Disse tambm que a chefe de equipe Solange levou bandeja de
bebidas
alcolicas para o cockpit e que Garcez e Jacqueline ram com usque, em meio a
uma algazarra.
Alguns dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, o comandante Czar deu uma
entrevista coletiva  imprensa, na qual disse, entre outras
~,que tinha certeza de que tomara o rumo certo, aps a decolagem
Sua afirmao foi desmentida pelo engenheiro Epaminondas
que, tambm em entrevistas, garantiu ter Garcez lhe confessado, en-ainda se
encontravam no mato, que tomara o rumo 270, ao invs de
que, mais tarde, seria exaustivamente comprovada.



305




Captulo 18




C
orno os pilotos sobreviveram ao pouso na selva - e tendo a caixa-
preta sido recuperada intacta - a comisso do DAC que investigou o acidente no
teve muita dificuldade para apurar o que se passou a
bordo do Varig 254.
Alm do inqurito no DAC, um processo de homicdio culposo contra
os pilotos foi aberto na Justia Federal.
A Varig procurou restringir a culpa s pessoas de Garcez e Zille, eximin-do-se
de qualquer erro. Um dos argumentos da empresa foi a de que apenas eles, entre
centenas
de pilotos, interpretaram incorretarnente o plano de vo computadorizado.
O        Sindicato Nacional dos Aeronautas veio em defesa dos aviadores. Em
entrevistas a diversos jornais, o comandante Jos Caetano Lavorato Alves,
presidente
da entidade, informou que outros oito comandantes da Varig ha-viam cometido o
mesmo erro, felizmente o corrigindo a tempo.
Trs meses depois da queda do PP-VMK, o comandante Niel B. Atkin-son, da
Federao Internacional de Pilotos de Linhas Areas, fez um teste em Amsterd
com 22 comandantes.
Deu a cada um o plano de vo usado por Garcez. Quinze deles interpretaram o rumo
como sendo 270 e no 027.
O        comportamento das comissrias do RG-254 foi amplamente discuti-do na
imprensa e censurado por alguns sobreviventes.

O        que se esqueceu de dizer  que, na hora em que o avio ia cair, e a
morte parecia inevitvel, o medo no as impediu de agir com alto grau de

306



rofissionalismo. Instruram os passageiros, remanejaram as bagagens, cuida-im
das crianas e ocuparam seus postos junto s sadas do avio. Apesar de rcm
pouco mais
do que meninas, honraram os uniformes que vestiam.
Garcez, no incio, foi considerado um grande heri, quando o avio ~areceu com
tantos sobreviventes. Transformou-se rapidamente em vilo, dando se descobriu
que
cometera um erro primrio, da surgindo a histria ~ jogo Brasil x Chile.

[oje  possvel afirmar que, entre os passageiros, alguns se revelaram mais e
nros, digamos, "menos hericos". Assim que o avio parou na floresta, a aior
parte
dos que podiam se locomover, caiu, literal e figurativamente, no ato, deixando
mulheres, crianas e feridos a bordo da aeronave. Diga-se em vor deles que,
antes
do pouso, as comissrias recomendaram a todos que ~andonassem e se afastassem do
avio assim que ele parasse, recomendao sa que constava do carto de
instrues
de emergncia.
Duas das comissrias, Jacqueline e Flvia, tambm fugiram para a fio-sta.
Solange e Luciane permaneceram no avio, ajudando na evacuao dos issageiros e
cuidando
deles ao longo da primeira noite.
A chefe de equipe Solange Pereira Nunes portou-se com tal coragem e ,negao -
antes, durante e depois do pouso - que, algumas semanas aps desastre, foi
condecorada
em Braslia com a Ordem do Mrito Aeronutico.
No episdio do vo 254, Solange no foi a nica a dar exemplo de dentia e
determinao.
Regina Saraiva defendeu seu beb de cinco meses com unhas e dentes. so no a
impediu de socorrer outros passageiros e de entrar no mato em asca de gua e
alimentos
para o grupo.
Marinz Coimbra lutou o tempo todo pela filha Bruna, obrigando ai-izis homens a
conduzirem-nas pela noite adentro atravs do mato e foran-~ um piloto da FAB a
decolar
praticamente no escuro, de um campo de ~uso rudimentar, para que a filha no
perdesse a perna.
O jovem garimpeiro Afonso Saraiva, mesmo ferido, subiu em rvores, escobriu
gua, achou a picada que os levou at a fazenda. J a salvo, voltou ~ avio,
guiando
os militares da FAB.
Mesmo com duas fraturas, e sofrendo fortes dores, o superintendente ~ Ibama,
Jos Maria dos Santos Gadelha, foi incansvel no auxlio aos seus ~mpanheiros de
infortnio,
cuidando dos que estavam em pior estado.

307
RG-254 - A Noite por Testemunha

Caixa-Preta



Jamais se saber ao certo (a no ser que um deles o confesse) se os pilotos
estavam ou no escutando o jogo Brasil x Chile logo aps a decolagem de
Marab. Na fita do CVR, s ficaram gravados os ltimos 30 minutos de voo.
Diversos passageiros alegaram que os pilotos ouviam o jogo. As comis-srias (que
entraram e saram do cockpit diversas vezes) garantiram que no. O co-piloto
Nilson
Zille, em entrevista ao programa Fantstico, da Rede Globo, tambm negou
veementemente essa hiptese. O laudo final das investigaes sequer menciona o
assunto.
Quanto s acusaes de que Garcez e Ziile haviam bebido (falou-se at que
cheiraram cocana durante o vo), no existe nenhuma prova, e nem mesmo indcio,
de tal
comportamento.  tambm improvvel que um deles estivesse namorando uma aeromoa
no cockpit: a etapa Marab-Belm dura menos de uma hora, tempo que costuma ser
consumido
nos procedimentos de subida e descida e, na cabine de passageiros, no trabalho
de preparar, servir e recolher lanches e bebidas. Nas restantes duas horas e
meia
de vo, quando o avio se encontrava perdido, nem mesmo se Romeu fosse o piloto,
e Julieta, a comissria, teria havido clima para um namoro.
Mas alguma coisa estavam fazendo no cockpit, para negligenciar o acom-panhamento
dos radioauxlios de proa (Belm), de popa (Marab) e de travs (Tucuru). Como
no eram amigos, e pouco conversavam, no  de se supor que estivessem em
animado bate-papo, a ponto de se esquecer desses proce-dimentos rotineiros.
Uma das questes levantadas pela imprensa, contra Garcez e seu co-piloto,  que
eles teriam de perceber que - estando o Sol se pondo  frente da aeronave -
voavam
em direo ao oeste. Esse argumento constou da pea acusatria do processo na
Justia Federal.
 evidente que os dois sabiam que voavam para oeste. No tanto por causa do Sol
(pilotos dificilmente prestam ateno  posio dos astros) mas porque qualquer
aviador
sabe que o rumo 270  oeste. O que no se deram conta  de que Marab-Belm 
uma rota no sentido norte. Essa distrao compreensvel, uma vez que nos vos
pinga-pinga,
como era o caso do 254, no raro h guinadas abruptas a cada etapa.
O Ministrio Pblico argumentou em sua denncia contra os aviadores que, na
etapa Imperatriz-Marab, anterior  da queda, Garcez e Zille inter-pretaram
corretamente
o indicativo de proa 2940 (representada no plano de



308
1~



vo da Varig como 2940), correspondente a esse trecho, e portanto no po-deriam
culpar o plano de vo pelo engano na etapa seguinte, Marab-Belm. 
improcedente
essa comparao. No tinham como ler 2940 como 940, ignorando o primeiro
algarismo, 2 (mesmo porque o rumo 940 no existe). J 0270  facilmente
interpretvel como
270, por causa do zero  esquerda -sem mencionar a falta de ponto ou vrgula
separando o quarto dgito (dcimo de grau).

O maior erro de Garcez foi o de no avisar aos Centros de Controle de at
Trfego Areo, e aos colegas pilotos com os quais conversou ao longo do vo, em
que estava
perdido, to logo o percebeu.
~Ies        Garcez e Zille tiveram seus brevs cassados pelo Ministrio da
Aeronu-ara tica. Foram condenados pela Justia Federal, ambos a quatro anos de
priso.
~OS Apelaram da sentena. Na poca em que este texto seguia para publicao, no
Vir segundo semestre do ano 2000, ambos aguardavam em liberdade o julga-mento do
recurso pelo Tribunal Regional Federal da primeira regio, em Braslia.
Mesmo que a sentena seja confirmada, pode-se afirmar que no foram ri- os
nicos culpados. Houve falha da Varig, ao elaborar um plano de vo que
induzia os pilotos a erro. Houve falha do Centro de Controle de Voo de Belm,
que no percebeu a proa errada do RG-254, apesar de Garcez haver comunicado essa
proa
(isso pode ser constatado na transcrio da gravao das conversas travadas
entre o Centro e o Boeing). Houve falha do Salvaero, que demorou a acreditar nos
instrumentos
do INPE - o avio foi encontra-do a apenas trs quilmetros das coordenadas
calculadas pela LUT na madru-r
gada de segunda-feira, dia 4, poucas horas aps o acidente (a demora no
socorro pode ter custado a vida da passageira Cleonilde Melo, que s veio a
falecer no final da tarde de tera-feira, quase 48 horas aps a queda do avio).
Foi muito mais fcil, e mais conveniente, para todas as pessoas e insti-tuies
envolvidas no episdio, lanar a culpa exclusivamente nos ombros de
-        Garcez e Zille.
-        Num depoimento que comprometeu seriamente os dois aviadores, o ento
diretor de Operaes da Varig, comandante Milton Jos Comerlato, declarou 
Polcia
Federal que "houve por parte do piloto e do co-piloto ~negligncia na operao e
indisciplina operacional, no consultando mapas, manuais e no procedendo o
acompanhamento
da rota do vo".



309
RG-254 - A Noite por Testemunha



lotos
ri de voo.
mis- rTIo.

)bo, ~es



Caixa-Preta



Mas Comerlato no disse  polcia que, quase na surdina, no dia 5 de setembro de
1989, portanto dois dias aps a queda do RG-254, aVarig expe-diu um comunicado
aos
pilotos de 727, 737 e Airbus, alertando-os sobre o ltimo algarismo  direita no
campo "rumo magntico", que deveria ser des-considerado por representar dcimo
de
grau, frao que no cabia no HSI daqueles aparelhos.

Um ms depois do acidente, em outubro de 1989, o Centro de Investi-gao e
Preveno de Acidentes do Ministrio da Aeronutica, CENIPA, recomendou  Varig
usar apenas
trs dgitos no campo "curso magntico" de seus planos de vo, reconhecendo
tacitamente que os quatro algarismos fat-dicos, 0270, foram, tanto quanto a
negligncia
de Garcez, responsveis pela tragdia do vo 254.




310
Captulo 19




D
os 54 ocupantes do Boeing, apenas dez saram ilesos ou com feri-mentos menores:
Ariadne Suelen, sua me Regina, o engenheiro
Epaminondas Chaves, o italiano Giovanni Mariani, Marinz Coim-ira, Meire Silene
Ponchio, Raimundo Siqueira, Rita Gasparin, o comandan-e Czar Garcez e a chefe
de
equipe Solange Pereira Nunes.
Liceia Melazo recuperou-se das leses na perna. Mas passou a ter trau-na de
avies. No voa mais. Continua morando em Belm e trabalhando na Zhurrascaria
Rodeio.
Roberto Regis sofre at hoje de distores motoras no brao lesionado. ~ogo aps
o acidente, viajou algumas vezes de avio. Depois, parou. De Impe-'atriz, onde
vive,
concedeu extensa entrevista, por telefone, para este projeto.
Em depoimento  Justia, Regis afirmou ter encontrado o co-piloto \~ilson Zille
num churrasco no Rio de Janeiro. Nessa oportunidade, segundo ~egis, Zille disse
que
o comandante perdeu o equilbrio emocional nos mo-nentos mais crticos do voo.

Ao ser inquirido, Zille desmentiu ter feito essas acusaes. Mais tarde, iuma
entrevista concedida ao reprter Roberto Cabrini, da Rede Globo, voltou a
desdizer-se
e censurou Garcez.
O time que no existiu no PP-VMK naquele domingo de futebol con-inuou a
inexistir depois do acidente. Nem a tragdia que os envolveu e mui-to menos o
fantstico
pouso que efetuaram na selva foram suficientes para unir os dois aviadores.

311



Caixa-Preta




Evidentemente nenhum dos sobreviventes, tripulantes e passageiros, ja-mais se
esquecer das horas passadas a bordo do PP-VMK e do processo
doloroso que se seguiu. O desastre alterou a vida de todos.
A perna direita do mecnico Jos de Jesus Manso, por exemplo, enco-lheu trs
centmetros. Apesar das horas de sofrimento na floresta, e do penoso tratamento,
Manso
elogiou a assistncia que recebeu da Varig, assim como enalteceu os
procedimentos de Garcez e Solange.
Em seu depoimento  polcia, o superintendente Jos Maria Gadelha,
do Ibama, foi outro que elogiou o comportamento de Garcez e da tripulao.
O advogado Fidelis Rocco Sarno passou a usar uma prtese craniana, implantada em
So Paulo. Precisou de acompanhamento psiquitrico para superar o trauma que
sofreu.
Mesmo assim, no se queixa da Varig, que, segundo ele, prestou-lhe toda a
assistncia.
Enilde Melo recuperou-se dos ferimentos. Mas, segundo suas palavras, "a ferida
da alma foi mais difcil de cicatrizar". A lembrana das horas em que sua irm
Cleonilde
permaneceu no local do desastre - sofrendo dores terr-veis, antes de morrer
durante o resgate - est viva em sua lembrana. Enilde considera que os
tripulantes
do PP-VMK fizeram tudo que puderam no local do acidente e afirma que a Varig a
assistiu em tudo.
Embora tenha ficado com seqelas na perna e nos rins, Maria Deita Martins
Cavalcante, ao ser interrogada na Justia, elogiou o tratamento que recebeu no
Hospital
de Base e disse que a tripulao do Boeing foi muito prestativa aps o pouso.
Durante muito tempo, o comerciante Antnio Farias - que, mesmo
ferido, participou da expedio em busca de socorro - sofreu por conta do
acidente: dores de cabea, problemas na coluna e deficincia de viso.
O economista Cailos de Aquino Melo Gomes ficou com uma pequena deficincia no
ombro esquerdo e perdeu parte dos movimentos do brao.
A queda do Varig 254 marcou para sempre o garimpeiro e lavrador Manoel Ribeiro
de Alencar. A viso de seu olho direito foi prejudicada. Pas-sou a sentir dores
constantes
nas costas. Seu brao direito perdeu a fora. Sendo trabalhador braal e
analfabeto, no conseguiu mais servio.
De Aailndia, Maranho, onde mora, Marcionlio Pinheiro colaborou com este
relato. Narrou, nos mnimos detalhes, sua participao no episdio. Disse que
durante

anos sofreu dores de cabea. Nada tem a reclamar da Va-rig. Acha que Garcez e as
comissrias socorreram com eficcia os passageiros.

312




RG-254 - A Noite por Testemunha




Em declaraes prestadas  polcia, o piloto Wilson Alencar afirmou ser ~rcez um
extraordinrio ser humano, tendo se comportado como tal aps o :idente. Elogiou
tambm o comportamento das comissrias, em especial o chefe de equipe Solange.
Nos trs anos que se seguiram ao do acidente, Wilson, que sofrera forte ~ancada
na cabea, desconectou-se da realidade. Seus negcios desandaram. Finalmente se
recuperou.
Quase aos 80 anos, ainda pilota avies, embora ~m outro piloto ao lado.
Regina Saraiva disse aos jornais que Garcez "quase se matou" na seiva para
ajudar os feridos. Seu irmo Afonso e Raimundo Siqueira tambm no pouparam
elogios ao
comandante.
Como se pode ver, no so poucos os que defendem Garcez.
Em seus depoimentos, a maioria dos sobreviventes afirmou que se bebeu ~emais na
galley traseira. Mas ningum confessou que se embriagou. Poucos klmitiram que,
ao
fugir do Boeing, receando morrer numa exploso, deixaram para trs os feridos.
Um dos que fugiu, Carlos Gomes, declarou  Justia que uaiu da aeronave e
penetrou
na selva "em busca de socorro e da civilizao".
Da prestou inestimvel colaborao a este livro. Hoje ela mora em ~umpi, no
Tocantins. Disse que foi muito bem atendida por Garcez e, mais ~rde, pela Varig.
Por
isso, recusou-se a processar a empresa.
Depois do desastre, Da passou a achar a vida mais bela. Tornou-se ~vanglica.
Freqenta a Assemblia de Deus. Continua viajando de avio,
traumas.
O        drama de Bruna fez dela o smbolo da tragdia do vo 254. At hoje
sente as conseqncias do desastre. Tem algumas limitaes nos movi-cntos da
perna afetada.
Sua me, Marinz Coimbra, tambm tornou-se glica e no mais precisa de bssola
para rezar.

Alm da chefe de equipe Solange, o Ministrio da Aeronutica conce-a Ordem do
Mrito Aeronutico ao engenheiro Epaminondas Chaves, a
onso Saraiva e ao oftalmologista Joo Roberto da Silva Matos. Este ltimo o
apareceu para receb-la.
A comissria Jacqueline Klimeck Gouveia mora em Resende, interior
        Estado do Rio. Disse que, aps o acidente, ficou trs anos sem dormir
eito. Fez terapia durante longo perodo. A Aeronutica a considerou inca-itada
para
voar, ensejando que se aposentasse. Hoje trabalha como tradu-313



Caixa-Preta




tora. Quer distncia da aviao. Mesmo como passageira, raramente voa. Sim-
plesmente no se sente bem dentro de um avio.
Sua colega Flvia Conde Collares, que rompeu ligamentos e tendes do joelho,
esteve em tratamento durante quatro anos, nos quais submeteu-se a trs
cirurgias. Voltou
a voar em 93, mas s por quatro meses. Alm do trau-ma psquico, o joelho no
sarou. Aposentou-se por invalidez. Mora no Rio de Janeiro.  casada, tem um
filho e
cursa uma universidade. Credita sua vida ao garimpeiro Afonso Saraiva, sem o
qual acha que os sobreviventes no teriam sado vivos do mato.
Das comissrias do 254, Luciane Morosini foi a que mais colaborou com este
projeto. Disse que permaneceu de licena por oito meses, aps os quais voltou 
ativa.
Voou mais quatro anos, sendo promovida a chefe de equipe e transferida para o
Rio.
No dia 7 de abril de 1992, Luciane desembarcou no Galeo, ao final de uma
jornada de trabalho. Seguiu para casa em seu carro. Em Copacabana, foi abordada
por assaltantes
que lhe deram um tiro. A bala perfurou-lhe o pul-mo, o fgado e o pncreas,
alm de atingir uma vrtebra.
Foi declarada invlida e aposentou-se. Casou-se com um piloto da Va-rig. Os dois
moram na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela freqenta sesses de
terapia e estuda Psicologia.
Dos seis tripulantes, portanto, s sobrou na aviao a chefe de equipe
Solange, que continua na Varig at hoje.
Nem todos os passageiros sobreviventes guardam traumas psquicos. O engenheiro
Paulo Altieri diz que no os tem. Mas diz tambm que, para ele, as coisas
materiais
perderam o valor. Limita-se a viver o dia-a-dia. No junta dinheiro. Fez questo
de "torrar" os 50 mil dlares que a Varig lhe pagou de indenizao (esse valor
foi
pago a todos os sobreviventes e s famlias dos mortos).
A bordo do Varig 254, havia muitos garimpeiros, acostumados ao risco, a ganhar e
perder. Afonso e Regina, por exemplo, estavam indo para o Louren-o, um garimpo
prximo a Macap. Mais tarde, quando a famlia recebeu 150 mil dlares da Varig
(50 mil para cada um, incluindo Ariadne Suelen), aluga-ram uma casa na Barra da
Tijuca,
Rio de Janeiro, e gastaram o dinheiro.
Depois de perder a mulher, Ktia, e os dois filhos, Giuseppe e Bruno,
Giuseppe Melazo constituiu nova famlia, com a qual  feliz. Mas no conse-gue
conter uma lgrima, ao lembrar-se dos que se foram naquela noite.

314




RG-254 - A Noite por Testemunha




At hoje, em Marab, os amigos e parentes do jovem estudante de Di-Marcus
Giovanni Mutran lembram-se com saudade de seu carter ge-eroso, da maneira
gentil como
ele tratava as pessoas.
Um detalhe pouco comentado do episdio RG-254 foi o saque ocorri-nas bagagens,
embora no valha a pena especular sobre quem possa t-lo metido, sob pena de
grave
injustia. Mas diversos sobreviventes relatam
receberam suas malas desfalcadas dos objetos mais valiosos. Lamentavel-xiente
isso quase sempre ocorre em desastres areos. Em 27 de novembro de
por exemplo, quando um Boeing 707 da Varig caiu perto de Lima, Peru, matando
seus 97 ocupantes, as bagagens e roupas dos passageiros e tripulantes foram
despojadas
de todo o dinheiro e jias, antes da chegada dos bombeiros.
Os tripulantes do 254 no foram as nicas baixas profissionais daquele domingo.
A FIFA eliminou do futebol o goleiro Rojas, do Chile, que prota-gonizou a farsa
no
gramado do Maracan. A equipe chilena, alm de perder os pontos do jogo e, por
conseguinte, de ficar de fora da Copa da Itlia, foi punida com a excluso da
Copa
seguinte, nos Estados Unidos, s voltando a disputar o torneio em 1998, na
Frana, quando, diga-se de passagem, voltou a perder para o Brasil.
Talvez o momento mais decisivo daquele domingo tenha sido aquele em que o jogo
foi interrompido, assanhando os locutores de rdio, fazendo com que se
esquecessem
da obrigao de informar, a cada dez minutos, o nome e a localizao de suas
emissoras. Se tivessem cumprido a lei - permi-tindo assim que Garcez, em sua
escuta
desesperada, encontrasse um rumo na escurido -, o acidente poderia no ter
ocorrido.
Aps a queda do VMK, o relacionamento entre tripulantes de cockpit mereceu
especial ateno da Varig. Foi institudo um programa de semin-rios e
discusses, denominado

CRM (Cockpit Resource Management), atravs do qual o assunto  discutido. Hoje,
um co-piloto, por mais novato que seja, no s tem o direito mas a obrigao de
alertar
o comandante sobre qualquer procedimento que julgue incorreto.
A matria da Rede Globo sobre o vo 254 foi ao ar em 1997, no Fants-tico. Alm
de apresentar trechos do CVR, com os dilogos travados pelos pilotos no cockpit,
e o speech de Garcez, minutos antes da queda, o reprter Roberto Cabrini
entrevistou passageiros e tripulantes do Boeing, inclusive Garcez e Zille.



315



Caixa-Preta




A reportagem teve grande repercusso e foi agraciada com um prmio
internacional. Ao falar sobre o acidente, Garcez admitiu que errou, mas disse
que foi induzido ao erro pelo plano de vo mal elaborado.
Zille declarou que Garcez poderia ter evitado a tragdia. "Aquele aci-dente s
aconteceu por excesso de confiana do comandante. E por egosmo. Por ele no
ouvir
ningum. Fazia questo de que as coisas se processassem como ele queria."
Cabrini conduziu uma acareao  distncia entre Garcez e Zille. O co-piloto
disse que a arrogncia do comandante impediu que voltassem a Mata-b, depois de
se descobrir
o engano. Garcez rebateu que, se no sabiam onde estavam, no tinham como
regressar. Zille acusou Garcez de ter provocado a morte de 12 pessoas,
simplesmente por
medo de ser demitido.
Zille  solteiro, mora no Rio de Janeiro e trabalha em organizao de festas.
Garcez casou-se, tem um filho e ganha a vida gerindo um pequeno comrcio em
Florianpolis.
Mesmo tendo sobrevivido, pode ser que o co-mandante e o co-piloto do RG-254
sejam as maiores vtimas da queda do Boeing na floresta. Para dois homens que,
desde
meninos, sonharam com a aviao, a tragdia de no poder voar mais talvez seja
at maior do que a do avio que se perdeu durante um jogo de futebol.

316




Agradecimentos




E
ste livro jamais poderia ter sido escrito sem a colaborao desinteres-sada das
pessoas abaixo relacionadas, s quais expresso minha profunda
gratido.



Tripulantes dos vos narrados
o-piloto Alvio Basso, do RG-820; comandante Fernando Mutilo de Lima e iva, do
VP-375; tripulante extra Gilberto Renhe, do VP-375; chefe de equipe ~s Ribamar
Abreu
Pinho, do VP-375; comissria Angela Maria Rivetti Barros arroso (Angelo), do
VP-375; comissria Luciane Morosini de Melo, do .G-254; comissria Jacqueline
Klimeck
Gouveia, do RG-254; comissria Ivia Conde Collares, do RG-254.

Outros aeronautas
~oronel-aviador Flvio Coimbra; coronel-aviador Paulo Albano de Godoy enteado,
chefe do Centro de Investigao e Preveno de Acidentes Aero-guticos;
comandante
Lucas Antnio Monteiro de Barros Bastos, da Panair  Brasil; comandante Lyle
Miller, da United Arlines; comandante Jos Cae-ino Lavorato Alves, ex-presidente
do
Sindicato Nacional dos Aeronautas; omandante Fbio Goldenstein, representante do
Sindicato Nacional dos Ae-~nautas na Comisso que investigou o acidente do RG-
254;
comandante ~e1son Dagmar Fochesato, presidente da Associao de Pilotos da Varig
-LPVAR; comandante Pedro Goldenstein, da Transavia Airlines (Holanda);



317




Caixa-Preta



comandante Rubem Abrunhosa, da Varig; co-piloto Fernanda David Portela;
piloto Wilson Lisboa Alencar; comissrio Joo Zimmerman, da Varig.

Passagefros dos vos narrados

Ricardo Trajano, do RG-820; Amauri Lage, Cludio Souza Diniz, Francisco de Assis
Costa Couto, Jos Clvis Ditzel, Manoel Raimundo de Matos, Ma-rialice Szpigel,
Renate
Borgards, Klaus Borgards, Renato Neves de Resende, Karl-Josef Pieper, Dietmar
Raskop, Alfredo Mrio de Castro Queiroz e Takayoshi Shiba, do VP-375; Roberto
Regis
de Albuquerque, Odeane de Aquino Souza (Da), Wilson Lisboa Alencar, Marcionlio
Ramos Pinheiro Filho, Paulo Srgio Altieri dos Santos, Liceia Uliana Sechin
Melazo,
Ruth Maria Azevedo Tavares, Marinz Arajo Coimbra, Jos Maria dos Santos
Gadeiha e Raimundo Carlos Souza Siqueira, do RG-254.

Controladores de vo
Claude Audren e Christian Megret, controladores de vo de planto em Orly no dia
11 de julho de 1973; Vladimir Caiado, operador de rdio de planto no centro de
controle de Belm no dia 3 de setembro de 1989.

Autoridades aeronuticas
Brasileiras: coronel-aviador Flvio Coimbra; coronel-aviador Paulo Albano de
Godoy Penteado, chefe do CENIPA; engenheiro Gonzalo dei Carmen Lobos Valenzuela,
do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); te-nente-coronel-aviador Juan
Enrique Vergara Canto, do DAC; major-especia-lista-aviador Jocelyn Santos dos
Reis,
do CENIPA; La Cavallero Dnys, assessora de comunicao social do DAC.

Francesas: Stefanie van der Ven, do Centro Experimental do Controle de Trfego
Areo da Frana; Jean-Paul Lavictoire, do Bureau Enqutes-Ac-cidents, Inspection
Gnrale
de L'Aviation Civile (Ministrio dos Trans-portes); Jean-Paul Sautrot, do
Controle de Trfego Areo da regio de Paris.




318




Parentes de passageiros

na Carvalho, Anna Maria Martins Ferreira, Carlota Malta Cardoso, Maria (Masa)
Pereira de Almeida Leite Ribeiro, Dr. Francisco Malta Cardo-
a Rosenburg, Roberta Leclry Morreu e Georgiana Leclry, todos ites de
passageiros mortos em Orly. Heiti Fukuoka, filho de Shiko ioka, morto no avio
RG-254.



Tardin; Maria Alice Fontes, do Centro de Documentao (CEDOC) da Globo de
Televiso; Beatriz Sanson, da Globo News; Fernando Pereira, do cato Nacional dos
Aeronautas;
Cludio Jlio Tognoli; Gabriel Nogueira; Jos manne, do Jorna/da Tarde Nilza
Bellini; Bia Cardoso, da TV Liberal, Marab.



- 'ssor Srgio do Rego Macedo, advogado de parentes de vtimas do RG-Laurinha e
Paulo Simes; Tutsi Bertrand; Carlos Ernany; Patrcia, mu-do comandante Mutilo,
do
VP-375; Mansa Costa Couro; lvaro Au-o da Cruz Nunes; Cristiano Maurcio
Stockler, amigo do mecnico de Claunor Bello, do RG-820; Sandrine Vaillant, do
Journal Officiel
de La ~bIique Franaise Ricardo Barros; Cristina Frias Monteiro; Anna Nur-ii;
Flvio Galetti Martins; Ana Cristina Rau; Dr. Francisco Ludovico de eida, do
Hospital
Santa Genoveva, Goinia; Dr. Osmar de Freitas Cas-advogado; Dr. Randolpho Gomes,
advogado; Pedro Jacobi; Otton Moura, rojeto Carajs; Coryntho Silva Filho,
entusiasta
da aviao; Henrique de ton; Francisco Bezerra, da Telemar, Belm; Rogrio Pires
Siza e Ageu rges Siza, proprietrios da Fazenda Crumar do Xingu; Andr Luiz
Callado
es; Otvio Paiva; Izabel Eugenia Abelha Ditzel, que traduziu os relatos em o;
Ronaldo Costa Couro; Mansa e Gustavo Fonseca; Mrcio Nogueira osa; Carlos Afonso
Nobre;
Cludio Bressan e Mary Kayano, do INPE; Mendes, da APVAR; Rudnei Dias da Cunha,
do Ministrio da Aero-rica; Flvio Bouchardet 5. Silva; Erhard Krasny; Ulli
Pieper.

Radioamadores
~ Eurpedes de Oliveira Ramos, diretor-regional da Labre em Franca, So ~o;
Maurcio Salles Macedo, de Rio Verde, Gois; Joo Alves Silva Jnior, ~ajudou
nas buscas
do RG-254.



319
Agradecimentos
Jornalistas




Outras pessoas




Caixa-Preta

Funcionrios do Poder Judicirio
Dr. Moacir Mendes Sousa, procurador da Repblica em Mato Grosso; Paulo
Roberto Medeiros de Castro, Patrcia Monteiro e Paulo Edmundo Teixeira
Mendes Fernandes Levi, funcionrios do Tribunal Regional Federal da i~
Regio, Brasilia, Distrito Federal; desembargador Marco Aurlio dos Santos
Caminha, do Tribunal de Justia de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Instituies
Centro de Documentao da Rede Globo de Televiso (CEDOC); Jorna/do
Brasil; Inspection Gnrale de L'Aviation Civile et de La Mtorologie; Esta-do-
maior da Aeronutica do Brasil; Departamento de Aviao Civil, DAC;
Centro de Investigao e Preveno de Acidentes Aeronuticos, CENIPA;
Sistema de Investigao e Preveno de Acidentes Aeronuticos, SIPAER;
Federal Aviation Administration, FAA; The National Transportation Safety
Board, NTSB; Services du Premier Ministre da La Republique Franaise;
Direction des Journaux Officiel de La Republique Franaise; Aroport de Pa-ris
Magazine', Centre Hospitalo Universitaire Henri Mondor; Associated Press;
Sindicato Nacional dos Aeronautas; Associao de Pilotos da Varig (APVAR);
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); Centro de Previso de
Tempo e Estudos Climticos (CPTEC) do INPE; Servio de Proteo ao
Vo, Belm, Par; Tribunal Regional Federal da 1~ Regio, Braslia, Distrito
Federal; Procuradoria da Repblica em Mato Grosso; Faculdade de Cincias
Aeronuticas da PUCRS; Instituto de Cincias Aeronuticas da PUCRS; Rdio
Mirante FM (Imperatriz, MA); TV Liberal (Marab, PA); Rdio Jarana (Pa-
ragominas, PA).

Um agradecimento todo especial a
Ricardo Trajano, Fernando Mutilo de Lima e Silva, Maria Alice Fontes, Fer-nando
Pereira, Jos Maria dos Santos Gadelha, Raimundo Carlos Souza Si-queira, Pedro
Goldenstein
e Fbio Goldenstein, pelo inestimvel auxlio e assessoria e pela cesso de
documentos, fitas de vdeo, fotos e arquivos. Ao Kiko, que leu e criticou os
originais.
A Cia, que me incentivou e torceu o tempo todo.




320




Documentao e Fontes de Pesquisa




Depoimentos gravados

do Trajano (26.11.98 e 11.05.99); comandante Fernando Murilo de Lima e Silva
7.98); comandante Gilberto Renhe (29.09.98); comissria Angela (Angelo) Maria
~i Barros
Barroso (15.12.98); Francisco de Assis Costa Couto (10.04.98); Jos Clvis
1(10.06.98); Amauri Lage (04.06.98); Marialice Szpigel (02.07.98); depoimento
cole-ie
Manoel Raimundo de Matos, Renato Neves de Resende, Cludio Souza Diniz e do
Mrio de Castro Queiroz (03.06.98); comissria Luciane Morosini de Meio 0.99);
Odeane
(Da) de Aquino Souza (26.07.99); Roberto Regis de Albuquerque p de 99);
comandante Fbio Goldenstein (22.06.99); comandante Jos Caetano Lavo-~S.O6.99);
professor
Srgio do Rego Macedo (18.06.98); comissrio Joo Zimmerman 0.98); comandante
Gelson Dagmar Fochesato (23.06.99).

Depoinientos atravs da Internet
~ Audren e Christian Megret, controladores de vo em Orly na tarde de 11 de
julho de Takayoshi Shiba, passageiro do VP-375; Renate e Klaus Borgards,
passageiros
do VP-375.

Arquivos de fotos
ios esforos foram feitos no sentido de identificar a autoria das fotos deste
livro; entre-algumas pessoas fotografadas no foram localizadas. Estamos prontos
a
dar crdito a nqueles que se manifestarem. Gostaramos de agradecer, tambm,
queles que pronta-~colaboraram na elaborao deste livro - seja cedendo seus
arquivos
pessoais, seja pdo a localizar os autores das fotos, ou ainda, autorizando o uso
de imagem.



321



Caixa-Preta



Arquivos fotogrficos:
Agncia JB/ Agncia Globo! Agncia Folha] Arquivo Nacional/Jornal O Popular!
Scoop-Paris

Match.
Acervos pessoais:
Vo 820 - Ricardo Trajano
Vo 375 - Comandante Fernando Murilo de Lima / comissria ngela Maria Rivetti
Bar-ros Barroso / Jos Clovis Ditzel
Vo 254 - Raimundo Carlos de Souza Siqueira! Jos Maria Gadelha] Heiti Fukuoka!
Rita de Cssia Gasparin Oliveira! comissria Luciane Morosini de Meio.



Documentos avulsos
Carta da Varig aos familiares dos passageiros do RG-820; memorando da Varig aos
familia-res dos passageiros do RG-820; lista de passageiros do RG-820;
disposio

interna da aero-nave Boeing 707; configurao dos assentos do Boeing 707 -
Verso G, usada no RG-820; qualificao da tripulao do RG-8 20; crnica O dom
tia vida,
de Dinah Silveira de Queiroz, sobre Ricardo Trajano; lista de tripulantes do RG-
820; cartas de Karl-Josef Pieper para o comandante Fernando Murilo de Lima e
Silva
(28.06.91 e 14.09.92); carta de Dietmar Raskop para Izabel e Jos Clvis Ditzel;
ficha de embarque do vo 375; bilhete escrito por Ricardo Trajano no CTI do
Hospital
Henri Mondor; carta do embaixador da ndia no Brasil, Prithi Singh, pai de Reeta
Singh, para Ricardo Trajano.

Jornais
A Gazeta (04.09.73); A Notcia (14.07.73, 04.09.73, 01.10.73); A Tarde
(17.09.89); A Tribu-na (23.12.89); Correio Brazilieme(29.08.89, 05 a
16.09.89,20,26,28 e 29.09.89,14
e 17.10.89,
06.12.89,01.02.90); Correio da Manh(14.07.73, 02 a 04.09.73); Dirio da Noite
(04.09.73);
Dirio da Tarde (14.09.89); Dirio d Mi nas (09.09 .89); Dirio de Natal(1
0.09.89); Dirio a~
Notcias (14.07.73, 02 e 04.09.73); Dirio de Pernambuco (07 e 10.09.89); Dirio
de So Paulo
(04.09.73); Dirio do Comrcio (14 e 22.09.89); Dirio do Grande ABC(06 e
13.09.89); Di-rio Popular (06, 08 e 09.09.89, 10.10.89); Estado de Minas (06,
09, 13 e
14.09.89, 05 e
14.10.89, 01.11.89); Folha da Tarde (16 e 30.09.89, 23.12.89); Folha de 5. Paulo
(14.07.73,
04.09.73,20.05.77,29 e 30.08.88,01.10.88, 05 a 12.09.89, 14 a 16.09.89, 19, 21 e
28.09.89,
03, 13 e 27.10.89, 02.09.90, 16 e 17.10.90, 08.08.91, 11.07.93); France-Soir(15
e 16.07.73,
31.08.73); Gazeta de Notcias (09.09.89); Gazeta do Povo (17.09.89); Gazeta
Mercantil (09,
14, 16, 20, 23 e 29.09.89, 03 e 07.10.89); Hoje em Dia (05, 06, 11, 14 e
15.09.89); Jorna/da
Bahia (14.07.73); Jorna/da Tarde (13.08.73, 09, 19 e 20.09.89, 07.12.89);
Jorna/de Braslia
(05 a 10.09.89, 12 a 17.09.89, 22 e 28.09.89, 03, 04, 14, 17 e 24.10.89,
07.12.89);Jornalde
Santa Catarina (09.09.89); Jornal do Brasil (11 a 15.07.73, 18 a 22.07.73,
25.07.73, 27 a
29.07.73, 31.07.73, 03, 07, 11, 14, 28, 30 e 31.08.73, 01 a 04.09.73, 08.04.74,
09.11.74,
09.04.76, 29 e 30.09.88, 01.10.88, 05 a 17.09.89, 20 a 23.09.89, 29 e 30.09.89,
14, 20, 24 e
26.10.89, 07, 08,22 e 23.12.89, 11.09.90, 09.08.91);Jornaldo Comrcio (05,
06,09, 10,12,



322

09.89,20 a 22.09.89, 04 e 22.10.89); Le Fzkaro (15.07.73); LeJournal a'u
Dimanche '.73, 12.08.73); O Estado (09.09.89); O Estado de 5. Paulo (13 e 3
1.08.73, 04.09.73,
'.74,29 e 30.09.88, 01.10.88, 07, 09 e 10.09.89, 12 a 17.09.89, 20 e 21.09.89,
28 a
04, 06 e 14.10.89, 08, 12, 22 e 23.12.89, 02 e 04.09.90, 08.06.91); O Dia (13 a
'.73, 04.09.73, 16.07.74, 08 e 20.09.89, 05.10.89); O Fluminense (15.09.89); O
Globo
a 19.07.73, 21, 22 e 31.07.73, 14 e 31.08.73, 04, 05, 09 e 30.09.73, 29 e
30.09.88,
04 a 15.09.89, 19, 20, 28 e 29.09.89, 02 a 04.10.89, 06 e 14.10.89, 08.12.89,
4.90, 11.01.91, 25.01.95); O Jornal (30.08.73,02 e 04.09.73); O Liberal
(13.02.90); nadalmprensa (06.08.73,09,13 e 23.09.89,10.10.89); ltima Hora (14,
16 e 17.07.73,
31.08.73, 04.09.73, 04.10.89) Zero Hora (28.09.89).




elucci, Enzo. Gli aeroplani, Amoldo Mondadori Editore, 1971; Castro, Ruy. Ela 
carioca, mpanhia das Letras, 1999; Dufriche, Carlos E. Os avies que fizeram a
aviao
comercial si/eira. Sindicato Nacional dos Aeronautas, 1982; Taylor, John W.R. e
Munson, Kenne-Histeny ofaviation, New English Library, 1972; Le grand atlas du
monde,
Edition Atlas,

Times atlas ofthe world Harper Collins, 1988.




r~carta 97: World atlas, Microsoft, 1997.

Vdeo
[atrias da TV Globo sobre o seqestro do VP-375; matria da TV Globo sobre a
morte de uimundo Nonato Alves da Conceio no Hospital Santa Genoveva, em
Goinia;
Fantstico ~05e 12.10.97, com reportagens sobreo RG-254 (inclusive entrevistas
com o comandante azar Augusto Padula Garcez, co-piloto Nilson de Souza Zille,
comissria
Flvia Conde ollares e diversos passageiros).



Cartas aeronuticas
.ppesen (South America High Altitude Enroute Charts 3 e 4); Jeppesen (South
America ow Altitude Enroute Charts 3, 4, 5 e 6). Cartas DEPV: (Descida Belm
Val-de-Cans,




323
Multinidia
Documentao e Fontes de Pesquisa
Revistas
alBrasil(12 e 19.09.89), Fatos e Fotos (30.07.73, 07 e 14.12.73), Isto - Senhor
(13.09.89, e 18.10.89), Manchete (28.07.73), Minute (18 e 24.07.73), O cruzeiro
(25.07.73, 8.73), Veja(18.07.73,22.O8.73, 12.09.73, 14.04.76, 13e20.09.89,
18.10.89) e Viso
10.89).



Livros



Caixa-Preta



Bravo 1, 2, 3 e 4, Charlie 1 e 2, Deita 1, 2, 3, 4 e 5, Echo 1, 2, 3 e 4); (Val-
de-Cans,
Modificaes e Informaes Complementares); (Val-de-Cans, Mapa do Terminal);
(Vai-de-Cans, pistas 02/20, 06/24 e 15/33); (Descida Marab Deita 1 e 2, Echo 1
e 2);
(Marab,
Modificaes); (Descida Imperatriz Deita 1 e 2, Echo 1 e 2); (Sadas
Imperatriz); (Impera-triz, Modificaes).



E-maus expedidos
Ricardo Trajano (05.02.00); Christian Megret, controlador de vo em Oriy
(28.07.99 e 25.10.99); Claude Audren, controlador de vo em Orly (14.05.99);
Sandrine Vaillant,
Ser-vices du Premier Ministre de la Republique Franaise (11.12.98); LeJournal
Officiel de La Republique Franaise (04.12.98); Flvio Galetti Martins (05 e
12.11.99);
Faculdade de Cin-cias Aeronuticas da PUCRS (08.11.99); Instituto de Cincias
Aeronuticas da PUCRS (05.11.99); Monique Tersis (29.06.99); Carlos Eugnio
Dufriche

(16.06.99 e 16.07.99); Oswaldo Lobato (10.11.98); Anna Nurthen (12 e 31.05.99);
Takayoshi Shiba (07 e 16.10.98, 20 e 25.01.99); Jos Clvis Ditzel (20 e
21.11.98);
Klaus Borgards (18.08.98); Francisco Valadares Pvoa (23.07.98); Bernardo
Szpigel (10.03.98); engenheiro Gonzalo dei Carmen Lobos Valenzuela, do INPE
(15.12.99);
co-piloto Fernanda David Portela (27.11.99, 02 e 05.12.99); comandante Pedro
Goldenstein (11.07.99, 05.12.99, 19 e 21.02.00); Dr. Mr-cio Nogueira Barbosa,
diretor
do INPE (04.12.99); Otton Moura (13.07.99, 29.07.99 e 31.12.99); Cludio
Bressan, do INPE (03.10.99 e 01.12.99); Carlos Afonso Nobre, do INPE (01.10.99,
03.10.99
e 02.12.99); Marcionlio Ramos Pinheiro Filho (01.12.99); co-mandante Fbio
Goldenstein (11 e 28.07.99, 13 e 16.09.99, 13, 14 e 25.10.99, 05.11.99, 19 e
25.02.00);
Paulo Edmundo Teixeira Mendes Fernandes Levi, TRF Braslia (10 e
14.10.99); comissria Luciane Morosini de Meio, do RG-254 (13.10.99); Mary
Kayano, do INPE (03.10.99); INPE (01.10.99); comissrio Marcelo Vasconcellos
Cruz (22.05.99
e 18.09.99); Lilian Mendes, daAPVAR (28 e 30.07.99); Ailson Braga, jornalista
(29.07.99); comandante Gelson Dagmar Fochesato, da APVAR (23.06.99 e 26.07.99);
Gabriel
No-gueira (13 e 16.07.99); Roberto Regis de Albuquerque (13 e 16.07.99); O
Liberal(1 3.06.99); Randolpho Gomes (03 e 16.06.99); comandante Jos Caetano
Lavorato
Alves (16.06.99); juiz Cndido Artur Medeiros, do TRF, Braslia (11.06.99);
Moacir Mendes Souza, procura-dor da Repblica no Mato Grosso (03.06.99); Marcos
Tardin
(26.05.99); Centro de Inves-tigao e Preveno de Acidentes Aeronuticos,
CENIPA (16.01.99); Coryntho Silva Filho (16.07.99); Fernando Vieira, presidente
da Associao
dos Comissrios da Varig, ACVAR (15.07.99); capito Lyle Miller, da United
Airlines (26.04.99 e 07.05.99); comandante Sr-gio Lama Resende, da Varig
(10.05.98).

E-mails recebidos
Ricardo Trajano (18.09.99 e 08.02.00); Christian Megret, controlador de vo em
Orly

(28.10.99); Stefanie van der Vem, do Controle de Trfego Areo de Paris
(08.01.99);




324




drine Vaillant, Services du Premier Ministre de la Republique Franaise
(11.12.98); ~.pi1oto Fernanda David (27.11.99); Faculdade de Cincias
Aeronuticas da PUCRS
~.lI.99); La Cavallero Dnys, DAC (12.06.98); Flvio Galetti Martins
(03.11.99); ~na Nurthen (13.05.99); Cristina Frias Monteiro (06.01.99);
Takayoshi Shiba (29
e ~.09.98, 16.10.98, 18.12.98, 25 e 26.01.99 e 02.02.99); Jos Clvis Ditzel (19
e ~.I1.98); Karl-JosefPieper (11.08.98); Klaus Borgards (18 e 24.08.98); Flvio

Bouchar-~tS. Silva (15.09.98); Marcos Tardin (02 e 23.03.98); engenheiro Gonzalo
dei Carmen ~bosValenzuela, do INPE, (14.12.99 e 15.12.99); comandante Pedro
Goldenstein
(04 e 1.07.99, 05.12.99, 19.01.00 e 19.02.00); CarlosAfonso Nobre, do INPE (02 e
03.10.99
04.12.99); Marcionlio Ramos Pinheiro Filho (03.12.99); comissrio Marcelo
Vascon-los Cruz (23.05.99, 27 e 28.10.99 e 2 1.06.00); comandante Rubem
Abrunhosa 8.10.99);
Cludio Bressan, do INPE (04.10.99); Paulo Srgio Altieri dos Santos
14.10.99); comandante Fbio Goldenstein (23.06.99, 11.07.99, 03.08.99, 13.09.99,
5.10.99, 05.11.99 e 24.02.00); Otton Moura (22.06.99); Pedro Jacobi (21, 22 e
~.06.99);
Roberto Regis de Albuquerque (12.07.99); comandante Jos Caetano Lavora-. Alves
(23.06.99); Gabriel Nogueira (21 e 23.06.99); Rudnei Dias da Cunha, da UFR-S
(21.06.99);
Jos Numanne, do Jornal da Tarde (21.06.99); Nilza Bellini (21.06.99); andolpho
Gomes (07.06.99); Fbio H. Laranjeira (20 e 2 1.01.99); Coryntho Silva Filho
5.07.99);
capito Lyle Miller, da United Arlines (26.04.99 e 06.05.99); Erhard Krasny
2 e 13.08.98); Ulli Pieper (13.08.98).



Fax expedidos
utsi Bertrand (06.03.00); Claude Audren, controlador de vo em Orly (12.05.99);
an-Paul Lavictoire, do Bureau Enqutes-Accidents (29.01.99 e 23.02.99); Lucy
Bar-~to
(14.12.98); Marina Carvalho (25.04.98 e 11.07.98); Laura Simes (25.04.98);
ranclsco deAssis Costa Couto (11 e 21.03.98); Jos Clvis Ditzel (10.03.98,
19.04.98,
Z.06.98 e 21.07.98); Karl-Josef Pieper (10.10.98); Francisco Valadares Pvoa
~5.08.98); Maria Alice Fontes, Centro de Documentao (CEDOC) da TV Globo
L3.l1.98,
01.12.98, 28.02.99 e 19.05.99); La Cavallero Dnys, assessora de comuni-tio
social do DAC (01.04.98); comandante Czar Augusto Padula Garcez (19.07.99,
7.09.99
e 27.10.99); Raimundo Siqueira (19.07.99 e 2 1.12.99); comandante Rubem ~runhosa
(outubro de 99); comandante Fbio Goldenstein (agosto 99); Elilson Bessa, prcnte
de aeroporto da Varig no Val-de-Cans (30.11.99); Lus Americano (19.07.99);
j*briel Nogueira (22.06.99); desembargador Marco Aurlio dos Santos Caminha, do
~ibunal de Justia de Porto Alegre (30.06.99); Docegeo, Belo Horizonte
(30.06.99);
1mandante Luiz Fernando Collares, presidente do Sindicato Nacional dos
Aeronautas
11.05.99); procuradoria da Repblica no Mato Grosso (31.05.99); Osmar de Freitas
!ZStrO (26.05.99); Centro de Investigao e Preveno de Acidentes Aeronuticos
-~NIPA (22.01.99); coronel-aviador Paulo Albano de Godoy Penteado, chefe do CE-
~IPA (15.08.98, 04 e 24.05.99).



325
Documentao e Fontes de Pesquisa




Caixa-Preta

Fax recebidos
Jean-Paul Lavictoire, do Bureau Enqutes-Accidents (01.02.99); Lucy Barreto
(18.12.98); Laura Simes (24.04.98); Francisco de Assis Costa Couto (20.03.98 e
12.05.98);
Jos Cl-vis Ditzel (22.06.98, 28.07.98 e 24.08.98); desembargador Marco Aurlio
dos Santos Ca-minha, do Tribunal de Justia de Porto Alegre (02.07.99); Fernando
Pereira, assessor de comunicao do Sindicato Nacional dos Aeronautas
(14.06.99); CEDOC/TV Globo (18.05.99); Coryntho Silva Filho (15.07.99); major-
especialista-aviador
Jocelyn Santos dos Reis, do CENIPA (30.07.98).



Cartas expedidas
Comandante Antnio Fuzimoto (08.12.98); Ricardo Trajano (23.09.98); Claude
Audren, controlador de vo em Orly (05.03.99 e 17.02.00); comissria Andre Piha
(15.12.99);
comissrio Luiz Edmundo Coelho Brando (27.04.99); coronel-aviador Douglas
Ferreira Machado, do CENIPA (12.05.98); Centro de Investigao e Preveno de
Acidentes
Aero-nuticos, CENIPA (26.04.98); Beatriz Sanson, da Globo News (23.12.99);
Aroport de Paris Magazine (18.12.98); Le Journal Officiel de La Republique
Franaise
(04.12.98); coronel-aviador Paulo Albano de Godoy Penteado, chefe do CENIPA
(02.07.98); Karl-JosefPieper (07.09.98 e 10.10.98); Dietmar Raskop (08.09.98);
Komatsu,
Kawasaki Steel (16.09.98).



Cartas recebidas
J ean-PauI Lavictoire, do Bureau Enqutes-Accidents, Ministrio dos Transportes,
Frana (28.02.99); Claude Audren, controlador de vo em Orly (25.01.00);
tenente-coronel-avia-dor
Juan Enrique Vergara Canto, do DAC (14.04.98); Karl-JosefPieper (24.09.98);
Lilian Mendes, assessora de imprensa da APVAR, Associao de Pilotos da Varig
(02.08.99);
Moacir Mendes Sousa, procurador da Repblica em Mato Grosso (02.06.99); coronel-
aviador Pau-lo Albano de Godoy Penteado, chefe do Centro de Investigao e
Preveno
de Acidentes Aeronuticos (17.06.98, 13.04.99 e 13.05.99); Fernando Pereira, do
Sindicato Nacional dos Aeronautas (11.06.99); lzabel Eugenia Abelha Ditzel
(20.11.98).

Relatrios
Journal Officiel de La Re'publique Frana ise - Rapport Final de la Commission
a"Enqute sur l'accident survenu au Boeing 707 PP-VJZ currzcuLum vitae do
controlador
de vo Claude Audren; organograma do centro de Controle e da torre de Orly;
traduo oficial do relatrio final da comisso de investigao do acidente com
a aeronave
PP-VJZ; boletim mdico de Ricardo Ttajano (03.08.73) - Prof. Pierre Huguenard;
Boletim mdico de Ricardo Trajano no Hospital Henri Mondor - Prof. Pierre
Huguenard
(13.08.73); boletim de alta de Ricar-do Trajano no Hospital Henri Mondor - Prof.
Pierre Huguenard (31.08.73); HistoiretPun Gaz - Romano, Roujas, Richard et
Vauzelles
(relatrio mdico sobre a evoluo do trata-326

rode Ricardo Trajano no Hospital Henri Mondor); Classfication eles GazDltres-
M. eau (estudo sobre os gases liberados no incndio do PP-VJZ); NTSB - relatrio
de .o no lavatrio de um DC-9 daAir Canada em 02.06.83; NTSB - relatrio de
incn-LO lavatrio de um DC-9 da EasternAirlines em 11.08.85; 29 de setembro de
1988:
Um pia no ser esquecido (Seqestro de avio no Brasil) - Karl-Josef Pieper,
maio de 97; mdc sinais detectados pela LUT nos dias 04 e 05.09.89; relatrio do
envolvimento
da no episdio RG-254; organograma da estao do INPE em Cachoeira Paulista;
Conta-Associao de Pilotos da Varig flQ 155 - PP-VMK - "A nossa verdade";
tramitao
do ~sso 1997.01.00.018615-3 (rus: Czar Augusto Padula Garcez e Niison de Souza
Zil-resumo do laudo de investigao do acidente com o PP-VMK (CENIPA); Almanaque
1991 - Resumo do acidente do RG-254; Comisso da APVAR - Relatrio para a
nisso de Investigao do Acidente com o PP-VMK; Ministrio da Aeronutica -
Esta-~iaior da Aeronutica - Sistema de Investigao e Preveno de Acidentes
Aeronuticos
- Relatrio final do acidente com o PP-VMK.




usao; advogados; autpsias; auxlios e comunicaes; certides de bito; dados
tcnicos o pouso forado; denncia do procurador da Repblica Ricardo Nahat;
depoimento

tia Federal do co-piloto Nilson de Souza Zille; depoimento da chefe de equipe
Solange ~eira Nunes; depoimento da comissria Flvia Conde Collares; depoimento
da
comissria queline Klimeck Gouveia; depoimento da comissria Luciane Morosini de
Melo; depoi-nto da passageira Cleide Souza de Paiva; depoimento da passageira
Enilde

Nunes de Meio; oimento da passageira Liceia Uliana Sechin Melazo; depoimento da
passageira Maria de ~ma Bezerra Nbrega; depoimento da passageira Maria Deita
Martins
Cavalcante; depoi-nto da passageira Marinz Arajo Coimbra; depoimento da
passageira Regina Clia Sa-da Silva; depoimento da passageira Ruth Maria Azevedo
Tavares;
depoimento de Bel-o Alves Ferreira, administrador da Fazenda Crumar do Xingu;
depoimento de Mrcio eira Barbosa, diretor do INPE; depoimento do capito Carlos
Rodrigues,
chefe do tro de Controle Areo de Belm; depoimento do coronel-aviador Douglas
Ferreira Ma-o, investigador de acidentes aeronuticos; depoimento do diretor de
operaes
da Varig, ton Jos Comerlato; depoimento do engenheiro aeronutico Joo Carlos
Berto, superin-ente tcnico de operaes de vo da Varig; depoimento do operador
de
rdio Jos Case-Ribeiro Neto; depoimento do passageiro Afonso Saraiva;
depoimento do passageiro
tnio Farias de Oliveira; depoimento do passageiro Carlos de Aquino Meio Comes;
depo-ento do passageiro Epaminondas de Souza Chaves; depoimento do passageiro
Fidelis
Roc-Sarno; depoimento do passageiro Joo Roberto da Silva Matos; depoimento do
passageiro de Jesus Manso; depoimento do passageiro Jos Comes da Silva;
depoimento
do passa-

327
Documentao e Fontes de Pesquisa
Vo RG-254 -Processo 1997.01.00.018615-3
na Justia Federal
Provas, depoimentos, relatrios, documentos diversos:



Caixa-Preta



geiro Jos Maria dos Santos Gadeiha; depoimento do passageiro Manoel Ribeiro de
Alencar; depoimento do passageiro Marcionlio Ramos Pinheiro Filho; depoimento
do
passageiro Newton Macedo Santos e Coelho; depoimento do passageiro Paulo Srgio
Altieri dos San-tos; depoimento do passageiro Raimundo Carlos Souza Siqueira;
depoimento
do passageiro Roberto Regis de Albuquerque; depoimento do passageiro Wilson
Lisboa de Alencar; ficha tcnica do PP-VMK; glossrio; informaes
meteorolgicas; interrogatrio
do comandante Czar Augusto Padula Garcez; interrogatrio do co-piloto Nilson de
Souza Zille; leitura do FDR (flzght data recorder) do RG-254; lista de feridos;
lista de mortos; lista de passageiros do RG-254, etapa Marab-Belm; provas da
defesa; qualificao do comandante Czar Augusto Padula Garcez; qualificao do
co-piloto
Nilson de Souza Zille; relatrio do comandante Czar Augusto Padula Garcez para
a Diretoria de Operaes da Varig; relatrio do INPE; sentena; relatrios
mdicos;
resumo das ocorrncias; trmites do processo; transcrio de gravao de
comunicaes; tripulao do RG-254.


fim